Dastan & Tâmina
6 Deixaria?
Uma coisa que Dastan fazia, e com muita frequência, era dormir com Tâmina. Eu sei, eu sei, esse autor está abalando o emocional dos conservadores.
Tudo começou na infância. Dastan não permitia que ninguém entrasse em seu quarto, muito menos que mexesse em suas coisas. Empregados querendo entrar pra fazer faxina? Nem pensar. Seu pai? Improvável, até porque se o homem quisesse falar com o filho, o chamaria até seu gabinete. Tâmina?
Sim, ela podia. Nem precisava de permissão, era a única pessoa que podia vasculhar as coisas dele. Mexia nos livros, pegava cds.
Este autor soube que uma mulher, que trabalhava na mansão dos Mace, foi despedida por passar pano no chão daquele quarto.
A questão é que Tâmina podia tudo, nem precisava de permissão. Chegou a um ponto que ela só não tinha mais autoridade ali, do que o próprio Nicolalis em pessoa.
Acredito que ela era tão ingênua, que não percebeu o que todos já vinham reparado. Levou tempo pra ela acordar, hein.
O AUTOR
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Tâmina tinha acabado de chegar de mais uma reunião enfadonha. Recentemente, Mace havia comprado os direitos de uma editora, e pedido pra que ela se inteirasse dos assuntos.
– Tenho que ficar analidando planilhas, checando dados. Não sei por quê seu pai me pediu isso. — disse Tâmina enquanto terminava de vestir seu pijama. — ele podia ter pedido isso pra qualquer pessoa, incluindo você.
– Não olha pra mim, tenho muito com o que lidar. — Dastan respondeu, se deitando na cama e colocando os braços por trás da cabeça. — Vai ver ele queria alguém de confiança. Quem sabe o que se passa com esse velho?
– Aposto que você sabe. — Tâmina disse enquanto penteava os cabelos. — ele me deu tanta autoridade na editora, que as pessoas estão achando que eu sou o chefe.
– Isso não parece ser ruim. Pensa só, ninguém vai mexer com você porque vão ter medo da demissão.
– Demissão? Não está exagerando?
– Eu nunca exagero quando o assunto é você.
Depois de tantos anos morando juntos, certas coisas que antes poderia ser constrangedoras, passam a ser normais. Tâmina vestia as blusas dele, dormia com ele. Depois de fazer uma trança, ela se deitou do lado dele e ele a abraçou.
– Hum... Lavanda. Fazia tempo que você não tinha esse cheiro. — Dastan disse, beijando o pescoço dela.
– Pensei que gostasse do meu cheiro com limão. Só não usei o hidratante dele porque não achei.
– Na cômoda rosa, 2° gaveta. Você deixou lâ anteontem. E eu gosto de qualquer cheiro seu. Lavanda, coco, baunilha, limão. É a sua essência que importa.
Os dois ficaram ali, juntinhos conversando. Falaram de cheiros, de frutas, de árvores, da natureza. Horas depois, Nicolalis passava pelo corredor e parou na porta, ouvindo a risada dos dois. Tâmina podia não ter sido sua primeira opção, mas até que ela não seria uma nora ruim.
Ela era uma boa garota. Quem iria imaginar que uma criança tão esfarrapada e sem modos, se tornaria uma moça tão refinada e portadora de tantas qualidades?
As coisas corriam bem entre o acordo que fez com Dastan e o pai da menina, Stan. Tâmina estava se mostrando um excelente braço direito, e a expectativa é que gerasse seus netos.
O homem julgava ter calculado bem. Afinal, era graças a sua esperteza que saiu da miséria pra se tornar alguém tão bem sucedido. Ele só tinha se esquecido de colocar uma variável nessa conta toda : a integridade e ética humana. Ele pensava mesmo que Tâmina se comportaria de forma tão submissa pra sempre? Pensou errado.
No dia seguinte, Tâmina chegou em casa e ficou surpresa por ter visitas esperando.
– Se eu soubesse, teria vindo mais cedo. — se desculpou, guardando seu material de trabalho. — queiram me acompanhar até a sala de estar, por favor. Vou prepara uns lanches.
Tâmina se sentia apreensiva com suas visitas. Akira ela até poderia chamar de amiga, mas Denise Walmart? Éowyn Thorpe? Ellen Degenour?
Mal falou com elas na escola, e Ellen era o mais perto de inimiga que já teve. A menina sempre aproveitava todas as oportunidades pra inferniza-la, e deixava bem claro o quanto a odiava. Não podiam se encontrar que Ellen dava um jeito de rebaixar Tâmina, então o que ela fazia ali?
Levou as meninas pra sala de estar e começou a servi-las. Ellen colocou o pé na frente, e Tâmina tropeçou, derrubando a bandeja.
– Que descuido meu... Me perdoe, Tâmina. — Ellen se desculpou no tom mais sarcástico possível.
– Ta tudo bem. Vou pedir pra alguém limpar e vou tomar um banho. Com licença.
Tâmina saiu da sala ouvindo o som de cochichos. Detestava aquilo, detestava aquela vida. Tinha que seguir protocolos, se relacionar com pessoas de que só queria distância. Não podia lavar uma locinha que já tinha gente no seu ouvido.
– Isso é coisa de empregados, senhorita. Não precisa fazer isso.
Mas tinha mãos, pernas. Podia sim fazer essas coisas, queria. E naquele momento, queria poder jogar um balde de água fria em cima de Ellen, e estragar aqueles cachinhos loiros cuidadosamente arrumados. Ah, como queria fazer isso. Podia até ouvir o sermão que Nicolalis daria. Fazia tanto tempo que ele não pisava no calo dela, estava até com saudades. Não das broncas, mas das coisas que fazia pra provocá-las.
No banho, pensou nas vezes em que Ellen a fez se sentir um lixo.
– Não importa o que faça ou o quanto mude. Sempre vai ser uma caipira do mato. Nunca se esqueça de quem você é por dentro. Lembre-se sempre de que tem um espírito selvagem, e que Dastan precisa do oposto. Ele precisa de mim.
Tâmina se lembrava bem disso. Ellen havia dito a muitos anos, mas ela guardava bem. Porque tudo aquilo era verdade. Não inportava que rouoa usasse ou o quão bem falasse, Tâmina sabia que era uma garota da floresta. Dentro dela, ainda morava uma menina que ansiava por andar descalça na terra, escalar árvores e galhos e arranhar os joelhos e as mãos.
Dastan era um homem da cidade, dos negócios. A vida dele era ternos, gravatas, talões de cheques, gerindo empresas. Lâ no fundo, Tâmina sabia que não queria nada disso.
Gostava de números, sim, era legal brincar com eles. Mas nada comparado a brincar com animais. Na verdade, animais pareciam mais inofensivos do que certos executivos, todos tão frios e calculistas.
Nunca seria uma Ellen Degenour, e estava feliz com isso. Não queria.
Horas depois, Tâmina tomava chá sentada no canto, observando a conversa. As meninas falavam de frivolidades, mas sabia que era só uma questão de tempo pra falarem de negócios. Pra que mais viriam?
– O que acha, Tâmina? — Deisi perguntou. — Estamos criando uma marca de roupas, e seria muito legal se você participasse.
– Hum... — Tâmina começou, olhando pra Ellen. A garota parecia zangada. — Eu não sei...
– Vamos, qual o problema? Só teria que usar as roupas e nos ajudar com algumas coisinhas. — Éowyn comentou, entusiasmada. — O pai da Ellen disse que embolsaria dois milhões pra começarmos.
– Precisamos de você. Nicolalis Mace pode se interessar e investir no nosso negócio — Akira falou, e Tâmina sentiu sinceridade vindo dela. — ele começou a entrar no mundo da moda, e está indo muito bom. Se você conversasse com ele, ele provavelmente deixaria a gente desfilar com nossas roupas no evento dele.
A partir dali, a conversa girou em torno da Fashion Weeks. Nicolalis era um dos organizadores do maior desfile de moda do continente.
Tâmina se negava a aceitar tudo o que diziam. "O senhor Mace era um homem tão frio" , "ele é muito influente" , " uma vez ele olhou pra mim e disse que eu tinha futuro" , "meu pai já fez negócios com ele". Grande coisa.
As pessoas daquele meio, em sua maioria, eram interesseiras. Quantos não haviam se aproximado dela depois de ter soltado, quase sem querer, que tinha o número de Nicolalis no seu celular porque ele insistia em manter contato? E tudo porque ele tinha muitos papéis, papéis estes chamados de dinheiro.
Se bem que, pensando melhor, Tâmina chgou a conclusão de que era como todos eles. Obedecia as ordens de Nicolalis. Não por medo dele, mas mesmo assim, obedecia. Por que mesmo?
Ah, sim, Dastan. Para não envergonha-lo, pra deixa-lo orgulhoso dela. Não se achava inferior a ele, mas não queria que ele fosse julgado por andar com ela. E veja onde isso chegou.
– E então? Vai aceitar ou vai ficar c essa cara de morta? — Ellen perguntou, se levantando. — Não sei você, mas eu tenho mais o que fazer.
– Eu não posso. — Tâmina disse, ficando vermelha. — Digo... Eu tenho que ver com Dastan primeiro. Ele...
– Manda em você? — Ellen desdenhou, e as outras meninas se levantaram também.
– Liga pra gente quando tiver uma resposta. — Akira ofereceu um cartãozinho, e Tâmina sorriu pra ela.
– Pode deixar.
Tâmina passou boa parte da noite andando, olhando para as estrelas. Fazia tempo que não parava pra respirar assim. Desligou o celular, mas sabia que era uma questão de tempo até Dastan ativar o GPS dele.
Ela até poderia ter dito sim para as garotas. Mas sabia que, dependendo do tamanho e cor dar roupas, Dastan não deixaria.
Não... Deixaria.
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