Daughter Of War
3 A Chegada
Notas iniciais
Era como se jogar de um abismo frio. Eu sabia que estava caindo, mas era impossível ver pra onde: era escuro demais. Cheguei a pensar que tinha ficado cega. Porém, não durou mais do que alguns segundos.
Fui cuspida em algum lugar. A onda de luz machucou meus olhos e eu caí contra o chão frio.
Fiquei de quatro e comecei a vomitar. Meus pulmões ardiam como se eu houvesse respirado ácido, e meus olhos lacrimejaram de uma maneira que eu parecia estar chorando. Eu tremia tanto que mal conseguia manter o peso do corpo. Quando minha visão começou a voltar ao normal, vi que meus braços estavam muito vermelhos e cobertos de fuligem.
Onde diabos eu fui parar?
Antes que conseguisse reunir forças para levantar-me, vi uma toalha branca erguida na minha direção. Ergui a cabeça e me deparei com um sujeito alto e de pele bronzeada. Ele usava uma regata vermelha e calça jeans, tinha os cabelos pretos bem encaracolados.
Ah, esqueci de mencionar que ele tinha asas. Eram vermelhas em vários tons, como um pôr do sol.
Eu teria gritado se a minha garganta não estivesse tão seca e dolorida.
— Você está bem? — Uma pessoa perguntou, e eu virei minha cabeça na direção meio rápido demais, o que me deu tonturas.
Eu, enfim, percebi onde estava. Era um corredor do que parecia ser um shopping, o acesso aos banheiros públicos. Na entrada do corredor, dois seguranças de testa franzida observavam-me, enquanto outros espectadores curiosos pararam para observar. Nenhum deles pareceu estranhar o fato de que havia um anjo de asas vermelhas ao meu lado.
— Sim, não se preocupe. — O anjo disse, com ar despreocupado. — Ela só está um pouco nervosa. É o seu primeiro voo.
Seu primeiro voo?!
— Mas ela não parece nada bem. — O segurança não pareceu se convencer. — Deveríamos levá-la até a enfermaria...
— Eu disse que está tudo bem. — O anjo disse com um pouco mais de firmeza.
Os dois seguranças pareceram ter entrado em algum tipo de transe. Seus olhos ficaram vidrados, e eles murmuraram em uníssono:
— Sim. Está tudo bem. — E se retiraram.
Estranhei o comportamento deles. Aquilo com certeza não era normal.
O anjo segurou-me pelo braço, me ajudando a ficar de pé.
— Vamos sair daqui antes que chame mais atenção — ele murmurou, olhando de relance para o vômito com cara de nojo. Abriu a porta do banheiro feminino e entramos.
O banheiro estava vazio. Debrucei-me na torneira e limpei a boca, tentando tirar o gosto ruim de vômito e fumaça. Devo ter ficado vários minutos bebendo água, novamente não sei dizer quanto tempo. O anjo continuou afastado e de braços cruzados, observando-me. Eu podia vê-lo pelo espelho. Aquilo me incomodou bastante. Não é muito legal ter um cara com asas te observando enquanto você vomita – principalmente quando estão sozinhos dentro de um banheiro.
— Ninguém me disse que você estaria toda quebrada — o anjo disse depois de um tempo, coçado a parte de trás da cabeça —, se não eu teria trago um pouco de ambrosia.
Decidi que minha garganta já estava boa o suficiente para poder falar:
— Onde nós estamos? — perguntei, e minha voz saiu baixa e rouca.
— No Aeroporto de Guarulhos. Acho que é assim que se chama. — ele respondeu despreocupadamente.
Endireitei minha coluna, e pela primeira vez prestei atenção na imagem do espelho. Eu estava horrível. Meus braços estavam vermelhos e sensíveis, a camiseta toda rasgada. Eu parecia um pedaço de carvão, coberta de fuligem, e meus cabelos desgrenhados pareciam uma juba de leão. Meu rosto estava branco feito papel por baixo da camada de sujeira.
Engoli em seco. Os seguranças devem ter achado que eu era uma mendiga em colapso.
— Aeroporto? — perguntei, voltando ao foco. — Achei que eu deveria ter ido parar em Nova York.
— Tecnicamente, deveria. Mas viajar pelas sombras é perigoso pra você. Sem contar que uma viagem tão longa chamaria a atenção de gente indesejada.
— Que tipo de gente?
O anjo começou a caminhar calmamente pelo banheiro, como se observá-lo fosse a coisa mais interessante do mundo.
— Espíritos ruins. Bisbilhoteiros. E com certeza não queremos chamar a atenção de Hades.
Arregalei os olhos. A menção ao nome me fez lembrar do vilão do filme Hércules, o cara de cabelo de fogo azul. Mas também me fez lembrar de algo que ouvi de uma das freiras quando morava em um orfanato católico.
— Hades? Você quer dizer, tipo... o diabo?
O anjo voltou-se para mim e revirou os olhos.
— Ah, essa cultura cristã que denigre tanto a imagem dos deuses! Não, querida, Hades não tem nada a ver com o “diabo”. — ele fez sinal de aspas com as mãos ao dizer diabo. — Mas isso não cabe a mim explicar.
— Cabe a quem?
— Cabe ao pessoal do Acampamento.
Ah. O tal acampamento. Balancei a cabeça, confusa.
— Eu não entendo. O que é esse tal acampamento? Por que essas coisas começara a acontecer de repente? Quem é você?
O anjo fez uma mesura.
— Eu sou Zéfiro, o Vento Oeste. Ou pode me chamar de Favônio. Não ligo.
— E, hm, pode me dizer — apontei com o indicador para as formas nas costas dele — por que você tem asas?
Zéfiro sacudiu-as da mesma maneira que os pombos fazem.
— Ninguém nunca me perguntou isso antes — ele ponderou —, mas bom, eu sou o Vento Oeste. Tenho que voar de alguma maneira.
Meu cérebro pareceu ter travado. Eu não conseguia entender metade das coisas que aquele cara dizia.
— Certo, Zéfiro. Por que está me ajudando?
Os olhos do anjo brilharam de uma maneira que me deixou incomodada.
— Meu mestre me mandou aqui... Há alguém naquele acampamento que o interessa profundamente. — ele começou a se aproximar de mim. Tentei recuar, mas minhas pernas não respondiam. Zéfiro pousou a mão em meu rosto de forma carinhosa. Sua mão era quente como uma brisa de verão. — Sua chegada mudará o destino dessa pessoa. Meu mestre quer muito assistir isso.
Engoli em seco. Não estava gostando nada daquilo.
Zéfiro retirou a mão de meu rosto bruscamente e virou o rosto como se estivesse escutando algo que não o agradou.
— Não posso ficar por mais tempo aqui. O Vento Sul não gostou de perceber que estou em seus domínios. — ele ergueu a mão, e uma rajada de vento quente circundou-a. Uma mochila preta de couro materializou-se; Zéfiro jogou-a em minha direção, e eu quase a deixei cair. — Aí tem tudo o que você vai precisar. Documentos, a passagem. Aliás, seu voo sai em trinta minutos. Você sabe fazer check-in?
— Uh... sei.
— Ótimo. — ele analisou-me como se enfim percebesse que eu estava parecendo um rato. — Não pode andar por aí fedendo a churrasco queimado.
Zéfiro estalou os dedos e, num piscar de olhos, eu estava completamente limpa, arrumada e com roupas novas. Agora, eu usava jeans pretos, uma camiseta branca simples por baixo de um elegante casaco preto com botões dourados, daquele tipo que se vê em revistas de moda que eu não sei o nome. Manteve meus coturnos, o que me deixou feliz.
— Mais uma coisa... seu inglês é fluente? — ele perguntou.
Demorei alguns segundos para entender o porquê da pergunta. Estava meio lerda naquele dia. Naquele momento, me arrependi de nunca ter prestado atenção nas aulas de inglês.
— Mais ou menos... — respondi, e nesse momento Zéfiro tocou minha testa.
Senti como se uma onda de informações houvesse penetrado em meu cérebro. Minha visão ficou turva e eu tive que me apoiar na pia.
— Agora, é fluente. Seria estranho te mandar para os Estados Unidos sem sequer falar inglês. — ele limpou as mãos como se houvesse realizado um trabalho pesado. — Bem, isso é tudo. Tenho que ir.
Zéfiro começou a evaporar – literalmente. Eu ainda estava meio atordoada, mas consegui dizer:
— Espere! Quem é essa tal pessoa que você mencionou?
Os olhos do anjo brilharam novamente daquela forma, como se estivesse muito ansioso para assistir a um jogo.
— Você vai saber. Boa sorte.
Zéfiro se desintegrou. Uma brisa de verão tocou meu rosto quando ele partiu.
Encarei-me no espelho do banheiro, tentando me acalmar. Eu só devia entrar no avião e seguir para Nova York. Só isso. A ideia parecia ridícula. E se eu voltar pra casa? Devem estar preocupados. Eu deveria voltar.
Mas logo percebi que não havia volta.
Ele estava parado atrás de mim, observando, escondido nas sombras, como se estivesse me esperando para seguir em frente. Encarei-o pelo espelho. A presença daquela coisa me deixava muito incomodada. Principalmente agora que eu sabia que ele não era uma simples sombra, e sim algo com consciência.
Respirei fundo. Pendurei a mochila nas costas, decidida.
— Vamos lá, então.
–
Depois que o avião decolou, entrei em pânico. E não foi por medo de altura.
Foi porque enfim caiu a ficha de em que merda eu havia me metido.
Eu havia fugido de casa. Estava em um avião voando para Nova York com documentos falsos (muito obrigada, Zéfiro). E o pior de tudo é que haviam me dado como morta.
Enquanto me dirigia para o balcão de check-in, a televisão de um dos restaurantes estava ligada no noticiário matinal (incrivelmente, já era de manhã. A viagem nas sombras durara poucos segundos em minha mente, quando na verdade durou horas), que estampava uma foto minha. A repórter dizia:
“Segundo relatos, Jessica havia entrado no prédio em chamas ao perceber que ainda havia uma criança presa no meio do fogo. Testemunhas disseram tê-la visto pela janela do último andar, ajudando duas crianças a se salvarem do incêndio; porém a garota desapareceu. A estrutura do prédio não aguentou e desabou. Os bombeiros continuam as buscas...”
A tela mostrou um vídeo amador feito por celular mostrando o momento em que apareci na janela com Alice e Pedro. Depois, a repórter fazia uma entrevista com Antônia...
Retirei-me de lá imediatamente. Não ia aguentar ver a expressão desesperada de Antônia, se não eu iria voltar. E não podia fazer isso. Algo em minha mente dizia que eu deveria seguir para o tal acampamento a todo custo.
Ali estava eu, voando para um lugar completamente desconhecido, sozinha. Observava as nuvens pela janela, me perguntando como minha vida virou de ponta cabeça em menos de vinte e quatro horas. Encostei minha cabeça na poltrona, decidida a cochilar um pouco. Minha mente precisava de um pouco de descanso depois de tanta informação ruim. Eu achava que, depois que chegasse à terra firme, tudo ficaria bem.
Como sempre, eu estava errada.
–
— Tem certeza que só vai até aqui? — perguntei para o taxista.
O homem gordo me olhava pelo espelho retrovisor, como se estivesse se perguntando o por que de eu querer seguir adiante.
— Certeza absoluta. Aqui é o fim da linha, moça. Nenhum táxi segue a partir daqui.
— Por que não?
O taxista franziu a testa. Parecia confuso, como se nem mesmo ele soubesse o por quê.
— Enfim, vai voltar? — ele perguntou, descartando minha pergunta anterior.
Bufei, irritada.
— Não. Vou descer aqui.
Coloquei o dinheiro na mão do homem (a mochila que Zéfiro me dera tinha alguns dólares), e saí do carro. O vento frio quase me fez querer voltar, mas fechei a porta e comecei a caminhar pela estrada vazia.
— Moça, tem certeza? É bem perigoso andar por aí há essa hora! — o taxista gritou do carro.
— Relaxa, eu sei o que faço — respondi, sem me virar. Escutei o carro fazer o retorno e ir embora.
O vento gelado fazia minhas orelhas doerem. Ajeitei o cachecol no pescoço e escondi as mãos nos bolsos do casaco. Eu finalmente entendi por que Zéfiro me fizera usar essa roupa de frio, já que nessa época do ano, é verão no Brasil, e eu estava esperando um calor infernal. Então, de repente, chego em Nova York e é quase inverno. Que maravilha.
Ele também não ajudava a me esquentar, com a sua presença fria. O bicho reaparecera depois que eu saí do avião, me esperando, como sempre. Eu já estava começando a ficar irritada. Não queria ter que aguentar mais esse encosto.
Continuei caminhando junto à estrada. Podia perceber o oceano ali perto, soprando o vento gelado na minha direção. O sol já se punha, porém as nuvens estavam carregadas demais para que fosse possível assistir ao pôr do sol. Tentava travar o maxilar para que meus dentes não batessem.
Subitamente, tive uma sensação estranha e parei. Conseguia avistar uma colina a pelo menos quinhentos metros de distância. Algo ali chamou minha atenção, não sabia dizer o quê. As pontas dos meus dedos começaram a formigar. Tem que ser ali, pensei.
Antes que eu pudesse voltar a caminhar, escutei um barulho alto e gutural, como um rugido. Olhei para o lado e quase caí de susto.
A poucos metros de mim, havia uma criatura gigantesca. A coisa deveria ser do tamanho de um trem, tão grande e longo quanto um. Era coberto de escamas laranja, os olhos amarelos e furiosos virados para mim e presas tão grandes que ele poderia engolir uma vaca de uma vez só.
Paralisei na posição enquanto o bicho me encarava ferozmente. Não entre em pânico. Não entre em pânico. Bem devagar, dei um passo para trás. Os olhos da coisa seguiram meu movimento. Eu sabia que ele ia atacar se eu fizesse qualquer movimento brusco.
Mas, como de costume, fiz a coisa errada. Uma onda de adrenalina apoderou-se de meu corpo. Comecei a correr em direção à colina.
O bicho atrás de mim rugiu tão alto que meus ouvidos doeram, e começou a me seguir. Em uma fração de segundo o bicho apareceu na minha frente, erguido como se fosse uma naja pronta para dar o bote, mas eu não parei. Desviei pela direita, passando pelo bicho antes que ele me abocanhasse.
A onda de adrenalina fazia com que eu continuasse correndo à toda velocidade. Nem mesmo eu sabia que podia correr daquele jeito. Faltavam poucos metros para que eu alcançasse a colina, e eu estava realmente acreditando que conseguiria.
Mas ninguém me disse que aquela coisa cuspia veneno.
De repente, senti o líquido corrosivo queimando meu ombro. Grunhi de dor, mas continuei correndo. A adrenalina foi se esvaindo e acabei desacelerando, enquanto a dor no ombro só aumentava. Eu já estava na subida, mas ainda faltava muito até que eu chegasse ao topo.
Minhas pernas agora pesavam feito chumbo. Era como se o veneno estivesse sugando todas as minhas forças. Tentei colocar a mão no local e pressioná-lo, mas quando o membro entrou em contato com o veneno, também começou a queimar. Eu tentava forçar minhas pernas a trabalhar, mas elas já não me obedeciam.
Caí no chão, contra a grama. Então, é isso. Vou ser comida por uma cobra gigante.
Consegui levantar a cabeça na direção do topo e uma pequena faísca de esperança se acendeu: havia alguém lá, parado no topo. Não conseguia identificar quem era, mas a pessoa gritou como se estivesse chamando alguém, gesticulando na minha direção.
A pessoa começou a descer a colina correndo, mas o bicho não parecia ligar muito para o tal. Eu podia sentir a respiração da coisa bem perto de mim, pairando acima do meu corpo. Tentava me controlar e não tremer. Ele tem que pensar que estou morta.
Quando eu tinha certeza de que ia ser morta, escutei alguém gritar:
— Ei, drakon! Aqui!
O bicho pareceu ter se esquecido de mim por alguns segundos. Eu ainda não podia olhar quem era, tinha de ficar completamente imóvel, reunindo forças. Senti a forma gigantesca do bicho mover-se para o lado, seguindo a direção da pessoa. Quando ele se afastou, eu comecei a me levantar, bem devagar.
Comecei a erguer meu corpo usando a força das pernas e do braço esquerdo, o que não havia sido ferido. Fazer até mesmo esses movimentos bobos parecia minar minhas forças. Virei minha cabeça na direção em que o bicho (como a pessoa havia dito mesmo? Drakon?) estava, e enfim pude ver quem era.
Meus cabelos impediam um pouco a visão, mas eu vi quem era: um garoto que devia ter a minha idade, de cabelos bem pretos e levemente enrolados que lhe cobria os olhos, a pele bem clara. O garoto usava jeans pretos, All Star e uma jaqueta de couro também preta. Demorei um pouco para identificar o que era, mas eu sua mão direita ele carregava uma espada completamente negra de quase um metro.
O drakon rodeou o rapaz, cheirando-o. Depois se retesou, como se ele tivesse um cheiro muito ruim.
— Está sentindo o cheiro de morte? Prepare-se para isso — o garoto disse, entrando em posição de combate. Olhou de relance para mim, e disse com o olhar: corra.
Não era preciso dizer duas vezes. Tomei impulso e comecei a correr em direção ao topo. Porém o veneno continuava a fazer com que eu ficasse cada vez mais fraca. Minha visão ficou turva e os sons se tornaram distantes. Eu tinha a vaga percepção de que o drakon estava lá atrás e de que o garoto ficara para que eu pudesse fugir...
Engoli em seco. Olhei de relance para trás e o vi investindo contra o drakon, que cuspiu veneno no garoto, porém este conseguiu desviar. Eu não podia deixá-lo enfrentar aquele negócio sozinho. Jamais deixe um soldado para trás.
Eu já estava quase no topo da colina quando parei de correr e me virei. Meu braço doía tanto que chegava a ser difícil manter a respiração controlada. As pontas dos meus dedos ainda formigavam, mas desta vez era diferente. Eu não ia agir como uma covarde. Me recusava a ficar parada enquanto o carinha lutava contra o drakon. Eu o trouxera para lá, afinal. Era meu dever eliminá-lo.
Mais pessoas apareceram, descendo a colina à toda velocidade. Estranhei o fato de que eles usavam armaduras de guerra e armas, mas isso não era importante. Um garoto que empunhava uma longa lança aproximou-se de mim:
— Você está em segurança agora...
Não deixei que ele terminasse de falar. Arranquei a lança das mãos do rapaz e, antes que ele pudesse me impedir, desci a colina correndo, a onda de adrenalina voltando a tomar o controle.
Isso é ridículo. Eu não sei usar uma lança, eu pensei.
Sim, você sabe, a vozinha do meu subconsciente disse.
Decidi confiar na segunda voz. Quando já estava perto o suficiente, gritei:
— Ei, imbecil! Olha pra cá!
O garoto da espada negra olhou-me de testa franzida, provavelmente pensando que eu estava falando com ele. O drakon também me olhou, lembrando que eu era seu alvo original. Sibilou, mostrando as presas enormes.
O drakon se jogou sobre mim. Mas desta vez, eu soube o que fazer.
Pulei para a esquerda. O drakon abocanhou o chão onde eu estava a um segundo atrás, engolindo um punhado de grama e terra. Corri mais pra baixo da colina, forçando-o a me seguir. A criatura rugiu, furiosa, cuspindo um punhado de veneno. Desviei novamente, a grama fez um ruidoso tsssssssss ao entrar em contato com o veneno corrosivo.
— Venha! Ataque-me! — gritei. Eu não sabia se o bicho entendeu, mas pareceu ter ficado bem irritado com minha provocação.
O drakon se lançou com toda a força e violência em minha direção, de boca aberta, pronto para me abocanhar. Dessa vez, não me mexi; flexionei os joelhos e apontei a lança em direção ao bicho. O drakon chegou até mim em sua mordida fatal. Fechei os olhos, rezando para que tivesse funcionado.
Tudo ficou silencioso. Morri?
Abri os olhos devagar. Uma couraça gigante de drakon estava caída à meus pés – uma couraça vazia. Eu estava coberta de um pó amarelo, que também ocupava a grama.
Ergui a face. As pessoas de armadura que desceram a colina para ajudar estavam todas paralisadas. O mais próximo de mim era o garoto de preto, que me encarava, espantado.
— Quem é você? — ele murmurou.
Não consegui responder. Subitamente, comecei a sentir o efeito do veneno novamente. Meu ombro doía absurdamente. Minha visão ficou turva.
Minha última visão foi a de um bando de pessoas correndo até mim enquanto eu caía no chão, desmaiada.
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