No momento em que a sombra escura se afastou do Portão, Savos Aren ainda estava sentado sobre o cavalo, imóvel. Mas Ralof levantou-se, como se tivesse se livrado de um grande peso; parou para escutar as cornetas, e teve a impressão de que seu coração explodiria de felicidade. E nunca mais, nos anos que se seguiram, pôde ele ouvir o soar de uma corneta á distância sem que seus olhos se enchessem de lágrimas. Mas de repente lembrou de sua missão e correu à frente. Naquela hora Savos se mexeu, disse alguma coisa a Gelado e já ia saindo pelo Portão.

Savos, Savos! gritou Ralof, e Gelado parou.

O que está fazendo aqui? disse Savos. Não mandam as leis da Cidade que aqueles vestidos de negro e vermelho fiquem na Cidade, a não ser que sua senhora lhes permita que se ausentem?

Ela me deu permissão disse Ralof. Mandou-me embora. Mas fiquei com medo. Algo terrível pode acontecer lá em cima. A Jarl está fora de si, eu acho. Receio que vá se matar, e matar Aldis também. Você não pode fazer alguma coisa?

Savos Aren olhou através do Portão escancarado, e ouviu nos campos o som da batalha que já se formava. Crispou as mãos.

Preciso ir disse ele. O Sacerdote Dracônico está à solta, e logo trará a destruição. Não tenho tempo.

Mas Aldis! gritou Ralof. Ele não está morto, e vão matá-lo, enterrá-lo vivo, se ninguém os impedir.

Matá-lo? disse Savos. Que história é essa? Seja rápido!

Elisif foi para as Catacumbas de Solitude disse Ralof , levou Aldis, e diz que todos vamos morrer queimados, que ele não vai esperar, e que seus homens devem enterrá-la ao lado de Torygg, junto com Aldis. E mandou os sacerdotes dos Divinos prepararem os ritos funerários. Eu contei isso a Segunivus, mas o que pode ele fazer, de qualquer forma?

Assim Ralof despejou sua história, esticando os braços para o alto e tocando o ombro de Savos Aren com mãos trêmulas. Você não pode salvar Aldis?

Talvez eu possa disse Savos Aren. Mas, se fizer isso, outros morrerão, receio eu. Bem, devo ir até ele, uma vez que ninguém mais poderá ajudá-lo. Mas disso resultarão coisas ruins e tristes. No próprio coração de nossa fortaleza o Devorador de Mundos tem forças para nos atacar: pois é a sua vontade que está em ação.

Tomada a decisão, ele agiu com rapidez, e, apanhando Ralof, colocou-o à sua frente no cavalo; a uma palavra sua, Gelado se virou. Os cascos foram batendo contra o chão íngreme das ruas de Solitude, enquanto o barulho da guerra crescia atrás deles.

Em todos os cantos havia homens recuperando-se do desespero e do terror, pegando suas armas e gritando: "Riften chegou!" Capitães gritavam, companhias se agrupavam; muitos já marchavam na direção do Portão. Encontraram o Príncipe Clagius, e ele os interpelou:

Para onde agora, Savos? Os homens do Rift estão lutando nos pântanos! Precisamos reunir toda a força que pudermos encontrar.

— Você vai precisar de todos os homens e mais ainda — disse Savos Aren apresse-se ao máximo. Irei quando puder. Mas tenho uma missão para a Jarl que não pode esperar. Assuma o comando na ausência de Elisif!

Passaram adiante e, ao subirem e se aproximarem da Cidade, sentiram o vento no rosto, e avistaram na distância o reluzir da manhã, uma luz crescendo no céu do sul. Mas isso lhes trouxe pouca esperança, pois não sabiam que mal os aguardava, e temiam chegar tarde demais.

— A escuridão está passando — disse Savos Aren —, mas ainda paira pesada sobre esta Cidade.

No portão da cidadela não encontraram nenhum guarda.

— Então Segunivus foi para lá — disse Ralof mais esperançoso.

Viraram-se e foram depressa ao longo da estrada que conduzia ao Salão dos Mortos. A porta deste estava totalmente aberta, e o porteiro jazia diante dela. Estava morto e a chave lhe fora tomada.

— Trabalho do Devorador de Mundos! — disse Savos Aren. — Ele gosta dessas coisas: amigo guerreando contra amigo; lealdade dividida na confusão dos corações. — Desmontou e ordenou que Gelado voltasse ao estábulo. — Pois, meu amigo — disse ele —, você e eu deveríamos ter cavalgado para os campos há muito tempo, mas outros assuntos me detém. Contudo, venha depressa se eu chamar!

Entraram pela porta, pois lá estavam os servidores de Elisif empunhando espadas e tochas; mas sozinho, no vestíbulo, no degrau mais alto, estava Segunivus, vestido no uniforme negro e escarlate da Guarda; segurando a porta e impedindo que eles entrassem. Dois já tinham caído sob os golpes de sua espada, manchando de sangue o recinto sagrado; os outros o amaldiçoavam, chamando-o de criminoso e traidor do seu mestre.

No momento em que Savos Aren e Ralof avançaram, ouviram a voz de Elisif gritar de dentro da casa dos mortos:

— Depressa, depressa! Façam como ordenei! Matem esse renegado! Ou será que eu mesmo terei de faze-lo?

Então a porta que Segunivus mantinha fechada com a mão esquerda foi escancarada, e atrás dela postava-se a Jarl de Solitude, alta e cruel, com uma luz de fogo nos olhos, empunhando uma espada que mal sabia manejar.

Mas Savos, num salto, subiu os degraus, e os homens recuaram cobrindo os olhos, pois sua chegada foi como a luz branca que irrompe num lugar escuro, e ele avançou furioso. Levantou a mão e, no instante em que Elisif desferia o golpe, a espada voou pelos ares e caiu atrás dela, nas sombras da casa; a Jarl recuou diante de Savos Aren, atônita.

— O que é isso, minha senhora? — disse o mago. — As casas dos mortos não são lugar para os vivos. E por que há homens lutando aqui, no Recinto Sagrado, quando já existe guerra o suficiente diante do Portão? Ou será que o Devorador de Mundos conseguiu até mesmo chegar às ruas daqui?

— Desde quando a Jarl de Haafingar te deve explicações? — disse Elisif, a Terrível. — Ou será que não posso comandar meus servidores?

— Você pode — disse Savos Aren. — Mas outros podem contestar sua vontade, se ela se voltar para a loucura e a maldade. Venha. Há quem precise de nós. Ainda há muita coisa que você pode fazer.

Elisif então riu de repente. Erguia-se alta e garbosa outra vez, e com passadas rápidas foi até a mesa e tirou dela o travesseiro no qual sua cabeça estivera deitada. Depois, dirigindo-se para a porta, retirou fora a fronha e eis que entre suas mãos estava um grande pergaminho. Ergueu-o, e aqueles que olharam o pergaminho dourado tiveram a impressão de que ele começou a reluzir com uma chama interna, de tal modo que o rosto magro de Elisif se acendeu num fogo rubro, e parecia esculpido em pedra, bem definido com sombras escuras, nobre, altivo e terrível. Seus olhos faiscaram.

— Orgulho e desespero! — gritou ela. — Tu pensaste que os olhos do Palácio Azul estavam cegos? Não, vi mais do que sabes, Tolo Amarelado. Pois tua esperança é apenas fruto da ignorância. Então vai e trabalha na cura! Avança e luta! Vaidade. Por pouco tempo pode-se triunfar no campo, por um dia. Mas contra o Poder que agora se levanta não há vitória. Esta Cidade só foi atingida pelo dedo mínimo da mão dele. Todo o leste se mobiliza. E neste momento o vento de tua esperança te ilude e traz pelo Rio Karth uma esquadra de navios negros. O oeste fracassou. Todos os que não quiserem ser escravos devem agora partir.

— Tais conselhos realmente farão da vitória do Devorador de Mundos uma certeza — disse Savos Aren.

— Pois continua alimentando esperanças! — disse rindo a jarl. — Então não te conheço, Agaialor? Tua esperança é governar em meu lugar, ficar atrás de todos os tronos, do norte, do sul ou do oeste. Li tua mente e suas políticas. Achas que não sei que tu ordenaste a este stormcloak que ficasse calado? Que tu o trouxeste aqui para ser um espião em meu próprio aposento? Apesar disso, em nossa conversa eu soube os nomes e os propósitos de todos os teus companheiros. Eu sei! Com a mão esquerda tu me usarias por um tempo como um escudo contra Skuldafn, enquanto com a mão direita trarias este Guardião da Alvorada para me suplantar. Mas eu te digo, Savos Agaialor, não serei teu brinquedo! Sou a Alta Rainha de Skyrim. Não vou me rebaixar para ser a camareira caduca de um arrivista. Mesmo que a reivindicação dele se mostrasse autêntica, ainda assim ele apenas pertence á linhagem de Tiber Septim. Não me curvaria diante desse sujeito, o último representante de uma casa destruída, há muito tempo desprovida de realeza e dignidade.

— Então, o que escolheria você — disse Savos Aren —, se seu desejo pudesse ser realizado?

— Eu escolheria as coisas como elas sempre foram em todos os dias de minha vida — respondeu Elisif, agora com as feições de uma velha — e nos dias de meus antepassados que me precederam: ser a Senhora desta Cidade em paz, e deixar meu lugar para um filho depois de mim, um filho que fosse dono da própria vontade, e não o pupilo de um mago. Mas, se o destino me nega isso, então não quero nada: nem a vida diminuída, nem o amor pela metade, nem a honra abalada.

— A mim não pareceria que uma Rainha que com fidelidade entrega seu cargo fica diminuído em amor ou em honra — disse Savos. — E pelo menos você não privaria seu filho do poder de escolha.

Àquelas palavras, os olhos de Elisif se inflamaram de novo e, levando o pergaminho debaixo do braço, ela sacou uma faca e deu largas passadas na direção da cama. Mas Segunivus saltou à frente e se interpôs entre a Jarl e Aldis, o seu capitão.

— Então! — gritou Elisif. — Tu já roubaste metade do amor de meu capitão. Agora roubas também os corações de meus cavaleiros, de modo que por fim eles me roubam inteiramente o capitão também. Mas pelo menos nisto tu não desafiarás minha vontade: não decidirás sobre o meu próprio fim. Venham até aqui! — gritou ela para os servidores. — Venham, se não forem todos covardes!

Então dois deles subiram correndo os degraus na direção da Jarl. Uma lâmina entrou entre as omoplatas de Elisif, a lâmina de um guarda. Por um tempo então Elisif deu um enorme grito, e depois não falou mais nada, nem foi visto de novo por nenhum mortal.

— Assim se vai Elisif, viúva do Alto Rei — disse Savos Aren. Então voltou-se para Segunivus e os servidores da Jarl, que se mantinham imóveis e horrorizados com o regicídio e a traição deles mesmos.

— E assim se vão também os dias da Haafingar que vocês conheceram; para o bem ou para o mal, eles estão terminados. Atos de maldade foram feitos aqui, mas agora deixem que toda a inimizade que existe entre vocês seja afastada, pois tudo isso foi tramado pelo Devorador de Mundos e põe em funcionamento a sua vontade. Vocês foram capturados numa teia de ordens antagônicas, teia esta que não foi tecida por vocês. Mas pensem, servidores da Senhora, cegos em sua obediência, que, se não fosse pela traição de Segunivus, Aldis, Capitão do Castelo Dour, também teria queimado até a morte. Levem deste lugar infeliz seus companheiros caídos. E nós levaremos Aldis a um lugar onde ele possa dormir em paz, ou morrer, se este for o seu destino.

Então Savos Aren e Segunivus, erguendo a cama, levaram-na para o Templo dos Divinos, enquanto Ralof ia atrás deles, de cabeça baixa. Mas os servidores da senhora continuavam imóveis, olhando aterrorizados para a casa dos mortos, e no momento em que Savos saía pela porta ouviu-se um enorme estrondo. Olhando para trás, eles viram a abóbada da casa se partindo e fumaça saindo pelas brechas; então, com uma precipitação e um estrondo de pedras, a abóbada ruiu numa rajada de fogo; mesmo assim, persistentes, as chamas dançavam e faiscavam em meio aos escombros. Os servidores, amedrontados, correram e seguiram Savos.

E então os guardas passaram pela porta de pedra, e Segunivus olhou com tristeza para o porteiro.

— Este feito eu sempre lamentarei — disse ele —; mas eu estava tomado de uma pressa alucinada, e ele não quis ouvir, sacando a espada contra mim. — Então, pegando a chave que tomara do homem morto, fechou a porta, trancando-a. — Deve ser entregue agora ao Senhor Aldis — disse ele.

— O Príncipe de Volskygge está no comando, na ausência da Senhora — disse Savos Aren —; mas, já que ele não está aqui, devo me responsabilizar por ela. Peço-lhe que guarde a chave num lugar seguro, até que a Cidade esteja em ordem outra vez.

Agora finalmente entravam nos altos círculos da Cidade, e na luz matinal foram fazendo seu caminho na direção do Templo dos Divinos, era um templo belo, às vezes destinado ao tratamento daqueles que estavam seriamente enfermos, mas agora estava preparado para o tratamento de homens feridos na batalha ou agonizantes. Não ficava longe da cidadela, abaixo do Palácio Azul, próximas à muralha norte, e ao redor delas havia um jardim e um gramado com árvores; era o único estabelecimento do gênero na Cidade.

Ali moravam as poucas mulheres ás quais fora permitido permanecer em Solitude, uma vez que eram habilidosas na cura ou no auxilio aos curadores. Mas, no momento em que Savos Aren e seus companheiros chegaram carregando a cama á porta principal do Templo, ouviram um grande grito subindo do campo diante do Portão, que foi ficando agudo e passou trespassando o céu, extinguindo-se no vento. Foi um grito tão terrível que por um momento todos ficaram paralisados; mas, quando passou, de repente todos os corações se enlevaram numa esperança que não sentiam desde que a escuridão viera do leste, e tiveram a impressão de que a luz ficava mais clara e que o sol aparecia por entre as nuvens.

Mas o rosto de Savos Aren estava grave e triste e, ordenando a Segunivus e Ralof que levassem Aldis para o Templo, ele subiu nas muralhas e ali, como uma figura esculpida em marfim amarelado, sob a luz do sol novo, olhou para fora. E com a visão que lhe fora dada viu tudo o que ocorrera; quando Saerlund se afastou da dianteira de sua tropa e parou ao lado daqueles que haviam caido no campo, suspirou e, cobrindo-se com a capa, abandonou as muralhas. Quando saíram, Segunivus e Ralof encontraram-no parado, pensativo, diante da porta do Templo.

Olharam para ele, que por um tempo ficou em silêncio. Por fim falou.

— Meus amigos — disse ele —, e todos vocês, povo desta cidade e das terras do oeste! Acontecimentos muito tristes e importantes se passaram. Devemos chorar ou nos alegrar? Além de qualquer esperança, o Capitão de nossos inimigos foi destruído, e vocês ouviram o eco de seu último desespero. Mas ele não partiu sem antes deixar muito sofrimento e perdas amargas. E isso eu poderia ter evitado, não fosse pela loucura de Elisif. Tão poderoso foi o alcance do Devorador de Mundos! É triste, mas agora percebo como sua vontade conseguiu penetrar o próprio coração da Cidade. Embora os jarls considerassem que esse segredo era sabido apenas por eles próprios, há muito tempo desconfiei de que aqui, na Cidade do Lobo, pelo menos um dos Pergaminhos Antigos era preservado. Em seus dias de sabedoria e força, Torygg não pretendia usá-lo, nem desafiar sua própria mente, sabendo os limites da própria força. Mas a sabedoria de sua senhora fracassou, e receio que no momento em que o perigo de seu reino cresceu ela tenha olhado dentro do Pergaminho, sendo ludibriada: muitas vezes, suponho eu, desde que Erik partiu. Ela era grande demais para se submeter à vontade do Poder de Alduin, mas ela só via as coisas que o Poder lhe permitia ver. O conhecimento que obteve, sem dúvida, muitas vezes lhe foi útil; apesar disso, a visão do grande poder de Skuldafn que lhe foi revelada alimentou o desespero de seu coração até subjugar sua mente.

— Agora entendo o que me parecia tão estranho! — disse Ralof, estremecendo ao falar de suas recordações. — A Senhora saiu da sala onde Aldis estava, e foi só quando retornou que percebi pela primeira vez que ela estava alterada, envelhecida e destruída.

— Foi exatamente na hora em que Aldis foi levado para o Palácio Azul que muitos de nós vimos uma estranha luz no cômodo mais alto — disse Segunivus. — Mas já vimos a luz antes, e corriam havia muito tempo rumores na Cidade de que a Senhora ás vezes lutava em pensamento contra seu inimigo, o Devorador de Mundos.

— Então infelizmente minhas suposições estavam corretas — disse Savos Aren. — Foi dessa forma que a vontade de Alduin penetrou em Solitude; e dessa forma eu me demorei aqui. E aqui ainda serei forçado a permanecer, pois logo terei outros encargos, além de Aldis. Agora preciso descer ao encontro daqueles que chegam. Vi uma cena no campo que me dói muito no coração, e uma tristeza maior ainda pode sobrevir. Venha comigo, Ralof! Mas você, Segunivus, deve retornar à Cidadela e contar ao chefe da Guarda de lá o que aconteceu. Receio que será dever dele expulsá-lo da Guarda; mas diga a ele que, se eu puder dar a minha opinião, você deveria ser enviado para o Templo dos Divinos, para ser o guarda e o servidor de seu capitão, e estar por perto quando ele despertar — se isso vier a acontecer de novo. Pois foi você quem o salvou da morte. Vá agora! Eu voltarei logo.

Dizendo isso ele se virou e desceu com Ralof na direção da cidade baixa. E, no momento em que se apressavam no caminho, o vento trouxe uma chuva cinzenta, e todas as fogueiras se apagaram, e uma grande fumaça subiu diante deles.