Notas iniciais
Comentários estão abertos, haha.

Devo admitir que sinto falta do que Wonderland significava para mim. Era meu paraíso, meu lugar perfeito. Mas assim que minha história lá perdeu o significado, o lugar também perdeu.

Era de manhã. Percebi isso assim que um pequeno facho de luz pousou sobre meus olhos fechados. Amaldiçoei-me por não ter fechado as cortinas direito. Não queria abrir os olhos mas aquela luz me incomodava. Levei a mão até o rosto, tapando os olhos. Estava exausta por motivos que desconheço. Todas as juntas do meu corpo latejavam, só queria dormir pelo resto da eternidade.

Sabia que precisava levantar, então sentei-me na cama e abri os olhos lentamente. Analisando a bagunça que meu quarto se tornou. Haviam livros e roupas por todos os lados. Uma calcinha estava pendurada no espelho que minha avó me dera de presente, o que me deixou levemente constrangida. Mas, sendo sincera, tinha preguiça demais de arrumar aquilo tudo. Levantei da cama ainda mole de sono, e fui em direção ao banheiro, tirando o pijama.

Depois de um longo banho quente, vesti o roupão e fui para a frente do espelho. Passei a mão por um área, desembaçando-o. Suspirei, vendo as olheiras que circulavam os olhos verde escuros, os cabelos negros e bagunçados que caiam sobre meus ombros. Mas se eu não estivesse convencida de que isso daria certo, como poderia dar certo?

"Alice, recomponha-se. Tudo vai dar certo. Você consegue."

~

O cheiro do mar sempre foi agradável para mim, mas o balanço dele me deixa enjoada. Já podia avistar a plataforma petrolífera a uma certa distância. Meu coração batia tão rápido que parecia que poderia rasgar meu peito e voar em direção ao mar. Esse era um grande passo. Significava deixar Wonderland, deixar meus sonhos infantis para trás (deixar o chapeleiro) e seguir em frente com minha vida. Ter um trabalho, ou melhor, uma carreira, e limpar minha mente de todas aquelas memórias.

Fechei os olhos e respirei o ar úmido do alto mar. O vento gelado batendo em meu casaco grosso de botões. Agradeci mentalmente por ele ir até meus joelhos e ter bolsos para colocar as mãos, senão estaria congelando.

Alguns minutos depois já estava pisando no chão de metal que tremia pelo trabalho das máquinas pesadas. Pessoas passavam por mim a toda instante e pareciam não me notar. Mas estava muito hipnotizada para ligar para isso. Era tudo tão grande e tão barulho, tão vivo. Acho que iria gostar de ficar aqui por algum tempo.

Andei em passos lentos pela beirada de toda a plataforma, passando a ponta dos dedos na grade de proteção grossa e áspera. Sem nem me dar conta, estava em um lugar mais isolado, poucas pessoas passavam por ali. Estava de costas para as colunas que sustentavam os outros andares, observando o mar, então ouvi uma voz. Uma voz risonha e familiar. Era feliz e ao mesmo tempo assustadora, o que fez com que eu me arrepiasse dos pés á cabeça.

"Alice... Alice... Não sente nossa falta? Pois sentimos muito a sua..."

Então me virei lentamente. Deveria ter ignorado e ido embora, mas minha curiosidade não permitia. Encarei a área escura entre as pilastras, a voz soltou uma risadinha levemente irônica.

"Não quer nós ver novamente? Ele ficará decepcionado em saber disso..."

Pude sentir mãos agarrando meus ombros. Mas não queria aquilo de novo.

Não queria aquilo de jeito nenhum.

Então gritei, gritei o mais alto que consegui. E as mãos me soltaram. Me virei de uma forma tão brusca que dei de cara com a barra de proteção. Chocando meu corpo contra ela e caindo pra frente, em direção ao mar.

Como diz o ditado, a curiosidade matou o gato.