Daylight
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Como prometido, Quíron ajudou Percy e Annabeth a saírem da vila em segurança durante a madrugada, quando os sunitas moradores do local dormiam em paz em suas pequenas casas.
Além das trocas de roupas antes oferecidas pelo homem, Quíron também havia dado alguns de seus mapas para que Percy os colocasse em sua mochila e fizesse bom uso deles quando ele e Annabeth precisassem se situar em uma localização ao menos aproximada. Como havia explicado mais cedo, encontrariam apenas algumas outras vilas pelo seu caminho (se tivessem sorte) e sua maior chance de conseguir um contato seguro com o Exército Americano seria continuarem seguindo em direção à Turquia. Percy sabia que não existiam bases perto da fronteira, mas talvez encontrassem uma trupe de vistoria em algumas das pequenas vilas. Apesar de ainda extremamente preocupado com o paradeiro de seus amigos do Batalhão 21, sabia que sua maior chance de revê-los, se estivessem bem, era seguir no caminho contrário aos atentados ocorridos em Dohuk. Agora, com a mochila cheia de pequenos pacotes de coalhada, ainda mais garrafas d'água e roupas, tinham que torcer para que não tivessem que andar por muito tempo; por mais que encontrassem outros povoados, raramente encontrariam cidadãos dispostos a ajudar como Quíron.
O sol já nascia fraco no horizonte quando ele e Annabeth retomavam o caminho de volta para o deserto. Estabeleceram uma rota constante ao pé das montanhas para que as grandes estruturas os protegessem do sol escaldante, o que pareceu funcionar; Quíron havia sinalizado uma rota de caminhada para os dois de marca texto amarelo que exigia que fizessem a travessia da montanha em um ponto em que era mais baixa e plana; surpreendentemente, a fronteira da Turquia realmente ficava mais perto de Dohuk: se continuassem no ritmo que estavam indo, demorariam cerca de dois dias para chegar ao local. Paravam quando sentiam fome, e Annabeth usava um pouco da água de uma das garrafas para limpar o ferimento de bala no ombro dele, e pequenas tiras de gazes oferecidas pela mulher de Quíron para facilitar a cicatrização. Quando a explosão ocorreu, o ferimento havia sangrado, mas Annabeth garantiu que os pontos não haviam estourado e que não precisavam se preocupar com aquilo no momento.
- Muita gente morreu, sabe. — Annabeth comentou baixinho enquanto roçava o pequeno pedaço de pano molhado contra a ferida já mais uma vez em processo de se fechar. — A enfermaria... Estava cheia naquele dia. — Ela mordeu o lábio inferior, e Percy procurou por seus olhos, mas ela parecia mais interessada no machucado dele.
- É. — Ele concordou quando achou plausível. Até aquele momento, não tinha parado para pensar no que realmente haviam presenciado. Podiam ter morrido, também. Se Annabeth e ele estivessem a dois metros da entrada da tenda da enfermaria, teriam sido atingidos em cheio pela explosão assim como todos os outros dentro dela.
- Eu... Só queria saber quem... Quem foi o filho da puta que levou a bomba pra lá. — Annabeth esfregou o buraco da bala com mais força, fazendo com que ele segurasse um gemido de dor, mas continuou quieto e parado sentado sobre uma rocha lisa enquanto ela falava. — Quer dizer, eu... Já vi de tudo, tenho certeza que você também, mas... Era uma enfermaria, e... — Balançou a cabeça como quem daria tudo para esquecer o que havia visto, mas calou-se. — Deixa pra lá. Vamos fazer seu curativo. — Sorriu, mas não era difícil para ele perceber que sua expressão não era honesta.
Queria dizer mais, dizer que a entendia, que apesar de já ter visto muito em seus dois anos de serviço, explodir uma enfermaria era, com certeza, um dos mais cruéis atos dos quais já havia presenciado, porém, manteve-se quieto. Ainda não sabia onde a relação dos dois estava, aliás, se sentia estúpido ao considerar que eles tinham qualquer conexão, apesar da ainda evidente tensão sexual.
- Pronto. — Annabeth declarou, puxando outra blusa dada a ele por Quíron de dentro da mochila de mantimentos. — Esta aqui é branca, então você não vai sentir tanto calor. Quando encontrarmos outro riacho, lavamos a do Pink Floyd. — Fez que sim, e ele se perguntou se estava vendo coisas quando ela começou a admirar sua forma física e balançou a cabeça para se distrair. Percy tratou de por a camiseta logo, encabulado. Realmente precisava parar de enxergar coisas aonde elas não existiam.
- Beatles? — Annabeth sorriu quando ele terminou de deslizar a camiseta. — Eu gosto de Beatles.
E eu já achando que não tinha como você ficar mais gostosa, Percy pensou. É. Não bastava Annabeth ser a mulher mais atraente que já tinha conhecido, ela xingava como um marinheiro, era uma enfermeira, e pelo amor de Deus, ela gostava de Beatles. E sabia o que era Pink Floyd. Ele estava perdido.
- Ok... — Annabeth suspirou, pegando outro vestido de longos panos de dentro da mochila, desta vez na cor verde, um verde mar muito bonito. — Olha pra lá, por favor. — O rosto dela pegou fogo, e Percy franziu o cenho.
- Quê?
- Olhe pra lá. — Insistiu. — Eu quero trocar de roupa. Já estou ficando suada.
- Ah! — Percy exclamou, fazendo que sim rapidamente para disfarçar a confusão momentânea. Fazendo como ela pediu, virou-se para o outro lado, ainda sentado na rocha plana. Podia escutar ela se mexer, e, bom, pelo amor de Deus, ele era um jovem em idade considerada adequada para a reprodução de mente muito fértil, e não podia deixar de pensar nela sem roupa. Não era como se fosse a primeira vez que ele havia o feito, mas ah, caramba, ela realmente tinha o corpo mais escultural no universo, sem contar aquele seu rosto, e aqueles olhos bonitos, e os cachos dourados e longos, e aqueles peitos --
- Pronto. — A voz dela logo o chamou de volta para a realidade, e, por outro lado, e ele a agradeceu por tê-lo feito. Realmente não precisava ter uma ereção na frente dela. Virou-se novamente, e deixou escapar um suspiro ao vê-la amarrar a última tira verde do vestido em volta de sua cintura, os panos longos deste chicoteando para trás com o vento quente do deserto. Quando não pensava nela sexualmente, imaginava o que teria acontecido se a explosão não tivesse ocorrido: Será que realmente se encontrariam novamente? Será que os dois teriam saído num encontro, será que ele enfim a beijaria? Será que ela gostaria dele como ele já gostava dela?
- O que foi? — Annabeth sorriu quando percebeu que ele a observava, e Percy saiu mais uma vez de seu transe.
- Ah, nada. — Ele balançou a cabeça, e lhe ofereceu um sorriso. — Acho que deveríamos comer alguma coisa agora. — Limpou a garganta, e Annabeth veio sentar-se ao seu lado na areia enquanto ele fuçava na mochila e removia dois pequenos pacotes de coalhada dura para que comessem como queijo.
Começaram em silêncio; além da primeira noite em que dormiram sozinhos à beira do riacho perto da explosão, essa era a primeira vez em que tinham outro momento de paz apenas entre os dois, sem interrupções ou grandes estresses.
- O que você acha que vai acontecer, hein? — Annabeth perguntou em uma voz baixa. — Quero dizer... Quando conseguirmos fazer contato com o Exército de novo.
- Como assim? — Percy franziu o cenho.
- Acha que vão nos mandar de volta para casa? Como numa licença provisória, ou algo assim? — Ela questionou, mas era claro que seu tom de voz não expressava muita esperança naquele sentido.
- Acredito que sim. — Percy fez que sim, e estava sendo honesto. Não mentiria para ela, não num assunto sério como aquele. Considerando que o Batalhão 21 fora aparentemente desintegrado, ele seria no mínimo transferido para outra divisão, enquanto Annabeth... — Devemos ter pelo menos dois meses de licença, pelo que sei. Quando voltarmos, me colocarão em outro batalhão, e logo vão encontrar outra enfermaria ou alguma pequena clínica para você também. — Sorriu. — Sempre precisam de enfermeiras.
Foi a vez de Annabeth franzir o cenho, e mais uma vez o silêncio entre eles se estabeleceu. Agora que ele parava para pensar no que havia acabado de dizer, não podia deixar de se perguntar o que realmente havia acontecido com os seus amigos. Charles era tenente, pelo amor de Deus, e por dois anos havia conseguido manter a paz entre vilas e cidades inteiras apenas com o acompanhamento de oito soldados que incluíam ele próprio; era difícil acreditar que um homem com tanta aptidão para o uso de armas e com tanta facilidade para estratégia não soubesse como guiar seus homens para fora de um lugar suspeito. Tinha fortes impressões de que ainda os encontraria.
- Não sou enfermeira. — Annabeth retrucou, fazendo com que Percy arqueasse as sobrancelhas.
- Como não? Você estava usando aquele uniforme, e --
- Eu sei. — Annabeth fez que sim, bebendo um longo gole de uma das garrafinhas d'água. — Aceitei o emprego porque precisavam de enfermeiras e porque sou boa com primeiros socorros, mas... Na verdade, sou arquiteta.
- Arquiteta? - Percy estava genuinamente muito surpreso. Ela havia sido tão boa com os curativos dele, e estava sempre lhe ensinando sobre os riscos de infecção e de muitas outras coisas que nunca cogitou que ela pudesse trabalhar em qualquer coisa que não fosse na área da Saúde.
- É. — Annabeth riu da expressão facial dele, que obviamente sinalizava o quanto a informação o havia chocado. — Matemática sempre foi minha grande paixão. — Revelou. — Fui dispensada do Ensino Médio quando tinha dezesseis anos com uma medalha de honra por estar adiantada, então entrei logo na faculdade. Terminei o curso com vinte anos, mas... Bom, as coisas mudaram. — Deu de ombros, porém, sua voz revelava uma dica de amargura. — Como minha mãe sempre fez questão que eu aprendesse primeiros socorros, o Exército me aceitou assim que me apliquei para o emprego. Com o meu diploma, eu sabia que poderia trabalhar nos quartéis-generais com estratégia, rotas de escape e construção de esconderijos, mas... Não sei. Ainda não entendi bem o que aconteceu.
- Não te aceitaram porque você é mulher, não é? — Percy arriscou. Apesar de só trabalhar para o Exército fazia dois anos, seu pai fora militar antes dele, e sempre fora óbvio que mesmo em pleno segundo milênio, e no século XXI ainda havia preconceitos contra mulheres que desejavam trabalhar a serviço de seu país, que normalmente eram empurradas para o emprego de enfermeira que muitas vezes não desejavam ter.
- Algo assim. — Annabeth baixou os olhos, brincando com os próprios dedos. — Pensei que teria alguma chance de ao menos provar o meu talento, já que o diploma não significou nada, mas nem isso me deixaram fazer. — Deu de ombros. — Quero ficar aqui... Quero mesmo ajudar as pessoas, e... Sei que se ficar, tenho de ajudá-las como enfermeira, mas ao menos, estaria fazendo um bem maior. Por isso sinto que se voltasse para casa, eu estaria sendo egoísta. Não posso salvar vidas sendo arquiteta, não em Nova York, pelo menos.
- Eu entendo. — Percy disse honestamente, seus olhos encontrando os dela enquanto compartilhavam aquele sentimento mútuo. — Sempre quis trabalhar no Exército, e não posso reclamar. Queria ser soldado, e sou soldado, mas... é óbvio que também tenho vontade de voltar pra casa. — Ele sorriu. — Mas... Espere. Você também é de Nova York?
- Não acredito. — Annabeth riu da coincidência, e Percy não podia deixar de perceber o quanto gostava do som alegre que saía de sua boca. — Sim senhor, nascida e crescida no Bronx. Com muito orgulho.
- Você cresceu no Bronx? — Percy estava mais uma vez surpreso, e deixou escapar uma risada também. — Mas você não tem sotaque! E duvido que fosse o tipo de garota que pichava os muros do seu bairro e escutava hip hop, considerando que entrou na faculdade trezentos anos antes do resto dos adolescentes normais, e tudo o mais. — Provocou, já que o condado do Bronx era conhecido pelos movimentos do grafite e de músicas como o rap.
- Ah, cale a boca! — Annabeth riu, dando-lhe um soco brincalhão na perna.
- Não vá abrir outro machucado aí. — Percy riu mais alto, provocando-a mais uma vez. — Nem enfermeira de verdade você é pra fazer curativo nele depois!
- Vai se fuder, Percy! — Ela o socou novamente entre mais risadas, e não foi difícil para que Percy percebesse que talvez, só talvez, ele tivesse feliz que tudo aquilo houvesse acontecido, ou se não ele não estaria com ela no meio do deserto naquele momento.
XXX
- Cara, estamos fodidos. — Leo murmurou, passando a mão entre os cabelos encaracolados e deixando escapar um grande suspiro na escuridão; pouco era iluminado pelas lanternas divididas nas mãos de cada um dos soldados. — Completamente fodidos.
O resto dos soldados continuou fazendo como lhe foram instruídos por Charles, verificando o quanto de munição possuíam e carregando mais uma vez suas respectivas armas. Apesar do cansaço, eles já haviam passado por muita coisa juntos nos últimos anos, e sabiam que quando a situação se complicava, era melhor escutar o tenente, que sempre se preocupava com a segurança de todos. Só haviam escapado graças a destreza de Charles, que previu que mais bombas explodiriam em Dohuk logo que receberam a notícia sobre a enfermaria, e foi assim que, em segredo, partiram em direção ao deserto carregando o pouco de mantimentos que conseguiriam levar sem parecerem suspeitos. Tudo corria bem até que no segundo dia de caminhada, foram saqueados por uma trupe de comerciantes sunitas e perderam a maioria de seus mantimentos, seus meios de comunicação e quase todas suas armas, sendo deixados apenas com poucas lanternas, alguns pacotes de biscoitos e poucas garrafas d'água.
O plano inicial era fazer a travessia do deserto em direção ao noroeste até encontrarem uma vila aonde poderiam entrar em contato com o Exército; Charles não precisaria mentir: os seus superiores confiavam tanto em sua astúcia que não receberiam punição por ter se retirado da área sem nenhum comunicado oficial. Infelizmente, não haviam tido sorte até agora, e sobre o grupo, ainda pesava profundo luto pela perda de Percy Jackson, o seu melhor soldado, além de um grande amigo e companheiro de todos; estivera na enfermaria, e não restava dúvida para ninguém, nem para Grover, de que fora morto com a explosão.
- Fodidos. — Leo repetiu, fechando o tambor de sua pequena arma para defesas rápidas e a recolocando de volta na cintura. — Completamente --
- Cala a boca, Valdez! — Nico di Angelo rosnou, fechando o tambor da própria arma; Nico havia sido um dos únicos soldados que conseguira salvar uma boa arma, uma MP40, que comportava espaço para mais balas, além de ser mais leve de carregar. — Fica reclamando como uma garotinha não vai ajudar em porra nenhuma.
- Ah, di Angelo, vai tomar no seu...
- Os dois, fiquem quietos, ou vão comer areia pelos próximos dias. — A voz clara e alta de Charles pôs fim no assunto, como sempre acontecia. — Quero que todos me escutem bem, pois não vou repetir. — O silêncio se estabeleceu mais uma vez, e até Travis e Connor Stoll pararam de discutir. — Perdemos nossos walkie-talkies, e estamos a uma distância de cerca de um dia da fronteira com a Turquia. — Apontou para o norte com os dois dedos enquanto falava. — Nossa melhor chance é seguir em frente e encontrar uma cidade ou vila, e rezar para que nenhum sunita, xiita, curdo ou coiote queira nossa cabeça numa bandeja de prata até lá. Vamos economizar a água que temos, e faremos turnos durante as noites, para vigia.
Houve um murmurar baixo entre os soldados, mas todos fizeram que sim silenciosamente, segurando suas lanternas na direção do tenente.
- E quero deixar claro que sei que o responsável por todas essas explosões está aqui entre nós, neste exato momento. — Charles manteve sua voz calma enquanto falou. — E que assim que chegarmos ao nosso destino, ele vai pagar dolorosamente pelo que fez.
Notas finais
Que tenso esse final, não? Hehe.
Bom, espero que tenham gostado. De qualquer forma, queria já deixar avisado que:
1) Daylight não será uma fic de muitos capítulos. Calculei mais ou menos os acontecimentos e vou procurar fazer durar pelo maior período de tempo possível, mas não posso prometer nada.
2) Com relação ao período que os dois vão levar pra chegar na fronteira (dois dias) calculei com a ajuda do meu professor de Geografia Geral: fizemos a escala do mapa, e estipulamos quanto tempo, somado com as pausas, eles levariam pra chegar até a Turquia, e garanto que a informação é verdadeira.
Como sempre, se gostou, POR FAVOR, deixe seu review.
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