DdAH: A Batalha de Skuldafn
7 A Batalha de Skuldafn
Mas não era um chefe-draugr nem um salteador qualquer quem comandava o ataque contra Haafingar. A escuridão se desfazia precocemente, antes da data que seu Mestre havia determinado: a sorte o traíra pelo momento, e o mundo se voltara contra ele; a vitória lhe escapava das mãos no momento em que as estendia para agarrá-la. Mas seu braço era longo. Ainda estava no comando, controlando grandes poderes. Rei de Ansilvund, um tipo muito mais forte de draugr, um Sacerdote Dracônico, ele ainda tinha muitas armas. Abandonou o Portão e desapareceu.
O Jarl Harrald do Estado do Rift atingira a estrada que conduzia do Portão para o Rio, e rumou para a Cidade, agora a menos de uma milha de distância. Diminuiu um pouco a velocidade, espreitando novos inimigos, e seus cavaleiros o alcançaram; Aldiard estava entre eles. À frente e mais próximos das muralhas os homens de Gurdiard estavam em meio às torres de sítio, apunhalando, matando, empurrando os inimigos para dentro das trincheiras em chamas. A metade norte dos pântanos estava quase toda devastada, e lá se viam acampamentos ardendo; os draugrs fugiam na direção do Rio como bandos de animais á frente de caçadores; os homens do Rift iam de um lado para o outro como bem queriam. Mas ainda não tinham derrubado o cerco, nem tomado o Portão. Muitos inimigos estavam diante dele, e na metade mais distante da planície ainda havia outras tropas por combater. Ao sul, além da estrada, estava a maior força dos alik’r, e lá os seus cavaleiros se reuniam em torno da bandeira de seu capitão. Ele olhou e na luz que crescia viu a bandeira do jarl; percebeu que ela estava muito à frente da batalha e com poucos homens em volta. Então encheu-se de uma ira sanguinária e soltou um grito; exibindo sua bandeira, serpente negra sobre dourado e vermelho, partiu contra o cavalo branco e o campo verde com uma grande força de homens; as cimitarras nas mãos dos sulistas pareciam estrelas faiscando.
Então Harrald percebeu a presença do inimigo, e não esperou pelo ataque: gritando para seu corcel, atirou-se ao seu encontro. Grande foi o estrondo do choque entre os dois. Mas ardeu com mais intensidade a fúria branca dos homens do norte que eram mais habilidosos e ferinos com lanças longas. Eram poucos mas abriram caminho em meio aos sulistas como um raio na floresta. Bem ao centro da tropa ia Harrald filho de Laila, e sua lança se partiu no momento em que ele derrubou o capitão inimigo.
Sacou então a espada, avançou contra a bandeira, derrubando seu mastro e quem a carregava, e a serpente negra soçobrou. Todos da cavalaria oponente que escaparam da morte viraram-se e fugiram para longe. Mas eis que, subitamente, em meio à glória do jarl, seu escudo roxo embaçou-se. A nova manhã apagou-se no céu. A escuridão caiu sobre ele. Os cavalos empinavam-se relinchando. Homens atirados das selas gemiam no chão.
— Sigam-me! Sigam-me! — gritou Harrald. — Levantem-se, soldados! Não temam a escuridão! — Mas seu corcel, num terror alucinado, levantou-se sobre as pernas traseiras, lutando com o ar, e então, com um rincho horrível, caiu sobre o próprio lombo: uma lança negra o atingira. O jarl ficou debaixo do cavalo.
A grande sombra desceu como uma nuvem. E, para a surpresa de todos, era uma criatura alada: se era um pássaro, então era maior que todos os outros pássaros, e era nu, sem penas ou plumas, e suas enormes asas eram como membranas de couro entre dedos de garras; e seu corpo fedia. Talvez fosse uma criatura de um mundo mais antigo, cuja espécie, sobrevivendo em montanhas esquecidas e frias sob a lua, perdurara além de seus dias, e em ninhos hediondos criara esta última criatura extemporânea, voltada para o mal.
E o Devorador de Mundos a acolhera, alimentando-a com carnes nojentas, até que crescesse além da medida de todos os seres voadores; depois deu-a de presente a seu servidor, para que fosse sua montaria. A criatura veio descendo, descendo, e então, fechando as membranas que lhe cobriam os dedos, soltou um grito crocitante, e pousou sobre o corpo do corcel, enterrando nele as garras e abaixando o pescoço longo e nu. Na criatura estava montado um vulto, coberto com um manto roxo e exoesqueleto dourado, enorme e ameaçador. Usava uma coroa de ouro, mas entre coroa e capa não nenhum rosto para se ver, mas uma terrível máscara inexpressiva de ébano escuro: Nahkriin, o Senhor dos Sacerdotes Dracônicos.
Voltara para o ar, chamando sua montaria antes que a escuridão cedesse, e agora vinha de novo, trazendo a destruição, transformando esperança em desespero, e vitória em morte. Brandia uma enorme espada.
Mas Harrald não estava completamente abandonado. Os cavaleiros de sua casa jaziam mortos ao redor dele, ou então, dominados pela loucura de seus cavalos, tinham sido levados para longe. Mas um ainda permanecia lá: Aldiard, o jovem, fiel acima de qualquer medo; e chorava, pois amara seu jarl como a um pai. Durante todo o ataque, Asgeld cavalgara ileso atrás dele, até a chegada da Sombra; então o corcel cinzento que ele montava, em seu terror, derrubou os dois ao chão, e agora corria alucinado sobre a planície. Asgeld se arrastava de quatro como um animal que não enxerga, e tamanho terror o dominava que ele se sentia doente e cego.
— Homem do Jarl! Homem do Jarl! — seu coração gritava. — Você deve ficar ao lado dele. O senhor será como um pai para você, foi isso o que você disse.
Mas sua vontade não respondia, e o corpo tremia. Não ousava abrir os olhos nem olhar para cima. Então, na escuridão de sua mente, teve a impressão de ouvir Aldiard falando: mas agora sua voz parecia estranha, fazendo-o lembrar de alguma outra voz que já ouvira antes.
— Vá embora, criatura asquerosa, senhor das aves carniceiras! Deixe os mortos em paz!
Uma voz fria respondeu:
— Não te intrometas entre o dovah e sua presa! Ou ele te matará na tua hora. Rok fen kriin hi ko hin tiid. Vai levar-te embora para as casas de lamentação, além de toda a escuridão, onde tua carne será devorada, e tua hahlor, mente murcha, será desnudada diante do Devorador de Mundos.
Uma espada tiniu ao ser sacada.
— Faça o que quiser; vou impedi-lo, se conseguir.
— Impedir-me? Hi los mey. Nenhum homem mortal pode me impedir!
Então Asgeld ouviu o mais estranho de todos os sons daquela hora. Parecia que Aldiard estava rindo, e sua voz cristalina era como aço.
— Mas não sou um homem mortal! Você está olhando para uma mulher. Sou Lydia, sentinela do Jarl Balgruuf de Whiterun e servidora do Jarl Harrald de Riften. Você está se interpondo entre mim e meu senhor, que agora é para mim um parente. Suma daqui, se não for imortal! Pois seja vivo ou morto-vivo obscuro, vou golpeá-lo se tocar nele.
A criatura alada gritou contra ela, mas o Sacerdote Dracônico não respondeu e ficou em silêncio, como se tomado por uma dúvida repentina. Por um momento, o coração de Asgeld foi presa de puro assombro. Abriu os olhos e viu que o negrume subira acima deles. Ali, a alguns passos dele, estava o grande animal, e tudo parecia escuro ao seu redor, e sobre ele assomava o Senhor dos Sacerdotes como uma sombra de desespero. Um pouco á esquerda estava aquela que ele chamara de Aldiard. Mas o elmo de seu segredo lhe caíra da cabeça, e os cabelos negros, libertos de seus laços, reluziam numa noite pálida sobre os ombros. Os olhos cinzentos como o mar eram duros e cruéis, e apesar disso havia lágrimas em suas faces. Segurava uma espada na mão, e erguia o escudo contra o horror dos olhos do inimigo. Era Lydia, e também Aldiard. Pois na mente de Asgeld de repente surgiu, como um clarão, a imagem do rosto que ele vira na cavalgada, partindo da Pedra da Sombra: o rosto de alguém que vai em busca da morte, sem qualquer esperança.
Seu coração encheu-se de pena, misturada a uma grande surpresa, e de repente a coragem de sua raça, de inflamação lenta, despertou. Cerrou a mão. Ela não deveria morrer, tão bela, tão desesperada! Pelo menos não morreria sozinha, sem ajuda. O rosto do inimigo não estava voltado para ele, mas mesmo assim o escudeiro mal ousava se mexer, aterrorizado com a possibilidade de que aqueles olhos mortais recaíssem sobre ele. Devagar, devagar, começou a se arrastar para o lado; mas o Capitão Morto, cheio de dúvidas e de intenções malignas em relação à mulher diante dele, não deu ao escudeiro mais atenção do que daria a um verme na lama.
De repente o grande animal bateu suas asas hediondas, e o vento produzido por elas era nojento. Mais uma vez subiu aos ares, e depois se arremessou rápido contra Lydia, guinchando, atacando com bico e garras. Mesmo assim ela não recuou: donzela dos campos, filha de thanes, esbelta e ao mesmo tempo como uma lâmina de aço, bela mas terrível. Desferiu um golpe rápido, habilidoso e fatal. Enfiou a espada por dentro da carapaça mais fina do que comum nos dragões da montaria do Sacerdote Dracônico, e a cabeça sem vida caiu como uma pedra. Pulou para trás no momento em que a enorme figura caiu destruída, as vastas asas abertas, inerte no chão; e com sua queda a sombra desapareceu. Uma luminosidade caiu ao redor de Lydia, e seus cabelos reluziram aos raios do sol que nascia.
Da ruína ergueu-se o Sacerdote Dracônico, alto e ameaçador, assomando sobre ela. Com um grito de ódio que feria os ouvidos como veneno, desferiu um golpe com sua espadas. Partiu-se em pedaços o escudo de Lydia, e seu braço ficou quebrado; ela cambaleou e caiu de joelhos. Ele pairava sobre ela como uma nuvem, os olhos faiscando; ergueu sua espada para matar.
Mas de repente ele também cambaleou, com um grito lancinante de dor, e seu golpe passou longe, atingindo o chão. A espada de Asgeld o ferira por trás, rasgando de cima a baixo o manto negro e, passando por baixo da couraça metálica, atravessara o tendão atrás de seu forte joelho.
— Lydia! Lydia! — gritava Asgeld.
Então cambaleando, esforçando-se para se levantar, com suas últimas forças, ela enfiou a espada entre coroa e máscara, quando os grandes ombros se curvaram diante dela. A espada se estilhaçou faiscando em mil fragmentos. A máscara rolou para o chão estrepitosamente. Lydia caiu para a frente, sobre o corpo de seu inimigo. Mas eis que o manto, máscara e a couraça estavam vazios. Jaziam agora disformes no chão, rasgados e amontoados; e um grito subiu estremecendo o ar, e foi sumindo num gemido chiado, passando com o vento, feito voz fraca e sem corpo, que morreu e foi engolida, e nunca mais foi ouvida naquela era deste mundo.
E lá estava Asgeld, o escudeiro, em meio aos mortos, piscando como uma coruja à luz do dia, pois as lágrimas turvavam-lhe a vista; e através de uma névoa ele olhou para a bela cabeça de Lydia, que estava deitada e imóvel; olhou então para o rosto do jarl, que caíra em meio à própria glória. Pois seu corcel, em sua agonia, rolara o corpo outra vez para longe dele; apesar disso fora a ruína de seu senhor.
Asgeld abaixou-se e levantou a mão do jarl para beijá-la, e foi tomado de surpresa: Harrald abriu os olhos, que ainda brilhavam, e falou numa voz tranquila, apesar da dificuldade.
— Adeus, Mestre Asgeld! — disse ele. — Meu corpo está destruído. Vou ao encontro de meus antepassados. E mesmo na poderosa companhia deles eu agora não me sentirei envergonhado. Derrubei a serpente negra. Uma manhã cinzenta, um dia alegre, e um ocaso de ouro!
Asgeld não conseguiu dizer nada, mas chorou mais uma vez.
— Perdoe-me, senhor — disse ele finalmente —, se desobedeci á sua ordem, e apesar disso não consegui fazer mais nada a seu serviço do que chorar na sua despedida.
O jovem jarl sorriu.
— Não chore! Está perdoado. Não se pode repudiar um grande coração. Viva feliz agora, e, quando estiver em paz tomando sua skooma, pense em mim! Pois nunca mais poderei me sentar ao seu lado na Fortaleza da Névoa, como prometi, nem escutarei você falando sobre pescaria. — Fechou os olhos, e Asgeld curvou-se ao lado dele. De repente o jarl falou de novo. — Onde está Saerlund? Pois meus olhos escurecem, e eu gostaria de vê-lo antes de partir. Eu desfaço a ordem de minha mãe ao deserdá-lo, e insiro meu irmão novamente na linha de sucessão. Ele deve me suceder como jarl. E eu gostaria de mandar uma palavra para Lydia. Ela, ela não queria que eu a deixasse, e agora não a verei de novo, ela que agora me é mais querida que uma filha.
— Senhor, senhor — começou Asgeld, gaguejando. — Ela está... — mas naquele momento houve um grande clamor, e por toda a volta cornetas e trombetas ressoaram.
Asgeld olhou ao redor: esquecera a guerra e o mundo ao seu lado, e tinha a impressão de que muitas horas haviam-se passado desde que o jarl cavalgara em direção à própria morte, embora na verdade fizesse pouco tempo. Mas agora percebia que estavam correndo o perigo de ficarem presos bem no centro da grande batalha que logo começaria.
Novas forças do inimigo subiam depressa pela estrada que vinha do Rio; dos pontos sob as muralhas vinham as legiões de Skuldafn; dos campos do sul vinham a pé homens do Deserto Alik’r, precedidos por cavaleiros, e atrás deles assomavam os enormes lombos dos dragões do sul, carregando torres de guerra. Mas ao norte o elmo de Saerlund liderava a grande dianteira dos homens do Rift, que ele outra vez reunira e ordenara; da Cidade veio toda a força de homens que lá havia, e a insígnia de Volskygge vinha na vanguarda, expulsando do Portão o inimigo.
Por um instante o pensamento passou pela mente de Asgeld: "Onde está Savos Aren? Não está aqui? Não poderia ter salvo o Jarl e Lydia?" Mas neste momento Saerlund se aproximava depressa, e com ele vinham os cavaleiros sobreviventes, que agora tinham dominado os cavalos. Olharam assombrados a carcaça do animal cruel que jazia ali, e seus cavalos recusaram-se a se aproximar. Mas Saerlund saltou da sela, e a tristeza e o desespero caíram sobre ele quando se acercou do jarl e parou ao seu lado em silencio.
Um dos cavaleiros tomou a bandeira real da mão de Rogstein, o porta-bandeira que jazia morto, e a ergueu. Lentamente Harrald abriu os olhos. Vendo a bandeira, fez um gesto: ela deveria ser entregue a Saerlund.
— Salve, meu irmão! Salve, Jarl do Rift! — disse ele. — Cavalgue agora para a vitória! Mande meu adeus ao povo, e mandarei seu olá a nossa mãe! — Assim morreu, sem saber que Lydia jazia ao seu lado. E aqueles que estavam perto choraram, gritando:
— Jarl Harrald! Jarl Harrald!
Mas Saerlund lhes disse:
— Não chorem demais! Foi um forte quem caiu, foi digno seu fim. Erguida sua tumba, mulheres chorarão. Agora a guerra chama! — Mas ele próprio chorava enquanto falava. — Que os cavaleiros do jarl permaneçam aqui — disse ele — e com a devida honra levem o seu corpo, para evitar que a batalha o pisoteie! Sim, e façam o mesmo com todos os homens do jarl que aqui jazem. — Olhou para os mortos, relembrando seus nomes.
Então, de repente, viu a bela Lydia deitada, e a reconheceu. Parou um momento, como um homem que no meio de um grito é atingido por uma flecha que lhe trespassa o coração; depois seu rosto ficou mortalmente branco, e uma fúria fria cresceu dentro dele, de tal forma que não conseguiu dizer nada por um tempo. Uma sensação de morte o dominou.
— Lydia, Lydia, minha bela! — gritou ele finalmente. — Lydia, como veio parar aqui? Que loucura ou feitiçaria é esta? Morte, morte, morte! Morte, leva-nos a todos!
Então, sem pensar nem esperar a aproximação dos homens da Cidade, enterrou as esporas no cavalo e voltou direto para a frente do grande exército, tocando uma corneta, e gritando para que começassem o ataque. Por sobre o campo ecoou sua voz cristalina, chamando:
— Morte! Cavalguem, cavalguem para a morte e para a ruína, e para o fim do mundo!
E com isso o exército começou a se mover. Mas homens do Rift não cantavam mais. Morte, gritavam em uma só voz terrível, e, aumentando a velocidade como uma grande onda, sua batalha circundou seu jarl caído e avançou rugindo em direção ao oeste.
E ainda Asgeld, o escudeiro, estava ali, piscando entre as lágrimas, e ninguém lhe dirigiu a palavra; na realidade, ninguém parecia tê-lo notado. Limpou o rosto e abaixou-se para apanhar o escudo roxo que Lydia lhe dera, e que ele jogara às costas. Então procurou a espada que deixara cair, pois, no momento em que golpeava o inimigo, sentiu o braço adormecer, e agora só conseguia usar o esquerdo. E ora vejam só, lá estava sua espada, mas a lâmina fumegava como um ramo seco que foi jogado no fogo; enquanto assistia, Asgeld viu a espada se torcendo e encolhendo, até se consumir.
Homens agora erguiam o jarl, e, dispondo capas sobre lanças, improvisaram uma maca para levá-lo até a Cidade; outros levantaram Lydia devagar e a levaram atrás dele. Mas não puderam remover do campo, na mesma hora, os homens da casa do jarl; sete dos cavaleiros do jarl haviam caído ali. Então separaram-nos dos corpos de seus inimigos e da carcaça do animal cruel e fincaram lanças em torno deles.
Agora, devagar e triste, Asgeld caminhava ao lado dos homens que levavam os mortos, sem dar mais atenção à batalha. Estava cansado e cheio de sofrimento, e suas pernas tremiam como se ele estivesse com calafrios. Uma grande chuva chegou do Mar, e parecia que todos os seres choravam por Harrald e Lydia, extinguindo as fogueiras da Cidade com lágrimas cinzentas. Foi através de uma névoa que de repente o escudeiro viu a vanguarda dos homens de Haafingar se aproximando. Clagius, Príncipe de Volskygge, dirigiu-se até eles e conteve sua montaria, o Invencível.
— Que fardo carregam, Homens do Rift? — gritou ele.
— O Jarl Harrald — responderam eles. — Está morto. Mas agora o Jarl Saerlund cavalga para a batalha: aquele com o elmo de prata ao vento.
Então o príncipe desceu do cavalo e se ajoelhou ao lado da maca, prestando homenagem ao jarl e ao seu grande ataque; e chorou. Levantando-se, olhou então para Lydia e ficou surpreso.
— Temos aqui uma mulher, com certeza? — disse ele. — Será que até mesmo as mulheres do Rift vieram para a guerra em nosso auxilio?
— Não! Apenas uma — responderam eles. — Esta é a Senhora Lydia, de Whiterun, e não sabíamos nada sobre sua vinda até esta hora, o que lamentamos muito.
Então o príncipe, vendo a beleza dela, embora o rosto estivesse pálido e frio, tocou-lhe a mão no momento em que se debruçou para olhar mais de perto. — Homens do Rift! — gritou ele. — Não há curandeiros entre vocês? Ela está ferida, talvez mortalmente, mas acho que ainda vive.
Aproximou o metal polido que protegia seu braço dos lábios frios dela e, para a surpresa de todos, uma pequena névoa se formou nele, quase invisível.
— Agora precisamos de pressa! — disse ele, enviando um homem de volta à Cidade para buscar ajuda. Mas ele, curvando-se diante dos mortos, disse-lhes adeus, e montando de novo cavalgou para a batalha.
A fúria da luta aumentava agora nos pântanos de Forgulnthur; e o ruído do entrechoque das armas subia aos céus, acompanhado pelos gritos dos homens e pelo relinchar dos cavalos. Soavam cornetas e trombetas zurravam, e os dragões do sul urravam ao serem fustigados para a guerra. Sob as muralhas ao sul da Cidade, os homens de Haafingar sem montarias agora atacavam as legiões de Skuldafn que ainda estavam ali reunidas, resistindo. Mas os cavaleiros se dirigiram para os pântanos, em auxílio de Saerlund: Ariulcabor, o Alto, Guardião das Chaves, e o Senhor do Alto Portão; Dervorin das Cavernas Costaferro; o Príncipe Clagius, com seus cavaleiros em toda a sua volta.
O auxilio aos homens do Rift não chegou demasiado cedo; a sorte se voltara contra Saerlund, e sua fúria o traíra. A grande ira de seu ataque tinha derrotado inteiramente a dianteira do inimigo, e as grandes cunhas de seus cavaleiros haviam penetrado fundo nas fileiras dos sulistas, derrubando seus cavaleiros e vitimando os que iam a pé. Mas, onde quer que surgissem os dragões que não voavam, por ali os cavalos não passavam, recuando e desviando; os grandes monstros continuavam invictos, e erguiam-se como torres de defesa; os alik’r se agrupavam em volta deles. Se os homens do Rift, no inicio de seu ataque, totalizaram um número três vezes menor que os alik’r sozinhos, logo as coisas pioraram para eles, pois uma nova força despejava-se agora nos campos, vinda de Águianeve. Haviam sido reunidos lá, para saquear a cidade e violar Haafingar, aguardando o chamado de seu Capitão.
Ele agora estava destruido, e Erarne, o tenente draugr de Skuldafn, os enviara para a luta: elfos negros com magia terrível, que vinham das partes sombrias de Morrowind, e vampiros da Ordem Vampyrum de Cyrodiil; sulistas de vermelho e, provenientes de Orsinium, em High Rock, orcs maus semelhantes a trolls, com olhos brancos e línguas vermelhas. Alguns ainda corriam na retaguarda dos homens do Rift, outros se mantinham no oeste, para afastar as forças de Haafingar e evitar que elas se juntassem às do Rift.
Foi exatamente quando o dia começava a se voltar contra Haafingar, e sua esperança vacilava, que um novo grito subiu na Cidade, no meio da manhã, com um vento forte soprando, a chuva se dirigindo para o norte e o sol brilhando. Naquele ar claro os vigias das muralhas divisaram ao longe uma nova visão de terror, e perderam as últimas esperanças. Pois o Rio Karth, a partir da curva da Companhia de Exportação Imperial, corria de maneira que da Cidade os homens conseguiam avistar sua extensão por algumas léguas, e os que enxergavam melhor podiam ver qualquer navio que se aproximasse. Olhando naquela direção, gritavam desesperados; negra contra a água reluzente eles divisaram uma frota trazida pelo vento: barcos e navios de grande calado com muitos remos, com velas negras enfunadas ao vento: quando a névoa passou, puderam ver o desenho de uma máscara com olhos semelhantes aos das máscaras dos Sacerdotes Dracônicos, mas com as extremidades diferentes, como se tentáculos saíssem da máscara.
— Os Cultistas de Solstheim! — gritavam os homens. — Os Cultistas de Solstheim! Olhem! Os Cultistas de Solstheim estão chegando. Então Dawnstar foi tomada, e também Winterhold. Os Cultistas estão nos atacando! É o último golpe do destino!
E alguns, num movimento desordenado, pois não se achava ninguém para comandá-los na Cidade, tocaram os sinos e soaram o alarme; outros tocaram as cornetas sinalizando a retirada.
— De volta para as muralhas! — gritavam eles. — De volta para as muralhas! Voltem para a Cidade antes que todos sejam esmagados! — Mas o vento que impelia os navios carregou para longe todo o seu clamor.
Na verdade, os homens do Rift não precisaram de avisos ou alarme. Podiam ver muito bem por si mesmos os navios negros. Pois agora Saerlund estava a menos de uma milha do Mar, e uma grande tropa de seus primeiros inimigos se postava entre ele e o porto, enquanto novos inimigos vinham avançando num turbilhão pela retaguarda, isolando-o do Príncipe. Agora Saerlund olhava para o Mar, e a esperança morreu em seu coração, e chamava de maldito o vento que antes abençoara.
Os exércitos de Skuldafn, por sua vez, sentiam-se encorajados, e cheios de uma nova gana e fúria avançaram gritando para o ataque. Saerlund agora recuperara a austeridade e pensava com clareza.
Mandou tocar as cornetas para reunir sob a sua bandeira todos os homens que pudessem chegar até ali; planejava fazer uma grande parede de escudos no final, e resistir, lutando no chão até que todos caíssem, realizando feitos dignos de canções pântanos do Forgulnthur, mesmo que não sobrasse nenhum homem no oeste para relembrar o último Jarl do Rift. Cavalgou então até um montículo verde e ali fincou sua bandeira, e as espadas cinzentas tremiam, ondulando ao vento.
Trocando a dúvida, trocando o dúbio pelo dia raiando,
Vim cantando ao sol, espada a brandir
Cheguei ao fim da esperança, o coração partido:
Agora é por raiva, agora é por ruína e um crepúsculo de fogo!
Pronunciou esses versos, porém riu enquanto os dizia. Pois mais uma vez o desejo da batalha corria em suas veias, e ele ainda estava ileso, e era jovem, e era jarl: senhor de um povo cruel. E eis que, exatamente no momento em que ria do desespero, olhou de novo para os navios negros, e brandiu a espada desafiando-os.
Então foi tomado de surpresa, e de uma grande alegria; jogou a espada para os ares à luz do sol e exultou ao apanhá-la de novo. Todos os olhos seguiram seu olhar e, de súbito, no navio que vinha à frente, uma grande bandeira se desenrolou, e o vento a exibiu no momento em que o navio virava na direção do Mar. Ali voava o enorme desenho de um dragão, representando os Septim; mas em cima havia uma coroa denteada, os símbolos dos reinos de Atmora, que nenhum senhor portara por anos incontáveis, desde a morte do Rei Borgas. E o dragão dos Septim soltava fogo à luz do sol, pois fora confeccionado por Serana, filha de Harkon Volkihar.
Assim chegou Vorstag, filho de Rorstag, Ronaan, herdeiro de Tiber Septim, vindo do Altar do Templo-Céu para o Porto de Dawnstar, trazido pelo vento que vinha do Mar até o reino de Haafingar, e a alegria dos homens do Rift foi uma torrente de riso e um clarão de espadas, e o contentamento e a surpresa da Cidade foi uma música de trombeta e um badalar de sinos. Mas os exércitos de Skuldafn ficaram atônitos, e lhes parecia um grande feitiço que seus próprios navios estivessem cheios de seus inimigos; foram tomados de um terror negro, percebendo que a maré do destino se voltava contra eles, e seu fim estava próximo.
Os cavaleiros de Volskygge cavalgaram para o leste, empurrando o inimigo à sua frente: orcs-trolls e dunmers e draugrs que odiavam a luz do sol. Saerlund avançou para o norte e os homens fugiram diante dele, ficando presos entre o martelo e a bigorna. Pois agora homens saltavam dos navios para os desembarcadouros da Companhia de Exportação Imperial e avançavam para o norte como uma tempestade. Lá vinham Faendal e Kharjo, brandindo sua maça daédrica; Agmaer com a bandeira; e Athellor e Orintur com um sol na fronte, junto com os Guardiões da Alvorada de mãos inclementes. Guardiões do leste, conduzindo uma grande tropa do valoroso povo de Dawnstar e dos feudos de Morthal. Mas à frente de todos vinha Vorstag, com a Destruição do Rei, Arandagon, como um novo fogo aceso, a espada de Uriel Septim reforjada, letal como antigamente, e em sua testa brilhava o Sol da Guarda da Alvorada.
Por fim então Vorstag e Saerlund encontraram-se em meio á batalha e debruçaram-se sobre as espadas e olharam um para o outro e ficaram felizes.
— Assim nos encontramos de novo, embora todos os exércitos de Skuldafn estivessem entre nós — disse Vorstag. — Não foi o que eu disse, no Forte da Vigília da Névoa?
— Foi o que disse — falou Saerlund —, mas a esperança muitas vezes engana, e eu não sabia que você era um homem com capacidade de ler o futuro. Mas o auxílio que chega sem ser esperado é duplamente abençoado, e nunca um reencontro de amigos foi tão alegre. Na verdade, nem poderia ser mais oportuno. Sua chegada não foi nada precoce, meu amigo. Muitas perdas e tristezas já nos aconteceram.
— Então vamos vingá-las, antes de falarmos nelas! — disse Vorstag, e os dois voltaram juntos para a batalha.
Ainda tiveram uma luta dura e muito trabalho, pois os sulistas eram homens destemidos e obstinados, e cruéis no desespero; os elfos negros da Lágrima, no leste de Morrowind, eram fortes e endurecidos pela guerra, os elfos corrompidos da Casa Dres, e não pediam trégua. Dessa forma, aqui e acolá, perto de celeiros ou casas incendiadas, sobre monte ou barranco, sob muralhas ou nos campos, eles ainda se reuniam e se reagrupavam, lutando até o fim do dia. Então o sol finalmente se pôs atrás do Palácio Azul e encheu todo o céu com um grande incêndio, de modo que as montanhas e as colinas ficaram tingidas de sangue; o fogo reluzia no Rio, e a grama dos pântanos jazia rubra ao cair da noite. E naquela hora a grande batalha do campo de Haafingar terminava, e nenhum inimigo vivo foi deixado dentro do circuito da Pedra do Dragão. Todos foram mortos, exceto aqueles que fugiram para morrer, ou para se afogar na espuma vermelha do Rio.
Poucos conseguiram se dirigir para o leste, para Morrowind ou Skuldafn, e à terra dos alik’r chegou apenas uma história de um lugar longínquo: um rumor da ira e do terror de Haafingar.
Vorstag, Saerlund e Clagius cavalgaram de volta na direção do Portão da Cidade; não sentiam alegria nem tristeza, apenas cansaço. Esses três estavam ilesos, tão grandes eram sua sorte e habilidade e o poder de seus braços; na realidade, na hora de sua ira, poucos tiveram a ousadia de resistir a eles ou encará-los. Mas muitos outros estavam feridos, mutilados ou mortos sobre o campo. Percius fora atingido pelos machados enquanto lutava, sozinho e sem cavalo; Turufin da Caverna do Eco Perdido e seu irmão foram queimados vivos quando atacavam os dragões, trazendo seus arqueiros para mais perto, a fim de que atirassem nos olhos dos monstros. Nem Dervorin, voltaria para as Cavernas Costaferro, nem Gonnar para Windhelm; também não retornaria para o Forte da Guarda da Alvorada, lá no sudeste, Agmaer, guardião de mãos inclementes.
Não poucos haviam perecido, renomados ou desconhecidos, capitães ou soldados; pois foi uma grande batalha e nenhuma história contou um relato completo dela. Assim, depois de muito tempo, um poeta do Rift disse em sua canção sobre os Túmulos de Solitude:
Notamos das trompas o eco nas colinas,
o esplendor das espadas no Reino do Sul.
Corcéis galopavam para Solitude
Lá caiu Harrald, poderoso Law-Giver,
Ao palácio de névoa e verdes pastagens
Nos campos do leste sem jamais retornar;
Senhor de seu exército.
Garthur e Rogstein Slafarne Gothunjuf,
o valente Gonnar,
Reisfing e Brinavar, Addel e Oenjar,
lutaram e tombaram em terra tão distante:
em tumbas de Solitude jazem sob o chão
com colegas coligados, os senhores de Haafingar.
Nem Dervorin, às cavernas nevadas;
nem Percius, o Velho, às ruínas reconstruídas
nem os altos arqueiros, Tuilin e Turufin,
ás suas cavernas escuras, do Eco Perdido
A morte de manhã e no final do dia levou nobres e pobres.
Há muito agora dormem sob a grama
de Haafingar junto ao Grande Rio.
Águas como lágrimas, rebrilhando cor de prata
ou vermelhas borbulhavam roncando em tumulto:
espuma tinta de sangue em chama ao pôr-do-sol;
quais faróis as montanhas queimavam noite adentro;
o orvalho era vermelho em Ponte do Dragão
Fale com o autor