Daughter Of War
1 A Velha do Metrô
Notas iniciais
Eu me encontrava na sala da diretora Maria mais uma vez.
O zumbido do ar-condicionado era o único som na sala. Eu deveria agradecer por aquela máquina divina estar ligada. Deveria estar fazendo, no mínimo, uns 35 graus lá fora. Podia imaginar o asfalto tremulando pelo calor e os mosquitos (também conhecidos como servos do capeta) ferindo a pele dos pobres cidadãos. O verão brasileiro é algo quase que desumano.
Provavelmente está se perguntando o porquê de eu pensar essas coisas, mas é que minha mente viaja involuntariamente desse jeito. Maldito déficit de atenção. Me faz prestar atenção em coisas inúteis, quando se tem outras muito mais importantes para me importar. Como por exemplo a expulsão que estava por vir.
Meu punho direito ainda doía um pouquinho. Eu massageava as juntas da mão para melhorar, mas deveria pôr gelo logo antes que inchasse demais. Aprendi alguns cuidados médicos depois de ter me metido em tantas brigas. Pra falar a verdade, já fazia algum tempinho que eu não me metia em brigas, mas não consegui me segurar naquela vez. Amanda teve o que merecia.
Aquilo não foi exatamente uma briga, mas sim um nocaute. A garota que eu mencionei antes era simplesmente a criatura mais irritante e convencida do mundo, sempre pensando ser superior. Se achava gostosa por ter olhos azuis e aquele cabelo loiro, mas na verdade era mais gorda que uma porca. Pelo menos, eu a via como uma porca. Sempre querendo ser a melhor em tudo; eu simplesmente não suporto esse tipo de gente.
Amanda veio querer "tirar uma" com a minha cara no meio do pátio da escola, mas sequer conseguiu terminar de falar antes de engolir meu punho. Só um soco foi necessário para que seu nariz e lábios começassem a sangrar. A parte triste foi que houveram muitas testemunhas.
E cá estava eu mais uma vez, na sala da diretora com a qual já estava tão familiarizada. As paredes e chão brancos faziam-na parecer um hospício, com aquele monte de gavetas com arquivos. Será possível que aquela mulher não sabia o que era um computador? Em cima da mesa da diretora havia um quadro com uma foto dela com seu marido. Sempre quis dizer que ela parecia uma baleia pelancuda naquela foto, mas acho que não é a coisa mais saudável a se dizer a uma diretora. Eu ia com a cara dela, por ter conseguido me manter na escola depois de tantas confusões. Também admirava o fato de ela tentar parecer ruiva, pintando o cabelo num tom de vermelho bem estranho. Pobre coitada. Jamais seria ruiva igual a mim.
Ouvi o som da porta atrás de mim abrir-se, e a diretora Maria entrou, seus saltos fazendo barulho contra o chão. Ela ocupou seu lugar em sua cadeira acolchoada à minha frente. Cruzou os dedos acima do corpo, a postura ereta, e encarou-me numa tentativa de me intimidar.
E ficou assim por algum tempo. Não sei dizer quanto.
– E então? — Ela enfim manifestou-se. — Algo a dizer em sua defesa?
Continuei encarando-a, inexpressiva.
– Não. — Respondi friamente.
Maria fez uma cara como se já esperasse por isso. Suavizou a expressão.
– Jessica, eu pensei que você iria tomar juízo dessa vez. Francamente, você agrediu uma colega gratuitamente. Acha isso aceitável?
– "Gratuitamente" porque ninguém ouviu o que ela estava dizendo. — Proferi, ainda no mesmo tom frio.
– Então diga-me o que ela disse de tão ruim para que você ficasse tão irritada a ponto de quebrar seu nariz — Maria disse, estreitando os olhos.
Usei todo o meu auto-controle para não rir.Quer dizer que eu quebrei o nariz dela?
Sim, eu costumo querer rir nesse tipo de situação. Já cheguei a pensar várias vezes se tinha o transtorno da psicopatia.
– Ela me chamou de algo como "água-de-salsicha" ou "tocha humana". Não me lembro bem. Mas isso não tem importância.
Maria parecia incrédula.
– Você a feriu simplesmente por causa de apelidos bobos? Francamente!
– Não são apelidos bobos. O nome disso é bullying — Eu disse, mesmo sem acreditar em minhas próprias palavras.
– Não me venha com essa. Ninguém seria burro o suficiente para cometer bullying com você. E, convenhamos, você não é o tipo de pessoa que se deixa ser atingida tão facilmente.
Me senti agradecida pelo reconhecimento. Realmente, ela tinha razão. Na maioria das vezes as pessoas me evitavam e preferiam não mexer comigo. Sou do tipo de pessoa que costuma quebrar narizes sem muito motivo aparente — não importa de quem seja. Já arranjei briga com caras que eram duas vezes o meu tamanho e saí ganhando. Não sei como aprendi a lutar tão bem, só sei que sei brigar desde sempre.
Maria mediu-me, procurando algum sinal de arrependimento ou rendição, mas apenas encontrou a mesma face inexpressiva que eu costumava mostrar. Suspirou e desabou no encosto da cadeira, derrotada.
– Por que faz essas coisas, Jessica? Você é uma menina tão bonita pra ser assim. Tem apenas quinze anos. Você não é grande e também não é forte. Eu não entendo.
– Uma pessoa não precisa ser grande e forte pra saber brigar — Eu disse, mecanicamente.
A diretora encarou-me, provavelmente pensando no que fazer comigo. Pude perceber centenas de coisas passando por sua mente.
– Eu estava lá fora conversando com os pais de Amanda. Eles estavam bastante alterados. Querem registrar queixa contra você. Seus pais serão punidos...
Ela interrompeu-se imediatamente no meio da frase ao lembrar do fato de que eu não tinha pais. Vi um leve rubor envergonhado assumir sua face. Ela tentou contornar a situação, constrangida.
– Enfim, eu consegui convencê-los a não registrar queixa... Mas eles exigem que você seja expulsa.
Mudei de posição na cadeira. Aquela frase não era novidade pra mim; já a escutei várias vezes. De repente, senti um leve arrependimento. Sabia que não tinha sido fácil para Antônia conseguir uma escola que me aceitasse, depois do meu histórico tão ruim. Se eu fosse expulsa novamente, talvez não conseguisse outra escola disposta a me aceitar.
– Eu conheço a Dona Antônia a anos — Maria recomeçou, a voz menos séria que antes. — Admiro muito aquela mulher. Conseguiu abrir um orfanato sozinha, e consegue sustentá-lo até hoje. Eu inclusive procuro ajudá-la quando possível. E sei que ela terá muita dificuldade em encontrar outra escola disposta a te admitir. Por isso, e somente por isso não vou te expulsar.
Um certo alívio me inundou. Ela pareceu ter percebido a leve mudança em minha expressão.
– Mas isso não significa que você vai sair impune. — Ela disse, a voz agora autoritária. — Vai receber cinco semanas de suspensão, e quando voltar, terá que recuperar todas as matérias perdidas. Mais um deslize seu e eu vou te enxotar sem pensar duas vezes. Estamos entendidas?
– Estamos. — Eu disse, e Maria pereceu ter se sentido frustrada ao ver que minha voz continuava inalterada.
– Assine o livro de ocorrências e vá pra casa — Ela disse, dando o assunto por encerrado.
Saí da escola, triste por ter que abandonar o conforto do ar-condicionado. O Sol brilhava forte e infelizmente não havia nenhuma nuvem no céu. Meus olhos começaram a lacrimejar por conta da poluição; do alto podia-se ver o filete cinza que sujava a atmosfera de São Paulo. Um fato um pouco ruim, mas não me fazia amar menos minha cidade.
Agradeci por estar usando a camiseta branca da escola (normalmente sempre uso preto), havia rasgado as mangas; minha calça jeans também estava toda rasgada. Tenho mania de me atrair por roupas que parecem ter sido estraçalhadas por um pit bull.
Andei algumas quadras, sem muita pressa. Deveria ser uma da tarde no momento. Estava repensando alguns acontecimentos do dia, como o porquê de eu ter nocauteado Amanda.
Você nem sabe ler. Volta pro pré.
Foi isso o que ela disse.
Eu obviamente menti para a diretora, pois aquilo era uma verdade humilhante. Eu tinha um caso sério de dislexia, não conseguia ler uma frase toda sequer. Não copiava as lições da lousa porque não conseguia identificar o que estava escrito. Eu não sabia o que era o prazer de ler um livro. Sequer conseguia ler uma placa qualquer.
Como era possível que eu pudesse impor respeito a alguém se sequer sabia ler? Se não tinha pais? Se não tinha nem dinheiro pra comprar coisas simples, tipo um tênis novo?
Minha vida foi sempre assim. Acho que por esse motivo comecei a ser agressiva e comecei a me afastar dos outros. Não queria contato com ninguém, pois sabia que uma hora ou outra iriam acabar rindo de mim ou algo do tipo. Meu jeito de impôr respeito era pela intimidação.
Entrei na estação da Luz, agora apressada para chegar em casa logo e dormir. Esses pensamentos sempre me perturbaram muito, e eu precisava relaxar, pelo menos um pouco. Passei pela catraca e fui até a plataforma esperar pelo trem. A estação estava bastante vazia já que esse horário não é muito movimentado. Eu estava completamente sozinha.
Foi quando senti uma presença atrás de mim.
Virei-me no susto. Não havia ninguém ali. Um silêncio perturbador preenchia a plataforma de embarque, até que o silêncio foi quebrado pelo som do trem que se aproximava. As portas de segurança automáticas se abriram e eu saltei rapidamente para dentro do trem, sentando-me num banco ao lado da janela.
O trem começou a se movimentar e logo a vozinha automática pronunciou-se. Estava pensando em como encarar Antônia quando chegasse em casa. Ela provavelmente já sabia do ocorrido, mas esses momentos sempre deixavam-me tensa. Antônia deveria ser a única pessoa nesse mundo que conseguia me intimidar, com todos os seus 1,50 de altura e 60 anos de idade.
Ela era a coisa mais próxima de uma mãe que eu já tive.
O trem chegou na próxima estação e parou, abrindo as portas. A estação também estava vazia, mas desta vez uma pessoa entrou no vagão. Uma velha corcunda toda enrugada saltou para dentro do trem, parecendo ter dificuldades para andar. A mulher sentou-se no outro lado do vagão, a uma boa distância de mim.
Depois de ajeitar-se com dificuldade, ela me fitou e sorriu, mostrando sua boca desdentada.
– Boa tarde, mocinha.
– Hm — respondi com desinteresse.
A velha continuou sorrindo e me olhando.
Ficou parada por tanto tempo que cheguei a achar que ela estava morta. Me mexi no banco, desconfortável. Algo no olhar da velha parecia um pouco assustador. O fato de só ter nós duas no vagão me incomodou ainda mais.
Deixa de besteira, é só uma velha, pensei.
Depois de um tempo que pareceu ter sido uma eternidade, finalmente cheguei na estação que deveria descer. Saí de lá quase que correndo, o olhar da velha me seguiu. Fiquei quase que aliviada quando as portas do trem se fecharam e levaram a mulher junto.
– Que estranho — Murmurei, de testa franzida.
Segui o resto do caminho à pé, o Sol fritando minha pele. Procurava andar pelas sombras, sem muito sucesso. Antônia provavelmente diria que eu iria pegar câncer de pele se continuasse assim. Provavelmente ela tinha razão.
Passei por um beco que ficava a duas quadras da minha casa, um lugar que se tornava um tanto perigoso à noite por ser uma "boca" dos traficantes, mas que de dia era tranquilo.
De repente, senti um frio na barriga. As sombras à minha volta pareciam se mover. Senti a presença de antes, como se alguém estivesse atrás de mim, bem perto. Virei-me e gelei no ato.
A velha do metrô estava lá, mostrando-me o mesmo sorriso. Mas não havia nada de meigo naquele sorriso; era completamente macabro.
Pela primeira vez em minha vida, não consegui falar nem me mover. Os olhos da velha eram tão pretos que era quase impossível distinguir a íris da pupila.
– Você não pode fugir do seu destino pra sempre, querida– A mulher disse, com uma voz que parecia não pertencer àquele corpo. — Uma hora sua fachada cairá. Já ficou por muito tempo escondida, é hora de mostrar-se.
A velha segurou meu pulso com uma força impressionante. Tentei me soltar, mas não consegui. Agora a mulher estava muito perto, encarando-me nos olhos.
– Eles estão chegando, Jessica. Virão em breve. Se queres continuar viva, segue este caminho– A velha abriu meu punho fechado e colocou um pedaço de papel nele, como se sua vida dependesse disso. — Não pense em teus amigos, apenas vá.
– O-o quê?! — Consegui enfim dizer, ainda tentando me soltar da velha.
–Espere e verá.
Dito isso, ela me soltou com violência e eu caí no chão. Quando me levantei, a mulher havia sumido.
Meu braço direito estava todo ralado pelo tombo e eu estava ofegante.Mas que merda foi essa?! Meu punho fechado ainda segurava o pedaço de papel. Abri-o relutante, as mãos tremendo, e fiquei ainda mais confusa, pois consegui ler a frase perfeitamente:
Colina Meio-Sangue
Long Island, Nova York
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