Daughter Of War

2 Fogo e Trevas


Notas iniciais
Me desculpem pela demora colossal, mas eu estava precisando de um pouco de inspiração. Enfim encontrei. Agora acho que a fic vai pra frente c: Boa leitura.

Cheguei em casa ofegante, machucada e suada. Disparei pela porta da entrada e fechei-a com violência, causando um estrondo que ecoou por toda a residência.

A minha casa — também conhecida como Orfanato Flor da Juventude, um nome completamente desapropriado na minha opinião -, era um casarão gigantesco, a arquitetura já antiga com alguns toques de modernidade. As portas principais eram de madeira e davam para um grande saguão com piso em xadrez, logo a frente erguia-se uma majestosa escada que levava aos quartos; um grande lustre pendia no teto. À esquerda uma passagem levava à copa e cozinha, à direita se encontrava a sala de estar e biblioteca. Alguns grandes vasos com flores e quadros eram encontrados aqui e ali.

Antônia, a "mãe" do orfanato, conseguira aquele casarão depois de muito esforço e ajuda. Ela começara a cuidar de crianças de rua aos trinta anos junto com o marido (que veio a falecer logo depois). Logo sua casa não era grande o suficiente para cuidar de tantas crianças; mudou-se várias vezes até encontrar esse casarão, e só conseguiu comprá-lo com donativos de muitos amigos e parcerias.

Aquela mulher era um anjo na Terra, mas não estava com uma cara nada angelical quando topei com ela na entrada do casarão.

Pode ser meio ridículo se sentir intimidada por uma mulher idosa que é vários centímetros mais baixa que você, mas ela conseguia. Tinha os cabelos grisalhos presos num coque e um vestido floral, sapatilhas e aqueles olhos castanhos meigos. Realmente, é mesmo ridículo pensar em sentir medo de uma pessoa assim. Até porque ela sequer conseguia fazer cara de má. Mas eu tinha um respeito enorme por ela, pelo simples fato de ter cuidado de mim e não ter me chutado como a maioria fizera anteriormente.

Eu estava com as costas contra as portas duplas, a mochila jogada aos meus pés. Paralisei como se fosse um gato assustado. O casarão estava vazio a esse horário, pois a maioria das crianças estava na escola. Podia ouvir o barulho dos menores brincando na copa.

Eu e Antônia continuamos paradas nos encarando. Eu devia estar com cara de assustada. Novamente, não sei dizer quanto tempo ficamos assim.

— De novo, Jessica? — Antônia disse finalmente.

Engoli em seco e arrumei minha coluna.

— Desculpe... — Respondi, quase que inaudivelmente.

Um fato: odeio ter que pedir desculpas. Meu orgulho me impede. São muito raras as vezes em que faço isso.

— "Desculpe"?! Não me venha com essa! — Ela explodiu, exasperada. — Eu achei que você tinha criado juízo! Pelo amor de Deus, já tem quinze anos. Pare de agir como criança!

Encarei meus pés. Foi como se eu houvesse recebido um soco na boca do estômago, porque sabia que ela tinha razão.

O bilhete em minha mão pareceu ter ficado mais quente. Eu quase havia me esquecido do encontro com a velha louca, mas a simples lembrança fez um calafrio subir minha espinha.

As crianças que estavam no orfanato – pequenas demais para ir à escola – espiavam pela parede. Elas provavelmente já estavam acostumadas a me ver levar bronca, pois eu sempre era a única pessoa a me comportar mal o suficiente para fazer Antônia ficar tão irritada. Lancei um olhar ameaçador na direção delas, que fugiram com medo.

— Eu não vou ser expulsa — argumentei.

— Ainda. — Antônia passou as mãos pelos cabelos grisalhos, acalmado-se. Ela nunca conseguia ficar irritada por muito tempo. — Você tem que aprender a se comportar, ou nunca vai chegar à lugar algum. Eu sei que é difícil pra você se adaptar, mas precisa se esforçar mais. Todos estão se esforçando.

— Nenhum deles é igual a mim — murmurei.

Antônia me encarou com compaixão. Ela sabia que isso era verdade.

Nenhuma das crianças daquele orfanato conseguia ser igual a mim.

Nenhuma delas arranjava tantos problemas; Nenhuma delas era tão antissocial; Nenhuma delas tinha pesadelos tão ruins que faziam acordar gritando; Nenhuma delas era tão violenta e tinha pensamentos psicopatas. Algumas delas tiveram que frequentar o psicólogo, mas com certeza nenhuma delas deu um soco na cara da psicóloga na primeira consulta.

E, principalmente, nenhuma delas tinha uma mente tão turbulenta como a minha. Se nem mesmo eu conseguia me entender, por que outra pessoa conseguiria?

Vi Antônia assentir com a cabeça levemente.

— Vamos encerrar essa conversa por enquanto. Já pro seu quarto.

Peguei a mochila do chão e a pendurei no ombro. Subi a escada rapidamente, os coturnos de couro fazendo barulho contra o mármore do chão. Meu quarto ficava no final do corredor. Eu era a única que tinha um quarto individual, por ser a mais velha – e porque ninguém gostava muito da ideia de dormir ao meu lado.

Entrei no quarto e tranquei a porta, joguei a mochila no chão. O lugar estava naquela mesma bagunça aconchegante que eu deixara quando saí, o que significava que ninguém entrara lá (as crianças me viam como um mistério, por isso sempre que eu estava ausente tentavam invadir meu quarto para tentar me “desvendar”).

Pobres coitadas. Nem mesmo eu conseguia me desvendar, imagine um bando de crianças de dez anos.

Me joguei na cama desarrumada e arranquei os coturnos. Eu ainda suava e o braço com o qual caíra no chão tinha um leve filete de sangue escorrendo. Percebi que ainda segurava o bilhete dentro de meu punho com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Engoli em seco e abri o punho devagar. O pedaço de papel estava todo amassado.

Sentei-me e desamassei-o o máximo que pude, apenas para ler aquela mesma coisa:

Colina Meio-Sangue

Long Island, Nova York

“Segue este caminho”, a velha dissera. Percebi que minhas mãos tremiam. Balancei a cabeça negativamente.

— Isso é ridículo. Eu não vou pra Nova York.

Quando levantei a cabeça, quase caí pra trás de susto. Mas logo depois me acalmei.

Era ele de novo, ali, escondido nas sombras, me observando. Subitamente o quarto pareceu ter ficado mais frio.

— O que você quer? — perguntei de um jeito grosseiro.

Ele não respondeu. Nunca respondia. Apenas ficava num canto me observando com aqueles olhos vermelhos e rosto irreconhecível, como se estivesse esperando pra me ver fazer as burradas de sempre.

No começo eu me assustava com a sua presença. Começava a gritar e o chamava de monstro. Mas, depois que percebi que ninguém podia vê-lo além de mim, comecei a fingir que ele não existia. E é até difícil percebê-lo a não ser pela aura fria que emana. Ele nunca se aproximou demais ou me tocou, o que me fazia pensar ainda mais que estava ficando louca. Ao passar dos anos fui perdendo o medo.

Mas já fazia alguns meses que ele não aparecia pra mim, o que me fazia ficar ainda mais tensa por ter surgido justamente no dia em que encontro com uma velha macabra.

— Não estava com saudades de você — reclamei. Ele continuou me encarando ali, parado nas sombras. Mas percebi que não olhava diretamente para mim, e sim para o bilhete em minhas mãos.

Ele começou a se mover.

Devagar, levantou o braço trêmulo e cadavérico. Prendi a respiração, pois era a primeira vez que eu o via realizar de fato algum contato comigo. Apontou para o papel e fez um som profundo com a garganta, como se houvessem pregos em sua boca; era um som parecido com o que os demônios de filme de terror fazem.

E depois desapareceu.

Pisquei. Aquilo fora sem dúvida muito estranho. Eu nunca tinha visto aquela coisa se dirigir a mim ou fazer algum som antes, pois ele era apenas como um carrapato, ficava me seguindo pra lá e pra cá em silêncio. Isso não podia ser bom. Nenhum pouco bom.

Tentei me acalmar. Peguei minha toalha e algumas roupas e me dirigi ao banheiro. A água fria me ajudaria a acalmar os ânimos.

–

Eu estava dormindo de bruços em minha cama quando fui acordada pelo cheiro de fumaça.

Lembro-me de ter apagado depois do banho. Meus cabelos ainda estavam soltos e úmidos. O cheiro ruim fazia cócegas pela minha garganta.

Abri os olhos e eles imediatamente começaram a arder. Não entendi muito bem, pois ainda estava meio grogue, mas vi fumaça entrando pelo vão da porta e uma luz vermelha tremeluzente pelo chão. Debrucei-me, confusa, até perceber o óbvio:

— Fogo! — ouvi uma voz gritar.

Caí da cama com força, ignorando a dor da pancada na cabeça. Tateei e encontrei meus coturnos e os calcei sem amarrar os cadarços. Abri a porta e uma forte nuvem de fumaça quase me fez cair para trás; apoiei-me e comecei a tossir.

— Como isso aconteceu sem eu ter percebido?! — murmurei, incrédula.

Eu não podia ver de onde o foco do incêndio vinha, mas havia se alastrado rápido. Chamas serpenteavam o teto acima da minha cabeça e destruíam tudo que era feito de madeira. Vi um bando de crianças correndo desesperadamente.

— Desçam! Rápido! — gritei, fazendo sinais. As crianças começaram a descer, tropeçando umas nas outras. Havia uma menina caída no chão, já desmaiando por causa da fumaça. Fui rapidamente até ela e a carreguei para baixo, onde o fogo ainda estava fraco.

Antônia guiava as crianças para fora do orfanato, tentando manter a calma para não apavorá-los. Vários vizinhos já haviam saído de suas casas e tentavam ajudar como podiam.

— Como isso começou?! — perguntei ao me aproximar da mulher.

— Eu não sei! — ela observou-me passar a garota desacordada para os braços de um homem.

— E os bombeiros?

— Vão chegar logo... — ela virou-se para o local onde todos estavam na calçada, encolhidos e assustados. — Estão todos aqui?

A resposta negativa veio logo quando um grito agudo e gutural foi ouvido vindo do segundo andar. Reconheci a voz, vinha de uma menina chamada Alice.

— Oh meu Deus, Alice! — Antônia pôs as mãos na cabeça em desespero.

Olhei para dentro do prédio. O fogo já havia se alastrado por quase toda a parte, a fumaça preta dificultava a visão. Qualquer um que entrasse lá morreria.

Mas se Alice continuasse lá ela com certeza morreria.

Entrar seria loucura, seria insano. Mas eu simplesmente não ia conseguir ficar parada enquanto a menina morria queimada. Me movi até um garoto que segurava um lençol, arranquei-o de suas mãos e rasguei-o sem dificuldade, criando uma tira. Amarrei o pano pelo rosto, cobrindo o nariz e boca.

Adentrei no prédio antes que qualquer um pudesse impedir.

Meus olhos ardiam como se houvessem espirrado spray de pimenta neles. Dei graças a Deus por estar usando calças jeans, se não minhas queimaduras seriam ainda piores. O fogo se espalhara de uma maneira quase que sobrenatural, o que me fez ficar ainda mais tensa.

Se eu não conhecesse bem aquela casa, provavelmente jamais teria conseguido chegar ao segundo andar, pois meus olhos ardiam demais, impossibilitando a visão. Apesar do pano cobrir meu rosto, eu tinha a impressão de estar engolindo lava. E o calor corroia minha pele, fazendo-me suar. Mas não ia parar agora. Virei a tempo de ver o lustre desabar, levantando faíscas e fuligem. Agora, era impossível sair pela porta da frente.

Consegui chegar ao segunda andar com dificuldade. Respirar já era quase impossível, e eu tossia muito.

— Alice! Onde você está? — consegui gritar, e gosto de sangue chegou à minha boca. — Alice!

— Aqui! — uma voz fraca respondeu.

Avistei a menina. Ela estava no fundo do corredor, encolhida. Havia alguém caído no colo dela. Não é apenas Alice, mas sim também outra criança! Percebi alarmada.

Tossi mais um pouco.

— Estou chegando!

Caminhei com dificuldade por entre o fogo. Eu precisava desesperadamente de ar, pois senti que logo desmaiaria. Consegui recuar a tempo antes que a enorme e pesada porta de madeira em chamas caísse e me esmagasse. Pulei por sobre ela, mas mesmo assim queimei meu calcanhar.

Alcancei as crianças. Alice estava quase inconsciente, sentada junto à parede. A pessoa caída no seu colo era um menino de apenas três anos chamado Pedro. Ele estava apagado.

— Eu não... podia deixá-lo... — a menina murmurou, e um súbito respeito me invadiu pelo fato de ela ter arriscado sua vida para protegê-lo.

Assenti.

— Precisamos sair daqui.

Peguei o menino no colo, apoiando-o em meu ombro, enquanto ajudei Alice a se levantar – coisa que ela quase não conseguia fazer. Precisou apoiar todo o peso do corpo em minha perna.

Com um chute impressionante, consegui abrir a porta de meu quarto, que se estilhaçou toda. O quarto também pegava fogo, porém a janela estava aberta para o céu noturno, exatamente como eu deixara.

— Vamos ter que pular pela janela — eu disse para a menina quase inconsciente. Eu não estava em condições muito melhores — A entrada principal está bloqueada.

— Não vou conseguir... — ela sussurrou.

— Vai ter que tentar.

Avançamos, desviando dos destroços e fogo. Meus olhos ardiam tanto que parecia que iam explodir. Quando nos encostamos no parapeito da janela, a multidão que já se aglomerava começou a gritar.

— Alice, você precisa escalar pela calha. Acha que consegue?

A menina olhou para baixo com medo, mas assentiu. Subiu o parapeito e colocou os pés com cuidado na calha, que rangeu. Continuei segurando sua mão até que ela já estava longe demais. Quando Alice já estava quase chegando ao chão, a multidão conseguiu pegá-la.

Um já foi, pensei.

Coloquei a cabeça para fora do quarto em busca de ar, depois ergui Pedro, tentando fazer o ar puro entrar nos pulmões do menino. Ele ainda estava desacordado, o que me preocupava. Podia sentir que estava vivo, porém fraco demais.

Os bombeiros já haviam chegado, esticando as mangueiras e começando o trabalho. Uma equipe preparava a enorme cama inflável, que se encheu rapidamente, o que significava que eu deveria pular.

Estava me preparando para fazê-lo quando uma voz sussurrou em meu ouvido:

Não há escapatória, Jessica.

Era a voz da velha.

Procurei-a, mas não estava lá. Balancei a cabeça, tentando ignorar, mas a voz tornou a dizer:

O que você acha deste incêndio? Uma risada macabra retumbou. Foi tudo culpa sua. Se você não estivesse aqui, nada disso teria acontecido. Mas eles estão atrás de você. E irão encontrá-la.

Eu comecei a tremer. Minha culpa? O que eu fiz?

O menino em meu colo fez um barulho estranho com a garganta. Vivo. Isso já era ótimo.

Ele não continuará vivo por muito tempo, não se você continuar caminhando ao seu lado.

Uma imagem passou pela minha cabeça; Pedro deitado numa cama de hospital, enquanto médicos tentavam revivê-lo.

Então, outras imagens surgiram. Uma das meninas morreria atropelada – Alice–, uma criança levaria um tiro em meio a um assalto, um grave acidente com a van do orfanato levaria a vida de muitos. Mas não eram simples imagens. Eram premonições.

É isso que vai acontecer se você continuar com esse bando de mortais, A voz continuou. Você é uma maldição que apenas levará suas vidas. Você não pertence à esse mundo. E só existe um lugar onde poderá viver, onde essas pessoas ficarão livres...

Um pequeno pedaço de papel tocou meu braço. Era o bilhete da velha. E estava intacto.

Ouvi aquele barulho estranho novamente. Quando olhei para trás, ele estava lá, apontando para algo na parede... Parecia ser um turbilhão de escuridão. Apesar de todo o fogo, o quarto de repente ficara frio com a presença daquela coisa e dele.

Ele olhava-me como se dissesse: “Venha. Rápido”.

Entre no portal antes que seja tarde! A voz da velha retumbou.

Olhei para baixo, e os bombeiros gritavam desesperadamente para que eu pulasse. Eu tremia muito. O que fazer?

Eu obviamente fiz a escolha mais louca. Ergui Pedro e o soltei. O garoto caiu na segurança da cama inflável, e os bombeiros rapidamente o recolheram.

Voltei-me para ele. Agora, ele parecia realmente assustador, pois estava um pouco diferente. Ignorei o medo e me virei para o... portal. A coisa parecia ser um redemoinho de escuridão, e emanava uma aura fria e ruim.

Resolvi ignorar isso. Resolvi ignorar tudo que era normal e são.

Me joguei contra o redemoinho e fui engolida pelas trevas.

Notas finais
E então? O que acharam? Sobre "ele", não se preocupem, não disse o que era nem o descrevi de propósito... logo saberão o que essa presença estranha é. A fic está só começando o/ Deixem suas opiniões ^^