Dark Dawn

4 Capítulo 4: Estranho, Mundo Estranho


Notas iniciais
Quarto capítulo! Boa leitura!

Dark Dawn

Capítulo 4:

Estranho, Mundo Estranho

○♦○

SASUKE SONHOU OUTRA VEZ com o momento decisivo da sua última luta contra Naruto. A escuridão estava de volta, mas havia água sob os seus pés, gotejando ininterruptamente. Não. O que gotejava não era a água sob os seus pés, mas sim o sangue quente que cobria o seu braço esquerdo; ele manchava o regato abaixo das suas sandálias, tingindo-o de vermelho.

Olhou para frente, assustado, e se deparou com o rosto ferido e inchado de Naruto. Seu único olho aberto e azul estava opaco, fitava o vazio, através dele. Desceu o olhar pelo próprio braço esquerdo e o encontrou enterrado no peito do amigo, atravessando seu coração e as suas costas. Naruto estava morto, e ele tinha sido o responsável por isso.

Seu estômago se revirou com a cena, seus dentes se cerraram com a ânsia repentina. Forçou-se a apoiar a mão direita no ombro de Naruto para conseguir libertar o braço esquerdo ensanguentado. O sangue estava úmido e pegajoso contra a sua pele. Quando conseguiu remover o braço do corpo de Naruto, ele cambaleou e desabou diante de Sasuke na água, afundando antes que ele conseguisse impedir. Desapareceu.

Ouviu o som do choro de Sakura, a voz quebrada soluçando e ecoando por todo aquele lugar partiu seu coração. Então ouviu Kakashi repreendendo-o, o tom embargado não escondia a decepção. Mas por mais que encarasse a escuridão, Sasuke não conseguia encontrá-los, não conseguia se desculpar. A água negra sob os seus pés ondulava, agitando-se suavemente.

Limpou o suor dos olhos, ou seriam lágrimas? E ergueu o rosto outra vez só para se deparar com o próprio reflexo diante dele: cansado, ferido, sujo e coberto de sangue. Havia uma expressão maníaca no rosto dele, uma escuridão tangível nos seus olhos, uma solidão pesada sobre os seus ombros.

O seu eu mais jovem olhava para ele, não como o reflexo de um espelho o faria, mas como se possuísse uma consciência própria, uma mente própria. Era perturbador encará-lo de volta. Seu olho esquerdo estava fechado pelo inchaço, mas o carmesim do Sharingan queimava no direito, os tomoes girando num torvelinho que parecia querer puxá-lo para dentro.

Ele apartou os lábios e, em resposta, Sasuke repetiu o gesto.

— Eu estou sozinho. Finalmente. — Foram as palavras que saíram da boca do próprio Sasuke, não da do reflexo, chocando-o.

Sua voz lhe pareceu morta, despida de qualquer sentimento humano. Mesmo o seu rosto se tornou vazio, como se não houvesse alma por trás daqueles olhos mortiços.

O reflexo no espelho não pareceu dar atenção à sua inquietação, uma vez que lhe deu as costas e partiu. Uma rachadura imensa trincou a superfície lisa, de uma ponta até a outra, causando mais minúsculas trincas que se espalharam pelo espelho desordenadamente. Então ele explodiu, e milhares de cacos voaram na sua direção. Sasuke ergueu os braços para se proteger, mas uma rajada de vento abrupta sugou-os na direção contrária antes sequer que o alcançassem e pudessem feri-lo.

O vento forte também empurrou seu corpo no mesmo sentido, agitando a água sob ele. Tentou se segurar, mas não conseguiu. Foi arrastado em direção à escuridão antes de despencar de cabeça em profundezas abissais. Caiu por uma eternidade sem jamais chegar ao fundo do abismo. Não era capaz de ver um palmo adiante, ou de ouvir qualquer outro som que não fosse o assovio do vento no seu ouvido.

Seus membros estavam pesados como se estivessem atados a rochas, acelerando a sua queda e lhe causando uma vertigem incômoda. O vento frio ressecou os seus olhos. Começou a se sentir desnorteado, com a mente embotada e os pensamentos embaralhados.

Por fim, no fundo do abismo, um par de olhos vermelho como sangue se abriu, destoando de toda aquela escuridão. Eram imensos e esbugalhados, e olhavam para ele. Não havia pupila, apenas as íris tomadas por um intenso tom de carmesim.

A sensação de letargia triplicou e nos minutos finais o seu corpo desacelerou, contrariando a gravidade. Por mais que quisesse desviar o olhar daqueles olhos que o aguardavam no fundo do abismo, ele não conseguia, não conseguia reunir forças suficientes para realizar o menor gesto. E quanto mais se aproximava do fim, mais drenado se sentia, como se alguma força externa sugasse todo o vigor do seu corpo.

Os grandes olhos vermelhos piscaram. As pálpebras, impalpáveis e feitas de sombras, cobriram as íris sangrentas por um segundo e então as revelaram outra vez, ainda mais intensas do que antes, ainda mais poderosas, de alguma maneira, ao passo que ele se tornou mais fraco; sua consciência pendeu por um fio.

Sasuke cometeu o erro de olhar dentro daquelas íris vermelhas no último segundo e foi como receber um choque potente por todo o seu corpo, que dispersou completamente a sensação de letargia, desembotando a sua mente. Foi como se um fio se rompesse de forma abrupta dentro dele, sugando-o de volta para a realidade.

Ele acordou antes que atingisse o chão, de sobressalto, abrindo os olhos para a escuridão absoluta do quarto. Seu peito arfava e um suor pegajoso porejava a sua pele, pregando o seu cabelo à testa e as suas roupas ao corpo. Uma vez que percebeu que estava seguro e na sua casa, normalizou o ritmo da respiração e fechou os olhos até que os batimentos do seu coração se acalmassem.

Foi só outro pesadelo, concluiu com o braço direito tateando no colchão à procura de Sakura. Era um milagre que ele não a tivesse despertado com o seu sobressalto. Ela geralmente tinha o sono bem leve. Não a encontrou na cama, os lençóis frios indicavam que já tinha levantado há algum tempo. Sasuke suspirou, encarando a escuridão densa do teto do quarto. Um silêncio profundo imperava. Profundo demais até.

Foi só quando se sentou, contudo, que notou que havia algo estranho acontecendo. Tardiamente, Sasuke tomou consciência de um membro que ele não deveria possuir: seu braço esquerdo estava inteiro, não mutilado, não mais inexistente. Mesmo no escuro, ele flexionou os dedos um tanto dormentes, abrindo e fechando-os em punho. Estavam normais.

Tocou-o, erguendo a manga comprida da blusa e seu toque o reconheceu: a pele era sua, assim como a musculatura por baixo dela, assim como os ossos revestidos pelos tecidos.

Num pulo ele estava de pé, guiando-se pelo quarto escuro puramente através dos próprios instintos. A mobília estava diferente: havia móveis onde não deveria haver, e vice-versa. Sasuke desviou deles agilmente e tateou na parede atrás do interruptor. Quando o localizou, acendeu-o. As luzes artificiais inundaram o cômodo, incomodando seus olhos ainda sensíveis. Piscou-os até que estivessem acostumados à claridade e então percebeu com horror que aquele não era o seu quarto e o de Sakura.

Em vez das grandes janelas de vidro, havia apenas paredes sólidas de concreto. Em vez da decoração e dos ornamentos, um cômodo despido de tudo com apenas uma cama, uma cômoda e uma escrivaninha com uma única cadeira como mobília. E sobre a cama, o símbolo do clã Uchiha adornava a parede.

Onde diabos ele estava?!

Mais que depressa, Sasuke foi até o banheiro contíguo ao cômodo, acendendo o interruptor; a luz lhe revelou outro cômodo estranho. Aproximou-se do espelho sobre a pia e encarou, temeroso, o próprio reflexo. Não havia nada de errado consigo, a não ser pelo membro extra. À exceção de uma leve dilatação das pupilas causada pela escuridão de antes, seus olhos também estavam normais. O Rinnegan no seu olho esquerdo estava intacto. Experimentou ativar o Sharingan no direito e obteve o mesmo resultado.

Saiu do banheiro, parando somente para calçar seus sapatos, e foi em direção à porta, abrindo-a e se deparando com um longo túnel. O teto era alto e as paredes, tão sólidas quanto as do quarto no qual acordou antes. Deveria estar no subsolo a julgar pela construção reforçada. Mais símbolos do clã Uchiha estavam marcados nas paredes.

— Sakura? — chamou pela esposa, sua voz ecoando pelo túnel e voltando até ele, sem resposta. — Sarada?

Sasuke acelerou os passos e encontrou a primeira porta no caminho. Praticamente a arrombou, a madeira batendo com força contra a parede quando passou pela soleira desnorteado. Ele encontrou outro interruptor e o acendeu; um cômodo vazio, exceto por algumas caixas empilhadas num canto, o recebeu.

Passou para o próximo em seguida e encontrou uma espécie de depósito de armas. Havia kunais, shurikens de todos os tamanhos, fios de aço enrolados, e sua velha conhecida Kusanagi encostada num canto, ainda embainhada. Mas sem qualquer indício da presença de sua esposa ou de sua filha.

Chamou-as de novo, passando para o cômodo seguinte. Encontrou uma cozinha pobremente abastecida. A mesa ao centro possuía apenas uma cadeira. Tudo estava organizado e limpo, mas as louças eram escassas como se apenas uma pessoa vivesse no que presumiu se tratar de uma base subterrânea.

— Merda — praguejou e saiu dali.

Quando deu por si, já tinha vasculhado cada polegada daquele lugar e sentado com as costas apoiadas à parede, a mão direita agarrando mechas do seu cabelo. O que estava acontecendo? Onde estava a sua esposa? Onde estava a sua filha? Como ele tinha ido parar naquele lugar?

Fitou a palma da mão esquerda, estranhando-a e negando-se a reconhecer a sua existência. Seu braço esquerdo pendeu até o chão enquanto o punho direito se cerrou com força, as juntas estalando em protesto e as unhas curtas machucando a pele da palma. Seria aquilo o resultado de um Genjutsu muito poderoso? Uma ilusão tão sutil que ele não haveria de percebê-la?

Disposto a tentar qualquer coisa para sair daquele lugar, reuniu chakra suficiente e posicionou os dedos no selo de liberação diante do rosto.

— Kai! — ordenou, mas o ambiente à sua volta nem sequer se alterou.

Obstinado, ativou seu Sharingan até o estágio mais evoluído e queimou chakra no seu globo ocular na esperança de quebrar a ilusão com o doujutsu poderoso. Sem resultado.

Frustrado, voltou a enterrar os dedos no cabelo, repassando os acontecimentos do dia anterior à procura de alguma pista que pudesse tirá-lo daquele lugar e devolvê-lo para o seu lar. Mas, excetuando-se o ataque da Kunoichi de Chigakure — que sequer conseguiu tocar nele —, não havia nada para a sua mente dissecar.

Praticamente obcecado em descobrir o que estava havendo, Sasuke relembrou a sua luta contra a Kunoichi misteriosa: cada movimento dela, cada jutsu. Ela derramou sangue sobre a sua pele e sobre as suas roupas, mas como isso poderia explicar o que estava havendo?

Ele abaixou os olhos até as suas vestimentas: estavam limpas, e eram diferentes das que vestiu para dormir na noite anterior. Talvez isso fosse um truque de alguém para fazê-lo abaixar a guarda.

Outra vez alerta, colocou-se de pé e olhou para os dois lados antes de decidir qual das direções o conduziria até a saída daquele lugar. Optou pela direita e correu, disparando pelo túnel até a saída.

Sasuke encontrou um lance de escadas e o subiu, deparando-se com uma porta pesada no fim. Escancarou-a como as outras e sentiu o vento úmido no rosto no mesmo instante, encontrando uma caverna logo depois dela. A luz pálida diurna se derramava abundantemente pela entrada larga da caverna. Ele se encaminhou até lá, passo por passo, uma vez que a claridade intensa do lado de fora não lhe permitia distinguir nada.

Mas quando saiu, o que encontrou decididamente não era o que esperava: havia uma floresta, verde e densa, depois da caverna, com árvores muito altas e muito antigas criando um dossel intricado com as suas copas. Além delas, o céu estava escuro, com nuvens espessas dançando conforme o vento forte as varria. Um céu típico de tempestades que Sasuke encarou como um mau presságio.

Olhando de volta para as árvores, tentou determinar a partir das suas espécies a sua localização. Ele tinha visto o mundo em suas viagens, tinha viajado para outras dimensões e ido além de qualquer outro homem, pisando onde ninguém mais, exceto deuses, pisou.

As dimensões!, percebeu numa epifania. Talvez Sasuke pudesse usá-las para tentar voltar para casa. Sem demora, ativou seu Rinnegan e queimou chakra no globo ocular esquerdo, abrindo uma das dimensões de Kaguya Ootsutsuki. Um vórtice fluiu a partiu do seu olho, expandindo-se para uma esfera ondulante diante dele. Ele pulou para dentro do sorvedouro de energia, pousando nas areias causticantes de um deserto. Era uma das muitas dimensões pelas quais ele era capaz de transitar graças a Hagoromo. Levou meses para descobrir essa habilidade, e mais um tempo para aperfeiçoá-la, sendo, no final, capaz de escolher qual dimensão abrir, sempre observando como cada uma estava interligada à outra. Passou anos explorando-as, polegada por polegada, atrás de pistas de inimigos oriundos do clã Ootsutsuki.

Sasuke olhou para o céu azul limpo, protegendo seus olhos do sol quente. Então queimou chakra no olho esquerdo outra vez, reabrindo o portal, e direcionando-o para o mundo ao qual ele pertencia. O vórtice de energia abriu-se diante dele de novo e Sasuke saltou, pousando sobre a relva de uma floresta obscurecida por sombras profundas e encimada por um céu tempestuoso.

Cerrou os dentes. Estava de volta ao ponto de início, e mais frustrado do que nunca. Pensou que poderia utilizar as dimensões para escapar, mas foi em vão. Não seria tão fácil assim.

Sob a luz pálida daquela alvorada sombria, ergueu as mãos e as fitou. O que havia de errado consigo? Por que estava ali? Naquele lugar estranho? E isolado? Uma dor familiar insinuou-se para dentro do seu peito, comprimindo lentamente o seu coração.

Sasuke vagou sem rumo pela floresta, amassando as flores sob os seus pés enquanto o tempo escurecia sobre ele, alongando ainda mais as sombras que tomavam toda a floresta. Não ouviu o canto de pássaros nem tampouco o som de vozes humanas. Não havia vivalma ali por perto.

Em dado momento, impulsionou os pés e saltou na direção das árvores, galgando de galho em galho com o único objetivo de chegar até o fim daquela floresta e, ao menos, se localizar.

Encontrou uma árvore gigantesca e a escalou com as solas dos seus pés envoltas em chakra. Subiu até o topo e se equilibrou no galho mais alto, rompendo a linha verdejante e intricada da sua copa e colocando a cabeça para fora da floresta. O vento rescendia à chuva, as nuvens escuras giravam sobre a sua cabeça, anunciando uma violenta tempestade vindoura.

Ele olhou além das árvores, além da floresta, muito, muito além de toda aquela paisagem. As montanhas ao fundo sombreavam um vale desabitado, cortado por um rio caudaloso de águas límpidas que serpenteava por entre os outeiros verdes. Não vi nenhum sinal de civilização por perto.

Pelo formato das montanhas — que lhe era vagamente familiar —, ele diria que estava, talvez, ao sul do país do Fogo. Muito ao sul mesmo, na porção mais estreita do território que fazia divisa com o país do Chá e que era parte de um golfo que englobava os territórios de mais de três nações.

Sasuke gravou o mapa na cabeça e desceu num salto, retornando ao local onde despertou ao usar as árvores como pontos de referências. Não demorou a encontrar a entrada da caverna, atravessando-a com pressa. Estava determinado a descobrir o que diabos estava acontecendo e não conseguiria nenhuma resposta ali. Precisava voltar para Konoha.

Revirou as gavetas da cômoda no quarto e vestiu uma blusa e uma calça. Por sorte, encontrou uma capa dobrada entre as outras peças e a envolveu ao redor dos ombros. Muniu-se com algumas kunais, shurikens e prendeu a Kusanagi na cintura.

Deixou a base do seu clã para trás minutos depois, atravessando a floresta em direção ao norte. Cruzaria o golfo e seguiria em direção à Konoha, sem paradas. Flexionava sem parar os dedos da mão esquerda, estava desabituado a senti-los, e ter consciência deles outra vez causava-lhe estranhamento.

Estava na metade do percurso quando percebeu a aproximação de três fluxos de chakras. Vinham ao seu encontro, e depressa. Dividido entre se esconder ou se revelar, acabou optando pela primeira alternativa — parecia-lhe mais segura —, pois não tinha ideia se eram aliados ou adversários.

Assim, saltou para um galho mais alto e se camuflou nas ramagens mais densas, observando quando o grupo de Shinobis pousou na clareira em que ele estivera só um segundo antes.

Bastou uma olhadela para que percebesse os hitaiates com a insígnia da Folha. Todos jounins a julgar pelas vestimentas. Eram Shinobis leais à Konoha e, consequentemente, ao Hokage. Sasuke enrijeceu, decidindo-se entre se revelar para eles ou não. Mas, então, o líder deles, ou ele presumiu que se tratasse do líder deles, declarou em alto e bom som e com evidente desprezo:

— Sabemos que está aqui, Uchiha Sasuke! Eu posso sentir o seu chakra sujo de longe! Revele-se agora e nos enfrente ou tomaremos essa decisão por você, seu traidor de merda!

Notas finais
E o Sasuke chegou a esse mundo estranhamente hostil! O que acham que o espera nos próximos capítulos?! E em Konoha?! Será que ele conseguirá chegar até sua vila natal?! Agora é só desgraça! XD Até o próximo capítulo! Xoxo