DdAH: A Batalha de Skuldafn
6 A Viagem dos Homens do Rift
Estava escuro e Asgeld, deitado no chão e enrolado num cobertor, não enxergava nada. Apesar disso, embora a noite estivesse sufocada e sem vento, por toda a sua volta árvores ocultas suspiravam suavemente. Levantou a cabeça. Então ouviu outra vez: um som semelhante a tambores fracos nas colinas cobertas por florestas e nos patamares das montanhas. De repente o rufar cessava e depois começava outra vez em algum outro ponto, ora mais próximo, ora mais distante. Asgeld perguntava-se se os vigias também teriam ouvido. Não se podiam vê-las, mas ele sabia que por toda a volta estavam as companhias do Rift. Sentia no escuro o cheiro dos cavalos, e os ouvia mudar de posição pateando de leve o chão coberto de agulhas de pinheiro. O exército estava acampado em meio aos bosques de pinheiros que se aglomeravam em torno do Réspito.
Apesar de cansado, Asgeld não conseguia dormir. Já havia cavalgado nove dias seguidos, e a escuridão que se adensava ia lentamente pesando cada vez mais em seu coração. Começou a se perguntar por que insistira tanto em vir, quando lhe foram dados todos os motivos, até mesmo a ordem de seu senhor, para ficar para trás. Pensava também se o jarl sabia que sua ordem fora desobedecida e estava zangado. Talvez não. Parecia haver algum entendimento entre Aldiard e Gurdiard, o marechal que comandava a parte do exército na qual estavam. Ele e todos os seus homens ignoravam Asgeld e fingiam não ouvir se ele falasse. Era como se o escudeiro fosse apenas um outro saco que Aldiard estava carregando. Aldiard não era consolo: nunca falava com ninguém. Asgeld se sentia pequeno, inconveniente, e solitário.
O momento agora era de ansiedade, e o exército corria perigo. Estavam a menos de um dia de cavalgada das muralhas externas de Solitude, que circundavam os povoados. Batedores haviam sido enviados à frente. Alguns não tinham retornado.
Outros, voltando às pressas, contaram que a estrada fora tomada por exércitos inimigos. Nela acampava uma tropa inimiga, e alguns homens avançavam pela estrada, não estando a mais de três léguas de distância. Draugrs perambulavam nas colinas e florestas ao longo da estrada. O jarl e Saerlund discutiam seus planos durante as vigias noturnas.
Asgeld queria conversar com alguém e pensava nos amigos. Mas isso só aumentava sua ansiedade. Asgeld desejou ser um Cavaleiro forte como Saerlund, e poder tocar uma corneta ou alguma outra coisa, para ir a galope ao encontro de Savos Aren. Sentou-se, escutando os tambores que batiam de novo, agora bem próximos. De repente ouviu vozes falando baixo, e viu lamparinas fracas, semiveladas, passando através das árvores. Perto dele homens começaram a se mover no escuro em várias direções. Um vulto alto assomou e tropeçou nele, amaldiçoando as raízes das árvores. Asgeld reconheceu a voz de Gurdiard, o Marechal.
— Não sou uma raiz de árvore, Senhor — disse ele —, nem um saco de bagagem, mas um escudeiro escoriado. O mínimo que pode fazer para consertar a situação é me explicar o que está acontecendo.
— Qualquer coisa que consiga acontecer nessa escuridão dos demônios — respondeu Gurdiard. — Mas meu senhor enviou mensagens para que nos preparássemos. Podemos receber ordens para partir a qualquer momento.
— Então o inimigo está vindo? — perguntou Asgeld ansioso. — Aqueles são os tambores deles? Comecei a pensar que fosse a minha imaginação, pois ninguém mais parecia tomar conhecimento deles.
— Não, não — disse Gurdiard. — O inimigo está na estrada, não nas colinas. Você está ouvindo as spriggans, as mulheres-árvore das florestas: essa é a sua maneira de conversarem a distância. Elas ainda habitam as florestas e vivem perto desses fortes antigos, pelo que se comenta. São remanescentes de um tempo mais antigo, vivendo escondidas e em pequeno número, selvagens e cautelosas como os animais. Eles não vão para a guerra com Haafingar e o Estado do Rift, mas agora estão preocupados com a escuridão e a chegada dos draugrs: receiam que a Guerra dos Dragões esteja retornando, o que parece suficientemente provável. Fiquemos agradecidos por não estarem nos caçando: pois elas usam magia envenenada, pelo que se diz, e têm habilidades incomparáveis nas florestas. Mas ofereceram seus serviços a Harrald. Neste momento uma de suas líderes está sendo levado à presença do jarl. Lá vão as luzes. Ouvi dizer isso e mais nada. E agora preciso me ocupar das ordens de meu senhor. Aprume-se, Mestre Saco! — Gurdiard desapareceu nas sombras.
Asgeld não gostara nada daquela conversa de mulheres selvagens e magia envenenada, mas além disso um grande peso o acabrunhava. Era insuportável esperar. Desejava saber o que aconteceria. Levantou-se e logo estava andando com cuidado atrás da última lamparina, antes que ela desaparecesse em meio ás árvores. De repente atingiu um espaço aberto, onde uma pequena barraca fora armada para o jarl, sob uma árvore frondosa. Uma lamparina grande, coberta na parte superior, estava pendurada num galho e projetava no chão um pálido circulo de luz. Sentados ali estavam Harrald e Saerlund e diante deles, no chão, uma figura estranha de madeira, esbelta e comprida. Tinha as pernas curtas, os braços longos e as mãos tinham longos e pontudos dedos de madeira. Um fogo visível queimava dentro dela sem consumir a madeira da qual era feita, e alguns zumbidos de insetos a acompanhavam. Tinha orelhas élficas, e olhos vazios de fogo.
Estavam em silêncio quando Asgeld se aproximou, e então a mulher-árvore começou a falar, aparentemente respondendo a alguma pergunta. Sua voz era suave como o vento, mas gutural; apesar disso, para a surpresa de Asgeld, ela falava a Língua Geral, mas de uma maneira pausada, e palavras rudes se misturavam com ela.
— Não, pai dos soldados — disse ela com sua voz angelical. — Nós não lutar. Só caçar. Mata gori na floresta, odeia os draugrs. Vocês também odeia gori. Nós ajudar como pode. Spriggans ter olhos compridos e orelhas compridas; conhecer todas as trilhas. Spriggans viver aqui antes das Casas de Pedra; antes dos homens altos vir da Água, antes dos elfos-neve surgirem.
— Mas precisamos de ajuda na batalha — disse Saerlund. — Como você e seu povo podem nos ajudar?
— Trazer noticias — disse a mulher-árvore. — Nós olhar das colinas. Subir montanha grande e olhar para baixo. Cidade de Pedra está fechada. Fora dela queima fogo, agora também dentro. Vocês quer ir para lá? Então precisa ser rápido. Mas gori e homens de longe — disse ela acenando seu feminino braço de madeira em direção ao sul — está tudo sentado na estrada de cavalo. Muitos, muitos mais que os soldados aqui.
— Como você pode saber disso? — perguntou Saerlund. O rosto belo da spriggan e seus olhos flamejantes não demonstraram nada, mas sua voz ficou perturbada, contrariada.
— Spriggans ser selvagens, livres, mas não ser crianças — respondeu ela. — Sou uma grande líder, Malaburo-lyeis. Sei contar muitas coisas: estrelas no céu, folhas em árvores e homens no escuro. Você tem uma vintena de vintenas contando dez vezes e mais cinco. Eles ter mais. Grande luta, e quem vai ganhar? E muitos outros estar em volta das muralhas das Casas de Pedra.
— Ai de nós! Ela fala com grande perspicácia — disse Harrald. — E nossos batedores dizem que o inimigo fez trincheiras e fogueiras na estrada. Não podemos dispersá-los num ataque repentino.
— E apesar disso precisamos de grande velocidade — disse Saerlund. — Solitude está em chamas!
— Deixe Malaburo-lyeis terminar! — disse a mulher-árvore. — Ela conhecer mais de uma estrada. Vai levar vocês pela estrada que não tem poço nem gori, só spriggans e bichos. Muitas trilhas feitas quando o povo das Casas de Pedra era mais forte. Cortaram colinas como os caçadores cortam carne de bicho. Spriggans acha que eles come pedra. Agora ninguém passar mais ali. Estrada esquecida, mas não por spriggans. Spriggans mostrar para vocês a estrada. Então vocês matar gori, e expulsar a escuridão má com ferro brilhante, e spriggans poder voltar para dormir na floresta selvagem.
Saerlund e o jarl conversaram entre si. Finalmente Harrald dirigiu-se a mulher-árvore com seu élfico olhar altivo.
— Aceitamos a sua oferta — disse ele. — Pois, embora deixemos uma tropa de inimigos para trás, o que importa isso? Se a Cidade de Pedra cair, então não haverá como retornarmos. Se ela for salva, então o próprio exército draugr ficará isolado. Se você for fiel, Malaburo-lyeis, vamos lhe oferecer uma grande recompensa, e você terá para sempre a amizade do Rift.
— Homens mortos não ser amigos das spriggans vivas, e não dar presentes para elas — disse a mulher-árvore. — Mas, se soldados viver depois da Escuridão, então soldados deixar spriggans em paz na floresta e nunca mais caçar elas como bichos. Malaburo-lyeis não levar vocês para armadilha. Ela mesmo vai junto com o pai dos soldados, e, se levar vocês para o lugar errado, vocês mata ela.
— Que assim seja! — disse Harrald.
— Quanto tempo vai levar para passarmos pelo inimigo e voltarmos para a estrada? — perguntou Saerlund. — Precisamos ir em ritmo de caminhada, se você nos guiar, e não duvido que a trilha seja estreita.
— Spriggans flutuar no ar muito rápido — disse Lyeis. — A trilha é larga para quatro cavalos no Reduto da Torre Quebrada. — Apontou para o sul. — Mas é estreita no começo e no fim. Spriggan andar daqui até a Cidade de Pedra entre o nascer do sol e o meio-dia.
— Então devemos contar pelo menos sete horas para os batedores — disse Saerlund —; mas é preferível calcularmos umas dez horas para o resto da tropa. Imprevistos podem nos atrasar, e, se nosso exército se espalhar, vai demorar muito até que consiga se colocar em ordem quando sairmos das colinas. Que horas são agora?
— Quem pode saber? — disse Harrald. — É tudo noite agora.
— Está tudo escuro, mas não é tudo noite — disse Lyeis. — Quando o sol aparece spriggans sentir, mesmo quando está escondido. Ele já está subindo sobre as montanhas do oeste. O dia começar nos campos do céu.
— Então devemos partir o mais cedo possível — disse Saerlund. — Mesmo assim não podemos ter esperanças de chegar em auxílio de Haafingar ainda hoje.
Asgeld não esperou para ouvir mais nada. Correu e foi se preparar para a convocação da marcha. Essa era a última etapa antes da batalha. Não lhe parecia provável que muitos sobrevivessem a ela. Mas pensou em Savos Aren e nas chamas de Solitude e sufocou o próprio medo.
Tudo correu bem naquele dia, e eles não viram ou ouviram qualquer sinal do inimigo, esperando-os com uma emboscada. As Spriggans tinham preparado uma proteção de caçadoras cuidadosas, de modo que nenhum draugr ou espião pudesse saber do movimento nas colinas. A noite estava mais escura que nunca, à medida que eles se aproximaram da cidade sitiada, e os soldados assaram em longas filas como sombras escuras de homens e cavalos. Cada companhia vinha liderada por um homem da floresta: mas a bela Lyeis caminhava ao lado do jarl. A partida fora mais demorada que o esperado, pois levou muito tempo para que os soldados, andando e puxando os cavalos, encontrassem trilhas nas cordilheiras cobertas por matas espessas atrás do acampamento e na descida para o oculto Reduto da Torre Quebrada.
Pelo desfiladeiro em que chegaram depois, a esquecida estrada de carroças antigamente descera, voltando para o caminho principal que vinha da Cidade através da Ponte do Dragão; mas agora por muitas vidas de homem as árvores tinham dominado a região, e a trilha desaparecera, interrompida e encoberta sob as folhas dos anos incontáveis. Mas os maciços de árvores ofereciam aos soldados sua última esperança de proteção, antes que partissem para a batalha aberta; pois além dos maciços ficavam a estrada e as planícies do Rio Karth, enquanto ao leste e ao sul as encostas tornavam-se nuas e pedregosas.
A companhia que liderava parou, e, à medida que aqueles que a seguiam se enfileiravam e saiam através da fenda do Reduto da Torre Quebrada, eles se espalharam procurando locais de acampamento sob as árvores cinzentas. O jarl convocou os capitães para um conselho. Saerlund enviou batedores para espionar a estrada, mas a bela Lyeis balançou a cabeça.
— Não adianta mandar soldados — disse ela. — Spriggans já viu tudo o que pode se ver no ar ruim. Logo chegam aqui para conversar comigo. Os capitães vieram e então, saindo das árvores, outras figuras arvorêscas se aproximaram, tão semelhantes à Lyeis que Asgeld mal conseguia distingui-las.
Falaram com Lyeis numa estranha língua élfica. De repente, Lyeis voltou-se para o jarl. — Spriggans dizer muita coisa — disse ela. — Primeiro precisar cuidado e ainda muitos homens acampados, uma hora de caminhada daqui — disse ela acenando o braço. — Mas ninguém entre este lugar e as novas muralhas do Povo das Pedras. Muitos trabalhando ali. Muralhas no chão: gori derruba elas com o trovão da terra e com bastões de ferro preto. Não tomam cuidado e não olham em volta. Achar que os amigos deles vigia todas as estradas!
Dizendo aquilo, a bela Lyeis emitiu um curioso ruído gorgolejante, dando a impressão de estar rindo.
— Boas notícias! — exclamou Saerlund. — Mesmo nesta escuridão, a esperança reluz outra vez. As estratégias do Devorador de Mundos frequentemente se revertem a nosso favor. A própria escuridão amaldiçoada nos tem sido uma proteção. E, agora que ele está ávido por destruir Haafingar sem deixar pedra sobre pedra, seus draugrs afastaram meu maior temor. A muralha externa poderia ter sido ocupada por muito tempo, e usada contra nós. Agora podemos passar por ela – se conseguirmos chegar até lá.
— Mais uma vez lhe agradeço, Malaburo-lyeis da floresta — disse Harrald. — Que a boa sorte o acompanhe, pelas boas notícias e por tudo!
— Matar gori! Matar os draugrs! Nenhuma outra palavra agrada às spriggans agora — respondeu Lyeis. — Expulsar ar ruim e escuridão com ferro brilhante!
— Para fazer essas coisas é que cavalgamos até aqui — disse o jarl —, e vamos tentá-las. Mas o que conseguiremos só o amanhã mostrará.
Malaburo-lyeis se agachou no chão e tocou a terra com a testa ossuda em sinal de despedida. Então levantou-se, como se fosse partir. Mas de repente parou, olhando para cima como um animal assustado da floresta que fareja algo diferente no ar. Seus olhos queimaram forte.
— Vento está mudando! — exclamou ela, e com isso, como num piscar de olhos, ela e suas companheiras desapareceram dentro da escuridão, e nunca mais foram vistos por nenhum homem do Rift. Não muito tempo depois, na distância ao leste, os tambores vibraram outra vez. Mas nenhum coração em todo o exército foi tomado por qualquer tipo de receio de que as spriggans não fossem fiéis, embora pudessem parecer estranhas e rudes, mas belas.
— Não precisamos mais de orientação — disse Gurdiard —, pois há cavaleiros no exército que já foram até Solitude em tempos de paz. Eu sou um deles. Quando atingirmos a estrada, ela desviará para o norte, e restarão ainda sete léguas à frente antes de chegarmos à muralha dos povoados. Ao longo da maior parte daquele caminho há mato dos dois lados da estrada. Naquele trecho, os mensageiros de Haafingar calculavam atingir sua maior velocidade. Podemos cavalgar por ali com rapidez e sem muito barulho.
— Então, uma vez que precisamos contar com atos cruéis e temos necessidade de todo o nosso vigor — disse Saerlund —, sugiro que descansemos agora, e partamos de noite, planejando nossa marcha de tal forma que possamos avançar sobre os campos quando o dia estiver no seu ponto mais claro, ou quando nosso jarl der o sinal.
O jarl concordou com isso, e os capitães se retiraram. Mas logo Ingmarke voltou. — Os batedores não encontraram nada para reportar além da floresta cinzenta, senhor — disse ele —, exceto dois homens apenas: dois homens mortos e dois cavalos mortos.
— Bem — disse Saerlund. — E então?
— O seguinte, senhor: esses homens eram mensageiros de Haafingar; provavelmente Leontor era um deles. Pelo menos sua mão ainda segurava a Flecha de Solitude; mas sua cabeça fora decepada. E também isto: pelos vestígios parece que estavam fugindo em direção ao leste quando caíram. Pelo que presumo, encontraram o inimigo já sobre a muralha externa, ou atacando-a, quando retornaram — e isso teria sido duas noites atrás, se usaram cavalos descansados de seus postos, como é o costume deles. Não conseguiram chegar à Cidade e retornaram.
— Lamentável! — disse Harrald. — Então Elisif não recebeu noticias de nossa marcha, e vai perder a esperança de que possamos chegar em seu auxilio.
— A necessidade não aceita a demora, mas antes tarde do que nunca, meu irmão — disse Saerlund. — E é possível que desta vez o velho ditado seja mais verdadeiro que em qualquer outra ocasião anterior, desde que foi pela primeira vez pronunciado.
Era noite. Dos dois lados da estrada o exército do Rift avançava em silêncio. Agora o caminho, passando pelos Redutos de Bruca, desviava para o norte. Ao longe, quase em linha reta, havia um clarão vermelho sob o céu negro. Estavam se aproximando da Ponte do Dragão de Haafingar, mas o dia ainda não chegara.
O jarl cavalgava no meio da companhia da frente, acompanhado pelos homens de sua casa. O batalhão de Gurdiard vinha em seguida, e agora Asgeld percebia que Aldiard deixara sua posição e, no escuro, avançava firme para a frente, até que por fim estava cavalgando logo atrás da guarda do jarl. Houve uma parada. Asgeld ouviu vozes na vanguarda falando baixo. Os cavaleiros que se tinham aventurado quase até a muralha retornaram. Vieram ter com o jarl.
— Há um grande incêndio, senhor — disse um deles. — A cidade está envolta em chamas e o campo está cheio de inimigos. Mas parece que todos se retiraram para o assalto. Pelo que podemos supor, restam poucos na muralha externa, e estão desatentos, preocupados em destruir.
— Lembra-se das palavras da spriggan, senhor? — disse um outro. — Eu vivo em Riften em tempos de paz; Fenreld é meu nome, e a mim também o ar traz notícias. O vento já está virando. Há uma brisa vinda do sul, há nela um cheiro de mar, embora possa ser muito fraco. A manhã trará novidades. Sobre a fumaça surgirá a aurora quando o senhor passar pela muralha.
— Se o que fala é verdade, Fenreld, então que você viva a partir deste dia muitos anos de felicidade — disse Harrald. Virou-se para os homens de sua casa que estavam próximos, e falou agora numa voz clara de forma que também vários dos cavaleiros do primeiro batalhão puderam ouvi-lo:
— É chegada a hora, Soldados do Rift, filhos de Law-Giver! O inimigo e o fogo estão diante de vocês, e suas casas ficaram para trás. Apesar disso, embora vocês lutem num campo estrangeiro, para sempre terão direito à glória que colherem lá. Fizeram juramentos: agora devem cumpri-los todos, ao senhor, à terra e á aliança de amizade.
Os homens bateram as lanças contra os escudos.
— Saerlund, meu irmão! Você deve liderar o primeiro batalhão — disse Harrald —, que deverá ir atrás da bandeira do jarl, ao centro. Gurdiard, conduza sua companhia para a direita quando passarmos pela muralha. E Gonnar deverá conduzir a sua para a esquerda. Que as outras companhias que virão atrás sigam essas três, como puderem. Ataquem onde quer que haja uma concentração inimiga. Não podemos fazer outros planos, pois ainda não sabemos como estão as coisas no campo. Avante agora, e não temam escuridão alguma!
A companhia da frente avançou na velocidade possível, pois ainda estava muito escuro, a despeito de qualquer mudança que Fenreld pudesse ter previsto. Asgeld vinha montado atrás de Aldiard, segurando-se com a mão esquerda, enquanto tentava com a outra soltar a espada de sua bainha. Agora sentia de forma amarga a verdade das palavras do jarl: numa batalha dessas, o que você poderia fazer, Asgeld?, "Apenas isso", pensou ele: "estorvar um cavaleiro e esperar na melhor das hipóteses manter-me na sela e não ser pisoteado até a morte por cascos galopantes!"
Era menos de uma légua até o ponto onde outrora as muralhas da Ponte do Dragão se erguiam. Logo as atingiram, cedo demais para Asgeld. Irromperam gritos selvagens, e houve algum choque de armas, que no entanto foi breve. Os draugrs ocupando a vila eram poucos, e ficaram assustados; foram rapidamente mortos ou expulsos. Diante da ruína da ponte, o jarl parou outra vez. O primeiro batalhão se aproximou e ficou atrás dele, e dos dois lados.
Aldiard se mantinha próximo ao jarl, embora a companhia de Gurdiard estivesse distante e à direita. Os homens de Gonnar desviaram e passaram contornando ponte até chegar a uma grande fenda mais para o leste. Asgeld espiou por trás das costas de Aldiard. Distante, talvez há dez milhas ou mais, havia um grande incêndio, mas entre ele e os soldados linhas de fogo fulguravam num crescendo constante, a mais próxima estando a menos de uma légua. O escudeiro conseguia distinguir pouca coisa mais na planície escura, e até agora não via qualquer esperança de aurora, nem sentia qualquer vento, alterado ou não.
Agora o exército do Rift avançava em silêncio, entrando no campo de Haafingar, inundando-o lentamente mas sem parar, como a maré que sobe e penetra as brechas de um dique que os homens consideravam impermeável. Mas a mente e a vontade do Capitão Morto estavam inteiramente voltadas para a cidade que ruía, e até o momento não lhe chegara qualquer mensagem advertindo-o de que seus planos poderiam apresentar alguma falha.
Depois de um tempo, o jarl conduziu seus homens um pouco para o oeste, até chegar a um local que ficava entre o fogo do cerco e os campos externos. Ainda não haviam sido desafiados, e ainda Harrald não dera nenhum sinal. Por fim ele parou mais uma vez. A Cidade agora estava mais próxima. Havia no ar um cheiro de fogo e uma sombra da própria morte. Os cavalos sentiam-se inquietos. O jarl estava montado em seu corcel, imóvel, assistindo à agonia de Solitude, como se tomado por uma angústia repentina, ou pelo terror. O próprio Asgeld se sentia como se um grande fardo de terror e dúvida houvesse caído sobre ele. Seu coração batia devagar. O tempo parecia se liberar na incerteza. Haviam chegado tarde demais! Tarde demais era pior que nunca! Talvez Harrald vacilasse, talvez curvasse a cabeça e se virasse, indo embora furtivamente para se esconder nas colinas.
Então, de súbito, Asgeld finalmente a sentiu, sem sombra de dúvida: uma mudança. Sentia o vento no rosto! Surgia uma luz fraca. Distantes, muito além e ao sul, era possível divisar nuvens como formas cinzentas e remotas, subindo, flutuando: a aurora estava atrás delas. Mas naquele mesmo momento houve um clarão, como se um relâmpago tivesse saltado da terra sob a Cidade. Por um cáustico momento permaneceu feito luz deslumbrante em negro e branco, com sua extremidade superior como uma agulha em faiscas; e depois, quando a escuridão se fechou mais uma vez, veio retumbando pelas colinas um grande estrondo.
Àquele som, a figura curvada do jarl de repente se aprumou. Agora ele parecia alto e orgulhoso novamente; e levantando-se nos estribos gritou numa voz poderosa, mais cristalina do que qualquer um já ouvira um homem mortal produzir antes:
Acordem, acordem,
Cavaleiros de Law-Giver!
Duros feitos despertam;
jugo e massacre.
Quebrada será a lança,
trincado será o escudo,
em dia de espada,
vermelho, antes de o sol raiar!
Avante agora, avante!
Avante para Haafingar!
E com isso tomou uma grande corneta da mão de Rogstein, seu porta bandeira, e produziu um clangor tão forte que a corneta se partiu em dois pedaços. E imediatamente todas as cornetas do exército se ergueram em música, e o toque das cornetas do Rift naquela hora era como tempestade sobre a planície, e como um trovão nas montanhas.
Avante agora, avante! Avante para Haafingar!
De repente o jarl gritou para seu corcel, e o cavalo disparou. Atrás dele sua bandeira tremulava ao vento, duas espadas se cruzando num campo roxo, mas o jarl era mais veloz. Depois vieram numa carreira desabalada os cavaleiros de sua casa, mas o jarl sempre se mantinha à frente. Saerlund cavalgava ali, a vanguarda do primeiro batalhão rugia como uma onda enorme que se arrebenta em espuma na praia, mas não se podia alcançar Harrald. Parecia um condenado à morte, ou então a fúria da batalha de seus antepassados corria como um fogo novo em suas veias, e ele ia montado em seu corcel como um deus antigo, talvez mesmo como Tsun, na batalha dos Ehlnofey, quando o mundo era jovem. Seu escudo roxo estava descoberto e era surpreendente ver seu brilho como uma imagem do Sol, e a relva se incendiava verde ao redor dos pés de seu corcel. Pois a manhã chegara, a manhã e um vento do mar; a escuridão fora removida, e os exércitos de Skuldafn gemeram, tomados de terror, fugiram e morreram, pisoteados pelos cascos da ira. E então todo o exército do Rift irrompeu numa canção, e cantando enquanto matavam, pois a alegria da batalha estava neles, e o som de sua música, que era belo e terrível, chegava até a Cidade.
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