DdAH: A Companhia dos Barbacinza
17 A Separação
Vorstag conduziu-os pela margem do pântano. Ali, na margem Oeste, sob a sombra de vários pinheiros, um gramado verde corria para a água, vindo da cabeça de Ustengrav. Atrás dele havia um acampamento já montado, com baldes, sacos de dormir e abastecimento de comida. Várias pedras estavam fincadas no chão de relva amarelada, sinalizando a posição de Ustengrav.
— Descansaremos aqui esta noite — disse Vorstag. — Aqui deve ser Ustengrav: um belo lugar nos dias de verão de antigamente. Esperemos que ainda nenhum mal tenha chegado até aqui.
— Eu não — disse Peragon, — pois tenho de relatar ao Jarl Balgruuf de nossa viagem. Desejo-lhes sorte, agora que encontraram um novo companheiro — e acariciou a cabeça de Meeko, que o lançou um olhar contente. — Que todos sucedam na Demanda — e foi embora.
Arrastaram os barcos através dos verdes barrancos das margens e ao lado deles e usaram os acampamentos, embora estivesse tudo misteriosamente coberto de sangue. Montaram guarda, mas não ouviram nem viram sinais dos inimigos. Se tiveram êxito em segui-los, permanecia escondido e em silêncio.
Apesar disso, à medida que a noite avançava, Vorstag foi ficando inquieto, freqüentemente se agitando durante o sono e acordando. Durante a madrugada levantou-se e veio até Ralof, que estava encarregado da guarda.
— Por que está acordado? — perguntou Ralof. — Não é o seu turno.
— Não sei — respondeu Vorstag —; mas uma sombra ameaçadora esteve crescendo durante meu sono. Seria bom que você puxasse sua espada.
— Por quê? — perguntou Ralof. — Há inimigos por perto?
— Vamos ver o que o tempo tem a nos dizer — respondeu Vorstag.
Ralof então voltou os olhos para o horizonte. Para seu assombro, dois olhos azuis emitiram um brilho azul fraco na noite. — Draugrs! — disse ele. — Não muito perto, e ao mesmo tempo perto demais, ao que parece!
— Receava que fosse assim — disse Vorstag. — Mas talvez não estejam deste lado do pântano. A luz que eu tenho visto a noite toda está fraca, e pode ser que esteja apontando apenas para espiões de Skuldafn perambulando pelas encostas de Forgulnthur. Nunca ouvi falar de draugrs sobre a Ustengrav. Mas quem sabe o que pode acontecer nesses dias maus, agora que Solitude deixou de manter seguras as passagens dos pântanos? Devemos prosseguir com cautela amanhã.
O dia chegou como fogo e fumaça. No Leste, viam-se camadas negras de nuvens baixas, semelhantes à fumaça de um grande incêndio. O sol que se levantava as iluminava por baixo com chamas de um vermelho obscuro, mas logo subiu acima delas para o céu limpo.
Depois que todos haviam comido, Vorstag reuniu a Companhia. — Finalmente o dia chegou — disse ele. — O dia da escolha que adiamos por tanto tempo. Que será agora de nossa Companhia, que viajou até aqui como uma sociedade. Devemos rumar para o Oeste com Erik agora e nos dirigir para as guerras de Haafingar, ou continuar aqui e seguir a segunda demanda dos Barbacinza que nos foi imposta imediatamente; ou devemos ainda romper nossa sociedade e ir por este ou aquele caminho, como cada um escolher? O que quer que façamos deve ser feito logo. Não podemos permanecer aqui por muito tempo. O inimigo estava na margem Leste do Rio, mas talvez não esteja muito longe das ilhotas pantanosas também. O que me dizem destas escolhas que devemos tomar tão urgentemente?
Fez-se um longo silêncio, e ninguém disse nada ou se mexeu.
— Bem, Vorstag — disse Kharjo por fim. — Receio que o fardo recaia sobre seus ombros. Você é o Dragonborn e o Ronaan, nomeado pelo Conselho e pelo povo. Só você pode escolher seu próprio caminho. Neste assunto, não posso aconselhá-lo. Não sou Savos, e embora tenhamos tentado cada um desempenhar uma parte do papel dele, não sei que desígnio ou desejo ele tinha para este momento, se é que na verdade tinha algum. Parece mais provável que, mesmo que ele estivesse aqui agora, a escolha ainda seria sua. É o seu destino.
Vorstag não respondeu de imediato. Depois falou devagar. — Sei que precisamos nos apressar, e mesmo assim não consigo fazer uma escolha. O fardo é pesado. Dê-me mais uma hora, e então falarei. Deixem-me sozinho.
Faendal olhou-o com pena e carinho. — Muito bem, Vorstag, filho de Rorstag — disse ele. — Você terá sua hora, e ficará sozinho. Vamos explorar as ruínas por um tempo, mas que não nos afastemos demais. Se ouvir gritos, corra para nos ajudar.
Naquele instante, Ralof levantou-se e se distanciou, Vorstag viu que, enquanto os outros se contiveram e não olharam para ele, os olhos de Erik o seguiram atentamente, até que ele sumisse de vista por entre as árvores perto de Ustengrav. Vagando sem destino pela ruína, no início, Ralof percebeu que seus pés o conduziam para um grande salão. Em lugares escarpados, degraus tinham sido feitos na pedra, mas agora estavam partidos e gastos, rachados pelo tempo. Continuou andando reto, até chegar num lugar onde existia uma cerca de pedra. Lá cinco magos estavam, mortos no chão, e não pareciam ter morrido há muito tempo. Ralof virou o olhar.
A voz dos pântanos era um ronco poderoso misturado a uma calma pulsante, até mesmo dentro das ruínas. Sentou-se na pedra e apoiou o queixo nas mãos, olhando para uma entrada à sua esquerda e vendo pouca coisa através dela, além de luzes mágicas acesas. Tudo o que acontecera desde que ele deixara Riverwood passava através de sua mente, e ele lembrava e ponderava tudo o que podia recordar das palavras de Savos.
O tempo passava, e ainda assim Ralof não chegava perto de nenhuma escolha. De repente, ele acordou de seu devaneio: teve a estranha sensação de que havia alguma coisa atrás dele, de que olhos hostis estavam sobre ele, mas para sua surpresa, tudo o que viu foi Erik, com um rosto sorridente e gentil.
— Estava preocupado com você, Ralof — disse ele, chegando mais perto. — Se Vorstag tem razão e os draugrs estiverem nas proximidades, então nenhum de nós deve vagar sozinho, e aqui embaixo menos ainda: muita coisa depende de nós. E meu coração também está pesado. Posso ficar agora e conversar um pouco, já que o encontrei? Isso me consolaria. Onde há muita gente, qualquer conversa se torna um debate sem fim. Mas duas pessoas juntas podem talvez encontrar a sabedoria.
— Você é gentil — respondeu Ralof. — Mas não acho que conversa alguma possa me ajudar. Pois sei o que devo fazer, mas tenho medo de fazê-lo, Erik: tenho medo.
Erik ficou em silêncio. As Cataratas de Rauros continuavam rugindo infinitamente. O vento frio que entrava pela porta que Faendal deixara aberta para Vorstag murmurava entre as colunas. Ralof tremeu. De repente, Erik se aproximou e sentou-se ao lado dele. — Tem certeza de que não está sofrendo sem necessidade? — disse ele. — Quero ajudá-lo. Você precisa de um conselho nessa difícil escolha. Aceita o meu?
— Acho que já sei que tipo de conselho você vai me oferecer, Erik — disse Ralof. — E eu poderia considerá-lo um sábio conselho, se não fosse pela advertência do meu coração.
— Advertência? Advertência contra quê? — disse Erik abruptamente.
— Contra a demora. Contra o caminho que parece mais fácil. Contra a recusa do fardo que é colocado sobre meus ombros. Contra. — Bem, é melhor que eu diga, contra a confiança na sua força e sinceridade.
— Apesar disso, essa força vem por muito tempo protegendo vocês em suas pequenas cidades, embora não soubessem disso.
— Não duvido do valor de seu povo. Mas o mundo está mudando. As muralhas de Solitude podem ser fortes, mas não são fortes o suficiente. Se não agüentarem, o que pode acontecer?
— Pereceremos na batalha, valorosamente. Mas ainda existe esperança de que elas agüentem qualquer ataque, fogo de dragão ou de homem.
— Não há esperança enquanto Alduin continuar existindo.
— Ah! Alduin — disse Erik, com os olhos faiscando. — O Devorador de Mundos! Não é um destino estranho nós sofrermos tanto medo e dúvida por uma coisa que nunca vimos? Talvez você o tenha visto, e mais umas dezenas de pessoas, mas há um ano, e nunca mais! E eu o vi apenas por palavras. Gostaria de poder vê-lo e derrotá-lo, gostaria de ter certeza que pudéssemos derrotá-lo.
Ralof levantou os olhos. De repente, seu coração gelou. Captou o brilho estranho no olhar de Erik, apesar de seu rosto ainda se manter gentil e amigável. — É melhor que não falemos mais disso — respondeu ele.
— Como quiser. Não me preocupo — disse Erik. — Mas não posso nem ponderar sobre ele? Pois você parece estar sempre pensando só no poder do dragão quando ele atacar: em seus inevitáveis atos maléficos. O mundo está mudando, você diz. Solitude vai perecer se o dragão perdurar por mais tempo. Mas por que ainda assim marchamos num numero tão baixo, sem quaisquer certezas, para a terra do inimigo, que exércitos de milhares temem? Certamente cada um de nós vale por cem, mas por que não um exército de cem para cada um de nós?
— Você não estava no Conselho? — respondeu Ralof. — Porque não podemos chamar sua atenção, e temos que pegá-lo sozinho. Ele vale por dois milhares de homens, e além disso tem dois milhares de draugrs.
Erik levantou-se e ficou andando de um lado para outro, impaciente. — Você continua dizendo isso — exclamou ele. — Savos, Arngeir... todos esses lhe ensinaram a falar desse modo. Em relação a eles próprios, podem estar certos. Esses barbacinzas, elfos e magos, eles talvez fracassassem. Apesar disso, ainda tenho dúvidas se são sábios, e não apenas tímidos. Mas cada um é do seu modo. Homens de coração sincero, estes não serão corrompidos. Nós, de Solitude, temos permanecido firmes através de longos anos de provações. Não desejamos o poder dos senhores dos magos, só a força para nos defendermos, a força numa causa justa. E veja! Em nossa necessidade, o acaso traz à luz uma honraria. É arriscado, com certeza, marchar com um exército de dez mil para as fronteiras de Skuldafn. Os corajosos, os destemidos, só estes conseguirão a vitória, mas Solitude está cheia destes. O que não poderia fazer um guerreiro nesta hora, um grande líder? O que Vorstag não poderia fazer? Ou, se ele se recusar, por que não Erik? Após esta guerra, minha coroação seria clara. Sei que você serve ao Jarl de Windhelm, mas por enquanto, enquanto não resolvemos uma aliança, não parece correto pra você que o herdeiro do Alto Rei suba ao trono, ainda mais a seu próprio mérito? Como eu poderia rechaçar os exércitos de Skuldafn, e todos os homens seguiriam minha bandeira! A bandeira do Alto Rei Torygg!
Erik andava para cima e para baixo, falando cada vez mais alto. Parecia quase que tinha esquecido de Ralof, enquanto sua fala se detinha em muralhas e armas, e no ajuntamento de tropas de homens; fazia planos para grandes alianças e gloriosas vitórias futuras; e destruía Skuldafn e se tornava um rei poderoso, benevolente e sábio. De repente, parou e agitou os braços.
— E eles nos dizem para jogar a vida de um herdeiro de imperadores e outra de um herdeiro de reis fora! — gritou ele. — Não digo que isso seja sábio. Essa demanda seria boa, se racionalmente pudéssemos ter alguma esperança de fazê-lo. Mas não podemos. O único plano proposto é que um pequeno grupo deva andar cegamente para dentro de Skuldafn e oferecer ao Devorador de Mundos todas as chances de um banquete. Loucura! Certamente você está entendendo, meu amigo? — disse ele, voltando-se agora de repente para Ralof outra vez. — Você diz que está com medo. Se é assim, os mais corajosos devem perdoá-lo. Mas não seria na verdade o seu bom senso que se revolta?
— Não, estou com medo — disse Ralof. — Simplesmente com medo. Mas estou feliz por ter ouvido você falar tão abertamente. Minha mente agora está menos confusa.
— Então você virá para Solitude? — gritou Erik, com os olhos brilhando e o rosto ansioso.
— Você não está me entendendo — disse Ralof.
— Mas você virá, pelo menos por um tempo? — persistiu Erik. — Minha cidade não está longe agora, e a distância de lá até Skuldafn é um pouco maior do que se partíssemos daqui. Faz tempo que estamos viajando por lugares desertos, e você precisa saber o que o Devorador de Mundos está fazendo antes de tomar uma decisão. Venha comigo, Ralof — disse ele. — Você precisa descansar antes de sua aventura, se é que precisa mesmo ir.
Colocou a mão no ombro dele de um modo amigável, mas Ralof sentiu a mão tremendo com uma agitação contida. Deu um passo abrupto para trás, e olhou alarmado para aquele homem alto, herdeiro de reis e muitas vezes mais forte que ele.
— Por que essa hostilidade? — perguntou Erik. — Sou um homem sincero. Não sou ladrão nem perseguidor. Preciso do seu apoio: só então Vorstag, que agora é o líder da Companhia, permitira. Você não permitiria pelo menos que eu tentasse pôr em prática meu plano? Diga que sim!
— Não! Não! — gritou Ralof.
— É por nossa própria tolice que o Devorador de Mundos vai nos derrotar — gritou Erik. — Isso me enfurece! Tolo! Tolo obstinado! Correndo de livre e espontânea vontade em direção à morte, e arruinando nossa causa. Se algum mortal tem o direito de reivindicar esta guerra, esse direito pertence aos homens de Haafingar, e não aos soldados do usurpador, do regicida, do assassino. O direito não é seu, exceto por um acaso infeliz, podia ter sido meu. Devia ser meu. Diga que sim! Diga que sim agora!
Ralof não respondeu, mas se afastou até que a grande pedra plana ficasse entre eles. — Vamos, vamos, meu amigo! — disse Erik numa voz mais suave. — Por que não se livrar da incerteza da derrota de Alduin? Por que não se libertar de sua dúvida e de seu medo? Você pode colocar a culpa em mim, se quiser. Pode dizer que eu sou forte demais e fiz você tomar essa decisão a força. Porque eu sou forte demais para você, e para qualquer um dos seus amigos Stormcloaks nojentos — gritou ele, e de repente subiu na pedra e saltou sobre Ralof.
Seu rosto belo e agradável estava terrivelmente transformado; um fogo feroz lhe queimava os olhos. Ralof recuou e outra vez a pedra ficou entre os dois. Só havia uma coisa a fazer: tremendo, saiu correndo para a passagem e adentrou as profundezas de Ustengrav.
O homem ficou atônito, olhando surpreso por um momento, e depois correu em volta do lugar, ensandecido, procurando aqui e ali por entre as rochas e árvores. Seus cabelos laranjas estavam fora de posição, e suas tranças haviam se desfeito.
— Trapaceiro miserável! — gritou ele. — Deixe-me colocar as mãos em você! Agora entendo o que pretende. Nos levará para Alduin e nos venderá a todos. Agora entendo tudo! São aliados! Foi assim que Ulfric sobreviveu à Helgen. Só estava esperando uma oportunidade para nos deixar em apuros. Almaldiçôo você e todos os Stormcloaks com a morte e a escuridão!
Então, tropeçando numa pedra, caiu e esparramou-se de rosto no chão. Por um momento, ficou parado como se sua própria praga o tivesse atingido; depois, de repente, começou a chorar. Levantou-se passando a mão nos olhos, limpando as lágrimas. — O que eu disse? — gritou ele. — O que eu fiz? Ralof, Ralof! — chamou ele. — Volte! Uma loucura tomou conta de mim, mas já passou. Volte!
Não houve resposta. Ralof nem ouviu seus gritos. Já estava longe, correndo cegamente pelas escadas, em direção às cavernas escuras. Estava atormentado de pavor e tristeza, vendo em pensamento o rosto louco e enfurecido de Erik, e seus olhos flamejantes. Os outros então desceram para adentrar as cavernas, mas nada Vorstag ainda havia dito, pois postergou sua decisão para depois do achado da Corneta. Por um período ficaram em silêncio, andando pelos grandes corredores pelos quais Ralof estava correndo, e então começaram a conversar entre si em fila. De quando em quando se esforçavam para falar de outras coisas, da longa estrada e das muitas a venturas que tinham vivido; faziam perguntas a Vorstag sobre o reino de Haafingar e sua história antiga, e sobre os remanescentes de suas grandes obras: do Altar de Talos, do Palácio Azul, e da cidade sobre o arco montanhoso. Mas toda vez seus pensamentos e palavras acabavam voltando para Ralof. Erik havia dito que ele havia se adiantado na trilha, e que não havia perigo, porque pela quantidade de magos mortos que se espalhavam pelo caminho, essas ruínas já haviam sido exploradas. Mas eles já deviam ter se encontrado em algum ponto. Meeko passava estranhamente corajoso ao redor daqueles corpos.
— Acho que ele, como eu, também está pensando em qual caminho tomar; está pensando qual caminho proporcionaria menos esperanças — disse Vorstag. — E tem motivos para isso. Agora há menos esperanças do que nunca de a Comitiva ir para o Leste, já que fomos seguidos por draugrs, e devemos temer que o segredo de nossa jornada já tenha sido traído. Mas Solitude não fica mais perto das Torres de Skuldafn e da destruição do dragão. Podemos ficar lá algum tempo, e manter uma resistência corajosa, mas a Bela Jarl Elisif e seus homens não podem ter esperanças de conseguir fazer o que até Arngeir disse estar acima de seu poder: ou manter a demanda em segredo, ou conter toda a força do Devorador de Mundos quando ele vier atacar. Que caminho qualquer um de nós escolheria? Não sei. Na verdade, este momento é o que mais nos faz sentir falta de Savos.
— Nossa perda foi imensa — disse Faendal, contornando os corpos de draugrs e necromantes que morreram se combatendo conforme iam aparecendo à sua frente. — Mesmo assim, devemos tomar uma decisão sem a ajuda dele. Por que não podemos decidir, e dessa forma concluir? Quando encontrá-lo, vamos fazer uma votação! Votarei para Solitude.
— Eu também — disse Kharjo. — É claro que nós só fomos enviados para ajudar uns aos outros ao longo da estrada. Na verdade, é Ralof que fomos enviados para acompanhar até o ponto que quiséssemos, se me lembro bem, e que nenhum de nós está sob juramento ou ordem que determine que devemos procurar Skuldafn. Foi difícil para mim a despedida de Whiterun, pois falei muito pouco com os khajiits de lá. Apesar disso, cheguei até aqui, e digo o seguinte: agora que chegamos à última escolha, está claro para mim que não posso abandonar nenhum de vocês. Eu escolherei Solitude, mas se alguém não fizer a mesma escolha, vou segui-lo.
— E eu também. — disse Faendal. — Seria desleal dizer adeus agora.
— Na verdade, seria uma traição, se sequer nos separássemos — disse Vorstag. — Mas se eu for para o Leste, então não é preciso que todos me acompanhem: nem eu acho que todos deveriam. Essa aventura é desesperada: tanto para cinco, para três, como para uma única pessoa. Se me deixassem escolher, eu apontaria dois companheiros: Ralof e Kharjo. Erik retornará a sua própria cidade, onde sua mãe e seu povo precisam dele; com ele você deveria ir, Faendal, se não for sua intenção nos abandonar.
— Isso não vai dar certo de modo algum! — disse Erik. — Não posso deixar Ralof! Vou acompanhá-lo aonde quer que vá. Mas não percebia o que isso significava. Tudo parecia diferente lá longe, em Alta Hrothgar. Seria loucura e crueldade permitir que Ralof fosse para Skuldafn. Por que não podemos detê-lo?
— Será? — disse Vorstag. — Ele se candidatou a derrotar o dragão sozinho, e antes disso descobrir todos os segredos que podem afetar o Devorador de Mundos, e o destino de Skuldafn recai sobre ele. Não acho que seja nosso papel conduzi-lo por um outro caminho. Nem acho que conseguiríamos, mesmo que tentássemos. Há outros poderes em ação, muito mais fortes.
— Bem, gostaria que Ralof “criasse coragem” logo e parasse de andar a nossa frente, e que nos deixasse continuar seguros — disse Kharjo. — Essa espera é terrível! O tempo acabou, não acabou?
— Sim — disse Vorstag. — A hora já passou há muito. A manhã está terminando. Devemos achá-lo.
E naquele momento Erik pigarreou. Seu rosto parecia severo e triste. Parou, como se estivesse contando os presentes, e depois parou um pouco, com os olhos no chão.
— Você quer dizer alguma coisa, Erik?
Erik hesitou por um segundo. — Sim e não — respondeu ele devagar. — Sim, antes que ele se adiantasse, eu falei com ele. Implorei que viesse para Solitude, e que não fosse para o Leste. Fiquei furioso e ele me deixou. Desapareceu. Nunca em minha vida vi algo assim acontecer, embora tenha ouvido em histórias. Ele saiu correndo pelo nosso caminho. Pensei que não avançaria muito.
— É tudo o que tem a dizer? — disse Vorstag, olhando para Erik com severidade e sem muita gentileza.
Meeko pareceu entender o que conversavam e começou a correr, latindo tão alto como podia. — Meeko! Espere um minuto! — gritou Kharjo, mas de nada adiantou. O cão não prestou atenção nele, e Vorstag temia que se ainda haviam perigos à frente, os latidos do cão serviriam para acordá-los – se Ralof ainda não o tivesse feito. Kharjo e Faendal estavam correndo. Uma loucura e um pânico súbitos pareciam ter caído sobre a Companhia.
— Vamos todos nos dispersar e nos perder — suspirou Vorstag. — Erik! Não sei qual foi seu papel nessa história, mas agora ajude! Vá atrás deste cachorro por aquele lado, e o conforte e silencie pelo menos, mesmo que não consigam encontrar Ralof. Voltem para este ponto, se o encontrarem, ou se virem algum sinal dele. Vou tentar encontrá-lo por aqui. Volto logo.
Vorstag se afastou rapidamente, e foi à procura de Meeko, mas não achou nenhum sinal dele. O cão havia, entretanto, se esgueirado por buracos que seriam imperceptíveis aos olhos das pessoas maiores, fossem de que raça fossem, talvez com a exceção de Kharjo, e achado um buraco que fazia uma passagem para uma outra câmara, pela qual Ralof havia passado alguns minutos atrás, que se divergia do caminho da Companhia. Meeko corria mais rápido do que qualquer um da Companhia, então não demorou muito para que ele saísse de Ustengrav por um caminho alternativo que não era o da entrada.
Chegou à borda do gramado onde haviam montado acampamento, perto da margem para onde os barcos tinham sido arrastados, fora da água. Não havia ninguém ali. Teve a impressão de ouvir gritos e chamados na floresta atrás dele, mas não lhes deu atenção. Parou por um momento, olhando, paralisado, bufando. Um barco estava escorregando pela margem, sozinho. Com um latido, Meeko atravessou correndo a grama.
O barco estava sendo arrastado. Meeko latia e corria em direção a Ralof, a quem tinha se afeiçoado demais. O medo estava estampado naqueles olhos redondos e castanhos do cachorro.
— Suba no barco, Meeko, meu rapaz! — disse Ralof. — Agora, calma, calma. Está tudo bem, estamos indo para um lugar melhor! Aqui está. Não precisa morder, rapaz! Não vou abandoná-lo. Venha com cuidado e não faça movimentos bruscos, senão o barco pode virar, e já é pesado carregá-lo. Agora, fique bem quietinho. — Ralof riu. — De todos os estorvos, um cão é o pior que um nórdico pode agüentar! Não adianta tentar escapar de um servidor tão fiel, mas estou feliz, Meeko. Não consigo dizer como estou feliz. Venha! É óbvio que nós devíamos ir juntos. Vamos, e que os outros encontrem uma estrada segura! Vorstag cuidará deles. Não acho que os veremos outra vez. Estamos indo para um caminho diferente. Erik estava certo; apenas cinco não podem matar Alduin; mas cinqüenta mil podem. Vamos para Windhelm, meu rapaz; vamos avisar o Rei Ulfric do que está se passando em suas terras.
Assim Ralof e Meeko partiram no último estágio da Demanda juntos. Ralof carregou o barco para longe de Ustengrav, e foi caminhando. Ao Leste, via neve sob os picos e montanhas. Depois, com o barco nas costas, partiram, procurando uma trilha que os levasse através das colinas cinzentas até o Lago Yorgrim, descendo até a Terra de Windhelm, pela qual seu coração tanto ansiava.
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