DdAH: A Batalha de Skuldafn
13 O Alto Rei e o Jarl
Sobre a cidade de Solitude pairava dúvida e grande medo. O bom tempo e o sol claro haviam parecido apenas um arremedo aos olhos de homens cujos dias continham poucas esperanças, e que esperavam a cada manhã notícias de destruição. A jarl daquele povo estava morta e desaparecida, morto jazia o Jarl do Rift em sua Cidadela, e o novo rei, que chegara até eles durante a noite, partira outra vez para uma guerra contra forças por demais escuras e terríveis para que qualquer poder ou coragem pudessem vencê-las. E nenhuma noticia chegava. Depois que o exército partiu de Ansilvund e tomou a estrada que conduzia ao leste, sob a sombra das montanhas, nenhum mensageiro retornara, nem tampouco houvera qualquer boato sobre o que estava se passando no leste.
Apenas dois dias após a partida dos Capitães, a Senhora Lydia ordenou às aias que a assistiam que trouxessem suas roupas, e não se mostrou disposta a que a contradissessem: levantou-se da cama. E, quando a tinham vestido e colocado seu braço numa tipóia de linho, ela se dirigiu a Rorlund.
— Senhor — disse ela —, estou muito ansiosa, e não posso ficar mais tempo nesse repouso indolente.
— Senhora — respondeu ele —, ainda não está curada, e foi-me ordenado que lhe dispensasse cuidados especiais. Deveria repousar em sua cama por mais sete dias, ou pelo menos foi o que me recomendaram. Peço que retorne, por toda a gentileza.
— Estou curada — disse ela —, pelo menos meu corpo está, a não ser apenas por meu braço esquerdo, e este está repousando. Mas vou adoecer de novo, se não houver nada que eu possa fazer. Não há noticias da guerra? As aias não me dizem nada.
— Não há notícias — disse Rorlund —, exceto a de que os Senhores cavalgaram para Ansilvund, e os homens dizem que o novo capitão que veio do leste os lidera. Ele é um grande senhor, e um curador; e a mim me parece estranho que uma mão que cura deva também brandir uma espada. Não é o que acontece em Haafingar atualmente, embora outrora tenha sido assim, se as velhas histórias são verdadeiras. Mas por longos anos nós, os curadores, só estamos procurando remendar os rasgos feitos pelos espadachins. Apesar disso, ainda teríamos muito a fazer sem eles: o mundo já está cheio de feridas e infortúnios mesmo sem guerras para multiplicá-los.
— Só é necessário um inimigo para preparar uma guerra, e não dois, Mestre Rorlund — respondeu Lydia —, e aqueles que não têm espadas ainda podem morrer por meio delas. O senhor gostaria que o povo de Haafingar ficasse apenas ajuntando ervas, quando o Devorador de Mundos ajunta exércitos? E não é sempre bom estar com o corpo curado. Nem é sempre mau morrer em combate, mesmo com um sofrimento amargo. Se me fosse permitido, nesta hora escura eu teria escolhido a segunda opção.
Rorlund olhou para ela. Era altiva, os olhos brilhavam no rosto branco, sua mão crispou-se no momento em que se virou e olhou pela janela que se abria para o leste. Ele suspirou e balançou a cabeça. Depois de uma pausa, ela se virou para ele outra vez.
— Não há nada a fazer? — disse ela. — Quem está no comando?
— Não sei bem ao certo — respondeu ele. — Essas coisas não são responsabilidade minha. Há um capitão comandando os Cavaleiros do Rift, e o Senhor Ariulcabor, pelo que ouvi dizer, lidera os homens de Haafingar. Mas o Senhor Aldis é por direito o Jarl de Haafingar, pois tinha sangue cyrodiílico.
— Onde posso encontrá-lo?
— Neste templo, senhora. Ele foi seriamente ferido, mas agora já está a caminho da recuperação. Mas eu não sei...
— Pode me levar até ele? Então saberá.
O Senhor Aldis caminhava solitário no jardim do Templo dos Divinos; o sol o aquecia, e ele sentia a vida correr renovada em suas veias; mas seu coração estava pesaroso, e ele olhava por sobre as muralhas na direção do leste. Ao chegar, Rorlund pronunciou seu nome, e ele se virou e viu a Senhora Lydia de Whiterun; ficou penalizado, pois viu que ela estava ferida, e seus olhos argutos perceberam a tristeza e a aflição que ela sentia.
— Meu senhor — disse Rorlund —, aqui está a Senhora Lydia do Rift. Ela cavalgou ao lado do jarl e foi seriamente ferida, e agora está sob minha guarda. Mas ela não está satisfeita, e deseja falar com o Jarl da Cidade.
— Não o entenda mal, senhor — disse Lydia. — Não é a falta de cuidados que me entristece. Nenhum templo poderia ser melhor para aqueles que desejam se curar. Mas não posso ficar indolente, ociosa, aprisionada. Na batalha, corri na direção da morte. Mas não morri, e a batalha ainda perdura.
A um aceno de Aldis, Rorlund fez uma reverência e saiu.
— O que gostaria que eu fizesse, senhora? — perguntou Aldis Quintilus. — Também eu sou um prisioneiro dos curadores.
Olhou para ela, e, sendo um homem profundamente suscetível à pena, teve a impressão de que a beleza de Lydia, combinada com a tristeza que ela sentia,poderiam partir-lhe o coração. E ela, olhando para ele, viu a grave ternura em seus olhos, e mesmo assim soube, pois fora criada entre homens guerreiros, que ali estava alguém a quem nenhum Cavaleiro do Rift poderia superar em batalha. — O que deseja? — disse ele outra vez. — Farei o que estiver ao meu alcance.
— Gostaria que ordenasse a esse Rorlund que me desse permissão para partir — disse ela; mas, embora suas palavras ainda fossem cheias de orgulho, seu coração vacilou, e pela primeira vez ela duvidou de si mesma. Pensou que aquele homem, ao mesmo tempo austero e gentil, poderia considerá-la apenas geniosa, como uma criança que não tem a firmeza mental para executar uma tarefa enfadonha até o fim.
— Eu mesmo estou sob a guarda de Rorlund — respondeu Aldis. — E também ainda não assumi minha função na Cidade. Mas, se já tivesse feito isso, ainda assim ouviria o conselho dele, e não o desautorizaria em assuntos de sua alçada, a não ser em caso de extrema necessidade.
— Mas não desejo ser curada — disse ela. — Desejo cavalgar para a guerra como meu amigo Saerlund ou, melhor ainda, como o Jarl Harrald, pois ele morreu, alcançando tanto a honra como a paz.
— É tarde demais, senhora, para seguir os Capitães, mesmo que lhe restassem forças — disse Aldis. — Mas a morte em batalha pode ainda nos atingir a todos, quer a desejemos ou não. Estará mais bem preparada para enfrentá-la à sua própria maneira, se fizer como Rorlund ordenou enquanto ainda há tempo. A senhora e eu, ambos devemos suportar com paciência as horas de espera.
Lydia não respondeu, mas observando-a Aldis teve a impressão de que algo nela amoleceu, como se uma forte geada estivesse cedendo ao primeiro leve presságio de primavera. Uma lágrima surgiu em seus olhos e caiu-lhe pelas faces como uma gota cintilante de chuva. Sua cabeça altiva abaixou-se um pouco. Então, num tom suave, como se estivesse mais falando consigo própria do que com ele, ela disse:
— Mas os curadores querem que eu fique de repouso por mais sete dias. E minha janela não dá para o leste. — Sua voz agora era a de uma donzela jovem e triste.
Aldis sorriu, embora seu coração estivesse cheio de pena. — Sua janela não dá para o leste? — disse ele. — Isso pode ser solucionado. Nesse ponto darei ordens a Rorlund. Se ficar neste templo sob nossos cuidados, senhora, e guardar seu repouso, então poderá caminhar neste jardim ao sol quando bem quiser; e poderá olhar para o leste, para onde todas as nossas esperanças se dirigiram. E aqui poderá me encontrar, caminhando e esperando, e também olhando para o leste. Suavizaria minha preocupação, se estivesse disposta a conversar comigo, ou às vezes caminhasse em minha companhia.
Então ela levantou a cabeça e olhou nos olhos dele de novo; um rubor tingiu-lhe o rosto pálido. — Como eu poderia suavizar sua preocupação, meu senhor? — disse ela. — Eu não desejo conversar com homens vivos.
— Aceitaria uma resposta direta? — disse ele.
— Sim.
— Então, Lydia de Whiterun, digo-lhe que é linda. Nos vales de nossas colinas há flores belas e cintilantes, e donzelas ainda mais bonitas; mas até agora não vi em Haafingar flores ou mulheres tão encantadoras, nem tão cheias de tristeza. Pode ser que restem apenas alguns dias antes que a escuridão caia sobre nosso mundo, e quando chegar espero enfrentá-la com firmeza; mas aliviaria meu coração se, enquanto o sol ainda brilha, eu ainda pudesse vê-la. Pois nós dois passamos sob as asas da Sombra, e a mesma mão nos trouxe de volta.
— Não eu, infelizmente, senhor — disse ela. — A Sombra ainda paira sobre mim. Não me olhe em busca de cura! Sou uma escudeira e minhas mãos não são delicadas. Mas pelo menos lhe agradeço por isso, por não precisar ficar em meu quarto. Vou caminhar ao ar livre pela graça do Jarl da Cidade.
Então ela lhe fez um gesto cortês e voltou para o templo. Mas Aldis, por um longo tempo, caminhou sozinho no jardim, e seu olhar agora se voltava mais para o templo que para as muralhas ao leste. Quando retornou ao seu quarto, mandou chamar Rorlund, e ouviu tudo o que este pôde lhe contar sobre a Senhora de Whiterun.
— Não duvido, senhor — disse Rorlund —, de que teria mais informações se procurasse o escudeiro que está conosco; pois ele esteve cavalgando junto com o jarl, e ao final com a Senhora, pelo que dizem.
E assim Asgeld foi enviado a Aldis, e enquanto o dia durou eles conversaram longamente, e Aldis soube de muita coisa, mais até do que Asgeld colocou em palavras; agora ele julgava entender algo da tristeza e da inquietação de Lydia de Whiterun. E no belo inicio de noite Aldis e Asgeld caminharam no jardim, mas ela não veio.
Mas pela manhã, quando Aldis veio do Templo, ele a viu sobre as muralhas, vestida toda de branco, reluzindo ao sol. E ele a chamou, e ela desceu, e os dois ficaram caminhando na relva ou sentados juntos sob uma árvore verde, por vezes em silêncio, por vezes conversando. E a cada dia que se seguiu fizeram a mesma coisa. E Rorlund, olhando de sua janela, alegrou-se em seu coração, pois era um curador, e sua preocupação ficou menos pesada; e era certo que, por mais pesado que fossem o temor e os maus presságios nos corações dos homens naqueles dias, mesmo assim esses dois pacientes sob seus cuidados prosperavam e cresciam em força a cada dia.
Assim chegou o quinto dia desde que a Senhora Lydia encontrou-se com Aldis pela primeira vez; e os dois estavam juntos mais uma vez, olhando por sobre as muralhas de Solitude. Ainda nenhuma notícia chegara, e todos os corações estavam anuviados. Os dias também já não eram claros. Estava frio. Um vento que se erguera durante a noite soprava agora do norte, cortante, e aumentava cada vez mais; mas as terras ao redor pareciam cinzentas e desoladas. Trajavam roupas quentes e capas pesadas, e sobre tudo a Senhora Lydia vestia um grande manto azul, da cor profunda de uma noite de verão, adornado com a face de um lobo. Aldis mandara buscar esse manto para agasalhá-la; achou que ela parecia bela e verdadeiramente majestosa ao lado dele. O manto fora confeccionado para a sua mãe, Elanis Quintilus, que morrera precocemente, e era para ele apenas uma lembrança de encanto em dias distantes e de sua primeira tristeza: e esse manto lhe parecia uma roupa adequada á beleza e á tristeza de Lydia.
Mas agora ela tremia sob o manto do lobo azul, e olhava para o leste, através das terras cinzentas que a rodeavam, dentro do olho do vento frio onde, distante, o céu estava firme e claro.
— O que está procurando, Lydia? — perguntou Aldis.
— Skuldafn não fica naquela direção? — disse ela. — E ele não deve ter agora chegado lá? Já fazem inúmeros dias que partiu.
— Inúmeros dias — disse Aldis. —Mas não me leve a mal, se eu lhe disser: esses dias me trouxeram ao mesmo tempo uma alegria e um sofrimento que jamais pensei conhecer. Alegria em vê-la; mas sofrimento, porque agora o medo e a dúvida destes tempos malignos realmente ficaram muito escuros. Lydia, agora eu não gostaria que este mundo acabasse, ou que eu perdesse tão depressa o que encontrei.
— Perder o que encontrou, senhor? — respondeu ela; mas olhou para ele com um ar grave, e seus olhos eram doces. — Não consigo pensar no que tenha encontrado nestes dias que pudesse perder. Mas venha, meu amigo, não vamos falar nisso! Não vamos falar nada! Estou à beira de um abismo maligno, e está totalmente escuro diante de meus pés, mas se há alguma luz atrás de mim não posso dizer. Pois ainda não posso me virar. Aguardo algum golpe do destino.
— Sim, nós dois aguardamos o golpe do destino — disse Aldis. E não disseram mais nada, e tiveram a impressão, ali sobre a muralha onde estavam, de que o vento cessou, e a luz diminuiu e o sol foi ofuscado, e todos os sons na Cidade ou nas regiões ao redor silenciaram: nem vento, nem voz, nem canto de pássaro, nem farfalhar de folhas, nem sequer a própria respiração de ambos podia-se ouvir; a própria batida de seus corações cessou. O tempo parou.
E, enquanto ficaram assim, suas mãos se encontraram e se entrelaçaram, sem que eles se dessem conta disso. Continuavam á espera sem saber do quê. Então, de repente, tiveram a impressão de que, acima das cordilheiras das distantes montanhas, uma outra vasta montanha de escuridão se ergueu, assomando como uma onda que engoliria o mundo, e em volta dela faiscavam relâmpagos; então um tremor percorreu a terra, e eles sentiram as muralhas da Cidade estremecendo. Um som como um suspiro subiu de todas as terras ao redor, e de repente seus corações começaram de novo a bater.
— Isso me faz lembrar de Cyrodill — disse Aldis, surpreso ao ouvir o som da própria voz.
— De Cyrodiil? — perguntou Lydia.
— Sim — disse Aldis —, da terra dos Imperadores. E da grande onda escura subindo acima das terras verdes e cobrindo as colinas, e avançando, uma escuridão inescapável. Eu sempre sonho com isso.
— Então você acha que a Escuridão está chegando? — disse Lydia. — A Escuridão Inescapável? — E de repente ela se aproximou mais dele.
— Não — disse Aldis, olhando no rosto dela. — Foi apenas uma imagem em minha cabeça. Não sei o que está acontecendo. A razão de minha mente consciente me diz que um grande mal aconteceu e que estamos no fim dos dias. Mas meu coração diz o contrário, e todos os meus membros estão leves, e uma esperança e uma alegria que nenhuma razão pode negar se apoderam de mim. Lidyaa, Lydia, Senhora Roxa de Whiterun, nesta hora não acredito que qualquer escuridão possa perdurar! — Abaixou-se e beijou-lhe a testa.
E assim ficaram sobre as muralhas da Cidade de Solitude, e um vento forte subiu e soprou, e seus cabelos, ambos negros, esvoaçaram e se misturaram no ar. E a Sombra partiu, e o sol foi descoberto, e a luz jorrou; e as águas do Rio Karth brilharam como prata, e em todas as casas da Cidade homens cantavam devido à alegria que lhes inundava os corações, vinda de uma fonte que eles não conheciam.
E, antes que o sol tivesse descido do meio-dia, do leste chegou voando um grande dragão vermelho, Odahviing, trazendo notícias dos Senhores do Oeste que superavam qualquer esperança, exclamando:
Cantai, ó povo da Torre de Dour,
que o Reino de Alduin para sempre acabou,
e a Torre de Skuldafn enfim ruiu.
Cantai e jubilai, ó povo da Torre de Dour,
Que em vossa vigília não tenha mais temor,
e a Ruína de Pedra Negra chegou ao seu final,
e vosso Alto Rei já pôde passar em marcha triunfal.
Cantai e alegrai-vos, vós todos, filhos do oeste,
que vosso Alto Rei há de voltar do leste,
e ele habitará entre vós todos os dias que viverem.
e a Cidade será abençoada pelos tempos que vierem.
Cantai todos, ó povo!
E o povo cantou em todos os caminhos de Solitude.
Os dias que se seguiram foram dourados, e a primavera e o verão festejaram juntos nos campos de Haafingar. E agora chegavam noticias, trazidas de Ivarstead por velozes cavaleiros, sobre tudo o que se passara, e a Cidade se preparava para a chegada do Alto Rei. Asgeld foi convocado e partiu com as carroças que levaram suprimentos até Dawnstar, prosseguindo de lá para Ivarstead e Nilheim de navio; mas Aldis não foi, pois agora, estando recuperado, reassumira sua função de jarl, embora por pouco tempo, e seu dever era preparar tudo para alguém que iria substituí-lo.
E Lydia não foi, embora seu irmão lhe tivesse enviado um recado, pedindo que ela fosse até Nilheim. E Aldis se surpreendeu com isso, mas a via raras vezes, ocupada com muitos assuntos; ela ainda estava no Templo dos Divinos, e caminhava sozinha no jardim, e seu rosto empalidecera de novo, e parecia que em toda a Cidade ela era a única pessoa triste e doente. Rorlund ficou preocupado, e falou com Aldis.
Então Aldis foi procurá-la, e mais uma vez os dois ficaram sobre as muralhas juntos, e ele lhe disse: — Lydia, por que você continua aqui, e não vai aos festejos em Nilheim além de Ivarstead, onde seu irmão a aguarda?
E ela disse: — Você não sabe?
Mas ele respondeu: — Pode haver dois motivos, mas qual é o verdadeiro eu não sei.
E ela disse: — Não quero brincar com enigmas. Fale mais claramente!
— Então, se é esse o seu desejo, senhora — disse ele —: você não vai porque apenas seu irmão a chamou, e contemplar o Senhor Vorstag, herdeiro de Tiber Septim, em seu triunfo não lhe traria felicidade alguma. Ou então porque eu não vou, e você deseja ficar perto de mim. E talvez seja por esses dois motivos, e você não está conseguindo escolher entre eles. Lydia, você não me ama, ou não deseja me amar?
— Desejava ser amada por outro — respondeu ela. — Mas não quero a comiseração de nenhum.
— Isso eu sei — disse ele. — Você desejava ter o amor do Senhor Vorstag. Porque ele era nobre e pujante, e você queria ter renome e glória e ser elevada bem acima das coisas mesquinhas que se arrastam sobre a terra. E, como um grande capitão pode parecer admirável para um jovem soldado, assim ele lhe pareceu. Pois é o que ele é, um senhor entre homens, o maior que existe atualmente. Mas, quando lhe ofereceu apenas compreensão e pena, então você não desejou mais nada, exceto uma morte corajosa em batalha. Olhe para mim, Lydia!
E Lydia olhou para Aldis firme e longamente; Aldis disse: — Não despreze a comiseração oferecida por um coração gentil, Lydia! Mas eu não lhe ofereço minha comiseração. Pois você é uma senhora nobre e valorosa, e obteve um renome que não deverá ser esquecido; e você é uma senhora bela, considero eu, e sua beleza está acima até do que a língua dos ayleids pode descrever. E eu a amo. Já senti pena de sua tristeza. Mas agora, mesmo que você não sentisse tristeza alguma, nem medo, e não lhe faltasse nada; fosse você a bem-aventurada Rainha de Solitude, ainda assim eu a amaria.
Naquele momento o coração de Lydia mudou, ou então finalmente ela percebeu a mudança. E de repente seu inverno passou e o sol brilhou para ela.
— Estou na Cidade do Lobo — disse ela —; e eis que a Sombra partiu! Não serei mais uma escudeira, nem competirei com os grandes Cavaleiros, e deixarei de me regozijar apenas com canções de matança. Serei uma curadora, e amarei todas as coisas que crescem e não são estéreis. Não desejo mais ser uma rainha — disse ela.
Então Aldis sorriu com alegria. — Assim está bem — disse ele —; pois eu não sou um rei. E mesmo assim me casarei com a Senhora de Whiterun, se ela assim o desejar. E, se ela quiser, então atravessaremos o Rio Karth e em dias mais felizes iremos morar na bela Whiterun, e lá faremos um jardim. Todas as coisas crescerão ali com alegria, se a Senhora Lydia vier.
— Então devo deixar o povo do Rift, homem de Haafingar? — disse ela. — E você gostaria que seu povo orgulhoso dissesse a seu respeito: “Lá vai um senhor que domou uma intrépida escudeira do norte! Não havia uma mulher da raça de Cyrodiil para ele escolher?”
— Gostaria — disse Aldis.
E tomando-a nos braços beijou- a sob o céu ensolarado, sem se preocupar se estavam sobre a muralha, num ponto alto, à vista de muitas pessoas. E realmente muitos viram os dois e a luz que brilhava ao redor deles quando desceram das muralhas e foram de mãos dadas até o Templo.
E a Rorlund, Aldis disse: — Aqui está a Senhora Lydia de Whiterun, e agora ela está curada.
E Rorlund disse: — Então eu a dispenso de meus cuidados e digo-lhe adeus, desejando-lhe que jamais volte a ter qualquer doença ou sofrimento. Recomendo-a aos cuidados do Jarl de Solitude, até que seu irmão retorne.
Mas Lydia disse: — Apesar de agora eu ter permissão para partir, gostaria de ficar. Pois esta Casa se tornou para mim a mais feliz de todas as moradias.
E lá permaneceu até a chegada do Jarl Saerlund.
Agora todas as coisas estavam prontas em Solitude, e havia um grande afluxo de pessoas, pois as notícias tinham se espalhado por todos os cantos de Haafingar, das tribos dos orcs selvagens e amigáveis de Mor Khazgur até as ruínas da Vista da Viúva, no extremo norte do Estado; todos os que puderam se apressaram em direção à Solitude. E a Cidade se encheu de novo de mulheres e lindas crianças que retornaram para seus lares carregadas de flores; e de Volskygge vieram os melhores harpistas de toda a região, e havia também tocadores de violas, de flautas e de cornetas de prata, e cantores de voz límpida vieram como um presente da Embaixadora Elenwen, dos Thalmor.
Por fim chegou o dia em que das muralhas podiam-se ver os pavilhões montados no campo, e durante toda a noite as luzes arderam, enquanto os homens aguardavam a aurora. E quando o sol surgiu na manhã clara sobre as montanhas do leste, nas quais não pairava mais sombra alguma, todos os sinos repicaram, e as bandeiras se abriram tremulando ao vento; sobre o Palácio Azul da Cidade, o estandarte de Solitude, vermelho brilhante com a face do lobo, foi hasteado sobre Haafingar pela última vez.
Agora os Capitães do Oeste conduziam seu exército em direção à Cidade, e o povo os via avançar fileira após fileira, faiscando e reluzindo ao nascer do sol, ondulando como prata. E assim eles chegaram diante do Pórtico e pararam a duzentos metros das muralhas. Até aquele momento, os portões ainda não haviam sido reconstruídos, e uma estacada fora construída atravessando a entrada da Cidade, e lá estavam homens armados vestindo vermelho e negro, erguendo longas espadas. À frente da estacada estavam o Jarl Aldis e Ariulcabor, o Guardião das Chaves, juntamente com outros capitães de Haafingar; a Senhora Lydia de Whiterun com o Marechal Gurdiard e muitos de seus cavaleiros; e dos dois lados do Portão havia uma grande multidão de gente bonita vestida de muitas cores e levando guirlandas de flores.
Havia agora um amplo espaço diante das muralhas de Solitude rodeado pelos soldados e cavaleiros de Haafingar e do Rift, como também por todo o povo da Cidade e de todas as partes da região. Um silêncio caiu sobre todos quando do exército avançaram os Guardiões da Alvorada em prata e marrom; e à frente veio, caminhando devagar, o Senhor Vorstag.
Estava vestindo uma malha preta com um cinto prateado sobre vermelho, e usava um longo manto completamente vermelho, uma capa presa ao colarinho de couro por um broche com a mesma insígnia que voava sobre sua bandeira, e nos ombros, ao invés das longas ombreiras metálicas retas, ombreiras de prata curvadas e desenhadas estavam ali, sobre capa e manto; mas em sua cabeça não havia nada. Com ele vinham Saerlund do Rift, o Príncipe Clagius e Savos Aren, todo vestido de escarlate e amarelo, além de um homem loiro e um cão altivo, nada parecido com um vira-lata.
— Não, prima! Eles não são soldados — disse Silana Petria á sua parente do Alto Portão, que estava ao seu lado. — Agora, ele é um prodígio, o Senhor Dragonborn: não muito gentil em sua fala, note bem, mas tem um coração de ouro, como se diz por aí; e ele tem as mãos que curam. “As mãos do rei são as mãos de um curador”, disse eu; e foi assim que se descobriu tudo. E Savos Aren me disse: “Silana, os homens se lembrarão por muito tempo de suas palavras”, e...
Mas Silana não pôde continuar instruindo sua parente do interior, pois uma única trombeta soou, e fez-se silêncio profundo. Então vieram do Portão Aldis e Ariulcabor das Chaves, desacompanhados de outros, exceto por quatro homens que caminhavam atrás deles usando altos elmos e vestindo a armadura da Guarda, carregando um grande cofre negro, adornado de prata.
Aldis foi ao encontro de Vorstag no meio de todos ali reunidos, e ajoelhou-se, dizendo: — O último Jarl Regente de Haafingar pede permissão para entregar seu oficio. — E estendeu um bastão branco; mas Vorstag o tomou e o devolveu, dizendo:
— Tal oficio não está terminado, e deverá ser teu e de teus herdeiros enquanto durar minha linhagem. Desempenha agora o teu oficio!
Então o Jarl Aldis levantou-se e falou numa voz límpida: — Homens de Haafingar, ouçam agora o Jarl deste Estado! Vejam! Finalmente chegou alguém para reivindicar o trono. Aqui está Vorstag, filho de Rorstag, chefe dos Guardiões da Alvorada do Rift, Capitão do Exército do Oeste, portador da Coroa Denteada, possuidor da Espada do Septim, vitorioso em batalha, cujas mãos trazem a cura, o Dragonborn, Septim da linhagem de Uriel, filho de Pelagius, filho de Ysmir de Skyrim. Deve ele ser o Alto Rei e entrar na Cidade para ali morar?
E todo o exército e todo o povo gritaram sim a uma só voz.
E Silana disse à sua parente: — Isso é apenas uma cerimônia de nossa Cidade, prima; pois ele já entrou, como eu estava lhe dizendo, e ele me disse... — então mais uma vez ela foi obrigada a se calar, pois Aldis falou outra vez.
— Homens de Haafingar, os mestres na tradição dizem que, conforme o costume antigo, o rei deveria receber a corôa de seu pai antes que este morresse; e, se isso não fosse possível, então ele deveria ir sozinho e tomá-la das mãos de seu pai no túmulo onde foi depositado. Mas uma vez que as coisas devem ser feitas agora de modo diferente, usando a autoridade do Jarl de Haafingar, eu hoje trouxe até aqui de Korvanjund a corôa do Rei Harald, o décimo terceiro na linha de Ysgramor, cujos dias transcorreram no tempo dos remotos antepassados de Vorstag, pois nórdico ele também é. Então os guardas deram um passo à frente, e Aldis abriu o cofre, e ergueu uma corôa antiga. Um anel aberto e torto de ferro martelado, gravado com as runas dos Homens de Atmora, coroado por dentes amarelados de dragão, espinhentos em formas de espadas longas. De ouro, prata e pedras preciosas, nada tinha; o bronze e o ferro eram os metais do inverno, escuros e fortes para lutar contra o frio. Então Vorstag pegou a corôa e a ergueu, dizendo:
— Tir do Sot Angar wah Keizaal zu'u meyz. Ko daar staad fen zu'u lahney, ahrk dii defahn, nawah oblaan do lein!
Então, para a surpresa de muitos, Vorstag não colocou a coroa sobre a própria cabeça, mas devolveu-a a Aldis, dizendo: — Pelo trabalho e pelo valor de muitos tomo posse do que é meu por herança. Em sinal disto gostaria que os Dois Caçadores trouxessem a coroa até mim, e que Savos Aren a colocasse sobre minha cabeça, se assim desejar; pois foi ele o promotor de tudo o que foi realizado, e esta vitória lhe pertence.
Então Kharjo e Faendal vieram à frente e tomaram a coroa de Aldis e levou-a para Savos Aren; Vorstag ajoelhou-se, e Savos colocou-lhe a Coroa Denteada sobre a cabeça, dizendo: — Agora chegaram os dias do Alto Rei, e que sejam bem-aventurados enquanto perdurarem os tronos dos Nove!
Mas quando Vorstag se levantou todos os que estavam presentes o contemplaram em silêncio, pois tiveram a impressão de que ele lhes estava sendo revelado pela primeira vez. Alto como os antigos imperadores, ele se ergueu acima de todos os que estavam perto; parecia velho em dias, mas na flor da virilidade; e a sabedoria ornava-lhe a fronte, e havia força e cura em suas mãos, e uma aura de luz o envolvia.
— Eis o Alto Rei!
E nesse momento todas as trombetas soaram, o Rei Dragonborn avançou chegando até a barreira, e Ariulcabor das Chaves a afastou; em meio à música de harpas, violas e flautas, e do canto de vozes límpidas, o Alto Rei passou pelas ruas cobertas de flores, chegando á Cidadela, e a adentrou; a bandeira do Dragão dos Septim foi desfraldada sobre o torreão mais alto, e iniciou-se o reinado do Rei Dragonborn, do qual falaram muitas canções.
Em seu tempo a Cidade ficou mais bonita do que jamais fora, até mesmo mais do que nos dias de suas primeiras glórias; e encheu-se de árvores e fontes, e seus portões eram confeccionados em bronze e aço, e suas ruas eram pavimentadas de mármore branco, e o Povo de Markarth trabalhava nela, e o Povo de Valenwood alegrava-se em visitá-la; tudo foi sanado e melhorado, e as casas se encheram de homens e mulheres e do riso das crianças; nenhuma janela ficou fechada e nenhum pátio vazio.
Nos dias seguintes á sua coroação, o Alto Rei sentou-se em seu trono no Palácio Azul e pronunciou seus julgamentos. Embaixadas vieram de muitas terras e povos, do leste e do sul e das fronteiras de Valenwood, e de Morrowind, no oeste. E o alto rei perdoou a Casa Dres da Lágrima que se haviam rendido e os mandou embora em liberdade, e fez as pazes com o povo de Hammerfell; os escravos de Skuldafn ele libertou, dando-lhes todas as terras ao redor dos belos pântanos de Marchaleste, para que lhes pertencessem. E foram trazidas à sua presença muitas pessoas, para que recebessem seu elogio e recompensa por seu valor; por último o capitão da Guarda lhe trouxe Segunivus, para que fosse julgado.
E o Alto Rei disse a ele: — Segunivus, através de sua espada o sangue se espalhou em Solitude, onde isso não é permitido. Além disso, você abandonou seu posto sem a permissão do Jarl ou do Capitão. Por essas coisas, antigamente, a pena era a morte. Portanto agora vou pronunciar sua sentença. Toda a pena fica remitida devido ao seu valor em batalha, e mais ainda porque tudo o que fez foi por amor ao Jarl Aldis. Não obstante, você deve deixar a Guarda da Cidadela, e deve sair da Cidade de Solitude.
Então o sangue sumiu do rosto de Segunivus, que recebeu um golpe no coração e baixou a cabeça. Mas o Alto Rei disse:
— Deve ser assim, pois você foi designado para a Companhia Branca. A Guarda de Aldis, Príncipe das Cataratas Ermas, e você será capitão dele e irá viver naquelas ruínas, pois lá agora uma grande obra eu ordeno que se inicie para voltar a ter o esplendor que tinha nas primeiras eras, e servirá de morada, e não de túmulo; lá você viverá, com honra e paz, no serviço daquele por quem você arriscou tudo, para salvá-lo da morte.
E então Segunivus, percebendo a justiça e a clemência do Alto Rei, ficou feliz, e ajoelhando-se beijou-lhe a mão, e partiu alegre e satisfeito. E Vorstag deu a Aldis as Cataratas Ermas em reforma, para que fosse seu principado, e pediu que ele morasse lá, e renomeasse o lugar como quisesse. — Pois — disse ele — Ansilvund, a terra que uma vez comentou ser bela, deverá ser completamente destruída, e, embora em tempos vindouros ela possa ser purificada, nenhum homem deverá morar lá antes que se passem muitos e longos anos.
E por último Vorstag cumprimentou Saerlund do Rift, e os dois se abraçaram e Vorstag disse: — Entre nós não pode haver palavras de dar ou receber, nem de recompensa, pois somos irmãos. Agora, como você sabe, deitamos Harrald, o Renomado, num túmulo no Salão dos Mortos, e lá ele deverá jazer para sempre entre os Reis de Haafingar, se esse for o seu desejo. Ou, se você quiser, iremos ao Rift e o levaremos de volta, para que descanse com seu próprio povo.
E Saerlund respondeu: — Desde o dia em que você surgiu diante de mim das escadas da Fortaleza da Névoa afeiçoei-me a você, e essa afeição nunca irá se extinguir. Mas agora preciso partir por um tempo para o meu próprio reino, onde há muito a sanar e pôr em ordem. Mas, quanto ao Tombado, quando tudo estiver resolvido, retornaremos para buscá-lo; mas deixemos que durma aqui por um tempo.
E Lydia disse a Aldis: — Agora devo ir para a terra da espada cruzada, para contemplá-la mais uma vez, e ajudar meu irmão de batalha em seu trabalho; mas, quando aquele a quem amei tanto tempo como a um irmão for depositado em seu descanso final, retornarei.
Assim se passaram os dias alegres, e no oitavo dia de segunda-semente os Cavaleiros do Rift aprontaram-se e partiram cavalgando pela Estrada Sul, e com eles foram os Filhos de Orthorn Elsinorin. Ao longo de toda a estrada se enfileiravam pessoas para homenageá-los e aplaudi-los desde o Portão da Cidade até a Ponte do Dragão. Então, todos os outros que moravam longe voltaram para seus lares cheios de alegria; mas na Cidade trabalharam muitos voluntários de mãos dispostas, reconstruindo e renovando e removendo todas as cicatrizes da guerra e a lembrança da escuridão.
Asgeld, Ralof e Meeko ainda permaneceram em Solitude, com Faendal e Kharjo, pois Vorstag relutava diante da idéia da dissolução da sociedade.
— Por fim todas essas coisas devem terminar — dizia ele —, mas eu gostaria que vocês esperassem um pouco mais: pois o fim dos feitos dos quais vocês participaram ainda não chegou. Aproxima-se um dia pelo qual esperei durante todos os anos de minha maioridade, e quando chegar eu gostaria de ter meus amigos por perto.
Mas sobre tal dia ele não estava disposto a dizer mais nada. Durante esse tempo, a Companhia dos Barbacinza morou junta numa bela casa com Savos Aren, e eles iam e vinham com toda a liberdade. E Ralof disse a Savos:
— Você sabe que dia é esse sobre o qual Vorstag fala? Pois estamos felizes aqui, e não quero partir; mas os dias estão passando, e Gerdur está à espera, e Riverwood é o meu lar.
— Quanto á passagem dos dias, estamos apenas em segunda-semente, e o alto verão ainda nem chegou, e, embora todas as coisas possam parecer mudadas, como se uma era do mundo tivesse passado, ainda assim para as árvores e a relva faz menos de um ano que você partiu.
— Ralof — disse Barknar —: você não tinha dito que Savos estava menos reservado que antigamente? Quando você disse isso, ele estava cansado devido aos seus trabalhos, eu acho. Agora está voltando à forma.
E Savos Aren disse: — Muitas pessoas gostam de saber de antemão o que vai ser servido à mesa, mas aqueles que trabalharam preparando o banquete gostam de manter o segredo, pois a surpresa faz com que os elogios soem mais alto. E o próprio Vorstag aguarda um sinal.
Chegou um dia em que Savos Aren desapareceu, e os Companheiros ficaram se perguntando o que estaria acontecendo. Mas Savos levou Vorstag para fora da Cidade durante a noite. E eles subiram por caminhos íngremes, até chegarem a um campo elevado, perto da neve que cobria os picos. Postados lá eles observaram as terras, pois a manhã chegara; e eles viram as torres da Cidade bem abaixo deles como lápis brancos tocados pela luz do sol, e todo o Rio Karth era como um jardim, e uma névoa dourada velava as elevações. De um lado, a visão atingia o cinzento Forgulnthur, e o brilho dos pântanos era como uma estrela a faiscar na distância; logo atrás viam o Rio Karth como uma fita estendida até os portos, e mais além havia a luz na borda do céu que evocava o Mar.
E Savos Aren disse: — Este é o seu reino, e o coração do reino maior que haverá. A Quarta Era do mundo está terminando, e a nova era começará; é sua tarefa ordenar o início e preservar o que pode ser preservado. Pois, embora muito tenha sido salvo, muita coisa deve agora morrer. E todas as terras que você está vendo, e aquelas que ficam em torno delas, deverão ser moradias de homens. Chegou o tempo do Domínio dos Homens, e a Gente Antiga deverá desaparecer ou partir.
— Sei muito bem disso, caro amigo — disse Vorstag —, mas ainda gostaria de contar com seus conselhos.
— Não por muito tempo agora — disse Savos Aren. — A Quarta Era foi a minha. Eu era o Inimigo de Alduin e meu trabalho está terminado. Partirei em breve. E o fardo deverá ser carregado por você e pelo seu povo.
— Mas eu morrerei — disse Vorstag. — Pois sou um homem mortal, e, embora seja o que sou e da raça do Centro-Oeste, e ao mesmo tempo do Norte, devendo ter uma vida mais longa que os outros homens, ela vai durar pouco tempo; e, depois que aqueles que agora estão nos ventres das mulheres nascerem e estiverem velhos, eu também ficarei velho. E quem então deverá governar Haafingar e aqueles que consideram Skyrim a sua rainha, se meu desejo não for satisfeito? Quando terei um sinal de que um dia será diferente?
— Desvie seu rosto do mundo verde, e olhe para onde tudo parece desolado e frio! — disse Savos Aren.
Então Vorstag se virou, e havia uma ladeira de pedra atrás dele, que descia da orla da neve; e, quando olhou, percebeu que ali, solitária, em meio à desolação, estava uma coisa viva. E ele subiu até ela, e viu que exatamente da orla da neve nascia uma muda de árvore que não ultrapassava noventa centímetros em altura. Já exibia jovens folhas longas e belas, escuras na face superior e prateadas por baixo, e sobre sua esbelta copa carregava um pequeno cacho de flores, cujas pétalas brancas brilhavam como a neve iluminada pelo sol.
Então Vorstag exclamou: — Eldergleam! Veja! Aqui está uma descendente da Mais Velha das Arvores. Mas como veio parar aqui? Pois ela mesma não tem mais de sete anos de idade.
E Savos Aren, aproximando-se, olhou para a pequena árvore e disse: — Realmente, esta é uma muda da linhagem de Eldergleam de Atmora, que chegou a Skyrim antes do metal. Quem poderá dizer como ela veio parar aqui na hora marcada? Mas este é um antigo local sagrado, e, antes que os Septim caíssem, um fruto deve ter sido plantado aqui. Pois comenta-se que, embora o fruto da árvore raramente fique maduro, mesmo assim a vida que existe dentro dele pode dormir através de muitos e muitos anos, e ninguém pode predizer o tempo em que despertará. Lembre-se disso. Pois, se algum dia um fruto amadurecer, ele deve ser plantado, para evitar que a linhagem desapareça do mundo. Aqui ele foi colocado, escondido nas montanhas, da mesma forma que a raça de Tiber Septim ficou escondida nos ermos de Skyrim. E apesar disso a linhagem de Eldergleam é muito mais antiga do que a sua, Alto Rei.
Vorstag encostou delicadamente sua mão á muda de árvore e percebeu, surpreso, que ela se prendia muito de leve á terra; retirou-a sem feri-la, e levou-a de volta à Cidadela. E Vorstag plantou a nova árvore no pátio perto da fonte, e ela começou a crescer rápida e alegremente; e, quando chegou o mês de junho, ficou carregada de flores.
— O sinal foi dado — disse Vorstag —, e o dia não está distante.
E ele colocou vigias sobre as muralhas. Era o dia anterior ao Solstício de Verão quando chegaram à Cidade mensageiros de Costaferro, dizendo que havia uma comitiva de belas pessoas que vinham cavalgando do norte, e que se aproximavam agora das muralhas de Solitude. E o rei disse: — Finalmente chegaram. Que toda a Cidade se prepare!
Exatamente na Véspera do Solstício de Verão, quando o céu estava da cor da safira e estrelas brancas se abriam no leste, enquanto o oeste ainda estava dourado e o ar era fresco e fragrante os cavaleiros desceram a Estrada Norte até os Portões de Solitude. Na frente cavalgavam Orintur e Athellor com a bandeira de prata, e depois deles o Mestre Arngeir, o Representante do Barbacinza, que em dezenas de anos não havia desfeito a peregrinação dos Sete Mil Passos; por último vinha uma velha mulher de curtos cabelos negros amarrados, poderosa entre os homens, em seus olhos queimava um fogo amarelado, carregando o Cetro de Volkihar, e ao seu lado, montando um corcel cinzento, vinha Serana, sua filha, Beleza Eterna de seu povo.
E Ralof, quando a viu chegar brilhando á noitinha, com estrelas na testa e uma doce fragrância a envolvê-la, foi tocado por um profundo sentimento de admiração, e disse a Savos: — Finalmente entendo por que esperamos! Este é o término. Agora não só os dias serão amados, mas as noites também serão belas e bem-aventuradas e todo o medo que existe nelas se extinguirá.
Então o Alto Rei deu boas-vindas aos convidados, que apearam das montarias; Valerica entregou o cetro, e colocou a mão da filha na mão do Alto Rei, e juntos eles subiram para a Cidade Alta, e todas as estrelas floriram no céu. E Vorstag, o Rei Dragonborn, casou-se com Serana de Volkihar na Cidade de Solitude no dia do Solstício de Verão, e cumpriu-se a história de seus árduos trabalhos e de sua longa espera.
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