DdAH: A Companhia dos Barbacinza
5 A Bandeira da Égua
Montou o cavalo e cavalgou em silêncio dentro da noite. A escuridão foi descendo rápido, enquanto ia avançando lentamente, descendo a colina e subindo de novo, até que finalmente viu luzes piscando a certa distância.
Diante dele erguia-se a Whiterun e a majestosa Fortaleza do Dragão, barrando o caminho, uma massa escura contra estrelas sombrias; em seu flanco oeste se aninhava uma grande aldeia. Atrás da montanha disforme, erguiam-se as montanhas do norte, cobertas de branco e riscadas de preto. A planície coberta de relva ondulava contra as colinas amontoadas aos seus pés, e fluía cobrindo muitos vales ainda apagados e escuros, intocados pela luz da aurora, descrevendo sinuosos caminhos para o coração das grandes montanhas. Imediatamente à frente de Ralof, o mais amplo desses vales se abria como um golfo comprido entre as colinas. Agora se apressava em direção a ela, desejando apenas encontrar uma lareira, e uma porta que o separasse da noite.
Whiterun era a cidade mais importante daquela região, que era pequena e pouco habitada, semelhante a uma ilha cercada por terras desertas. Além da própria cidade de Whiterun, havia Rorikstead. Ao redor da colina de Whiterun e das aldeias, havia um pequeno campo de plantações e de matas exploradas, cuja largura era de apenas algumas milhas.
Os homens de Whiterun tinham cabelos castanhos, eram troncudos e altos, alegres e independentes: não pertenciam a ninguém além de si próprios, mas eram mais amigáveis e chegados aos khajiits, rubroguardas, elfos, e outros habitantes do mundo em volta deles do que eram (ou são) em geral as pessoas. Segundo suas próprias histórias, foram os habitantes originais e estavam em Whiterun desde que as primeiras neves caíram; mas quando os Reis retornaram de novo de Atmora, encontraram os sobreviventes da Noite das Lágrimas em Whiterun, onde permaneciam até aquela época, em que a memória dos velhos Reis tinha desaparecido por completo.
Havia também duas famílias da nobreza em Whiterun, e eles diziam ser o assentamento nórdico mais antigo do mundo, fundado antes que Atmora fosse abandonada por Ysgramor pela segunda vez fosse atravessado e Windhelm construída. Eram os Nasceguerras e os Jubacinzas. Em nenhum outro lugar do mundo seria possível encontrar um arranjo peculiar (mas excelente) como esse.
A aldeia de Whiterun tinha algumas dezenas de casas de pedra e madeira que pertenciam à nobres e aldeões, aninhando-se nas encostas das colinas, com janelas voltadas para o oeste. Naquele lado, descrevendo mais que um semicírculo, partindo da colina e voltando a ela, havia um fosso profundo. A estrada cruzava esse fosso através de um passadiço, mas no ponto onde atingia a cerca-viva era barrada por um grande portal. Havia outro portal no canto sul, onde a estrada saía da aldeia. Os portões eram fechados ao cair da noite; mas logo na entrada haviam dois porteiros segurando tochas. Vestiam-se em amarelo e usavam um capacete pontudo e amarronzado, e seus pequenos escudos tinham a imagem de um cavalo em um campo amarelo, assim como os estandartes de Whiterun.
Chegou ao portão oeste e o encontrou fechado, mas na porta de alojamento, logo adiante, estavam os dois guardas, um deles alertou-se e pegou uma tocha, olhando-o através do portão, surpreso.
— O que quer, e de onde vêm? — perguntou ele de forma grosseira.
— Quero ir até a estalagem — respondeu Ralof. — Estou indo para o norte, e não posso continuar a viagem esta noite. Eu venho de Riverwood.
— Caipira! E ainda por cima, de Riverwood — disse o porteiro, baixinho como se falasse consigo mesmo. Lançou-lhes um olhar sombrio e depois abriu o portão devagar, deixando-os entrar. — Não é sempre que vemos pessoas de Riverwood viajando com cavalos pela estrada à noite — continuou ele, quando Ralof parou um momento diante do imenso portão. — Perdoe a minha curiosidade em saber que tipo de negócio o leva para o norte, além de Whiterun! Qual é seu nome, se me permite a pergunta?
— Meu nome e negócios só dizem respeito a mim mesmo, e este não parece um bom lugar para discuti-los — disse Ralof, não gostando da aparência do homem e do tom de sua voz.
— Seus negócios só lhes dizem respeito, sem dúvida — disse o homem. — Mas o meu trabalho é fazer perguntas depois do anoitecer, e isso me diz respeito.
— Sou um soldado veterano do exército do Rei Ulfric, e queria viajar e me hospedar na estalagem aqui — acrescentou Ralof. — Sou o Sr. Ralof. Isso é suficiente? O povo de Whiterun costumava receber melhor os viajantes, ou pelo menos foi isso que ouvi falar.
— Está bem! Está bem! — disse o homem. — Não foi minha intenção ofendê-lo. Mas talvez mais pessoas, além do velho porteiro Harrold, venham a lhe fazer perguntas. Há pessoas estranhas por aqui. Se for à Égua, verá que não é o único hóspede.
Desejou-lhe boa noite, e Ralof não disse mais nada, mas ele podia ver pela luz da lanterna que o homem ainda estava olhando para ele, cheio de curiosidade. Perguntava-se o que teria deixado o porteiro tão desconfiado, e se alguém estivera indagando sobre sua chegada. Poderia ter sido Savos. Era provável que ele tivesse chegado, durante o tempo em que viajou. Mas algo na aparência e na voz do porteiro o deixava inquieto.
O homem ficou observando ele por um momento, e então fechou o portão. Logo que virou as costas, uma figura escura rapidamente pulou por sobre o portão, desaparecendo nas sombras da rua da aldeia.
Ralof subiu uma ladeira suave, passando por algumas casas isoladas, e parou na frente da estalagem. As casas tinham uma aparência grande e estranha para ele. Ralof contemplou a estalagem com seus dois andares e muitas janelas, e sentiu seu coração apertado. De vez em quando, durante a viagem, imaginara encontrar gigantes mais altos que árvores, e outras criaturas ainda mais aterrorizantes, mas naquele momento estava achando que a primeira vista dos homens ricos e de suas casas altas já era o suficiente, para não dizer demais, para o final escuro de um dia cansativo. Começava a pensar em cavalos negros, todos já selados, nas sombras do pátio da estalagem, e em Sacerdotes Dracônicos espiando das escuras janelas de cima.
Mesmo vista de fora, a estalagem parecia uma casa agradável aos olhos de quem a conhecia. A parte da frente dava para um grande mercadinho, e dois pavilhões estendiam-se para os fundos, construídos em terrenos parcialmente cortados das encostas mais baixas da colina, de modo que, na parte posterior, as janelas do segundo andar ficavam ao nível do solo.
A porta estava aberta, deixando escapar a luz do interior. Sobre um pequeno arco estava pendurada uma grande tabuleta que trazia o desenho de uma égua branco e roliça, empinado sobre as patas traseiras com um guerreiro encapuzado montado sobre ela. Sobre a porta estava pintado, em letras brancas:
A Bandeira da Égua
Muitas das janelas mais baixas mostravam luz por trás de grossas cortinas. Enquanto hesitava lá fora no escuro, alguém começou a cantar algo alegre do lado de dentro, e várias vozes animadas acompanharam, cantando alto o refrão. Ficou escutando esses sons animados por alguns momentos e então subiu os degraus. A canção acabou numa explosão de aplausos e risadas. Ralof quase trombou com uma mulher alta e magra, de olhos puxados e nariz pontudo. Usava um avental amarelo, e saía alvoroçada por uma porta para entrar por outra, carregando uma bandeja repleta de canecas cheias.
— Será que... — começou Ralof.
— Um instantinho, por favor! — gritou a mulher por sobre os ombros, desaparecendo naquela babei de vozes, em meio a uma nuvem de fumaça. Mais um momento e já aparecia de novo, limpando as mãos no avental.
— Boa noite, senhor! — disse ela, com uma reverência que fez com que sua cabeça quase tocasse o chão. — Em que posso ajudá-lo?
— Quero um quarto com uma cama de solteiro, se isso puder ser arranjado. E uma bebida, é claro.
— Está certo! Hulda é meu nome. Hulda às suas ordens! É um viajante, hein? — disse ela, e então de repente bateu a mão na testa, como se tentasse lembrar alguma coisa. — Um viajante loiro — gritou ela. — De que isso me faz lembrar? Posso perguntar seu nome, senhor?
— Meu nome é Ralof.
— Veja só — disse a Sra. Hulda, estalando os dedos. — Fugiu-me da cabeça de novo! Mas vai voltar, quando eu tiver tempo para pensar. Nem consigo acompanhar minhas pernas, mas vou ver o que posso fazer para ajudá-los. Atualmente é bem raro termos aqui um grupo de viajantes, e eu ficaria triste se não pudesse recebê-los. Mas a quantidade de pessoas aqui hoje ultrapassou o habitual. Desgraça pouca é bobagem, como se costuma dizer em Whiterun. Ei, Saadia — gritou ela. — Onde está, sua trapalhona? Saadia?
— Estou indo, senhora! Estou indo! — Uma rubroguarda, uma do povo escuro do deserto, de aparência melancólica surgiu por uma porta, e, vendo os viajantes, parou de repente, olhando-os com grande interesse.
— Onde está o Mikael? — perguntou a proprietária. — Você não sabe? Bem, encontre-o! Rapidinho! Não tenho seis pernas, nem seis olhos! Diga a Mikael que isso está muito parado. Ele tem de tocar alguma coisa. — Saadia saiu pisando duro, com um sorriso e piscando um olho.
— Bem, agora, o que eu ia dizendo? — disse Hulda, batendo na testa. — Uma coisa faz esquecer a outra, por assim dizer. Estou tão ocupada hoje que minha cabeça está girando. Há um grupo que veio do leste e chegou pela estrada a noite passada — e isso já foi esquisito o suficiente, para começar. Depois apareceu hoje uma Companhia de khajiits indo para o Norte. E agora você. Está querendo cear, sem dúvida. Logo que for possível. Agora, por aqui! Aqui está uma boa salinha! — disse ela. — Espero que goste. Agora me desculpe por estar tão ocupada. Não há tempo para conversas. Devo ir andando. É um trabalho duro para duas pernas, mas nem assim eu emagreço. Passarei por aqui mais tarde. Se quiser qualquer coisa, toque a campainha, e Saadia virá até aqui. Se não vier, toque de novo e grite!
Saiu finalmente, e deixou-o com a sensação de estar sem fôlego.
Parecia capaz de falar sem parar, e não importava o quão ocupada estivesse. Viu-se numa sala pequena e confortável. Havia um belo fogo queimando na lareira, em frente do qual ficavam algumas poltronas baixas e confortáveis. Havia uma mesa redonda, já coberta com uma toalha branca, e sobre ela uma grande campainha. Mas Saadia, a empregada rubroguarda, veio esbaforida antes que ele pensasse em tocá-la. Trouxe velas e uma bandeja cheia de pratos.
— Quer alguma coisa para beber, senhor? — perguntou ela. — Gostaria que lhe mostrasse os quartos, enquanto a ceia está sendo preparada?
Já tinha tomado banho e estava em meio a muitas canecas de cerveja quando a Sra. Hulda e Saadia vieram de novo. Num piscar de olhos, a mesa estava posta. Havia sopa quente, carnes frias, uma torta de amoras, pães frescos, nacos de manteiga, e meio queijo curado: comida boa e simples, boa como a de Riverwood, e suficientemente semelhante à de casa para afastar os últimos receios de Ralof (já bastante diminuídos pela excelência da cerveja).
A proprietária ficou por ali uns momentos e depois se propôs a ir embora.
— Não sei se gostaria de se juntar ao grupo, depois de cear — disse ela parando na porta. — Talvez prefira ir para sua cama. Mas mesmo assim o grupo ficaria muito satisfeito em recebê-lo, se quisesse isso. Não recebemos visitantes de fora – quer dizer, viajantes do sul, é melhor que eu diga, me desculpem — com freqüência, e gostaríamos de ouvir alguma novidade, ou alguma história ou canção de que se lembre. Mas, como quiser! Toque a campainha se faltar alguma coisa.
Sentia-se tão reconfortado e encorajado ao final da ceia (que durou cerca de três quartos de hora ininterruptos) que decidiu juntar-se ao grupo. O grupo estava na grande sala de estar da estalagem. Havia um grande número de pessoas, e de todos os tipos, como descobriu Ralof depois que seus olhos se acostumaram à luz. A iluminação vinha principalmente de um fogo alimentado por achas de lenha, pois as três lamparinas penduradas às vigas emitiam uma luz fraca, meio velada pela fumaça. Hulda estava em pé perto do fogo, conversando com alguns khajiits e com um ou dois homens de aparência estranha. Nos bancos sentavam-se vários tipos de pessoas: homens de Whiterun, um grupo de argonianos nativos (sentados, conversando), mais alguns khajiits e outras figuras vagas, difíceis de distinguir nas sombras e cantos.
Assim que Ralof chegou, ouviu-se um coro de boas-vindas, que vinha dos habitantes de Whiterun. Os estranhos, especialmente aqueles que tinham vindo pela estrada norte, olharam-no curiosos. O proprietário apresentou o recém-chegado às pessoas de Whiterun tão rapidamente que, embora tenha escutado muitos nomes, mal podia ter certeza sobre quem tinha que nome. Os homens de Whiterun pareciam ter nomes bastante botânicos (e para o povo nórdico, bastante normais, sempre duas palavras separadas por um hifen) como Mar-Azulado, Peixe-Gordo, Olho-Chão, Maçã-Arenosa, Barba-Amarela e Samambaia-Árvore. Ralof esperava encontrar algum Um-Olho por ali. Alguns dos nórdicos tinham nomes similares.
Os homens de Whiterun eram, na verdade, simpáticos e curiosos, e Ralof logo descobriu que teria de dar alguma explicação sobre o motivo que o trazia ali. Justificou que estava interessado em história e geografia (ao que várias cabeças balançaram em sinal desaprovação, embora nenhuma dessas duas palavras fosse muito usada no dialeto de Whiterun). Ralof disse que estava pensando em escrever um livro (ao que se fez um silêncio atônito), e que ele e seus amigos queriam coletar informações sobre os seres de outras raças que moravam em Skyrim, especialmente nas terras do Norte. Mais tarde, acabou revelando que servira no exército de Ulfric Stormcloak, mas não ousara mencionar o incidente de Helgen.
Depois que falou isso, um coro de vozes irrompeu. Se Ralof realmente quisesse escrever um livro, se ele fosse uma mistura bizarra sobre a guerra e sobre forasteiros, e se tivesse muitas orelhas, teria coletado o suficiente para sete capítulos em poucos minutos. E, como se isso não bastasse, foi feita uma lista, começando com “a velha Hulda aqui”, de nomes de pessoas a quem poderia recorrer se precisasse de informações mais detalhadas. Mas, depois de um tempo, como Ralof não fizesse menção de escrever um livro ali mesmo, os homens mais curiosos voltaram às suas perguntas sobre as coisas do sul de Whiterun e em Windhelm. Ralof não se mostrou muito comunicativo, e logo se viu sentado num canto, sozinho, ouvindo e olhando ao redor.
Os homens e khajiits falavam a maior parte do tempo sobre acontecimentos distantes, trazendo novidades de um tipo que já estava ficando bem comum. Havia problemas no Leste, e parecia que os homens que tinham vindo pela Passagem da Canela estavam de mudança, procurando terras onde pudessem encontrar um pouco de paz.
O povo de Whiterun se mostrava solidário, mas não parecia muito preparado para receber um grande número de forasteiros em sua pequena região. Um dos viajantes, camarada vesgo e de aparência desagradável, estava prevendo que mais e mais pessoas viriam para o sul num futuro próximo. — Se não providenciarem lugares para eles, eles mesmos farão isso, pois têm direito de viver, como as outras pessoas — disse ele em voz alta. Os habitantes locais não pareciam contentes diante da perspectiva.
De repente Ralof percebeu que um homem de aparência estranha e marcada pelos anos, sentado num canto escuro, também estava escutando a conversa dos outros com muita atenção. Tinha uma caneca alta à sua frente, e fumava um cachimbo, talhado de forma curiosa. As pernas estavam esticadas, mostrando botas altas de couro macio que lhe serviam bem, mas já bastante surradas e agora cobertas de lama. Uma capa cheia de marcas de viagem, feita de um tecido marrom-escuro, o cobria quase por completo, e apesar do calor da sala, ele usava um capuz que lhe ocultava o rosto em sombras; mas podia-se ver o brilho em seus olhos enquanto observava Ralof.
— Quem é aquele? — perguntou Ralof, quando teve uma chance de cochichar para Hulda. — Acho que não fomos apresentados.
— Aquele? — disse a proprietária, cochichando uma resposta, erguendo a sobrancelha sem voltar a cabeça. — Não sei ao certo. É um dos errantes, os guardiões da alvorada, como os chamamos. Raramente fala: no máximo conta uma história diferente, quando lhe dá na cabeça. Desaparece por um mês, um ano, e então aparece de novo. Chegou e partiu com bastante freqüência na última primavera: mas não tem vindo muito aqui nos últimos tempos. Nunca ouvi o seu verdadeiro nome, mas é conhecido como Encapuzado. Suas pernas longas andam numa velocidade muito grande; mas ele não conta a ninguém o motivo de tanta pressa. Mas não dá para explicar o leste e o oeste, como dizemos aqui em Whiterun, referindo-nos às excentricidades dos guardiões e do pessoal do sul, sem querer ofender o senhor. É interessante que tenha perguntado sobre ele.
Mas nesse momento a senhora Hulda foi chamada por alguém pedindo mais cerveja, e aquela última observação ficou sem explicação. Ralof percebeu que o Encapuzado olhava agora para ele, como se tivesse ouvido ou adivinhado tudo o que se conversou. Naquele mesmo momento, com um aceno de mão e um sinal de cabeça, convidou Ralof a sentar-se com ele. Quando Ralof se aproximou, o Encapuzado jogou o capuz para trás, deixando à vista uma cabeça despenteada, coberta de cabelos longos e amarronzados, e num rosto austero uma marca de guerra vermelha e arredondada e um pálido um par de olhos cinzentos e penetrantes.
— Chamam-me o Encapuzado — disse ele numa voz baixa. — Estou muito satisfeito em conhecê-lo, senhor Ralof, se a velha Hulda me disse o nome certo.
— Disse sim — respondeu Ralof secamente. Estava longe de se sentir à vontade, sob o efeito daqueles olhos penetrantes.
— Bem, senhor Ralof — disse o Encapuzado. — Se fosse o senhor, não deixaria seus feitos heróicos na guerra serem espalhados demais. Bebida, lareira e encontros casuais são bastante agradáveis, mas, bem, aqui não é Riverwood. Existem pessoas estranhas por aqui. Apesar de que provavelmente o senhor esteja achando que não tenho o direito de dizer isso — acrescentou ele com um sorriso oblíquo, vendo o olhar de Ralof. — E viajantes ainda mais estranhos já passaram aqui por Whiterun ultimamente — continuou ele, atento ao rosto de Ralof.
Ralof retribuiu o olhar, mas não disse nada; o Encapuzado não fez mais nenhum sinal. Parecia ter fixado a atenção num grupo de homens do outro lado da estalagem. Alarmado, Ralof percebeu que eles falavam com um dos bêbados enquanto olhavam para Ralof, e este bêbado fazia agora um relato cômico das aventuras mais cedo contadas por Ralof. Já estava começando a imitar o discurso, quase atingindo o ponto do início da rebelião.
Ralof estava zangado. A história era bastante inofensiva para a maioria das pessoas do lugar: apenas uma história divertida sobre os guerreiros do outro lado da província; mas certas pessoas (a velha Hulda, por exemplo) sabiam uma coisa ou outra, e provavelmente ainda se lembravam do dragão, embora houvesse acontecido há muito tempo atrás. Isso traria o nome Ralof Mata-Dragão, a alcunha pela qual ficara reconhecido em Riverwood, às suas mentes, especialmente se em Whiterun alguém tivesse perguntado sobre ele.
Ralof se impacientava, tentando decidir o que fazer. O bêbado evidentemente estava apreciando muito a atenção da platéia, e agora personificava Ralof, falando sobre os imperiais que derrotara. Ralof de repente receou que, naquela disposição, o bêbado pudesse mencionar o dragão, o que provavelmente seria desastroso.
— É melhor fazer algo logo! — cochichou o Encapuzado em sua orelha. Ralof pulou, ficando em pé numa mesa, e começou a falar. A atenção da platéia do bêbado foi desviada.
Alguns dos argonianos olharam para Ralof e riram, batendo palmas, pensando que ele tinha tomado toda a cerveja a que tinha direito.
Pronunciou “algumas palavras adequadas”, como teriam dito em Riverwood: Estamos todos muito agradecidos pela gentileza de sua recepção, e me aventuro a ter esperanças de que minha breve visita ajude a renovar os velhos laços de amizade entre Riverwood e Whiterun; depois disso, hesitou e tossiu.
Todos na sala agora olhavam para ele. — Uma canção — gritou um dos nórdicos. — Uma canção! Uma canção! — gritaram todos os outros. — Vamos lá, agora, senhor, cante alguma coisa que nunca ouvimos antes.
Por um instante, Ralof parou embasbacado. Então, desesperado, começou uma canção ridícula muito apreciada por Hod. Era sobre uma estalagem e um homem que se gabava de seus feitos em guerra, e talvez por isso tenha vindo à mente de Ralof exatamente naquele momento. Aqui está a canção completa.
Oh, there once was a hero named Ragnar the Red
Who came riding to Whiterun from ole Rorikstead
And the braggart did swagger and brandish his blade
As he told of bold battles and gold he had made
But then he went quiet, did Ragnar the Red
When he met the shield-maiden Matilda, who said;
"Oh, you talk and you lie and you drink all our mead
Now I think it's high time that you lie down and bleed!"
And so then came clashing and slashing of steel
As the brave lass Matilda charged in, full of zeal
And the braggart named Ragnar was boastful no more-
When his ugly red head rolled around on the floor!
Houve um aplauso longo e alto. Ralof tinha uma boa voz, e a canção tinha provocado a imaginação deles. — Onde está a velha Hulda? — gritavam eles. — Ele tem de ouvir esta. Uthgerd tinha que ensinar uma lição ao Sinmir, e então teríamos um baile muito mais realista. — Pediram mais cerveja e começaram a gritar: — Cante de novo, senhor! Vamos! Mais uma vez! Sim! Vamos, Ralof, cante uma sobre como você matou o dragão de Helgen!
A platéia toda abriu a boca preparando uma risada, mas ficou boquiaberta num silêncio atônito. A notícia de Ralof, o Mata-Dragão, já tinha chegado a Whiterun, e agora sabia mais até onde teria chegado. Os nórdicos do lugar ficaram olhando assustados; depois se puseram de pé e chamaram Hulda. Todo o grupo se afastou de Ralof, que se viu deixado de lado num canto, passando a ser observado com olhos orgulhosos e surpresos, a certa distância. Agora ficava claro que muitas pessoas o consideravam um guerreiro místico e lendário, a qual deviam respeitar como se fosse um rei.
Mas havia um habitante de Whiterun de pele escura, um rubroguarda, que ficou olhando para ele como quem sabia das coisas, e com um ar zombeteiro que o deixava pouco à vontade. Depois escapou pela porta, sendo seguido pelo sulista vesgo: os dois tinham estado cochichando juntos por um bom tempo durante a noite. Harrold, o porteiro, também saiu logo após eles.
De repente, a multidão irrompeu em um grito de saudação. Fizeram Ralof tomar mais uma caneca e começar a canção de novo, enquanto muitos o acompanhavam, pois a melodia era bem conhecida, e eles eram rápidos para pegar a letra. Faziam cabriolagens em cima das mesas, e no momento em que iam cantar sobre a cabeça feia, davam saltos.
— Bem... — disse o Encapuzado, quando a maioria das pessoas já estavam indo embora. — Por que fez aquilo? Foi pior do que qualquer coisa que os bêbados pudessem dizer. Você deveria ter negado ser esse Ralof Mata-Dragão.
— Não sei o que quer dizer — disse Ralof, perturbado e alarmado.
— Ah, você sabe sim! — respondeu o Encapuzado. — Mas é melhor esperarmos até o tumulto acabar. Depois, por favor, Sr. Mata-Dragão, eu gostaria de trocar umas palavras com o senhor em particular.
— Sobre o quê? — perguntou Ralof, ignorando o uso zombeteiro de sua alcunha.
— Um assunto de certa importância — para nós dois — respondeu o Encapuzado, olhando nos olhos de Ralof. — Você pode ouvir alguma coisa de seu interesse.
— Muito bem — disse Ralof, tentando parecer despreocupado. — Conversaremos mais tarde.
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