Darkness

17 A Propósta.


– Castian... – Murmuro em meio à névoa que rodopiava ao meu redor. Castian está com as mãos estendidas nas portas, olhando para baixo. Tudo está em completo silêncio.

– Dante, eu vou voltar pra lá. – Castian murmura de volta, de uma forma rígida e desafiadora, como se eu fosse protestar a qualquer minuto... Mas não faço isso. Apenas vou para perto dele e coloco a mão em seu ombro.

– Como? – Pergunto. Meus ombros e minhas costas doem, mas ainda continuo com a mão do ombro dele. Seus ombros estremecem e ele se vira para mim, tirando as mãos da porta e as colocando no bolso lateral do manto.

– Morrendo. – As palavras saem como agulhas perfurando meu corpo. Ele não podia estar falando serio, certo?

– Você está blefando.

– Não estou. Se tem um jeito de ir para o inferno, é morrendo. Se bem quem tem algumas dificuldades... – Ele disse em um tom baixo.

– Quais dificuldades?

– Quando morre, sua alma vai pro inferno, mas seu corpo fica. Você não tem muito controle da sua alma em si, e o corpo é como um suporte. Sem o corpo, minha alma poderia vagar por conta própria, e eu só vendo o que ela faz sem poder impedir... Como um sonho.

– Você cometeria esse risco pelo Eryck? – Pergunto.

– Eu e eles já fomos amigos. – Ele se senta, encostando-se nas portas, e eu faço a mesma coisa. – Eu nunca contei que era um anjo, para podermos seguir a amizade numa boa. Você o mandou pro inferno e eu trouxe de volta, agora Eu o coloquei no inferno, e vou salva-lo.

A cena de Castian correndo por aqueles corredores, gritando por Eryck e o encontrando morto vêem a minha mente. No inferno, você não pode ser morto, ou pode?

Deixo isso para lá e me levanto, Castian se levanta também e puxa uma espada de dentro do manto. A lâmina prata começa a brilhar em um tom azul em meio à noite e a névoa. Ele coloca as suas duas mãos na espada, tremendo um pouco.

– Você acha que consegue isso? – Pergunto. Por mais que eu odeio admitir, não quero ver Castian morto. Não quero que ele morra em vão. Em cima de nós, trovões começaram a soar alto demais, me deixando um pouco tonto.

– Não sei. – É tudo que responde. Ele segura a lâmina com mais força e a ergue, depois a abaixa com rapidez, rumo ao seu coração.

Um raio atinge a lâmina antes que atinja Castian, e a desintegra na hora. Castian olha para as mãos e se vê segurando um monte de cinzas. Ele olha pra cima, um pouco confuso.

– Caralho, Zeus esta bravo hoje. – Murmuro não muito baixo. Castian olha para mim e sorri.

– Ah, se fosse Zeus... – Ele volta a ficar sério. Um raio cai, e dessa vez na sua frente. Não exatamente um raio, mas sim um feixe de luz dourada. Uma figura saí daquele feixe, coberta de cortes e sangue escorrendo pelo corpo. Ela vai cambaleando até Castian e se apoia em seu ombro, Castian fica espantado e a segura. Era uma jovem. Uma jovem anjo. Ela esta com roupas normais (jeans e um moletom), porém ele estava todo cortado e manchado com seu sangue. Castian se ajoelha e deixa o corpo dela deitado na terra seca. Ele apoia a cabeça dela com suas mãos, enquanto ela cuspia sangue.

O feixe desaparece e eu fito a garota que tinha saído dele. Seus olhos verdes fitam os meus de volta, como se estivesse suplicando ajuda, mas o que eu poderia fazer? Olho para suas mãos machadas de sangue, elas estavam jogadas na terra, sem se mexerem. Eu me ajoelho ao seu lado e olho para Castian, que estava se segurando para chorar.

– Você consegue falar? – Pergunto, para a garota. Ela faz que sim com a cabeça, levantando a mão, ela seca o sangue que estava escorrendo de sua boca. – Quem é você?

– Ela é Joyce. – Responde Castian, eu o olho um pouco surpreso, pensei que talvez ele estivesse um pouco abalado para falar. – Ela é um anjo, assim como eu. Ela estava resolvendo um trabalho no Kansas e iria voltar hoje... – Sua voz falha e ele se cala.

– E voltei. – Dessa vez, quem fala é Joyce. – Fomos atacados, o monte dos anjos, tudo está... Destruído.

– Quem atacou vocês? – Pergunto.

– Demônios. Eles eram incrivelmente fortes e... – Ela tosse um pouco de sangue, mas logo continua. – Eles pareciam como os soldados de Lúcifer, aqueles que citam que fizeram parte do Apocalipse.

– E eram eles? – Pergunta Castian.

– Acho que sim, mas... Como eles sairiam do inferno?

– Talvez... – Olho para Castian, e ele devolve o mesmo olhar. Fizemos merda.

– Pode ser... – Ele diz.

– O que pode ser? – Pergunta Joyce.

– Talvez enquanto lutávamos, demônios podem ter saído do portal do inferno... – Murmuro. Ela faz uma cara de espanto, como se fosse nos matar, mas não faz nada, talvez por estar machucada demais.

– Que porre. – Ela diz extremamente calma.

– Nem me diga... – Murmuro.

– Castian, acho que já posso me sentar. – Ela diz e faz um gesto para que Castian se afaste, depois ela se ajoelha no chão. Seus ombros se contraem, mas ela ainda fica com uma cara pensativa.

– Você melhora rápido... – Comento.

– Eu sou uma das mais fortes.

– Joyce, – Castian diz calmamente. – Você saberia tirar alguém do inferno, sem ser pelas portas?

– Tirando a morte, esse é o único jeito que eu conheça. – Seus olhos se contraem.

– Mas e se elas estivessem seladas por dentro?

– Teriam que romper o selo de alguma forma... Talvez por dentro, ou por fora, mas só um demônio muito forte ou um arcanjo muito forte teria poder para tal coisa. – Ela comenta.

– Legal... – Murmuro.

Eryck, meu caro, você vai ter que aguentar mais um pouco.

...

Joyce, ou melhor, Joh (Ela prefere ser chamada assim) e Castian vão tenta ajudar na batalha no morro dos anjos, e eu vou ter que ir contar a Alice e para o pessoal que sou um anjo e que Eryck morreu. Imagino até a cara da Alice, quando descobrir que seu amado nunca vai voltar. Ela provavelmente se deprimiria e se mataria se tivesse oportunidade. Eu não quero, mas tenho que fazer isso. Eu decido ir andando, pra dar mais tempo pra eu pensar nas palavras certas pra dizer. Sigo reto por uma cidade não muito popular, pela placa, ela se chama Papervill. Eu ando calmamente entre quarteirões, apenas observando meninos brincando com seus animais de estimação, e me lembro que minha mãe nunca me deixou ter um cão, porque dizia que na época eu era muito irresponsável e não cuidaria dele, só porque eu me esqueci de alimentar meu peixe por dez dias e ele morreu. Eu continuo seguindo reto, até perceber que uma sombra me acompanha, eu continuo seguindo a rua sem carros até dar de cara com um beco sem saída. Eu sigo para o final do beco e sorrio.

– Veio aqui pra morrer? – Pergunto e me viro. Um homem negro, alto e extremamente magro estava com roupas de basquete e me encarava no corredor.

– Eu vim te fazer uma proposta, Dante. – Seus olhos possuem um tom branco gelo, e sua voz é áspera e ácida, como se eu estivesse em pé, no meio de um tiroteio. Ele era um demônio? Nunca vi demônios de olhos brancos antes.

– Que tipo de proposta? – Pergunto curioso.

– Posso trazer seu amigo vampiro de volta do inferno. – Sua voz ecoa em minha mente. Como ele poderia trazer Eryck de volta? Apenas seres Muito fortes teria poder para isso. Um demônio de olhos brancos teria poder para isso?

– Quem é você? – Pergunto, temendo a resposta.

– Sou Lúcifer.