Daylight
5 Capítulo 5
Notas iniciais
- General Castellan, com licença. Mensagem urgente do Pelotão de Buscas 5. — A voz do subintendente Gabriel Fitz soou por trás da porta entreaberta.
- Entre. — Luke respondeu, limpando a garganta para disfarçar o sangue que acabava de lhe subir a cabeça. Seu coração batia rápido, errôneo de ansiedade e medo. Já fazia dois dias desde que mandara o pelotão atrás de qualquer sobrevivente (mais precisamente, de Annabeth) e era a primeira vez que receberia alguma notícia concreta. Sabia que com seu mais novo posto como general não podia deixar que emoções o atrapalhassem: havia sofrido muito para provar seu valor, mas ao mesmo tempo, Annabeth estava em questão. Ela havia sido sua melhor amiga desde que ele se entendia por gente, e, pelo amor de Deus, ele a amava mais do que qualquer cicatriz pudesse tentar esconder.
O subintendente Fitz colocou a mão esticada à testa como ato de cumprimento e respeito, e Luke fez o mesmo para que pudesse enfim falar.
- O pelotão acabou de retornar das montanhas, General. — Fitz fez que sim. — Os soldados vasculharam as montanhas e as vilas mais próximas da enfermaria de acordo com o procedimento padrão, começando pela base das cordilheiras para apenas depois ir até as vilas para tentar questionar os moradores. O rio próximo a enfermaria também foi cuidadosamente vasculhado.
Luke tentava procurar por qualquer sinal de uma boa ou má notícia no rosto do jovem, mas suas feições eram neutras, assim como o treinamento ditava.
- Como sempre, os xiitas e sunitas residentes nas vilas não cooperaram muito na hora de serem questionados. A maioria deles não falava inglês, ou pelo menos, fingiam não falar. De forma ou outra, as vilas foram vasculhadas... E nenhum membro do Exército ou funcionário da Saúde da enfermaria foi encontrado, General. — Fitz permitiu-se abaixar os olhos por um instante. Luke era muito discreto no que se dizia respeito à sua vida pessoal, mas de certa forma, o subintendente havia percebido que a busca era importante para ele. — No entanto...
Luke levantou os olhos para o soldado novamente. Já estava prestes a dizer a si mesmo que deveria se conformar com o fato de que sua melhor amiga estava morta; que teria que ligar para os pais dela, que tiveram grande papel em sua infância, ligar para o resto de seus amigos, e, principalmente, honrar a sua memória, o que parecia impossível. Ela era Annabeth Chase. Não podia estar morta. Ele saberia se estivesse. Talvez, este fosse o motivo incerto pelo qual Luke não se permitia sofrer ou desistir das buscas ao redor da área da explosão.
-... O rio. Perto da enfermaria. — Fitz completou. — Foi o último lugar que o pelotão procurou, e apesar de não terem encontrado ninguém... — O soldado parou por um instante para remover um pequeno bolo de fotos recém reveladas de seu bolso. — Alguém esteve lá recentemente. E deixou vestígios. — Luke tentou não parecer desesperado quando pegou as fotos, mas suas pupilas aumentaram de tamanho quando ele visualizou as imagens registradas pelo pelotão: às margens do rio, ao lado de um pequeno conjunto de arbustos secos típicos do deserto, a câmera registrou duas garrafas d'água vazias. Luke franziu o cenho; aquilo indicava que alguém havia estado lá, mas na realidade, não revelava muito. Quando passou para a segunda imagem, no entanto, prendeu a respiração.
- Aqueles... Homens... Do Batalhão 21. — Arfou enquanto observava as imagens seguintes: enterradas na areia, havia duas ou três balas caídas de arma.
- General? — Fitz interrompeu. — Não há como saber se as balas são das armas deles. Podem ser de qualquer comerciante curdo contrabandista.
- Eles estiveram lá. — Luke fez que sim rapidamente. Não havia sido promovido a general por motivo nenhum: sabia reconhecer áreas de contato quando encontrava com alguma. — Está vendo como as balas estão dispostas? — Virou-se para Fitz, apontando para os pequenos compartimentos na areia dourada. — Pelo jeito que estão afofadas contra o chão, caíram ali por descuido, não porque uma arma foi disparada. Sabemos que os soldados do Batalhão 21 fugiram. Charles Beckendorf nunca deixaria que seus homens fossem pegos por uma bomba. Assim que as explosões começaram, ele comandou uma equipe de fuga para o deserto. — Luke estava elétrico; fazia tempo que não sentia tanta adrenalina por apenas uma conversa sobre estratégia. — Devem estar com poucos mantimentos, mas sabiam da existência do riacho. Deixaram as garrafinhas caírem, assim como as balas enquanto recarregavam as armas, e seguiram viagem.
Fitz parecia atônito. Sendo um novato, era um privilégio para ele escutar lições de homens como Luke Castellan, mesmo que fosse difícil seguir sua habilidosa linha de raciocínio.
- Mas... Para onde iriam, General Castellan? — Fitz mordeu o lábio inferior. — Se já procuramos as vilas, e as montanhas... Faz quatro dias desde que os soldados do Batalhão 21 fugiram, e...
- Agora está claro. — Luke o interrompeu, dando um sorriso maldoso enquanto entregava as fotos para o soldado. Virou-se para o mapa ampliado da Arábia Saudita que tinha atrás de sua escrivaninha, e apontou para o local onde a cordilheira de montanhas estava representada. — As montanhas estão à direita, certo, garoto?
- Sim senhor.
- Quando não se vai pela direita, é lógico que se vá pela esquerda, certo? — Luke deslizou o dedo para o lado oposto das montanhas.
- A fronteira para a Turquia. — Fitz murmurou, maravilhado com a conclusão do general. — Diabos... Procuramos no lado errado das montanhas!
- Sim. — Luke concluiu, cruzando as mãos na frente do peito. Se havia ainda um vasto território não explorado, suas últimas esperanças de encontrar Annabeth estavam exatamente lá, e mesmo que as chances fossem pequenas, ele não as desperdiçaria. — Não se culpe, subintendente. Também pensei que o lado direito segurava a resposta para as nossas buscas, mas todos cometemos erros. Chame o Pelotão de Buscas 3, que estão em treinamento há tempos e precisam entrar em campo. Mostre a nova rota para os homens, e que partam imediatamente.
- Sim, senhor. — Fitz fez que sim, levando a mão esticada à testa como o usual cumprimento mais uma vez. — Permissão para me retirar, General Castellan.
- Ainda não, subintendente. — Luke levantou a sobrancelha. — Comunique ao líder do pelotão que eu partirei com eles.
XXX
Percy carregou os restos de arbustos em seus braços até chegar no local iluminado pela lanterna de Annabeth, soltando a madeira e as folhas secas na areia na frente dela. A loira transferiu a lanterna para as mãos agora vazias dele, e após procurar por alguns segundos dentro da bolsa de suprimentos, encontrou o isqueiro. A chama queimou contra a madeira seca dos arbustos por alguns segundos antes que enfim se espalhasse em torno da planta morta.
- Vamos buscar mais galhos. — Annabeth fez que sim. — Assim, a chama dura mais.
Dito e feito, mais galhos secos foram adicionados ao fogo, e logo, tinham uma fogueira improvisada. O sol estava quase se pondo, e depois do dia cansativo de caminhada que tiveram, era hora de parar para dormir. Haviam parado ao pé das montanhas em torno de uma rala vegetação, mas logo que os raios solares começaram a sumir sobre o horizonte, descobriram que seria uma noite fria, seria impossível se proteger dos ventos do deserto a menos que fizessem uma fogueira. Há algumas horas atrás, os dois haviam encontrado outro pequeno riacho, cercado da comum vegetação rasteira. Annabeth fez com que Percy virasse para o outro lado e encarasse os arbustos enquanto ela se lavava, e ele fez o mesmo depois. Apesar de terem se banhado na casa de Quíron há apenas um dia atrás, era revigorante tomar banho, mesmo que improvisado. Quando limpos, Annabeth enrolou em si outro vestido de longas tiras de pano, e Percy colocou outra camiseta do Pink Floyd, desta vez, do álbum Wish You Were Here.
Estenderam o saco de dormir na frente da fogueira e se posicionaram de frente para ele enquanto ambos pegavam garrafinhas d'água e comiam uma lata de sardinhas cada um. Percy não podia deixar de sonhar com as refeições deliciosas que teria se o Exército lhe desse uma licença provisória, mas sentiu uma estranha pontada em seu peito ao pensar que no dia seguinte, chegariam à fronteira, e que ele teria que se despedir de Annabeth. Não queria passar o resto de sua vida no deserto, mas ao mesmo tempo, não queria deixá-la.
- So, so you think you can tell heaven from hell, blue skies from pain... — De súbito, Annabeth começou a cantar em voz baixa. Percy mordeu o lábio inferior enquanto a loira cantava encarando as chamas oscilantes da fogueira; como ele suspeitava, Annabeth conhecia sim boa música, e, como Percy imaginara, o fato só fazia dela um bilhão de vezes mais atraente do que já era. — Can you tell a green field from a cold steel rain? A smile from a veil? Do you think you can tell...?
Quando Annabeth estava prestes a cantar a próxima estrofe da música, Percy juntou-se a ela. Não sabia dizer o porquê (além de gostar da música, é claro), apesar de sentir em seu peito que fosse um pouco mais do que isso. Seus olhares se encontraram brevemente e as bochechas de Annabeth ficaram vermelhas, mas ela não parou de cantar. Na verdade, a cada verso que passava, a voz dos dois ficava mais alta, em um uníssono. Sem que ao menos percebesse, o braço direito de Percy envolveu os ombros de Annabeth como ele queria ter feito há tempos, e nenhum dos dois se importou.
- WE'RE JUST TWO LOST SOULS SWIMMING IN A FISH BOWL, YEAR AFTER YEAR! — No último verso, o tom de suas vozes se tornara altíssimo. Eram apenas os dois no silencioso deserto, em volta da fogueira, e era quase como se o fato se encaixasse nos outros como peças do mais complicado quebra-cabeça. Deveriam se preocupar com o perigo dos coiotes e outros animais durante a noite, se preocupar com encontrar ajuda na fronteira da Turquia, e se receberiam ou não licenças provisórias, mas Percy sabia que assim como acontecia com ele, deveria estar acontecendo com ela: Estar ali, estourando os pulmões com a letra de uma bela música era melhor do que qualquer outra coisa. — Running over the same old grounds, what have we found? The same old fears! Wish you were here...
Acabaram o último verso no mesmo instante. Correntes de pura eletricidade passavam pela pele de Percy, e quando Annabeth virou-se para olhá-lo novamente, ele sabia que ela se sentia da mesma maneira. Seja lá o que aquilo fosse, seja lá o que aquilo significasse, os dois haviam cantado uma música do Pink Floyd juntos, e ele nunca se perdoaria se não a beijasse naquele instante. Ia ter que deixá-la no dia seguinte, afinal.
Como se estivessem conectados em pensamento mais uma vez, Annabeth aproximou seus lábios aos dele ao mesmo tempo em que ele o fez. Beijou-a lentamente, querendo absorver cada traço dela caso não tivesse a chance de fazê-lo novamente. Na enfermaria, ele havia imaginado qual seria o gosto de sua boca se ele tivesse o prazer de prová-la, mas o beijo foi como nenhum outro. Annabeth se encaixava perfeitamente nele, quase que como fosse feita para só aquele propósito. A mão pequena e macia dela deslizou para a parte de trás do pescoço dele para puxá-lo para mais perto, e logo, os dedos ela gentilmente puxaram as mexas escuras de sua nuca. Deus, ela beijava tão bem que tinha medo que fosse acordar de uma ilusão ou de um doce sonho.
- Percy... — Ele se decepcionou quando ela se afastou, mas manteve seus lábios perto dos seus, tão perto que podia sentir o gosto deles ainda assim. — Tire essas suas roupas bonitas, e entre naquele saco de dormir. Eu estarei lá em um minuto.
Percy arqueou as sobrancelhas. Além de ter acabado de experimentar o que foi o melhor beijo de sua vida, a moça mais bonita que ele havia conhecido queria... Dormir com ele? Não só no sentido literal, isso viria depois, mas... No outro sentido também? Seria muita sorte para um cara só. Diabos, Percy pensou. Quando eu terei essa chance de novo? Isso mesmo. Nunca. Parecia esquisito, deitar-se com uma mulher no meio do deserto, mas e daí? Percy nunca fora tão sortudo em um dia só no que pareciam ser séculos, então, honestamente, ele nem se importaria se um escorpião picasse sua bunda dentro do saco de dormir ou algo assim. Uma vez na vida, ele transaria com a enfermeira gostosa -- mesmo que na verdade ela fosse arquiteta, gostasse de rock clássico e que ele realmente gostasse dela.
Observou Annabeth se levantar e caminhar até a pequena vegetação de arbustos a poucos metros dali (ele imaginou que ela fosse tirar aquele vestido bonito dela ou qualquer porcaria assim) e logo obedeceu as instruções dela com um sorriso bobo no rosto. Mal podia esperar para contar pra Grover que tinha se dado tão bem.
XXX
- Ele se deu bem. — Leo deu de ombros, mordendo o lábio inferior enquanto encarava o amigo Percy dormindo em paz embaixo de uma loira bonita dentro de um saco de dormir. — Ela é gostosa.
- É mesmo. — Nico concordou. — E ele está pelado. - Fez com que os outros soldados dessem pequenas risadinhas.
- Calem a boca, seus paspalhões tarados. — Charles logo interveio, fazendo com que o batalhão se calasse, no entanto, falando com a voz baixa. — Ele está vivo, é o que importa. — Limpou a garganta, mas também estava naturalmente constrangido. Eram seis horas da manhã no deserto e o sol ainda não havia surgido. O céu estava de uma bonita coloração rosa e azul, e devia ser pela falta de luz que Percy e a moça loira não haviam despertado de seu sono compartilhado. — Está bem... Quem vai acordá-los primeiro?
- Definitivamente Percy. — Travis Stoll confirmou com um risinho, mesmo que todos soubessem que era realmente seu amigo. — Está dormindo de boca aberta... E está babando. — Os soldados riram em conjunto novamente, e até Charles se permitiu soltar um pequeno riso.
- Se eu acordá-los, posso ver os peitos dela? — Leo perguntou, levando um soco no esquerdo da parte de Grover.
Os soldados haviam marchado na escuridão e no calor durante o dia anterior em direção ao seu objetivo de chegar à Turquia e ficaram surpresos ao encontrar fumaça saindo de uma fogueira recém-apagada ao lado das montanhas. Quando se aproximaram, pensando conseguir ajuda com seja lá quem fosse que estivesse acampando ali, ficaram um bilhão de vezes mais surpresos ao ver que se tratavam de Percy completamente nu dentro de um saco de dormir com uma garota com ele, ainda mais.
A tensão do grupo havia subido ainda mais quando Charles declarou que sabia que o responsável pelas explosões terroristas na enfermaria e na cidade estava entre eles. Os soldados esperavam, pelo menos, que com a presença de Percy -- ainda que momentaneamente pelado e constrangido -- as coisas ficassem mais fáceis. Afinal, ainda tinham uma caminhada de um dia até a Turquia, e o que parecia ser um caminho de um bilhão de passos até que encontrassem o culpado pelos crimes recentes.
Notas finais
E enfim, Percabeth! Espero que vocês tenham gostado. Adoro escrever desgraça, mas sou péssima com fofura, então espero que o capítulo tenha ficado bom. A música que eles cantam no final do capítulo é "Wish You Were Here", e como já mencionado, da banda Pink Floyd.
Se gostou, deixe seu review! É falta de educação sair sem dar um alô ;)
Fale com o autor