O baile de formatura do 4° ano era um momento pra se guardar na lembrança. Era a festa oficial que marcava a transição do fim da infância pra pré-adolescência, era bem mais do que passar de série.

O Comitê de Organização do Baile de Formatura (COBF), naquele ano, foi presidido por ninguém menos que Ellen Degenour. E Tãmina, meio que sem querer, acabou entrando nesse comitê também, o que fez com que Ellen aprontasse muito com ela.

Mas o que realmente fica desses bailes... Ah, é pra toda a vida.

O AUTOR
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Tâmina estava entrando para as mais diversas competições no colégio. Se Dastan não estivesse competindo ou já tivesse ganhado, Nicolalis deu a ordem de que ela competisse pra ganhar.

Olimpíada de matemática, de física, de português. Feira de ciências, feira de exposição. Tâmina achava divertido participar delas, mas não ia com o interesse de ganhar. Ia pra competir, pra testar seus conhecimentos, pra passar o tempo fazendo algo instrutivo, pra se divertir. O qie irritava Nicolalis, que aquela altura, estava mais exigente que o próprio pai dela.

– Que tipo de pessoa você vai querer ser, hein? Dastan trouxe um monte de medalha e troféus pra casa. E você, Tâmina? Quando vai seguir o exemplo dele?

Tâmina as vezes se sentia como irmã de Dastan, e pra sua infelicidade, a irmã mais nova. Se ela fazia, Dastan também fazia. Se Dastan fazia, as vezes ela podia fazer também.

Como na competição de hóquei, que Dastan entrou para o time e venceu o campeonato do colégio. Ela pediu pra entrar no hóquei também, mas foi proibida.

– É esporte pra garoto, por isso o papai não deixou. — Dastan havia dito quando ela perguntou o motivo de ter recebido um não. — Se quer praticar alguma coisa, tenta vôlei.

Tâmina tentava ver o lado bom dessas situações, mas era difícil. Por que Nicolalis tinha que bancar o pai chato ? Qual o sentido disso?

Quando Ellen apareceu na mansão Mace, querendo que Dastan opinasse nas escolhas dela para tema do baile, curiosamente Nicolalis estava lá. E ficou intrigado com a situaçâo.

– Dastan está no comité de organização? — ele perguntou, vendo um monte de caderninhos com Dastan.

– Não. — o garoto respondeu, indiferente como sempre.

– Eu só vim perguntar como ele quer a festa. — Ellen respondeu, vermelha como tomate. Já era bom ver pessoalmente Dastan, mas encontrar o pai dele? Isso era mais que sorte. — O senhor qier que eu faça alguma coisa?

– Tâmina estâ nesse comité? Não me lembro dela ter comentado. — ele disse, coçando o queixo. — Tâmina, venha aqui agora!

Tâmina desceu as escadas, cansada. Nicolalis estava explicando pra ela sobre matemática financeira havia horas. Mercado de ações, Banco Mundial, commodities e mais um monte de coisa. No início ela achou tudo fascinante, mas agora estava exausta.

– Sim? — ela perguntou, se aproximando. Olhou Ellen, que a encarava com certa raiva e ciúme.

– Tâmina, você está no comité de organização? — Nicolalis perguntou.

– Hum, deixa eu ver... Acho que sim. Estamos organizando um...

– Excelente. — Nicolalis interrompeu. — Faça desse baile algo inesquecìvel, mocinha.

– Baile? — Tãmina perguntou, confusa, enquanto o homem se retirava. Ela não entendeu. — Que baile? Eu estou ajudando a organizar a feira de jogos. Faço parte do Comitê de jogos.

– Papai quer que você ajude no baile. — Dastan disse, se levantando. — Agora você não precisa mais de mim, Ellen. A Tâmina te ajuda.

Dastan também foi embora, e as duas meninas ficaram se encarando.

– Eu não vou fazer nada com você, absolutamente nada. — Ellen cuspiu, furiosa. — Você nâo entenderia nada. Não saberia nem a diferença da cor creme pra pastel.

Tâmina suspirou.

– Tem razão, pra mim isso tudo é comida. Mas se Nicolalis pediu pra que eu faça algo, eu tenho que fazer ou ele vai ficar bravo. Sinto muito.

– Eu não acredito nisso! — Ellen choramingava, recolhendo seus caderninhos. — É tudo sua culpa, sua ridícula. Você vive se metendo onde não é da sua conta, vive atrapalhando toda a minha vida!

Ellen saiu, batendo a porta da entrada, e Tâmina se largou. Era só uma questão de tempo pra Nicolalis a chamar de novo.

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Tâmina tentava ajudar o máximo possível, mas de nada adiantava. Tudo o que pedia pra fazer, da lista de tarefas, Ellen dizia que já tinha alguém fazendo.

– Posso comprar os balões?

– Já fizeram.

– Posso enxer os balões?

– Já tem gente fazendo.

– Posso pendurar os balões depois de enchidos?

– Já tem gente designada pra isso.

Depois de uma semana frequentando as reuniões do Comitê do Baile e sendo deliberadamente ignorada, Tâmina decidiu abrir mão disso. Ninguém precisava saber que ela não ajudava em nada.

Porém, na única reunião que ela não foi, Ellen estava esperando por ela, a cara furiosa.

– Então é assim? Você dá um jeito de entrar pra nossa comissão, não ajuda em porcaria nenhuma e na primeira oportunidade se manda? — Ellen esbravejava pra quem quisesse ouvir.

Tâmina tentou se defender, mas estava tão cansada e esgotada. Só queria deitar na sua cama e nunca mais levantar.

– Me diga o que quer que eu faça e eu farei. — Tâmina pediu, a voz sonolenta.

Ellen tirou uma listinha do bolso, e seu sorrisinho de satisfação dizia muito. Com certeza tinha aprontado alguma.

– Aqui está. Tenha um bom trabalho.

A lista era imensa, com as coisas mais difíceis possível. Tâmina ficou imaginando como o comitê organizou aquilo. Podia ouvir Ellen dizendo pra todos :

– Coloque as piores tarefas aqui na lista, gente. Vamos inferniza-la.

Tâmina começou a dar risada, e agradeceu a lista.

– Pode deixar, Ellen. Missão dada é missão cumprida.

Naquele dia, seu pai resolveu jantar fora.

– Temos que comemorar meu aumento e suas últimas notas, filha. Por nós e por sua mãe, que estaria orgulhosa.

Foram a uma pizzaria do bairro. Era simplesinha, mas cheia de gente humilde e honesta. A música alta tocava, os garçons eram todos simpáticos. Se sentaram em uma mesa, e logo foram atendidos por Juninho, um garoto com seus vinte anos que morava na mesma rua que eles. O garoto trabalhava meio período na pizzaria e num supermercado pra pagar a faculdade

– Fala ae, chefia, qual é a boa? — o garoto perguntou, pegando o caderninho.

– Traz uma pizza daquela com cinco pedaços. — O pai pedia, olhando o cardápio. — Uma garrafa de refrigerante de 2 litros e 3 saquinhos de batata frita.

– Três, pai? — Tâmina perguntou, curiosa. — Chamei aquele seu amigo pra vim se encontrar com a gente aqui. Achei que seria legal essa surpresa.

Tâmina sorriu e agradeceu ao pai. Dastan era mais que seu amigo, era o irmão que nunca teve. O garoto chegou quando pai e filha já tinham terminado de comer.

– Sinto muito, filho. Tentamos te esperar, mas a fome fala mais alto. Mas deixamos um pedaço pra você. — Stan dizia enquanto Dastan se sentava.

– Eu que peço desculpas. Tive um probleminha pra resolver, mas está tudo certo agora.

Dastan comeu a sua fatia e pediu pra que chamassem o cozinheiro. Elogiu o estabelecimento e fez uma proposta.

– Vou pedir para que meu pai desembolce alguns milhares de reais e abra outras filiais dessa pizzaria. O que acham?

Todos os funcionários estavam embasbacados, pois não tinham se dado conta de que haviam servido um Mace.

– Nem em sonho imaginaríamos que alguém como você viria nesse estabelecimento tão simples. — O dono tinha dito.

Tâmina não gostou muito disso. Por que alguém rico não poderia comer ali? A comida era boa, tudo era bom. Mas decidiu não dizer nada, afinal, quantos nâo seriam beneficiados com aquela proposta?

No dia seguinte, a pizzaria Hurt's estava estampada na primeira página do jornal local. Enquanto ia pra escola, Tâmina foi parada por Junin, que mostrou o jornal pra ela.

– Precisa de ver, Tâmina. Aquele garoto fez a gente crescer do dia pra noite!

Tâmina conversou com ele por alguns minutos, e depois foi pra escola. Passou a maior parte do tempo na biblioteca, pesquisando mais sobre convergência. A feira de ciências se aproximava, e ela mal tinha começado seu projeto.

Perto da hora da saída, começou a cumprir com suas tarefas. O ginásio, local onde seria realizado o baile, estava uma sujeira. Como o comitê estava utilizando o local pra fazer as reuniões, os preparamentos e tudo mais, estava acumulado de restos.

O chão continha tanto glitter e tinta que Tãmina teve que forçar o braço pra conseguir tirar. Uma hora tinha se passado, e não tinha tirado a sujeira grudada nem de metade do ginásio.

Limpou o suor da testa; guardou o pano e jogou a água suja do balde fora. A sacola de lixo, contendo balões e bexigas furadas, restos de papéis coloridos, como cartolina, estava cheia. Decidiu terminar pela manhã.

Na volta pra casa, topou com um Juninho desanimado. Perguntou o que tinha acontecido a ele.

– O chefe contratou outras pessoas, pessoas mais experientes. Agora que ele ganhou tanto destaque e dinheiro do dia pra noite, a pizzaria deixou de ser algo simples pra algo bem chique e sofisticado. Tem até que marcar hora agora pra poder ir lá. Ta tudo diferente.

Tâmina ficou triste por ele. Algumas pessoas eram tão fracas, mal podiam ver dinheiro que jA mudavam seus conceitos e personalidades.

Quando chegou em casa, tomou banho e começou a fazer os convites para uma centena de convidades. Ellen especificou para que fossem escritos à mão. Quando foi dormir, colocou um paninho em volta do braço e do dedo. Estava com o dedo indicador com bolhas e o braço com caimbras.

No dia seguinte, mal tinha chegado na escola e uma Ellen raivosa estava a sua esfera.

– Você não limpou todo o chão. Como vamos dar um baile com aquele chão todo emporcalhado? — ela gritava.

– É só não fazerem tanta bagunça. — Tâmina respondeu simplesmente.

– E ainda tem a cara de pau de responder. Vocé não fez nem metade da lista!

– Eu vou fazer, Ellen, calma. Prometo que agora mesmo começo. Toma, seus convites. — Tâmina disse, entregando a sacolinha pra ela.

– Ah, eu não te avisei? — Disse Ellen, pegando a sacolinha e dando uma olhada nos convites. — Scarlet achou que seria melhor impresso do que manuscrito.

– Mas eu te disse isso antes! — Tâmina se queixou, contrariada.

– Pois é. Acontece que ela não é só de falar, sabe, ela faz. Já temos os convites impressos, não precisamos disso.

Ellen jogou a sacolinha no lixo, e Tâmina tentou ver algo bom dessa situação. Não achou nada. Pegou a sacola do cesto de lixo, tirou os convites de lâ de dentro e encarou Ellen.

– Eu não passei tanto tempo escrevendo isso à toa. Esses convites não vão para o lixo.

As duas passaram a discutir na porta do colégio, o que chamou atenção de alguns alunos. Principalmente de Dastan, que tinha acabado de chegar.

– Alguém pode explicar o que estâ havendo? — Dastan perguntou, fican entre as duas.

Ellen choramingou sua versão da história, e Tâmina ficou calada. Dastan olhou para as duas, e depois deu seu veredicto.

– Não vejo problema nenhum em distribuir os dois convites, manuscrito e impresso. Entreguem das duas formas.

Dastan saiu dali, entrando no colégio, e Tâmina começou a distribuir seus convites. É claro que Ellen não iria deixar barato. Durante as sessões do comitê, Tâmina se sentia como uma Cinderela moderna.

– Traz os biscoitos.

– Esquenta esse leite direito.

– Limpa direito esse chão.

– Limpa essa mesa.

– Vai comprar novos biscoitos.

– Faça isso, faça aquilo!

Em uma dessas suas viagens a cantina, topou com Dastan, que estava passeando pelo refeitório.

– O que está fazendo? — ele perguntou, pegando os copos e pratos que ela carregada.

– Ajudando no comitê. — ela respondeu, aliviada por não estar mais carregando aquela pilha de louça.

– Sério, Tâmina? É assim que você quer ajudar? — ele perguntou, entrando na cozinha e depositando as coisas na pia. — E agora, o que você tem que fazer?

– Lavar isso. Não é grande coisa. — ela disse, dando de ombros.

Os dois então combinaram de dividir a tarefa. Tâmina lavava, Dastan enxaguava e guardava. Foi uma questão de tempo até os dois começarem a fazer uma guerrinha de sabão e âgua. O que fez com que os dois fossem surpreendidos pela "tia" da cozinha.

– Mas o que vocês estão fazendo aqui? Que bagunça é essa? — ralhava a mulher. — Fora daqui, os dois.

Os dois saíram rindo. Sabiam que não iriam parar na diretoria só por causa do sobrenome do Dastan. Ah, se o pai dele fosse chamado só pra lidar com uma "brincadeira de criança"...

Ellen viu os dois assim, enrolados de toalha, as roupas molhadas, sorrindo. E a inveja e o ciúme dela só aumentando. Ela queria fazer Tâmina chorar, queria que ela sofresse. Mas o que fazer quando nada a atingia? Já não tinha mais ideias do que fazer. Doía tanto ver o garoto que ela amava a tantos anos com outra. Saiu correndo, chorando. E jurando se vingar. Não desistiria até conseguir de volta o que era dela.

Semanas depois, os preparativos estavam quase prontos. Tâmina estava ansiosa para a Feira de Ciências, alguns cientistas consagrados estariam presentes. Ela e o grupo dela apresentariam um trabalho sobre a Convergência, o que era bem arriscado. Algumas pessoas poderiam considerar a pesquisa como "mitologia" e magia ao invés de ciências. Seus colegas estavam preocupados, ela não.

– As pessoas chamam de magia o que não entendem. Quando finalmente acham uma explicação, chamam de ciência. É a mesma coisa. — ela explicava.

Dastan parecia ser o ünico a entender. Ele ouvia, perguntava, e concordava.

– Você pensa de uma forma diferente, Mina. Eu gosto disso.

O Baile não ia tão bem. Apesar de ter ajudado muito na parte da limpeza, Tâmina não ajudou em quase nada da organização. Quando Nicolalis perguntou, por telefone, no que ela tinha ajudado, acabou falando sem pensar.

– Em várias coisas. Tipo... É... Muitas coisas. O tema. É, a ideia do tema do baile foi meu. — ela inventou.

– Qual foi o tema? — ele perguntou.

Tâmina olhou para o caderno que segurava, de princesas. Nem sabia se o baile tinha tema, e acabou inventando de novo.

– Contos de fada. Tem que ir fantasiado de algum... Personagem... De contos de fadas.

Tâmina não gostava de mentir, não gostava mesmo. Ao terminar aquela ligação, correu pra encontrar Ellen. Achava incrível o fato de que falar por meros segundos com Nicolalis, fazia sua alma gelar.

– Ellen ! — exclamou, ao vê-la sentada rodeada de garotas. — Preciso falar com você.

Ellen a olhou com nojo, e virou o rosto.

– Ela se recusa a falar com plebeus. — uma das meninas disse. — Vai embora.

– É sobre o baile. — Tâmina disse. — O pai do Dastan acabou de me ligar e...

– Nicolalis? Ele quer falar comigo? — Ellen prrguntou, se levantando. — O que ele queria?

– Ele... Bem... Ele perguntou sobre o tema do baile, e...

– Você disse que era um baile livre? Que não tinha tema?

– Bem... Ele... Eu... Ele qieria um tema, e eu...

– Eu devia ter pensado num tema... Agora ele deve achar que eu sou uma idiota. O que mais ele disse? — Ellen perguntou, pegando um caderninho.

– Eu disse que o tema era contos de fada, a fantasia. Ele disse que vai comprar uma fantasia pra vim.

Alguns segundos se passaram, e Tâmina ficou com receio de que fossem brigar com ela. Mais alfuns segundos, e todas começaram a gritr e a pular.

– Nicolalis Mace vem pra minha festa? Para o meu baile? — Ellen dizia, toda feliz. — Isso vai ser incrível! Temos que preparar as fantasias.

As meninas passaram, todas contentes, e Tâmina suspirou. Tudo certo. Agora só faltava convencer Dastan a ir fantasiado. Ele provavelmente iria brigar com ela pelo que ela fez.