Dastan & Tâmina
5 Brincando de Contrato
É verdade que Nicolelis Mace nunca foi o maior fã da jovem Tâmina. Não gostou dela desde a primeira vez que a viu, e chegou a prejudicá-la por conta da proximidade dela com o seu filho.
Quando a diretora do colégio Style propós uma atividade com os novatos, formou duplas e colocou Dastan com uma pobretona sem modos, foi como puxar um gatilho. Nicolalis se ofendeu com isso, um claro sinal da diretora pra ele. "Na minha escola mando eu".
Nicolalis não tiraria seu filho de lá, seria admitir derrota. Ele daria um jeito de tirar Tâmina.
Foram várias as vezes em que ele jogou Dastan contra Tâmina. Um dos episódios que marcaram a vida dela foi um acordo. Ela teria que seguir um contrato se quisesse ser amiga de Dastan.
O AUTOR
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Tâmina não vinha de uma família de prestígio. Seu pai era um carpinteiro, sua falecida mãe vendia doces pra fora. Não tinha dinheiro, influência. Mas tinha algo que estava se tornando raro : o esforço.
Procurava tirar boas notas, ser uma boa filha, uma boa amiga. Uma boa pessoa. E se tinha uma coisa que ela se esforçou pra conseguir, foi ser uma companhia agradâvel pra Dastan.
A amizade entre eles crescia a cada dia, mas Tâmina sabia que tinha paredes inteiras pra quebrar antes de chegar no menino. Ele era tão calado, sozinho, desconfiado. Queria fazer ele sorrir, gostava de ver o menino feliz.
– Você não é boa para o meu filho. Você age como se a posição e poder da minha família não fosse nada, mas já parou pra pensar em como ele se sente? Você pode não sentir vergonha de andar por aí feito um animal, mas Dastan sente. Ele não te contou das vezes que ficou constrangido por ter você do seu lado?
Era o que Nicolalis tinha dito a ela por telefone uma vez. Ela chorou, mas que criança de 9 anos não ficaria abalada depois de um adulto dizer coisas tão ruins? Especialmente o pai do garoto que você gosta.
Tâmina quase desistiu de Dastan. Não queria prejudicar o garoto, não queria o mal dele. Passou semanas evitando ele na escola, mas ele foi tirar satisfação na porta da sua casa.
– Você vai agora falar com o meu pai. Vai dizer a ele que não quer se afastar de mim, e que vai fazer de tudo pra não perder minha amizade. — exigiu um Dastan furioso. — Não vai me deixar, Tâmina. Você prometeu que mesmo que eu não quisesse sua amizade, estaria do meu lado. Eu quero você comigo, então cumpra com a sua palavra!
Foi assim que ela decidiu ir atrás do senhor Mace. Dastan a levou até uma das empresas e pediu para que a recepcionista chamasse seu pai.
– Diga a ele que é urgente. — Dastan pediu impertinente.
– Quero falar com ele a sós. — pediu Tâmina quando o acesso a sala de Nicolalis foi permitido. — Por favor, Dastan.
Dastan concordou, e Tâmina subiu os vinte andares sozinha pelas escadas. A conversa com o homem não foi muito boa, mas foi melhor do que o esperado.
– Vou te dar um mês, garota. Um mês pra se tornar uma moça decente. Se não conseguir, vai deixar meu filho em paz. Se conseguir andar com ele sem fazê-lo passar vergonha, então poderâ ser sua amiga.
– Sim.
Algumas pessoas poderiam dizer que Tâmina fosse ingênua. Ela era uma criança alegre e sonhadora, que se contentava com o que as pessoas normalmente chamavan de pouco.
Ela sabia o que era perder uma mãe, então agradecia por ainda ter um pai. Passou a vida toda morando em um barraquinho de madeira, então agradecia por ter uma casa de tijolos. Pequena, simples, mas era um lar. Tinha bons amigos, se divertia com eles.
Dastan podia ter tudo o que quisesse no mundo, mas Tâmina sabia que ele não tinha o mais importante : amor. Amigos verdadeiros. Do que adiantava morar numa casa enorme, se ela era tão fria e ausente de calor humano?
Ela tinha prometido que seria amiga dele pra sempre. Prometeu não só pra ele, mas pra si mesma que faria ele feliz. Ela iria se esforçar por ele.
– Isso vai deixar o Dastan feliz?- ela perguntou a Nicolalis antes de sair da sala dele.
– Com toda a certeza.
"Você tem tantos amigos, um dia vai se esquecer de mim. Por que você só vai dormir na casa das suas amigas? Tem alguma coisa ruim com a minha casa? Um dia você vai embora e vai me deixar". Era o que Dastan dizia eventualmente.
– Ta tudo certo. — Tâmina disse a ele ao vê-lo no hall de entrada do prédio. — Seu pai e eu nos acertamos, agora vamos embora
– E o que aconteceu? — Dastan perguntou.
– Nada demais. — ela respondeu.
O "nada demais" acabou chegando na casa dela. Uma mulher bem-vestida foi até lá para entregar uma apostila plastificada cheia de itens.
– O senhor Mace elaborou o seguinte contrato com os termos que deverá seguir. A começar pelo fato de que deverá sair da turma D para a turma A. Nas palavras dele, vai parar de usar esses trapos e vestir algo melhor. Vai manter sempre o cabelo penteado, não essa desordem.
A mulher foi falando e falando, e Tâmina passando a mão nos cabelos. Pegou uma folha deles. Não tinha sido de propósito, ela tinha brincado com as meninas da rua no quintal, e ele era todo de árvores e terra.
– (...) vai precisar corrigir a postura, falar direito com as pessoas mais ricas. Não pode tratá-las como se fossem meras pessoas comuns.
Tâmima agradeceu quando a mulher deu meia volta, sua cabeça latejava de tanta falação. Dentro de casa, sentada no colchão, folheou a apostila. Tinha tanta coisa ali, e tanta coisa ridícula e sem sentido, que pensou em deixar de lado e ir jogar bola.
Pra que precisava aprender com qual talher se comia o alface e a sobremesa? Contanto que estivessem limpas, qualquer uma serviria.
Mas iria dar o melhor de si pra Dastan, não devia ser tão difícil. Sua vizinha era costureira, e volta e meia vivia dando pedaços de tecidos pra ela e para as amiguinhas fazerem roupa pras bonecas. Talvez conseguisse fazer umas roupinhas melhores pra si mesma. Apesar de não achar nada de errado em suas rouoas habituais. Algumas podiam ser remendadas, sim, mas todas elas estavam impregnadas de lembranças.
Um mês depois, Tâmina chorou com a derrota, e implorou por mais uma chance.
– Era muita coisa, senhor Mace. Como eu iria conseguir corrigir minha postura sozinha? Nem sei o que tem de errado com ela! — Tâmina havia chorado pelo telefone.
– Se eu te der mais um mês e você fracassar, promete que vai deixar meu filho e eu em paz? — ele perguntou.
– Sim. — ela respondeu.
Nicolalis não tinha ficado satisfeito com isso, mas sabia que não tinha muito a perder. Poderia se passar seis meses, ela não conseguiria.
Tâmina, pouco a pouco, foi perdendo os amigos. Suas amigas reclamavam da sua mudança de comportamento, da sua ânsia e ambição por querer mudar de turma.
– Ela se tornou uma desses gananciosos, que querem saber que estão acima dos outros. — Foi o que Layla comentou certa vez.
Layla doi uma das primeiras a ver que algo estava errado com Tâmina. Ela pegou Tâmina andando de um lado para o outro, com livros na cabeça.
– Só as idiotas colocam livros em cima da cabeça ao invés de colocar dentro. Lembra? Era o que você costumava dizer, Tâmina. Que livros serviam pra serem lidos. — Foi o que Layla disse a ela.
– Elas não eram suas amigas de verdade se te deram as costas. Você não precisa delas, só precisa de mim. — Foi a resposta de Dastan quando a garota chorou pelo afastamento dos amigos.
Tâmina se esforçou na escola, se dedicou nas aulas. Ela não queria sair do 2° segmento pra ir para o 1°. As aulas das turmas A, B e C eram chatas. Era só texto, texto e texto. Foi com grande alívio que ela foi para o D, onde as crianças brincavam e estudavam praticando.
– Contente com o resultado? — ela perguntou a Nicolalis no dia das entregas dos boletins.
– Fez o que devia ser feito. — Nicolalis disse, amassando o convite dela para ingressar na turma B. — No próximo semestre, eu quero um A, mocinha.
Tâmina quase deu um sorriso. Nicolalis tinha ido para a escola, comparecendo pela primeira vez em uma das reuniões. E pra surpresa de todos, além de ter ido na reunião de Dastan, foi na dela.
– Sabe, mocinha, talvez você não seja um caso perdido. Não fez tudo o que eu queria nesses últimos meses, mas já se nota uma diferença. Cabelo arrumado, roupas sem lama. Posso até pensar em pagar por um cursinho de etiqueta pra você.
Tâmina ficou triste com se pai ter aceitado a proposta, mas fingiu estar feliz com ele.
– Pense nas oportunidades, querida, no seu futuro! Eu queria poder te pagar aulas de balé, línguas, etiqueta, e todas essas outras coisas. O que o senhor Mace está fazendo é um presente dos céus. Ele tem razão, filha, você tem talento. Jâ imaginou entrar pra essa turma AS? A filha de um simples carpinteiro, como uma dos alunos mais inteligentes do paìs!
As coisas pareciam ruins, mas Tâmina focava nos pontos positivos. Dastan estava mais próximo dela, e fazia de tudo pra que ela ficasse bem. "Tudo" da cabeça dele.
Ele era jovem demais e não sabia como lidar com todos os seus sentimentos. Ciúme, dúvida, possessividade, amor. Não entendia aquela torrente de coisas.
Queria dar o mundo pra Tâmina, mas ela não queria nada do que o dinheiro dele pudesse comprar. E ele não conseguia entender isso.
– Eu fico vendo as meninas brincarem, Dastan, lembrando que antes, eu era uma delas.
Foi o que Tâmina respondeu um dia, ao ser perguntada por Dastan o motivo de estar tão triste.
– Por que não vem... Não passa uns dias na minha casa? Você não disse que seu pai viaja muito a trabalho, e que você tem que ficar na casa de uma costureira? Passa uns dias na minha casa e eu brinco com você.
Tâmina sorriu, porque fazia muito tempo que queria convencer Dastan de largar um pouco os livros e aproveitar o momento, se divertir.
Quem pode dizer o que se passa na mente de uma criança? Quem poderá dizer o que os motiva?
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