Daylight
7 CAPÍTULO FINAL
Notas iniciais
A cabeça de Percy doía insuportavelmente quando finalmente conseguiu abrir os olhos.
O teto do estabelecimento onde estava era tão branco que só fez com que seu cérebro pulsasse mais dentro de seu crânio. A julgar pela dificuldade de mover os dedos da mão, ele estivera imóvel e inconsciente havia pelo menos alguns dias. Havia o barulho de um monitor cardíaco constante em seus ouvidos; pelo menos estou vivo, pensou, fechando os olhos novamente para umidecê-los antes de voltar a tentar enxergar melhor seus arredores. A parede à sua frente também era tão branca quanto o teto, e se sentia pesado de mais para ao menos virar-se para o lado. Graças às máquinas que escutava trabalhando ao lado dele, sabia que estava em um hospital; um hospital de verdade, nada improvisado. Fazia tempo que não estivera em um assim.
- Percy? — Uma voz feminina, familiar e ao mesmo tempo desconhecida chamou à sua direita, e antes que ele pudesse virar-se para procurar sua origem, sentiu uma mão pequena em cima da sua, e a loira entrou em seu campo de visão.
Annabeth.
O que ela estava fazendo ali? Ela não havia subido em um helicóptero, com o maldito Castellan? De súbito, todas as últimas imagens que Percy havia registrado voltaram à sua memória, e ele escutou seu coração disparar, tanto no seu peito como no irritante apito da máquina conectada a ele.
Tenente Charles. Bomba. Detonador. "Ninguém se mexe". Deserto. Calor. Explosão.
- Meu Deus. — Percy murmurou, virando-se para Annabeth. Estava prestes a perguntar pelos seus amigos, sobre o que realmente havia acontecido, mas o rosto da moça estava pintado de diversas cores. Era quase como se tivesse pego lápis aquarela e rabiscado sua pele em riscos randômicos, e ele estava quase certo de que estava sonhando. — Meu Deus, Annabeth, o que há com o seu rosto?
- Ah, isso aqui? — Annabeth corou, dando uma pequena risada. Seus olhos cinza pareciam preocupados. — É que... Quando eu era pequena... Meu pai sofreu um acidente de carro. Ele ficou alguns dias desacordado, como você, e eu queria fazer uma surpresa para deixá-lo feliz quando ele saiu do coma e pude visitá-lo. Então pintei meu rosto assim. — Ela gesticulou para si mesma, dando uma pequena risada e corando mais. — Achei que pudesse ter o mesmo efeito positivo em você, quando levantasse.
Uma parte ínfima dele ainda estava com uma inofensiva raiva dela por ter entrado no helicóptero, mas agora que ele parava para pensar, Annabeth não tivera uma escolha. Aquele charlatão do tal de General Castellan nem a havia lhe dado uma chance de falar. Além disso, o fato de ela estar ali tinha que significar que ela se importava com ele, ainda mais considerando a pintura facial digna de uma criança que mal conseguia segurar o lápis de cor com as mãos.
- O que aconteceu? — Percy franziu o cenho. — Eu... O Tenente Charles... E os soldados... — Era só agora que Percy notava que sua perna esquerda estava engessada, enfaixada e suspensa por um suporte de ferro ao lado da cama. Não se lembrava da dor, muito menos de ter quebrado qualquer parte de seu corpo. Sua última lembrança fora de seu tenente ameaçando detonar uma bomba.
Annabeth hesitou. As mãos dela tremiam em seu colo, e Percy notou que era a primeira vez que ele a via em roupas normais: Quando a conhecera, ela sempre estivera de roupas de enfermeira, e depois disso, dos vestidos que a esposa de Quíron lhe emprestara. Agora, estava com uma calça jeans colada às suas longas pernas, e uma blusa do livro transformado em filme Laranja Mecânica abraçava o seu torso perfeito. Os olhos de Alex, o protagonista psicopata da história, eram enormes contra o fundo alaranjado do tecido, e Percy pensou estar ferrado mais uma vez. Não é possível, pensou. Além de ter incrível gosto musical, ser fantástica na cama, ser a mulher mais linda que já vi e ter pintado toda a cara por mim, ela gosta do meu filme preferido. Se não houvesse provado por si mesmo a existência de Annabeth diversas vezes, ainda suspeitaria que ela fosse uma perfeita ilusão.
- O Tenente Beckendorf detonou a bomba logo depois que ameaçou você e seus amigos. — Ela lhe contou. — Aparentemente, Grover deu um passo em falso para tentar interrompê-lo, e ele se assustou, apertando o botão do detonador. Você foi quem estava mais distante, mas a explosão fez com que você apoiasse o peso de todo o seu corpo mais o do impacto da bomba em sua perna esquerda, e assim, o osso se fraturou. Está com um corte pequeno na bochecha, também... Mas fora isso, está em perfeito estado. — Annabeth sorriu, e ela tirou uma das mãos do colo e acariciou uma das bochechas de Percy (a que ele assumiu que não estava machucada). Ele não esperava pelo gesto gentil, e sua pele corou de vergonha. Conhecia Annabeth há uma semana e ela já o deixava tão bobo. Maldita fosse.
- E... E os... Meus amigos? — Percy forçou as palavras para fora da boca enquanto Annabeth puxou sua mão para longe do rosto dele. Se ele estivera o mais distante e quebrara a perna, imaginava o que poderia ter acontecido com seus colegas. Aqueles homens foram responsáveis por lhe pregar pegadinhas idiotas como enfiar pasta de dente em locais desagradáveis enquanto ele dormia por dois anos, mas também foram seus melhores companheiros. Não sabia como lidaria com perder qualquer um deles.
- Estão bem, Percy. — Annabeth fez que sim, e ele relaxou. Sabia que ela não mentiria para ele. — Apesar de estar segurando o detonador, Charles sobreviveu. Passou por várias cirurgias, e está internado... E algemado. Os mais feridos foram Grover e Nico, por estarem mais próximos de Charles. Seus tímpanos quase foram perfurados e Nico teve hemorragia no baço, mas o jipe do Exército chegou a tempo, e por sorte, havia um médico e certo equipamento básico com ele. Travis e Connor sofreram hematomas e queimaduras de primeiro grau devido ao calor, e Tyson quebrou o braço esquerdo. Leo escapou com uma concussão leve... E garanto que está em perfeito estado, visto que, quando fui visitá-lo, ele me passou uma cantada logo que acordou.
Percy soltou uma risada quando Annabeth lhe contou sobre Leo. Ele estava tão aliviado com o relatório dela sobre o estado de saúde de seus amigos que sentia um torpor tomar o lugar da forte dor de cabeça que tivera há apenas poucos minutos atrás, no entanto, ainda sentiu um leve pesar com a menção de Charles. Ainda sentia o pulsar da traição em suas veias: confiara no seu tenente como o resto de seus amigos. Ele sempre parecera tão bom, tão pacífico... Não podia acreditar que estaria envolvido com terroristas ou qualquer tipo de violência não justificada.
- Percy, Charles, ele... Confessou. — Annabeth falou baixinho, quase como se soubesse o que passava pela sua cabeça. — Logo que estava bem o suficiente para ser interrogado, confessou. Disse que há mais ou menos um mês, um pequeno grupo terrorista curdo chamado Kaled-Ahmed fez contato anônimo com ele por meio de cartas, ameaçando sua família. Sabiam o endereço dele nos Estados Unidos... Sabiam de sua esposa, Silena... E até mesmo os nomes e as idades de seus filhos, e em que escolas estudavam, os lugares que frequentavam. — Ela engoliu em seco, e Percy viu um arrepio passar pelos braços da loira. Ele se sentia da mesma forma. Se alguém ameaçasse sua mãe, ele também teria feito qualquer coisa que lhe pedissem. — Charles não conseguiu recusar. Mandaram-lhe mais cartas, dizendo que se não houvesse resposta, que... Bom... Sacrificariam quem ele mais amava. Foi ele quem iniciou as explosões na cidade, e quando o jipe do Exército veio te buscar no dia que você recebeu alta da enfermaria, ele implantou a bomba relógio ali, para que explodisse no horário previsto. A última que ele teria que detonar foi a do deserto, quando deveria suicidar-se em prol dos terroristas para que não assassinassem sua família nem contasse às autoridades sobre o que fora obrigado a fazer. É mesmo tudo verdade. — Annabeth se apressou em acrescentar. — Luke encontrou todas as cartas na antiga base militar de vocês, por isso... Ele ficará bem. Passará por investigações extremas até cada fio de seus cabelos, mas poderá voltar para casa, eventualmente.
Quando Annabeth lhe explicou sobre as condições dos atos de Charles, Percy relaxou ainda mais. Fazia sentido, e era mais fácil aceitar. Charles era um homem bom, e suas ações foram compreensíveis devido às ameaças que recebera. Percy conhecia Silena e os filhos dela com o Tenente Beckendorf por fotos, mas sempre soube que seu supervisor faria de tudo pela família.
Ao pensar que dentro de dez dias atrás Percy estava acordando dentro de uma enfermaria no meio do deserto ao desejar uma enfermeira loira e que de uma hora para outra os dois haviam passado por tudo isso juntos era surreal. Em menos de duas semanas, ele havia sentido medo para uma vida toda, apreensão por seus amigos, por seu emprego, por sua própria sobrevivência. O que seria de Sally se ele houvesse morrido? Como ela continuaria vivendo sem ele? Além de tudo, havia deixado crescer um sentimento novo por uma moça que mal conhecia, um sentimento que nutria profundamente e que aumentava a cada vez que ele olhava para ela.
- Moloko Vellocet. - Percy sorriu, apontando para a camiseta dela. Annabeth pareceu confusa por um instante antes que respondesse. A expressão era referente ao famoso leite com drogas que Alex consumia no livro e no filme Laranja Mecânica com seus amigos, que chamava de "drugues".
- Ah, meu caro drugue. - Annabeth levantou uma sobrancelha para ele. — Não fazia ideia que era fã de Laranja Mecânica. Portanto... Acho que vou lhe dar um beijo. Um bem horrorshow. - A última expressão também era do livro e significava 'fantástica', mas Percy não teve muito tempo para pensar nisso antes que Annabeth se aproximasse dele e encostasse os lábios macios dela nos dele. Como desde a primeira vez, ele se derreteu contra ela, querendo que aquele momento nunca acabasse.
- Horrorshow. - Percy concordou quando se afastaram, esticando a mão na direção dela para acariciar sua bochecha pintada de colorido. — E, só pra sua informação, a pintura facial é bem interessante, também. Só espero que não queira sair assim em público.
Percy riu quando Annabeth lhe deu um tapa no ombro; Agora que ele parava para pensar melhor, conhecê-la da maneira que ele havia feito, andando ao seu lado no deserto, foi bem mais divertido do que qualquer encontro. Não era ideal, ainda não. Havia muitas coisas que ele não sabia ao respeito dela, e não fazia ideia de quando seria liberado para ir para casa, mas algo lhe dizia que, quando fosse, que não estaria sozinho.
Notas finais
A fic foi curta, como eu planejava que fosse, e apesar deste último capítulo ter ficado bem compacto e simples, preferi terminar assim do que com uma narração cansativa. Planejo acabar minha outra fic, "She Falls Asleep", em breve, e assim que eu escrever o último capítulo dela, quero começar outra. Quem sabe a gente não se vê por lá?
Mais uma vez, MUITO obrigada! Por hoje é só! Até a próxima, pessoal!
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