Daylight
2 Capítulo 2
Notas iniciais
O calor que se espalhava da explosão da bomba para o céu arroxeado da noite do deserto beirava o insuportável, até mesmo para um soldado acostumado como Percy.
O rosto de Percy estava colado com a areia sempre dourada e ainda quente do chão. O machucado que a bala havia deixado em seu ombro antes quase cicatrizado doía, e ele estava certo de que precisaria de outro curativo. De qualquer forma, um novo pedaço de gaze não era sua preocupação número um quando uma enfermaria havia acabado de ser colocada em puro fogo e pólvora. Devia fazer quanto tempo desde que a bomba fora detonada? Dez minutos? Uma hora? Não sabia dizer. Perder a noção do tempo era algo muito comum quando olhar para o próprio relógio de pulso para ver as horas podia custar sua vida.
- Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus... — Escutou Annabeth soluçando, e virou a cabeça para olhá-la. Seu rosto delicado estava escondido pelas próprias mãos, seu corpo também jogado ao chão perto dele. O uniforme branco e apertado dela, que apenas há alguns instantes ele pensava ser extremamente sexy já estava coberto de poeira.
Sabia que precisava se levantar, e acalmar Annabeth, começar a procurar por mantimentos e até mesmo sobreviventes (por mais que parecesse impossível) nos escrombos. Tinha medo até de olhar, sabendo que sua visão seria invadida por imagens que nunca esqueceria. Era um soldado, já havia visto de tudo — alguns acontecimentos que guardava na memória até lhe tiravam o sono — mas nada se comparava ao terrível cheiro de carne queimada que chegava às suas narinas. Quando achava que já tinha havia conhecido o purgatório durante os dois anos que servira no exército, como sempre, Deus provou que ele estava errado, e que ali, onde homens tiravam a vida de homens pela sobrevivência de muitos, não havia céu ou salvação.
Tomou coragem e se levantou, ignorando a dor em seu ombro. Não estava pronto para olhar, ah, ainda não. Seria muito. Precisava acudir Annabeth primeiro, ou ao menos, era isso que seu corpo automaticamente fazia. Não podia olhar. Não iria olhar. Não agora. O cheiro já era o suficiente...
- Annabeth. — Chamou, movendo os joelhos contra a areia para aproximar-se dela, seu ombro protestando em curtas e repetitivas fisgadas de dor. — Annabeth.. — Não sabia como iria acalmá-la quando ele próprio estava em choque. Há apenas pouco tempo atrás (ou pelo menos, o que parecia pouco tempo), ele estava chamando ela pra sair, e agora, precisaria tentar consolá-la da melhor maneira possível. Pensou que a situação em que se encontravam era muito desconfortável: Não devia ser segredo que ele realmente havia adorado encarar os seus seios e suas pernas nos poucos dias que passara hospitalizado, e agora, teriam de lutar pela sobrevivência lado a lado por um período indefinido de tempo, mas tentava não pensar muito nisso. — Annabeth.. Você precisa se levantar. Vamos, eu te ajudo. — Hesitantemente, ele colocou uma das mãos sobre as costas ainda trêmulas da enfermeira; pelo menos, ela parecia já ter parado de chorar.
De súbito, ela levantou a cabeça das mãos, enxugando as bochechas molhadas com os pulsos rapidamente. Fungou, e seu rosto estava neutro, ao invés de magoado, como Percy esperava que estivesse. Ela se levantou com a mesma velocidade que se recuperou, e alisou o uniforme com as mãos, coçando o nariz delicado e franzindo o cenho.
- É esse cheiro... Esse maldito cheiro. — Ela encarou as chamas já mais baixas sobre a lona que fora o teto da enfermaria, e Percy sabia que ela tentava afastar o pensamento de que havia pessoas embaixo daquele longo pano. — Preparam você pra ele na faculdade, dizem que é como sentir o aroma do Inferno, mas... Caralho. Esse maldito cheiro.
Numa outra situação, Percy provavelmente ficaria excitado pela pronúncia tão espontânea de um palavrão numa mulher tão atraente, mas resolveu ficar quieto. Annabeth parecia conturbada, ainda que tentasse esconder com a frustração estampada em seus lindos olhos cinza.
- Ei... Você está bem? — Percy engoliu em seco, mais uma vez colocando a mão em seu ombro. Esperava que ela fosse xingá-lo ou empurrá-lo, mas ela não o fez. Ao invés disso, piscou algumas vezes, e olhou para ele com aqueles olhos bonitos, aqueles olhos de princesa. Era quase fácil demais para Percy esquecer que estavam no meio do nada, e haviam acabado de sobreviver a uma séria explosão.
- Sim. — Annabeth mordeu o lábio inferior, encarando o chão para depois limpar a garganta. — Precisamos procurar por mantimentos, se é que sobrou algum, e.. Sobrevi... Sobreviventes. — Ela forçou a palavra para fora de sua boca, provando que ambos sabiam que era impossível que alguém dentro daquela tenda houvesse sobrevivido. — Ah, que diabos. Vamos logo... Ei... — Ela se confundiu, franzindo o cenho. — Com toda a honestidade do mundo? Eu realmente não estou bem, e eu não sei que porra de nome é Perseu, então vou te chamar de Percy, está bem?
Não esperou por sua resposta e saiu marchando em direção à floresta já baixa de chamas calmas, dando passos longos e determinados; em seu rosto, no entanto, havia uma expressão de quem sofria, mas que não queria expressar, e ele não sabia por quanto tempo ela ia suportar.
XXX
- Explodiu? — Luke repetiu a última palavra pronunciada por um de seus subintendentes, um tenente asiático chamado Ethan Nakamura. O homem deixou escapar um pequeno suspiro antes de falar, mas Luke procurou ignorá-lo. Nakamura era um bom tenente, mas possuía pouca paciência.
- Sim, General Castellan, explodiu. Acreditamos que foi uma bomba caseira, e que os malditos palestinos que a construíram não tiveram muito tempo para projetá-la. — Ethan prosseguiu. — De qualquer forma, uma equipe foi enviada para a procura de sobreviventes, e --
- E como sabemos que a enfermaria de fato explodiu, tenente Nakamura? — Luke perguntou, calmamente brincando com seu canivete contra a madeira de sua escrivaninha. De repente, o gabinete pequeno do general, coberto de mapas e sem nenhuma janela pareceu muito menor. Luke podia ser muito intimidante quando necessário, e saberia se Ethan estivesse mentindo. Achava pouco provável, mas ainda podia se divertir. Além de tudo, podia sentir que o homem encarava sua cicatriz todas as vezes que se encontravam, no entanto, não era o único. A marca em seu rosto não era bonita, ou simpática, mas Luke gostava de usá-la para exercer ainda mais poder sobre quem quisesse.
- Testemunhas, General Castellan. Um pequeno vilarejo situado no cume da cadeia montanhosa há poucos quilômetros da área do deserto onde a enfermaria estava situada escutaram o barulho da bomba por volta das seis da tarde de ontem, e o telegrama acabou de chegar aqui...
- Espere. — Luke protestou, o coração acelerado em seu peito. Uma enfermaria... No meio do deserto... Em Dohuk? Não, não podia ser. Só havia um centro de saúde americano naquela área montanhosa, e ele sabia muito bem qual era. — Qual era o número de registro da enfermaria? — Forçou as palavras para fora da boca, mas tinha medo de perguntar.
- Era a enfermaria 17-I, general, a que começou a funcionar aproximadamente uns dois anos atrás. Uma das primeiras que abrimos no norte. — Ethan Nakamura pronunciou as palavras com um ligeiro tom de pena que Luke procurou ignorar. Estava muito preocupado com os próprios pensamentos para ligar para a opinião do tenente sobre sua reação.
- Dispensado, Tenente Nakamura. — Luke fez que sim quando Ethan fez uma reverência, e assim que a porta de seu pequeno gabinete foi fechada, esfregou o rosto já suado com as mãos. Suas piores suspeitas haviam sido confirmadas, e parecia que sua sala se tornava cada vez menor enquanto respirava.
Levantou-se, passando os dedos pela testa franzida. Há apenas um dia atrás estivera na enfermaria; antes de partir, havia dito aos seus superintendentes que sua pequena viagem tinha motivos estratégicos: devido aos ataques inesperados à parte urbana de Dohuk, queria examinar melhor o território. Em realidade, nunca poderia dizer o real motivo de sua visita. Fora ver Annabeth, sua pequena Annabeth.. Só de pensar nela, um zumbido desagradável ecoava pelos seus ouvidos. Os dois se conheciam desde pequenos, mesmo ele sendo alguns anos mais velho que ela, frequentaram as mesmas escolas, e tomaram juntos a decisão de trabalharem para o Exército Americano. Durante os últimos anos, no entanto, nutria um sentimento mais forte que amizade por ela (ainda que não correspondido), e era por isso que estava perdendo o controle: Não sabiam se a explosão havia deixado sobreviventes, e Annabeth havia trabalhado na enfermaria desde que chegaram ao Iraque. Sabia que não podia deixar sua aflição transparecer, mas por outro lado, precisava de mais notícias. Precisava entrar em contato com o responsável pela equipe que fora enviada ao local, e também, necessitava descobrir mais informações sobre a bomba, e suas proporções.
Pelo rabo do olho, espiou o retrato que descansava sobre sua escrivaninha; era uma foto não muito nova, de dois anos atrás, do primeiro dia de Luke e Annabeth no Exército. Ela o abraçava por trás, e os dois sorriam. Luke ainda não tinha a cicatriz, e não conseguia se lembrar da última vez que fora tão feliz como naquele dia. Se sua melhor amiga estivesse morta, ele teria cicatrizes muito piores com quais se preocupar.
XXX
Apesar de estarem deitados, as pernas longas e bonitas de Annabeth tremiam.
Haviam feito uma pequena vistoria na lona depois que o fogo se apagou. Evitaram a parte mais longa da enfermaria, a que um dia comportara os doentes e seus leitos. O cheiro ainda pairava no ar, mas estava mais suportável. O problema do escuro da noite do deserto foi solucionado com as quatro lanternas que foram colocadas na bolsa para emergências de Percy; Não encontraram comida ou água, e o jipe antes estacionado ao lado da enfermaria havia sido completamente destruído; só restaram destroços. Annabeth andou pela lona lentamente, e por longos minutos, ficou parada, de olhos fechados. Parecia estar rezando. Percy esperou, mas ela não chorou mais.
A esperança que os dois tinham no momento era exatamente a mochila de emergências de Percy: além das lanternas, havia um saco de dormir dentro dela (não sabia ao certo como fariam para dividi-lo, afinal, as noites no deserto eram muito frias) além de trocas de roupas, incluindo dois moletons. Um deles ficaria largo em Annabeth, mas ela só tinha o uniforme curto de enfermeira e um leve casaco de crochê, precisaria dele. Possuíam em torno de sete garrafas grandes de água, mas Percy não queria pensar no momento em que o conteúdo delas acabasse, mas por outro lado, estavam próximos de um dos riachos de Dohuk, e não seria difícil andar até lá; em termos de comida, tinham algumas latas de sardinhas e pacotes de biscoitos secos de baunilha, nada muito apetitoso, mas o necessário para que aguentassem por um período curto de tempo. Não queria imaginar o pior, mas não podia se conter: a parte urbana de Dohuk era muito afastada do deserto; se tentassem percorrer o caminho até lá com o pouco que tinham, morreriam de sede ou comidos por coiotes. Não tinham um plano, e tudo era incerto: será que o Exército já havia sido comunicado sobre a explosão? E se ninguém soubesse? Ficariam sentados esperando para que viessem procurá-los? Se fossem ir para algum lugar, para onde iriam, se a cidade estava fora de cogitação?
Depois do que pareceu uma eternidade, os dois se afastaram do local de explosão e caminharam em direção ao riacho entre montanhas. Os pés dos dois se afundavam na areia, e caminhavam em silêncio. Os lábios de Percy formigavam para que ele iniciasse uma conversa; não queria que Annabeth continuasse aflita daquele jeito, mas numa situação como aquela, era inevitável. Prosseguiram.
Não havia palmeiras em volta do riacho, apenas pequenos arbustos em sua outra margem, e foi lá que eles se instalaram. Beberam água de duas garrafas diferentes em silêncio, e apenas voltaram a conversar quando o saco de dormir foi retirado da mochila.
- Ei, você pode ficar com ele. — Percy apressou-se em dizer. — Tenho bastante roupa, vou ficar bem. — Mentiu, e tinha certeza que Annabeth sabia a verdade, mas não se importou. Realmente preferia que ela usasse o saco de dormir do que ele.
Surpreendentemente, ela sorriu, e se encolheu em seu casaquinho de crochê. Percy percebeu que gostava um pouco demais de seu sorriso, e que precisava tentar se focar em outras coisas na situação deles, não que ele pensasse que fosse possível. Ele tinha todos os motivos para estar magoado, com medo, nervoso... No entanto, o soldado se encontrava num misto de alívio e uma inexplicável serenidade.
- Obrigada, Percy. — Annabeth disse, por fim, e agachou-se para beijar a bochecha dele, que imediatamente pegou fogo. — Você é o máximo.
Pensando naquela frase e naquele inocente beijo de bochecha, Percy dormiu em paz, as imagens e sons da terrível explosão um mero borrão em sua lembrança, ainda que soubesse que estes voltariam para atormentá-lo mais cedo ou mais tarde.
Notas finais
Gostaria de agradecer MUITO pelos reviews que recebi no primeiro capítulo. Fico feliz que vocês gostaram da perspectiva que tenho pra essa fic, e estou trabalhando muito nela, quero que fique perfeita em todos os detalhes. Espero que não tenha demorado muito pra postar.
Se você gostou, POR FAVOR deixe o seu review. Significa muito pra mim, e eu quero saber o que você achou, ou se você tem perguntas pra me fazer, vou adorar respondê-las :)
Beijos,
Ju
Fale com o autor