Tive sorte, tive muita sorte.
Aliás, eu sempre tenho sorte, não é mesmo?
Algo sempre dá errado, para que no fim dê certo. Mas desta vez não vejo como isso possa dar certo.
Confie em sua sorte, Alice.
Confie em sua sorte.
Meu corpo pingava água salgada do mar, e não conseguia parar de tremer, o vento forte e gelado que corria em alto mar não ajudava. Um rosto preocupado se aproximou com uma manta, se juntando a todos que estavam a minha volta. Então me cobriu, não pude deixar de agradecer-lhe com os olhos. O frio diminuiu, mas ainda era grande.
O mesmo rosto simpático me levou até a sala do homem que controlava aquela plataforma, e logo se foi, eu também não queria ficar ali e encara-lo, mas minhas opções eram limitadas. Passei meus olhos pela sala luxuosa, com sofás macios e aveludados, uma grande mesa de madeira no centro, com uma cadeira de couro preta, bem acolchoada, colada a ela. E por trás da grande mesa, uma parede toda formada de vidro, com uma belíssima vista para a imensidão do mar.
A porta se abrindo me despertou. Um homem alto, com um terno caro e engomado adentrou a sala. Mesmo longe, o cheiro de seu perfume me alcançava. Seu cabelo loiro estava perfeitamente alinhado, esse seria o tipo de homem com o qual eu e meu pai gozaríamos pelas costas.
Meu pai... como sinto sua falta.
Em momentos como esse, pode-se notar como pessoas ricas são mal educadas. Passou por mim sem dizer uma palavra, se dirigindo a sua cadeira, então se sentou, como um rei se aconchegando em seu trono, fez um gesto com a cabeça para a singela poltrona, se comparada a sua cadeira, do outro lado da mesa.
"Por favor, sente-se, Srta. Humphrey."
O "por favor" deveria ser apenas formalidade, já que seu tom era de ordem. Então me sentei, sem querer contraria-lo. Já havia feito besteiras demais por um dia. Ele me fitava, me analisando, então falou:
"Vejo que optou por usar o nome de seu pai, não o de sua mãe. Apesar de que a maioria de seus irmãos preferiu Kingsley."
"Minha mãe era uma mulher honrada, senhor, mas meu pai foi um herói pra mim, acho que o mínimo que posso fazer por ele é manter seu nome."
"Devo admitir, seu pai também foi um herói pra mim."
Sua resposta me atingiu como uma bomba, e logo meus olhos se arregalaram, ele notou minha surpresa, mas permaneceu neutro e calado. Só nesse momento que realmente olhei para ele, os olhos cinza azulados, o rosto jovem, de no máximo 25 anos. E a cicatriz, uma pequena cicatriz que dividia sua sobrancelha ao meio. Nesse momento me toquei, a minha frente estava Christopher Westworth, meu primo e amigo de infância. Tão crescido, tão mudado. Tão... bonito. Ainda me lembro como conseguiu a cicatriz.

~

"Vamos Alice! Rápido! Você corre como uma menininha!"
"Eu sou uma menininha Christopher!"
Como amava aquela fazenda. Os campos esverdeados, as florestas frescas e coloridas, um mundo inteiro só para mim e Chris. Sentia-me livre podendo respirar aquele ar com cheiro de terra molhada. Era a rainha do mundo, e Chris o rei.
Meus pés descalços e sujos de lama eram rápidos, e os longos cabelos negros encaracolados dançavam ao vento. Mas Chris era mais rápido, sempre me ganhava nas corridas. Sentia vontade de bate-lo toda vez que olhava para trás conferindo se eu ainda tentava alcança-lo.
Minha respiração era difícil, estava cansada, mas ele estava a todo gás. Mesmo assim parei, inclinando o corpo para frente e apoiando as mãos nos joelhos, recuperando meu fôlego. Logo ele se aproximou, se vangloriando.
"Você é muito lenta, coelhinha. Assim fica muito fácil pra mim ganhar!"
Meu olhar foi incisivo, só meu pai podia usar aquele apelido. "Claro que sou mais lenta! Faço muito mais coisas do que correr, você só faz isso! Não tenho culpa se é limitado. E não me chame assim."
Antes que ele pudesse responder, um barulho interrompeu nossa conversa. O barulho dos arbustos se agitando, como se algo corresse entre eles.
Logo ajeitei minha postura, encarando paralisada o local de onde veio o barulho. Estávamos no meio da floresta, nunca se sabe o que há escondido por aqui. O barulho ecoou novamente, e mais alto, o que fez Chris dar um pulo, ficando ao meu lado e segurando minha mão, a apertando com força. Então murmurou:
"Se morrermos hoje, saiba que eu te..."
Novamente o barulho o interrompeu, e desta vez nós dois pulamos para trás. A criatura se revelou. Era apenas um coelho, suspirei de alívio. Mas não era um coelho normal, usava um terno roxo e óculos fundo de garrafa. Segurava em suas pequenas patas, que mais pareciam mãos gordinhas e peludas, um relógio de bolso. Olhou para nós e bateu no relógio, o mesmo gesto que meu pai fazia todas as vezes que estávamos atrasados. Então correu. Me apressei em dizer:
"Vamos atrás dele!"
Soltei a mão de Chris e corri a todo gás, perseguindo o coelho como um cão faminto faria, as risadas ecoavam de minha boca enquanto Chris tentava me alcançar. Adentrávamos cada vez mais a floresta, mas isso não importava para mim.
O coelho era rápido, muito mais do que eu. Mergulhou em um buraco e sumiu de minha vista. Me aproximei para conferir o buraco, era largo e circular, grande demais para ter sido feito por um coelho. E o coelho não estava mais ali, havia desaparecido como mágica. Estreitei os olhos, desconfiada, analisando cada cm do buraco. Chris chegou um pouco depois de mim, ofegando.
"Onde está o coelho?"
Dei de ombros, sem saber a resposta. Então Chris se ajoelhou ao lado do buraco, apoiando suas mãos na beirada, esticou seu pescoço para frente, procurando pelo coelho tão curiosamente quanto eu.
Mas em uma fração de segundos, a terra abaixo de suas mãos cedeu, causando a queda inevitável. Seu corpo foi impulsionado para frente e ele caiu, batendo com a testa em uma pedra, gritei enquanto via uma poça de sangue se formar ao seu redor:
"Chris! Por favor, responda! Chris!" Mas não houve resposta.

~

Depois de um longo e embaraçoso silêncio, ele falou com sua voz firme e séria.
"Muita coisa mudou desde que vocês se mudaram para a cidade, Alice. Eu mudei muito..."
Bem, a mudança dele era notável, em vários sentidos.
"Ainda posso pedir desculpas por não ter me despedido?"
"Não precisa de desculpar. Já passou. E ambos esquecemos."
Confirmei com a cabeça, mesmo não tendo esquecido nem por um segundo desses últimos 12 anos. Ele continuou.
"Vejo que mesmo depois de tanto tempo, continua desastrada."
Essa frase formou um leve sorriso em meus lábios. "Certas coisas nunca mudam"
Chris assentiu. "Certamente. Mas voltando ao presente, acho que pelo seu pequeno problema, deveria ir a enfermaria, ver como está. Providenciarei roupas limpas e secas para você passar a noite aqui, poderá voltar a cidade pela manhã."
Balancei a cabeça positivamente e ele se levantou, pressionando um pequeno botão em sua mesa. "Um dos meus assistentes levará a Srta. até lá."
Segundos depois um assistente entrou esbaforido na sala. Um menino magro, com cabelos negros e bagunçados, que teria no máximo 19 anos. Levantei-me devagar, ainda fitando Chris, sem crer que era realmente ele a minha frente.
"Foi um enorme prazer revê-lá, coelhinha."

~

O quarto dado a mim não era o de um hotel cinco estrelas, mas era luxuoso e muito bonito mesmo assim. Uma cama de casal com lençóis brancos e travesseiros fofos se localizava no centro, com pequenas mesinhas de madeira, uma de cada lado dela, apoiando abajures cor salmão. As cortinas eram de um pano tão fino e leve que poderiam ser de seda, e cobriam toda uma parede. Uma parede de vidro, assim como a da sala de Chris.
Observando a lua refletindo na água calma do mar, com a estação completamente silenciosa, já que todos haviam obedecido ao toque de recolher e ido para seus dormitórios, não conseguia parar de pensar em Chris.
Aliás, como pude esquece-lo? Ele foi meu primeiro amor, e talvez o único verdadeiro. Era um amor tão puro e inocente, um amor facilmente confundido com amizade, mas eu sabia com toda certeza que era amor, sempre soube.
Tenho medo do que ele possa ter se tornado, das magoas que guardou para sí, da dor que posso ter causado a ele. A nostalgia tomava conta de mim. Todos aqueles rostos voltando a minha mente. Minha mãe, tão linda, com seus longos cabelos loiros e seus olhos verde escuros, assim como os meus. Meu pai, um homem tão bom, um revolucionário, um louco intelectual, como os amigos o chamavam. E finalmente, meus irmãos, George e Jonathan, os quais hoje me odeiam, os quais me culpam pela morte de nossos pais. Por alguns anos, acreditei neles, mas hoje sei que não fui eu. E sei que aquilo tudo não foi apenas um sonho ruim.
Mas batidas na porta me trouxeram de volta ao presentes. Batidas apressadas e ritmadas. Assim que abri a porta, meu coração acelerou. Era Chris.
"Precisamos conversar."

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.