Daylight
6 Capítulo 6
Notas iniciais
O rosto de Annabeth ainda estava vermelho, e Percy preferia fingir que era por causa do calor, apesar de saber que seu rubor vinha de constante vergonha.
Ele também não estava em uma posição lá muito confortável, mas ao menos, conhecia aqueles soldados já fazia quase três anos; eles eram seus melhores amigos, haviam se tornado seus irmãos; para Annabeth, era um bando de recrutas que haviam intrometido o pacífico sono dos dois, e ainda os encontrado pelados no meio do nada, é claro. Normalmente, Percy estaria mais preocupado com o quanto Annabeth ficaria puta com ele quando os dois tivessem outro momento sozinhos, mas seu lado masculino irracional ainda estava extremamente feliz por ter dado sorte na noite anterior, então ele lidaria com os nervos dela quando fosse a hora certa. Depois de acordados timidamente por Grover, e passado o choque inicial, os soldados deram licença aos dois para que pudessem se trocar, e enquanto o fizeram, Annabeth o xingou de todos os nomes possíveis (mesmo que tenha sido ideia dela que os dois fizessem sexo no meio do deserto).
Sabia que a cada passo que davam, chegavam mais perto da fronteira e, portanto, mais perto de uma base de contato. Desde que entrara para o Exército Americano dois anos atrás, Percy já havia se metido em boas confusões, mas os generais sempre reconheciam que ele e seus companheiros estavam apenas tentando fazer o trabalho deles. Desta vez, no entanto, apesar das usuais piadas de Travis e Connor, de Leo fazendo suas tentativas chulas de dar em cima de Annabeth, Nico fazendo perguntas indiscretas a ela sobre o desempenho dele na cama e a face usual de mau humor matinal de Grover, Percy não podia deixar de se sentir nervoso. A situação agora era um milhão de vezes mais complicada: Explosões aconteceram em vários lugares distintos sem propósito aparente algum, Charles estava mais tenso do que o normal, e apesar de Percy ter dito à Annabeth que conseguiriam uma licença do trabalho por pelo menos alguns meses, ele reconhecia agora que não seria tão fácil: os militares americanos estavam em uma posição delicada, e qualquer um era um suspeito em potencial que nunca deixariam voltar para os Estados Unidos sem uma enorme investigação. Percy detestava burocracia, e já previa as milhões de papeladas que teria que assinar uma vez que o Exército ficasse sabendo do retorno do Batalhão 21, e ainda mais, que ele havia feito parte da tão comentada explosão na enfermaria improvisada.
– Então, o que você diz, princesa? Que tal largar aquele panaca pelo meu charme latino e me deixar provar a você o quanto sou inesquecível? — Leo ofereceu a Annabeth seu sorriso "mata-moças", como costumava chamar, e Percy revirou os olhos. Andava na frente dos dois, mas não podia deixar de olhar para trás de vez em quando.
– Se não calar a boca, inesquecível vai ser o belo soco que você vai levar nesse seu nariz arrebitado. — Annabeth resmungou, fazendo com que os soldados explodissem em risadas que até mesmo Charles permitiu-se dar. A pele bronzeada de Leo adquiriu um tom rosado, e ele limpou a garganta.
– Nenhuma mulher resiste ao meu charme latino, você vai ver. — Leo respondeu, envergonhado, e Annabeth pareceu satisfeita por ter um pouco de paz. Nico continuou a fazer perguntas à ela, mas a maioria delas eram ignoradas, e quando ela respondia com sarcasmo, Nico parecia ainda mais interessado em encher a paciência dela. Percy permitiu-se dar um sorriso orgulhoso. Sabia que, tecnicamente, ele e Annabeth não eram um casal, na verdade, mal eram amigos, mal eram qualquer coisa, mas ela parecia gostar dele (de sua própria maneira Annabeth de agir, que ele já gostava até um pouco demais) e ele também realmente gostava dela. Era como se tivessem sido amigos há séculos, apesar de terem passado menos de uma semana juntos, e, apesar de saber que para seu próprio bem não deveria deixar que isso acontecesse, Percy já sentia algo mais dentro dele crescendo por ela.
Interrompendo a caminhada, de súbito, o barulho alto de um helicóptero se aproximou. O susto foi tanto em contraste com o usual silêncio pacífico do deserto que Annabeth soltou um pequeno grito de surpresa, e todos os soldados pararam para encarar o céu azul com certa dificuldade, devido ao sol. A pressão do vento causada pelas hélices fez com que os cabelos de Percy se bagunçassem ainda mais. O helicóptero pairou por cima deles por alguns instantes antes de iniciar sua descida, há poucos metros de distância, e o vento espalhou areia na altura deles, fazendo com que Percy fechasse os olhos para que os grãos não o incomodassem. Quando a hélice enfim se desligou, Charles foi o primeiro a se aproximar, no entanto, o coração de Percy se acelerou quando notou que se tratava de um veículo do Exército Americano.
A porta do helicóptero se abriu, e de dentro dele, saltaram um subintendente jovem, o Tenente Nakamura, que Percy reconheceu do Batalhão 44, e, por fim, o homem arregalou os olhos a ver que o último a sair foi Luke Castellan, o homem com a cicatriz medonha que visitara Annabeth um dia antes da explosão na enfermaria. Percy retorceu o rosto à visão dele; lembrava de tê-lo detestado por interromper sua conversa com Annabeth, e apesar de ser grato por estar sendo salvo, não estava nem um pouco feliz em vê-lo.
– Luke?! — Annabeth exclamou atrás de Percy, e pôs-se a correr em sua direção com seus bonitos olhos cinza arregalados, evolvendo-o em um abraço apertado. Apesar de estar perto de Nakamura, o subintendente e todo o Batalhão 21, Luke retribuiu o abraço vorazmente, e Percy sentiu seu coração tombar em seu peito. Mais uma vez, sabia que conhecia Annabeth há pouquíssimo tempo, e que era loucura que morresse de ciúmes dela, mas ele apenas desejava que a noite dos dois no deserto tivesse significado tanto para ela como para ele.
– Annie. Pensei... Pensei que algo havia acontecido a você... — Luke deixou escapar um suspiro aliviado, abraçando-a apertado mais uma vez antes de soltá-la e acariciar seus ombros. — Está de vestido? Aonde conseguiu roupas? Como escapou da explosão? Como sobreviveu no deserto? — Olhou para os soldados do Batalhão 21 como se um deles fosse responsável por fazer Annabeth passar por aquela situação.
– Eu não estava sozinha. — Para a alegria de Percy, Annabeth tinha um grande sorriso nos lábios quando olhou para ele. — Ele estava comigo. — Annabeth caminhou em direção a ele, colocando uma mão delicada em suas costas. Era a primeira vez que encostava nele desde que acordaram, e o mais simples toque fez com que arrepios percorressem sua espinha. Ele sorriu para ela também, mas não teve tempo de prolongar o acontecimento quando Luke se aproximou. — Luke, esse é Perseu Jackson. Ele é um soldado do Batalhão 21, mas estava sob os meus cuidados na enfermaria. Ambos sobrevivemos à explosão porque eu estava o acompanhando ao jipe do Exército que o traria de volta para a cidade quando a bomba detonou.
– É um prazer conhecê-lo, General Castellan. — Percy levou a mão esticada à testa como sinal de respeito, mas não era prazer nenhum conhecer aquele charlatão.
– Ah, sim. — Luke fez que sim em direção a Percy com desprezo antes de voltar-se para Annabeth, fazendo com que o soldado queimasse de raiva por dentro. — Vou pedir a Nakamura para que façam contato com a base, e mandarão um jipe para buscar você e o Batalhão 21. É óbvio que ainda há muitas questões a serem discutidas sobre as bombas, e o Exército não deixará nenhum dos envolvidos descansarem até que seja feito. — Fez uma pequena pausa, voltando-se para Percy com relutância. — Obrigado por cuidar de Annabeth, soldado, e mantê-la em segurança até agora.
– Foi ela quem cuidou mais de mim, para falar a verdade. — Percy ofereceu à Annabeth um sorriso triste. Enfim havia percebido que tudo que planejara para os dois depois que conseguissem suas licenças era extremamente irreal. Ele queria levá-la para jantar em Nova York, quem sabe para uma peça na Broadway, se ela quisesse. E quem sabe, ela o deixasse beijá-la novamente, sem que fosse no frenesi do deserto. Mas ele estava sendo um tolo, um tolo que havia enxergado possibilidades aonde não existiam. — Se cuide, Annabeth. Espero podê-la ver novamente, um dia... E não em uma tenda de enfermaria. — Ele sorriu tristemente mais uma vez, pois esperava que ela finalmente conseguisse sua posição merecida como estrategista. Annabeth franziu o cenho para ele, parecendo tristonha e mal compreendida, mas ele procurou não notar. — General Castellan. — Percy levou a mão à testa novamente.
– Annabeth, vamos... — Luke colocou a mão nas costas frágeis de Annabeth para levá-la ao helicóptero, mas ela virou-se de volta para Percy.
– Não, espere, eu...
– Tenente Nakamura, mande um jipe para buscar estes homens imediatamente, e que sejam levados até o Quartel Principal. Chegaremos lá antes, mas de qualquer forma, temos de convocar os outros generais para uma reunião de emergência. — Luke ignorou os protestos de Annabeth, levando-a até o helicóptero enquanto ela olhava para trás, seus olhos desamparados encontrando os de Percy. — Homens, não se preocupem, o jipe não demorará mais de quinze minutos. Tenente Beckendorf, fez um bom trabalho ao guiar estes homens.
Charles transmitiu breves palavras de incentivo aos homens que Percy fez questão de bloquear. Era como se seus ouvidos estivessem tampados num misto de raiva, revolta e uma tristeza inexplicável e repentina. O helicóptero voltou a decolar, bagunçando os cabelos de Percy mais uma vez e agitando os grãos de areia. O soldado observou o veículo verde musgo em contraste com o límpido céu azul até que ele desaparecesse de vista.
O primeiro que se manifestou foi Leo.
– Que merda, hein, cara? — A mão dele bateu contra o ombro de Percy num cumprimento amigável. — Parece que perdeu sua namorada.
– Ela não é minha namorada. — Percy murmurou mal humorado.
– Não acredito que deixaram a gente aqui. — Grover soltou um grande suspiro, colocando a sacola com sua arma e as poucas garrafas d'água que o grupo tinha ao chão. — Depois de toda essa caminhada... Pensei que aquele general metido à besta fosse ser um pouco mais gentil. Somos o principal batalhão de Dohuk, apesar de estarmos em apenas sete soldados. — Balançou a cabeça enquanto sentou-se na areia ao lado da mochila. — Bando de esnobes.
– Ele pode ser um esnobe, mas ainda assim, espero que não fale com esse linguajar na frente dele, Underwood. — Charles advertiu, mas um sorriso brincou em seus lábios enquanto se ajoelhava para agarrar a sacola de mantimentos da areia brilhante.
- Pelo amor de Deus, está muito calor. — Travis reclamou. — Tenente, pode me passar uma garrafa d'água?
Normalmente, Percy concordaria com Grover e o ajudaria a xingar o panaca do General Castellan, mas desta vez, ele estava demasiado atordoado para abrir a boca. Seus sentimentos com relação à Annabeth ainda eram confusos, e se misturavam com a alegria atordoante de que depois de tanta incerteza e quase ter sido morto duas vezes seguidas (uma pelo tiro, outra pela explosão) estava indo para casa de licença para ver sua mãe e os amigos que havia deixado em Nova York. Ainda assim, sabia que não conseguiria parar de pensar nela, em seus cabelos dourados, seus olhos cinza... Como os lábios macios dela mexiam contra os seus... E sempre se perguntaria se ela também estaria pensando nele.
Os acontecimentos seguintes ocorreram rápido demais.
Percy escutou a voz distante de Nico murmurando um "puta que pariu" baixo enquanto os outros soldados subitamente se afastavam na areia. Virou-se para trás, tentando encontrar a origem daquele momentâneo frenesi.
– Ninguém se mexe! — A voz grossa e potente do Tenente Beckendorf gritou. Percy arregalou os olhos quando estes encontraram a imagem na frente de si: Charles Beckendorf, o homem responsável e fiel a quem havia obedecido por tanto tempo segurava o detonador de uma bomba em uma de suas mãos.
Notas finais
Como eu já havia dito antes, essa fic será bem pequena, e o próximo capítulo provavelmente será o último (talvez, além do próximo eu faça um epílogo).
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Beijos
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