DdAH: A Batalha de Skuldafn
15 A Trilha do Norte e do Sul
Finalmente Ralof voltava seu rosto na direção de casa. Estavam todos agora ansiosos por ver Riverwood, mas no início cavalgaram devagar, pois Ralof sentira-se mal. Quando chegaram ao Lago Geir ele parou, relutando em atravessar a água; os outros notaram que por um tempo seus olhos pareciam alheios a eles e às coisas ao redor. Durante todo aquele dia, Ralof ficou em silêncio. Era o dia seis de caifrio.
— Você está sentindo dores, Ralof? — perguntou Savos numa voz baixa, cavalgando ao seu lado.
— Bem, estou — disse Ralof. — É meu ombro. O ferimento dói, e a lembrança da escuridão pesa sobre mim. Está fazendo um ano hoje.
— É lamentável, mas há certos ferimentos que não podem ser totalmente curados — disse Savos Aren.
— Temo que esse possa ser o meu caso — disse Ralof. — Não existe um retorno de verdade. Embora eu possa voltar, Riverwood não será a mesma, pois eu não serei o mesmo. Fui ferido por espada, ferrão e dente, sem falar no fardo que carreguei por tanto tempo. Quando poderei descansar?
Savos Aren não respondeu.
Ao fim do dia seguinte a dor e a inquietação tinham passado, e Ralof estava alegre de novo, alegre como se não se lembrasse da escuridão do dia anterior. Depois daquilo, a viagem transcorreu bem, e os dias se passaram depressa; eles cavalgavam com tranqüilidade, e freqüentemente se demoravam nos belos bosques onde as folhas estavam vermelhas e amarelas ao sol do outono. Por fim atingiram as Torres Valtheim; a noite se aproximava, e a sombra da colina deitava-se escura sobre a estrada. Então Ralof pediu aos outros que se apressassem e, negando-se a olhar na direção das torres, atravessou sua sombra com a cabeça curvada e cobrindo-se com a capa. Naquela noite o tempo mudou, e do oeste chegou um vento carregado de chuva, que soprou ruidoso e frio, fazendo as folhas amarelas rodopiarem no ar como pássaros.
Quando chegaram às montanhas e suas árvores, os galhos já estavam quase nus, e uma grande cortina de chuva os impedia de ver a Colina de Whiterun. Foi assim que, quase ao final de uma noite bravia e molhada dos últimos dias de caifrio, os quatro viajantes subiram a estrada íngreme e chegaram ao Portão de Whiterun. Estava bem trancado, e a chuva batia-lhes nos rostos; no céu escuro nuvens baixas passavam correndo, e eles se sentiram um pouco frustrados, pois esperavam uma recepção mais calorosa.
Depois de muito chamarem, o porteiro saiu, e eles viram que ele trazia na mão um grande porrete. Fitou-os com medo e desconfiança, mas quando viu que Savos Aren estava ali e que seus companheiros não eram mal-encarados, apesar das estranhas vestes, alegrou-se e deu-lhes as boas-vindas.
— Entrem! — disse ele, destrancando o portão. — Não vão ficar esperando notícias aqui fora, no frio e na chuva, nesta noite tumultuada. Mas não há dúvida de que a velha Hulda vai lhes dar as boas-vindas na Égua, e lá vocês poderão ouvir tudo o que há para ouvir.
— E lá vocês vão ouvir tudo o que vamos contar, ou mais até — disse Savos Aren rindo. — Como está Harrold?
O porteiro fez uma careta. — Foi embora — disse ele. — Mas é melhor perguntarem a Hulda. Boa noite!
— Boa noite para você! — disseram eles passando pelo portão; notaram então que atrás da cerca-viva, ao lado da estrada, fora construído um barraco comprido, de onde vários homens saíram para observá-los por sobre a cerca.
Por fim chegaram à Bandeira da Égua, que pelo menos externamente parecia a mesma; havia luzes por trás das cortinas vermelhas nas janelas inferiores. Tocaram a campainha, e Saadia veio atender a porta, abrindo apenas uma fresta e espiando por ela; quando os viu parados sob a lamparina, soltou um grito de surpresa.
— Senhora Hulda! Madame! — gritou ela. — Eles voltaram!
— Ah, é, voltaram é? Já vou lhes dar uma lição — veio a voz de Hulda, que saiu correndo, com um bastão na mão. Mas, quando viu quem eram, parou de repente, e a expressão carregada em seu rosto transformou-se em surpresa e alegria. — Saadia, sua miolo mole idiota! — gritou ela. — Você não consegue chamar os velhos amigos pelo nome? Não devia ficar me assustando desse jeito, nos tempos de hoje. Bem, bem! E de onde vocês vêm vindo? Jamais esperava ver qualquer um de vocês de novo, não esperava mesmo: indo para as terras desconhecidas com o tal de Encapuzado, e com todos aqueles vampiros á solta. Mas estou muito feliz em vê-los outra vez, sobretudo Savos. Entrem! Entrem! Os mesmos quartos de antes? Estão desocupados. Na verdade, a maioria dos quartos estão desocupados nos últimos tempos, e isso não vou esconder de vocês, pois logo verão com seus próprios olhos. E vou ver o que se pode fazer a respeito da ceia, o mais rápido possível; atualmente estou com falta de empregados. Ei, Saadia, seu lesma! Diga ao Mikael! Ah, mas estou esquecendo, Mikael se foi: agora ele vai embora para casa quando anoitece. Bem, leve os cavalos dos hóspedes para os estábulos, Saadia! E não duvido de que você mesmo vai levar o seu cavalo, Savos. Um belo animal, como eu disse a primeira vez que pus os olhos nele. Bem, entrem! Fiquem à vontade!
A Sra. Hulda não mudara absolutamente seu modo de falar, e ainda parecia continuar no mesmo corre-corre de sempre. Apesar disso, quase não se via ninguém, e tudo estava quieto; da sala de estar chegava o murmúrio baixo de no máximo duas ou três vozes. O rosto da proprietária, visto a menor distância e sob a luz de duas velas que ela acendera para iluminar-lhes o caminho, parecia bastante enrugado e marcado pela preocupação.
Conduziu-os pelo corredor até a sala que tinham usado naquela estranha noite mais de um ano atrás, e eles a seguiram um pouco ansiosos, pois parecia claro para todos que a velha Hulda estava enfrentando algum problema sério. As coisas não eram como antes. Mas não disseram nada e esperaram. Como já adivinhavam, a Sra. Hulda veio até a sala após a ceia para ver se tudo estivera a contento. E realmente estivera: nenhuma mudança para pior ocorrera, pelo menos em se tratando da cerveja ou da comida d'O Pônei.
— Não vou me atrever a sugerir que venham até a sala de estar esta noite — disse Hulda. — Vocês devem estar cansados, e de qualquer modo não há muita gente hoje. Mas, se puderem me conceder meia hora antes de irem dormir, eu gostaria imensamente de conversar um pouco com vocês, uma conversa só entre nós.
— É exatamente o que estamos querendo também — disse Savos. — Não estamos cansados. Fizemos uma viagem tranquila. Estávamos molhados, com frio e fome, mas tudo isso você resolveu. Venha, sente-se! E, se tiver um pouco de skooma, ficaremos agradecidos.
— Bem, se tivessem pedido qualquer outra coisa, eu teria ficado mais contente — disse Hulda. — Essa é justamente uma coisa que anda escassa por aqui, uma vez que só temos o fumo que cultivamos, e isso não é suficiente. Não se consegue nem um pouco das fronteiras atualmente. Mas vou ver o que posso fazer.
Quando voltou trouxe-lhes skooma suficiente para um ou dois dias e um belo narguilê de vidro azul. — Esse é de Skyrim mesmo — disse ele —, é o melhor que temos; mas não se compara a skooma que vem das fronteiras, como eu sempre digo, embora eu esteja sempre a favor de Skyrim na maioria das coisas, não importa o que seja.
Acomodaram-no numa grande poltrona perto do fogo, e Savos Aren sentou-se do outro lado da lareira, ficando os dois amigos em cadeiras baixas entre os dois, e Meeko repousava nos pés de Ralof; então conversaram por várias meias horas, e trocaram todas as notícias que a Sra. Hulda quis ouvir ou dar. A maioria das coisas que os viajantes tinham a dizer simplesmente causava surpresa e desconcerto na anfitriã, que nem podia imaginá-las; as novidades provocavam poucos comentários além de um “Não diga!”, que a Sra. Hulda freqüentemente repetia num desafio á evidência dos seus próprios ouvidos. — Não diga!, Senhor Mata-Dragão, ou será que devo chamá-lo de Sr. Ralof? Estou ficando tão confusa. Não diga, Mestre Savos! Nunca imaginei! Quem teria pensado numa coisa dessas nos dias de hoje!
Mas ela também disse muita coisa a seu respeito. As coisas não iam nada bem, dizia. O negócio não estava nem satisfatório, estava para lá de ruim. — Ninguém de fora se aproxima de Whiterun — disse ela. — E as pessoas daqui ficam a maior parte do tempo em casa, com as portas cerradas. Isso tudo por causa daqueles forasteiros e vagabundos que começaram a chegar pelas estradas no ano passado, como vocês devem se lembrar; mais deles vieram depois. Alguns não passavam de pobres coitados fugindo de problemas, mas a maior parte era de homens maus, ladrões traiçoeiros. E houve confusão bem aqui em Whiterun, coisa séria. É sim, tivemos um combate de verdade, e algumas pessoas foram assassinadas, assassinadas! Vocês acreditam?
— Acredito sim — disse Savos Aren. — Quantas?
— Cinco — disse Hulda. — O pobre Brenuin, e a bela Saffir, que era casada com nosso bom Amren, e o bom Gloth, que trabalhava na Fazenda Pelagia; e Nimriel, que trabalhava com ele, a pobre moça: todos bons camaradas, dos quais sentimos a falta. E Harrold Barba-de-Bode, que costumava ficar no Portão, junto com aquele Nazeem, os dois passaram para o lado dos forasteiros, e foram embora com eles; e acredito que foram esses dois que deixaram os outros entrar. No dia da luta, quero dizer. E isso foi depois que nós lhes mostramos o caminho da rua e os expulsamos: antes do final do ano, foi sim; e a luta foi no inicio do Ano Novo, depois da forte nevasca. E agora se transformaram em ladrões, e moram fora, escondidos nas cavernas da Vigia do Rio Branco, porque lá vive um tal de Hajvarr. Eu digo que até parece coisa dos maus tempos de antigamente que as histórias contam. A estrada não é segura e ninguém se afasta muito; as pessoas se fecham cedo em suas casas. Temos de manter vigias ao redor de toda a cerca e colocamos um monte de homens sobre os portões á noite.
— Bem, ninguém nos incomodou — disse Asgeld —, e nós viemos devagar, sem manter vigilância. Pensamos ter deixado os problemas para trás.
— Ah, não deixaram mesmo, mestre, e é uma grande lástima — disse Hulda. — Mas não me admira que os deixaram em paz. Não atacariam pessoas armadas, com espadas, capacetes, escudos e tudo mais. Pensariam duas vezes, sem dúvida. E devo dizer que fiquei surpreso quando os vi.
Asgeld e Ralof então perceberam de repente que as pessoas os tinham olhado assustadas não tanto pela surpresa de sua volta, mas pelas estranhas vestes que usavam. Eles mesmos tinham-se acostumado tanto à guerra e a cavalgarem em comitivas bem ordenadas que se tinham esquecido de que a malha brilhante aparecendo por baixo de suas capas, os capacetes de Haafingar e do Estado do Rift, e as belas insígnias em seus escudos pareceriam esquisitas em sua própria terra.
O mesmo valia para Savos Aren, que agora cavalgava em seu altivo cavalo bege, todo vestido de amarelo e, trazendo a longa espada Beldastare.
Savos Aren riu. — Bem, bem — disse ele —; se eles têm medo de apenas quatro de nós, então encontramos inimigos piores em nossas viagens. Mas de qualquer modo vão deixá-los em paz durante a noite, enquanto ficarmos aqui.
— E por quanto tempo ficarão? — perguntou Hulda. — Não vou negar que ficaríamos felizes em tê-los aqui por um tempo. Você pode entender, não estamos acostumados a esse tipo de problema, e os Guardiões da Alvorada foram todos embora, pelo que me dizem. Acho que só agora entendemos direito o que eles faziam por nós. Pois houve coisa pior que ladrões por aqui. Lobos ficaram uivando ao redor das cercas no inverno passado. E há vultos escuros nas florestas, seres terríveis que fazem o sangue congelar só de se pensar neles. Foi tudo muito perturbador, se vocês me entendem.
— Acho que foi — disse Savos Aren. — Houve perturbação em toda parte ultimamente, muita perturbação. Mas alegre-se, Hulda! Você esteve à beira de problemas muito sérios, e fico feliz em saber que não se envolveu mais neles. Mas tempos melhores estão chegando. Talvez melhores do que qualquer tempo que você possa recordar. Os Guardiões da Alvorada retornaram. Voltamos com eles. E há um alto rei de novo, Hulda. Logo ele estará pensando neste lugar. Então a estrada se abrirá de novo, e os mensageiros dele virão para o Sul, e haverá idas e vindas, e os seres malignos serão expulsos das terras desertas. Na verdade, com o tempo não haverá mais terras desconhecidas, e haverá gente e campo onde antes só havia desertos.
A Sra. Hulda balançou a cabeça. — Se houver algumas pessoas decentes e respeitáveis na estrada, isso não trará mal algum — disse ele. — Mas não queremos mais gentalha e rufiões. Não queremos forasteiros em Whiterun, e nem perto de Whiterun. Queremos ficar em paz. Não quero uma multidão de forasteiros acampando aqui e se acomodando ali e rasgando a terra virgem.
— Vocês vão ficar em paz, Hulda — disse Savos Aren. — Há espaço suficiente para vários reinos entre o Rio Branco, ou ao longo da margem sul do Lago Geir, sem que ninguém precise morar num raio de muitos dias de cavalgada de Whiterun. E muita gente costumava morar lá no norte, a cem milhas ou mais daqui, na outra extremidade da estrada: do outro lado da Garganta do Mundo, a grande montanha.
— Lá em cima, perto da Tumba de Hillgrund? — perguntou Hulda, cada vez mais incrédula. — Dizem que aquele lugar é assombrado. Só um ladrão iria para lá, ou gente pior, que mexe com magia ruim.
— Os Guardiões da Alvorada vão lá — disse Savos Aren. — Tumba de Hillgrund, você diz. Assim foi chamado por muitos anos; mas agora o rei sabe que muitos desses antigos e honrados nórdicos juraram fidelidade ao mal, e suas tumbas se transformarão em moradias abaixo da terra depois de reformas, agora que seus corpos se perderam em migrações por Tamriel. E o rei irá até lá algum dia, e então vocês verão belas pessoas passando por aqui.
— Bem, isso soa melhor, devo admitir — disse Hulda. — E será bom para os negócios, sem dúvida. Contanto que ele deixe Whiterun em paz.
— Ele vai deixar sim — disse Savos Aren. — O alto rei conhece Whiterun, e ama este lugar.
— Ele conhece mesmo? — disse Hulda com uma expressão intrigada. — Embora não tenha certeza, não vejo por que ele deveria conhecer, sentado em seu trono em seu grande castelo, a centenas de milhas de distância. E bebendo vinho numa taça de ouro, não me espantaria. Que significa a Égua para ele, ou canecas de cerveja? Não que a minha cerveja não seja boa, Savos. Tem sido de rara qualidade desde que você veio, no outono do ano passado, e disse uma palavra boa sobre ela. E isso tem sido um consolo em meio a tantos problemas, devo admitir.
— Ah! — disse Ralof. — Mas ele diz que a sua cerveja sempre foi boa.
— Ele diz?
— Claro que diz. Ele é o Encapuzado. O chefe dos Guardiões da Alvorada. Isso ainda não entrou em sua cabeça?
Entrou finalmente, e o rosto de Hulda transformou-se em espanto puro. Os olhos no seu rosto achatado ficaram redondos, e sua boca escancarada. — O Encapuzado! — exclamou ela, quando recuperou o fôlego. — Ele de coroa e com uma taça de ouro! Pois bem, aonde vamos chegar?
— Tempos melhores, para Whiterun de qualquer modo — disse Savos.
— Espero que sim, com certeza — disse Hulda. — Bem, esta foi a melhor conversa que tive em muito e muito tempo. E não vou negar que vou dormir mais tranqüila esta noite, com o coração mais leve. Vocês me deram muita coisa em que pensar, mas vou deixar isso para amanhã. Vou dormir, e não tenho dúvida de que vocês ficarão felizes em fazer o mesmo. Ei, Saadia! — chamou ela, indo até a porta. — Saadia, sua lesma! Agora! — disse ela consigo mesmo, batendo na testa. — Agora, de que isso me faz lembrar?
— Não de outra carta que a senhora esqueceu, Sra. Hulda, espero eu — disse Ralof.
— Ora, ora, Sr. Ralof, não fique me fazendo lembrar disso! Mas olhe só, o senhor interrompeu meu pensamento. Onde eu estava? Saadia, estábulos, ah!, é isso. Tenho uma coisa que pertence a vocês. Lembram-se de Nazeem, e do roubo dos cavalos? O cavalo que vocês compraram dele, bem, ele está aqui. Voltou por conta própria. Mas onde esteve sabem melhor que eu. Estava desgrenhado como um cachorro velho e magro como um varal de roupa, mas estava vivo. Saadia cuidou dele.
— O quê? O meu Nazeero? — gritou Ralof. — Bem, eu nasci com sorte, não importa o que Gerdur tenha a dizer. Mais um desejo que se torna realidade! Onde está ele? — Ralof recusou-se a ir dormir antes de visitar Nazeero em seu estábulo.
Os viajantes ficaram em Whiterun durante todo o dia seguinte, e a Sra. Hulda não pôde reclamar de seu negócio, pelo menos naquela noite. A curiosidade superou todos os temores, e sua casa ficou lotada. De noite, por delicadeza, Asgeld e Ralof ficaram um tempo na sala de estar, e responderam a muitas perguntas. Como as memórias de Whiterun eram boas, perguntaram muitas vezes a Ralof se ele havia escrito seu livro.
— Ainda não — respondia ele. — Estou indo para casa agora, para colocar minhas anotações em ordem.
Prometeu escrever sobre os estranhos eventos de Whiterun, e dessa forma dar um pouco de interesse a um livro que parecia destinado a tratar principalmente dos remotos e secundários assuntos "lá do sul". Então um dos mais novos pediu uma canção. Mas fez-se um silêncio de morte, e ele se encolheu sob olhares de censura, e o pedido não se repetiu. Evidentemente não se desejava qualquer incidente estranho na sala de estar outra vez.
Nenhum problema de dia, nem qualquer som durante a noite, incomodaram a paz de Whiterun enquanto os viajantes permaneceram lá; mas na manhã seguinte eles se levantaram cedo, pois o tempo ainda estava chuvoso e eles desejavam chegar a Riverwood antes do cair da noite, e a cavalgada era longa. Toda a gente de Whiterun saiu às portas para vê-los partir, e sentiam uma alegria que havia mais de um ano não provavam; aqueles que não tinham visto antes os forasteiros com toda a sua indumentária ficaram boquiabertos à presença deles: diante do elfo negro Savos Aren com sua barba cinzenta, e da luz que parecia emanar dele, como se seu manto amarelado fosse apenas uma nuvem cobrindo a luz do sol; e diante dos dois viajantes, que pareciam cavaleiros errantes saídos de histórias quase esquecidas. Mesmo aqueles que tinham rido da conversa sobre o Rei começaram a achar que poderia haver alguma verdade nela.
— Bem, boa sorte em sua estrada, e boa sorte em sua volta para casa! — disse a Sra. Hulda. — Deveria tê-los avisado antes de que também lá nem tudo vai bem, se o que ouvimos dizer for verdade. Coisas estranhas acontecendo, dizem por aí. Mas uma coisa puxa a outra, e eu estava cheia de meus próprios problemas. Mas, se me desculpam o atrevimento, vocês voltaram mudados de suas viagens, e agora parecem pessoas que podem lidar com problemas complicados. Não duvido de que logo vão colocar tudo em ordem. Boa sorte para vocês! E quanto mais vezes voltarem, mais eu ficarei satisfeita.
Lhe desejaram boa sorte e partiram, passando pelo Portão, e avançando na direção de Riverwood. Nazeero, o cavalo, foi com eles, e como antes carregando um monte de bagagens; mas trotava e parecia todo contente.
— Pergunto-me o que a velha Hulda estava querendo insinuar — disse Ralof. — Mas posso adivinhar alguma coisa — disse ele num tom tristonho. — Deveria ter apressado minha volta para casa.
— É, alguma coisa está errada com Riverwood, evidentemente — disse Asgeld. — Há uma escassez geral de boas notícias.
— O que quer que seja — disse Ralof —, Orgnar deve estar por trás disso: podem ter certeza.
— Por trás, mas não no comando — disse Savos Aren. — Vocês se esqueceram de Ancano. Ele começou a se interessar por Riverwood antes que Skuldafn o fizesse.
— Bem, temos você conosco — disse Asgeld. — Assim tudo será logo esclarecido.
— Estou com vocês agora — disse Savos —, mas logo não estarei. Não vou até Riverwood. Vocês mesmos devem cuidar dos problemas de lá, foi para isso que foram treinados. Ainda não entenderam? Meu tempo acabou: deixou de ser a minha tarefa colocar as coisas em ordem, ou ajudar as pessoas a fazerem isso. E quanto a vocês, meus caros amigos, não precisarão de ajuda. Agora estão crescidos. Na verdade cresceram muito, e estão entre os grandes, e agora deixei de temer por qualquer um de vocês. Mas, se querem saber, vou tomar outro rumo logo. Vou ter uma longa conversa com Septimus Signus: uma conversa que nunca tive em todo o meu tempo. Ele é um criador de limo, e eu tenho sido uma pedra fadada a rolar. Mas meus dias de rolar estão terminando, e agora teremos muito a dizer um ao outro. Bem como sempre, pode ter certeza. Bastante despreocupado, eu diria, não muito interessado em qualquer coisa que fizemos ou vimos, a não ser talvez no uso do Pergaminho Antigo. Talvez mais tarde haja tempo para irem visitá-lo. Mas, se eu fosse vocês, iria depressa para casa, ou não chegarão à Ponte de Riverwood antes que os portões se fechem.
— Mas não há nenhum portão — disse Ralof. — Não na Estrada; você sabe muito bem disso. É claro que existe o Portão da vinda de Ivarstead, mas eles me deixarão entrar a qualquer hora.
— Não havia nenhum portão, você quer dizer — disse Savos. — Acho que agora vocês vão encontrar alguns. E podem ter mais problemas do que esperam, até mesmo no de Ivarstead. Mas vão se sair bem. Adeus, caros amigos! Não pela última vez, ainda não. Adeus!
Mas Ralof agora tinha o coração triste, e a impressão de que, se a despedida seria amarga, mais amargo ainda seria o retorno solitário pela longa estrada de volta para casa. Mas no momento em que estavam lá, Asgeld já estava montando em Gelado, pois desejava muito ir para Riften, e tudo preparado para a partida, Asgeld olhou para Ralof.
— Temos tanto em comum, você e eu.
— É sim — disse Savos —; Bem, aqui finalmente, caros amigos, nas florestas de Riverwood, chega ao fim a nossa sociedade em Tamriel. Vão em paz! Não pedirei que não chorem, pois nem todas as lágrimas são um mal.
Então Asgeld desceu e abraçou Ralof; depois embarcou. Savos Aren guiou Gelado para fora da estrada, e o grande cavalo saltou sobre o verde que a margeava; então, a um grito de Savos, ele partiu, correndo na direção de Riften como o vento que vem do norte.
Mas para Ralof, que permanecera na estrada, a noite se aprofundou na escuridão; e enquanto contemplava as árvores e a grama pelas quais Savos correu ele via apenas uma sombra sobre o verde, que logo se perdeu no leste. Ralof continuou ali ainda um bom tempo, ouvindo apenas o suspiro e o murmúrio das folhas nas árvores de Tamriel, e o som delas penetrava fundo em seu coração. Por fim ele se voltou, e sem olhar para trás mais nem uma vez sequer foi lentamente em direção de casa; não pensou em nada até chegar de volta a Riverwood.
E ele prosseguiu, e havia uma luz amarela, e fogo lá dentro quando chegou a sua casa em Riverwood; a refeição da noite estava pronta, como ele esperava. Gerdur o recebeu, levou-o até a sua cadeira, colocando o pequeno Frodnar no colo do tio.
Ralof respirou fundo. — É, aqui estou de volta — disse ele.
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