Dastan & Tâmina
11 Peças de Teatro
Como a turma AS era diferente de todas as outras do Colégio Style, os membros dela não eram obrigados a participar das demais tarefas que os outros alunos tinham que participar. Tâmina, ao contrário de Dastan, gostava de se misturar com os outros alunos. Assim que ela ficava sabendo de uma atividade diferente, corria pra contar para o Dastan, para convencê-lo a participar.
Houve uma atividade extracurricular que na verdade, quem viu primeiro foi Dastan. Assim que ele bateu o olho no aviso, tentou sair fora mas não deu jeito. Acabou sendo arrastado.
Particularmente, achei fofa a atitude dele. Isso é uma amostra de como ele faria tudo, qualquer coisa — por mais vergonhoso que ele achasse o gesto — ele faria por ela.
O AUTOR
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Tâmina gostava dos uniformes da AS. Eram mais difíceis de lavar, por conta do tecido, mas tão confortáveis. Eram todos brancos, diferentemente daquele marrom que usava quando era parte das turmas normais.
Não gostava muito do marrom. Tudo bem que era uma cor que lembrava a terra, e muita coisa vinha dela. Mas parecia uma cor tão apagada e triste. Achava mais triste do que o cinza.
Chegando na escola, passou pela diretoria e viu o Quadro de Avisos. Ficou super feliz com o que leu ali.
" Nova peça de teatro da escola. Canto Geral, de Pablo Neruda. Interessados, favor, se inscreverem na folha amarela".
Tâmina olhou para a folha amarela, que estava do lado do aviso, e se surpreendeu com o número de inscritos. Colocou seu nome em uma linha e decidiu contar para o Dastan, achou tão legal aquela ideia.
Tinha participado de poucas peças de teatro. Chapeuzinho Vermelho, na escola comunitária. Tinha sido uma das fadas de Romeu e Julieta e era só. Queria fazer aquilo de novo, queria sentir aquela emoção de estar no palco interpretando um personagem.
Chegou no cantinho da AS, uma mesa no meio da estufa. Procurou por Dastan, mas ele não estava ali. Perguntou para os estudantes que ali estavam sevo tinham visto.
– Não.
– Não.
– Não.
– Mais cedo, no refeitório.
– Não.
Estavam todos concentrados, lendo seus livros. Tâmina e Dastan eram os mais novos ali, e ela se sentia meio excluída. Ninguém da sua idade, ninguém querendo brincar. Deu de ombros e saiu procurando pelo Dastan.
Procurou no refeitório, na biblioteca, no ginásio, nas quadras, em tudo que é lugar e nada dele. Chegou a perguntar na diretoria onde ele estava.
– Ele disse que estava se sentindo mal, e por isso, foi dispensado das aulas hoje. — uma secretária respondeu.
Tâmina achou estranho. Dastan ia pra escola gripado, com a garganta congestionada, tossindo. Não pedia pra ser dispensado nem que seu nariz estivesse escorrendo sangue. Ligou pro celular dele, pra casa dele. Nada. Ficou entre desconfiada e preocupada, e as vagas para a peça só diminuindo. Anotou o nome dele na folha rosa e pediu pra ser dispensada.
– Quero ver se ele está bem! — ela pediu para a mulher. — Por favor, me deixem ir!
– Ela é da AS, Silvia. — uma inspetora que passava disse. — Veja o uniforme dela. Ela pode sair.
Tâmina foi à pé até a casa dele, uma mansão enorme. Tocou a campainha, andou pelo jardim dele e esperou na sala por Dastan. Quando ele apareceu, ela até pulou do sofá.
– Você está bem? Está doente? Com dor de cabeça? — ela perguntava, colocando a mão na testa e pescoço dele. — Não, está normal. O que foi que aconteceu?
Dastan deu de ombros e se sentou no sofá, relaxado.
– Você veio até aqui pra que mesmo? — ele perguntou.
– Você está bem? Tipo, bem mesmo? — ela perguntou, preocupada.
– Depende. Se você veio aqui falar de uma peça de teatro, sim, eu estou muito mal.
Tâmina jogou almofadas em cima dele, brava.
– Você viu o aviso então? Não me diga que estava fugindo de mim.
– O que eu posso fazer? Você fica encucada com essas coisas. — Dastan se justificou, pegando as almofadas.
– Ainda não acredito que você pediu pra sair da escola só porque ficou com medo de uma peça de teatro. — ela disse, se sentando do lado dele. — e eu aqui, de idiota, querendo saber de você. Custava ter atendido o telefone?
– Custava sim. Depois de um coral, exposição de arte, e todas aquelas coisas, você tem sorte por eu ter permitido sua entrada aqui dentro.
– Pois não adiantou nada, porque eu coloquei seu nome na lista.
– Ah, não....
– Sim.
– Você só pode estar brincando.
– Não to não.
Os dois ficaram discutindo, e Tâmina fez aquela carinha de pidona.
– Por favor, por favorzinho!
Dastan suspirou, e acabou cedendo.
– Mas isso vai pra lista de coisas que você me deve.
Os dois tiveram que decorar um monte de poemas e poesias, e Tâmina não parava de recitar.
– E nascerâ de novo esta palavra, talvez em outro tempo sem dores, sem as impuras fibras que aderiram negras vegetações em meu canto, e outra nas alturas estará ardendo.
Dastan só não reclamava porque gostava de ouvir a voz de Tâmina.
– Livro comum de um homem, pão aberto é esta geografia do meu canto, e uma comumidade de lavradores, algum dia recolherá o seu fogo e semeará suas chamas e suas folhas outra vez na nave da terra.
A apresentação iria ser em teatro da cidade, faria parte de uma homenagem a alguns autores. Tâmina e Dastan foram de carros. Chegaram lá, recitaram seus poemas no palco, foram aplaudidos e depois foram embora. Tâmina queria mais.
– Achei que seria uma peça mais... Diferente. Quero mais uma! — ela dizia na volta. — Vou conversar com a professora pra ver se ela faz outra.
No dia seguinte, depois de uma conversa com com a professora Maria Antônia, de teatro, estava decidido : a escola faria uma peça juvenil.
Tâmina ajudou a preparar um roteiro na parte da manhã. No intervalo, colocou o papel das inscrições no Quadro de Avisos, mas no fim da aula, constatou que quase ninguém se interessou.
– Devem ter visto meu nome como sendo uma das organizadoras. As pessoas já não gostam muito de mim, então...
Era quase isso. Ellen tinha visto que Tâmina era uma das organizadoras, e pedido pra que ninguém se inscrevesse.
Dastan, com pena da garota, colocou seu nome na lista de inscrição sem que ela soubesss. No dia seguinte, a lista estava saturada. Quem iria recusar participar de uma peça em que o menino Mace estaria?
Tâmina o abraçou, deu um beijinho no rosto dele e saiu saltitante. Dastan realmente detestava participar dessas coisas, mas era por esses momentos que tudo valia a pena.
A peça se chamaria Garota Imperfeita, e se trataria de um triângulo amoroso. A protagonista, Cassidy, seria uma garota normal que é apaixonada pelo garoto mais popular da escola, David. Em contrapartida, a maioria dos seus familiares acredita que o garoto certo pra ela é seu melhor amigo, Bryan.
Tâmina estava pronta pra ser a protagonista, mas Ellen apareceu querendo o papel de Cassidy.
– Se você é da organização, não pode atuar. Seria injusto. Todo mundo tem que participar da seleção por igual, e é errado você ser escolhida. — Ellen ia dizendo no ginásio. — Eu mesma vou falar na direção sobre isso.
Tâmina cedeu o papel, não queria trazer problemas para a professora. O papel de David ficou com Dastan, Ellen foi Cassidy e Geovan, um garoto do 6° ano, ficou com o papel de Bryan.
Tâmina não ficou com nenhum papel, mas achou incrível ensaiar ajudar a coordenar tudo, só não tinha mais autoridade que a Maria Antônia.
Fiscalizava tudo ali, ajudava em todas as áreas. Trabalhar nos bastidores era fantástico. Ela era responsâvel por ensaiar os atores nas quintas.
Dastan, de início, não gostou do fato de não poder atuar com Tâmina. Mas vendo a alegria dela, acabou se conformando.
Ellen queria mudar o roteiro da história, pra que em alguma cena, pudesse beijar Dastan. Tâmina não permitiu, alegando que não mudaria a história faltando tão pouco para a apresentação. Mas a verdade é que sentiu algo estranho dentro de si. Ellen e Dastan? Se beijando? A cena a enxeu de nâuseas.
Nicolalis elogiou sua iniciativa, e lamentou o fato de não poder assistir a peça. Mas afirmou que assistiria por dvd.
– É bom que essa peça esteja impecável, mocinha, ou eu...
Sim, sim, já sabia. Mas tudo estava indo bem na peça, tudo ia conforme o combinado. O maior problema aconteceu no dia da apresentação, Ellen não aparecia.
– Fiquei sabendo que ela foi passar no salão de beleza. Deve estar lâ até agora. — disse uma das amigas de Ellen.
Tâmina ficava preocupada a cada instante. Olhava pela fresta para a platéia, lotada. Todos jâ estavam caracterizados, incluindo Dastan, que tinha sido o últo a chegar.
– Desculpe o atraso, houve um probleminha lâ em casa. — ele tinha dito.
Quando a peça jâ estava atrasada em quimze minutos, eis que Ellen apareceu. E caracterizada de forma totalmente diferente da protagonista.
– Ellen, onde você estava? — A professora dizia, em pânico. — Vai trocar logo essa roupa, estamos atradados!
– Já estou vestida. — Ellen disse. — Podem começar.
Foi quase que um fiasco. Ellen se recusou a trocar seu figurino, e ao invés de ser uma garota normal e invisível, virou uma patricinha detestável. Bem o que ela era, pensou Tâmina. Ellen mudou falas, cenas inteiras, e os outros atores não sabiam bem o que fazer. Até mesmo Dastan, que era bom do improviso, chegou a se embolar. Ellen tentou beijá-lo três vezes, e das três tentativas levou um fora.
– Eu não vou te beijar. Não, não. — Dastan dizia, recuando, e fazendo a plateia toda rir.
No final, até uma parte da cortina vermelha do palco estava rasgada. A professora Maria Antônia se recuperava de um desmaio, e Tâmina desistia da carreira de produtora. Era difícil demais lidar com esses artistas mirins, imagine com os famosos.
– Pelo menos você tentou. — Dastan dizia no carro. — E seu pai se divertiu muito. Não foi, Stan?
– Ah, sim. — Seu pai disse enquanto dirigia o fusca azul. — Foi muito engraçado. Principalmebte a cena daquela menina tentando te beijar a força. Qual o nome dela mesmo?
– Ellen. — Os dois responderam ao mesmo tempo.
– Ela tem uma fixação por você, Dastan. — Tâmina comentou, incomodada. — Por que ela é tão obcecada por você?
Dastan a olhou atentamente, e Stan ajeitou o espelinho do carro, de olho nos dois.
– Deve ser impressão sua. Ellen é assim mesmo. — ele respondeu simplesmente.
Pra amenizar o clima, Stan começou a falar de uns projetos de teatro que tinha visto. Tâmina disse que não pensava mais em mexer com essas coisas, e Dastan disse que sua carreira de ator acabava ali.
Três semanas depois, Tâmina falava pelo celular com Nicolalis.
– Você vai fazer outra peça de teatro. Vai dirigir uma coisa séria dessa vez, sem essa bagunça toda. Se quer se relacionar com o meu filho, tem que ter seu nome associado a coisas boas. Não essa porcaria.
Tâmina suspirava, tentando se desculpar. Como gravaria uma outra peça? E uma em que Ellen não participasse? Teve uma ideia ao avistar Layla na saída do Colégio. Resolveu falar com ela.
– Seria de grande ajuda se você atuasse. E chamasse as meninas. Seria coisa rápida, eu juro. Eu gravaria, colocaria num dvd e mandaria para o Mace.
Layla não gostou muito disso, mas resolveu ajudar. Falou com um pessoal e uma semana depois, estavam todos encenando no palco e Tâmina gravando. Tinha sido bem mais simples do que a peça oficial, mas bem mais séria e com conteúdo.
Pediu pra que Dastan mandasse pro pai dele, e uma semana depois ela recebeu uma nova ligação de Nicolalis.
– Isso sim está aceitável. — ele disse, e foi como receber um grande elogio.
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