Dark Dawn
5 Capítulo 5: Pesadelo
Notas iniciais
Dark Dawn
Capítulo 5:
Pesadelo
○♦○
— SABEMOS QUE ESTÁ AQUI, Uchiha! Revele-se agora, traidor! — o líder do trio continuava a ordenar, esbravejando do centro da clareira para a floresta densa ao redor deles.
Sasuke aguardou em silêncio no seu esconderijo. Era uma questão de tempo até que eles se fartassem das ameaças e partissem para a ação. E por mais que ele não estivesse disposto a entrar numa briga, principalmente com Shinobis de Konoha, talvez algum dos três pudesse ajudá-lo a compreender o que estava havendo. Mas a forma como se referiram a ele anteriormente o inquietava. Ele já não era chamado de traidor havia muito tempo, desde que restabeleceu seus laços com a vila natal, protegendo-a inclusive por muitas vezes.
Por outro lado, Sasuke precisava mesmo de respostas e aquele trio lhe pareceu o meio mais rápido e eficaz de consegui-las. Ele se decidiu pela abordagem que utilizaria no momento em que os Shinobis da Folha se fartaram da ausência de resposta e optaram por atacá-lo, assumindo posturas defensivas no centro da clareira lá embaixo.
Um trovão ressoou num estrondo por toda a floresta logo depois de um relâmpago haver iluminado o céu escuro. Era agora ou nunca, pensou. Sasuke se mexeu no galho alto que ocupava, escondido entre as ramagens. Com um movimento do polegar da mão direita, destacou a Kusanagi da bainha, não tirando os olhos dos ninjas lá embaixo. Ele acabaria com aquilo o mais depressa possível.
— Você fez a sua escolha, Uchiha! — o homem ladrou lá embaixo, unindo as palmas num selo de mão.
Sasuke ativou seu Sharingan e captou-o acumular uma grande quantidade de chakra, liberando-o logo em seguida. O homem abriu a boca e puxou uma grande lufada de ar para dentro dos pulmões, expelindo-a na forma de uma esfera de vento grande que viajou numa velocidade espantosa direto para o esconderijo de Sasuke.
— Fūton: Shinkūdama!
Movendo-se depressa, Sasuke, apoiado sobre o galho, impulsionou o corpo para trás, jogando-se em queda livre e de ponta-cabeça em direção ao chão. Ele puxou a espada da bainha, remanejando o corpo de modo a pousar sobre os próprios pés quando atingiu a relva verde. Pingos grandes de chuva começaram a cair sobre a floresta no mesmo momento, trespassando as copas das árvores e enlameando o solo.
A esfera de vento do Shinobi se chocou com violência contra a árvore na qual Sasuke se abrigara, espatifando-se contra os ramos e as folhagens, despedaçando galhos com a grossura da sua coxa num microssegundo e praticamente fatiando toda a porção superior da copa. Um usuário de fūton, concluiu. Isso equilibraria um pouco as coisas para a espada coberta pelo Chidori de Sasuke.
Sem demora, ele contornou as raízes sobressalentes de uma árvore imensa e correu de encontro aos Shinobis da Folha, a lâmina da Kusanagi silvava e cintilava sob o seu jutsu. E foi ela que Sasuke empunhou contra o líder do trio, um homem de compleição robusta, queixo quadrado e nariz achatado agora que o via de perto. Ele também carregava uma espada nas costas, que desembainhou, pronto para enfrentar Sasuke.
— Vocês dois, façam a formação! Agora! — gritou para os subordinados, que assentiram e posicionaram as mãos na forma de selos.
Sasuke os espiou por um momento, tentando deduzir o que tentariam, antes de focar sua atenção no líder. O homem brandiu sua katana, liberando certa quantidade de chakra para ativar outra técnica com o elemento vento. Sasuke reconheceu a técnica como uma Shinkūken, uma lâmina de vácuo, e desviou prontamente do primeiro ataque tão logo o homem o desferiu, manejando sua espada num corte amplo na horizontal. Uma rajada de vento se originou a partir da lâmina da katana, viajando tão depressa na direção de Sasuke quanto a esfera de antes.
Sasuke lançou o corpo para a direita, evadindo facilmente da lâmina de vento, que se chocou contra um tronco perto dali, cerrando-o ao meio com o impacto. A árvore imensa tombou com um estrondo. Outro relâmpago iluminou o céu escuro, procedido pelo estouro de outro trovão que sacudiu o chão da floresta. As roupas de Sasuke estavam se encharcando depressa, a capa molhada pela chuva abundante pesava nos seus ombros.
Sasuke desviou de mais outra rajada de vento e interceptou o Shinobi em seguida, brandindo sua Kusanagi contra a katana dele. Ele era um bom espadachim, Sasuke reconhecia, não tão veloz, mas certamente tão habilidoso quanto. E enquanto digladiavam, chocando as lâminas um contra o outro, os dois Shinobis restantes na clareira ativaram a técnica que vinham preparando para emboscar Sasuke.
Posicionados lado a lado, os dois Shinobis liberaram, juntos, uma quantidade imensa de chakra, uniram as mãos para formar os selos numa sequência perfeita.
Sasuke se distraiu por um segundo do combate contra o líder, seu Sharingan captando o fluxo grande de chakra dos outros dois Shinobis que fluiu para o chão, evocando símbolos negros intricados que se espalharam por todo o perímetro ao redor dos seus pés.
— Kazunori-sama, precisa sair daí! — um dos Shinobis o advertiu, e o homem acatou, saltando para longe.
Sasuke cerrou os dentes, reconhecendo a armadilha. Tentou mover os pés, mas os descobriu insuportavelmente pesados e lentos. Seus movimentos estavam defasados, prejudicados pelas marcas negras que não paravam de crescer à sua volta. Uma técnica de selamento sem dúvida, e poderosa a julgar pela letargia que tomava seus membros.
Os dois Shinobis realizaram os últimos selos com as mãos e, então, ativaram a técnica, conclamando-a ao mesmo tempo:
— Kinjutsu: Gedō no In!
Sasuke sentiu uma pressão imensa por todo o seu corpo, um poder denso que o comprimiu, chegando ao ponto de selar seu Sharingan no olho direito. Ele lutou contra o reflexo de se prostrar, agarrando-se à sua consciência, mas seus dedos afrouxaram o agarra no cabo da sua espada, soltando-a. Se cedesse, seria selado. O jutsu não apenas comprimia todo o seu corpo como também lhe infligia uma dor inimaginável, atordoando sua mente e impedindo-o de traçar uma estratégia que o livrasse do selamento.
— Espere pelo momento certo, Kazunori-sama! Já selamos o Sharingan e a maior parte do seu chakra — um dos Shinobis gritou para o seu líder. — Assim que o maldito estiver completamente vulnerável, enterre a sua katana no coração dele!
— Eu sei! — o homem ladrou de volta, à espreita.
Sasuke trincou os dentes e usou o que lhe restava de consciência e chakra para sair daquela situação. Não podia morrer ali, não daquele jeito. Eles haviam conseguido selar seu Sharingan, mas ele ainda tinha seu Rinnegan. Mais que depressa, e com um urro que despedaçou seu peito, Sasuke reuniu a quantidade necessária de chakra no seu olho esquerdo, queimando-o rápido, e focou-o no primeiro Shinobi que encontrou, ativando o Ame-no-tejikara, que lhe permitiu trocar de lugar com o próprio líder do trio.
O homem gritou de dor quando se viu preso dentro do círculo de selos, no lugar de seu alvo, incapacitado e tendo seu chakra sugado pelas marcas espalhadas pelo solo da floresta. Os outros dois bradaram pelo líder.
— Kazunori-sama!
Ainda desnorteado pela técnica, e arquejando pesadamente, Sasuke se recuperou a tempo de reunir mais chakra e partir na direção do Shinobi mais próximo. Ele não queria matar nenhum dos dois, por isso apelou para um jutsu menos letal. Reuniu chakra nos pulmões e expeliu pela boca uma grande bola de fogo que iluminou toda a clareira.
O homem, que já tinha quebrado a formação para a execução da técnica de selamento, atirou-se para fora do trajeto da grande bola de fogo. Esta se chocou contra as árvores adiante, explodindo em labaredas brilhantes; o cheiro de madeira queimada preencheu a clareira. Mas ele não conseguiu evadir, em seguida, do chute de Sasuke, que vinha logo atrás da esfera flamejante e que o atingiu com tudo no maxilar com o pé, enviando-o ao chão.
No centro do círculo de selos, o líder, Kazunori, desabou semi-inconsciente no chão depois de ter uma parte do seu chakra selado. Faltava um. Ele olhou com horror para Sasuke, que disparou pela clareira na sua direção depois de nocautear seu parceiro. Trêmulo, o homem puxou da bolsa atrelada à sua coxa um par de kunais e posicionou-as diante do corpo.
Sasuke as ignorou quando o interceptou, evadindo de um ataque com facilidade e contornando o Shinobi para golpeá-lo com um soco na sua nuca, nocauteando-o no mesmo instante e enviando-o de encontro ao solo encharcado.
De fôlego renovado, e não menos desesperado por respostas, ele encarou o cenário à sua volta, as árvores destruídas e chamuscadas, a chuva que não cessava, os corpos de três Shinobis leais à Folha, sendo o líder deles um Shinobi rastreador capaz de reconhecer o seu chakra especificamente e ainda usuário de fūton, pareado a dois outros Shinobis com especialidade em fūinjutsus, dominadores de uma técnica de selamento, inclusive, poderosa o bastante para selar o Sharingan de um Uchiha adulto. Eram Shinobis enviados para caçá-lo sem sombra de dúvida.
Sasuke olhou para o líder deles, chamado Kazunori, que se colocou de joelhos sobre o solo com dificuldade. O homem o encarou com raiva e Sasuke o advertiu com um olhar duro que não tentasse mais nada em resposta. Ensopado, e ainda se recuperando da técnica que por pouco não selou quase todo o seu chakra, ele se aproximou do Shinobi passo por passo, pisando na relva encharcada. A chuva não dava trégua.
— Por que me atacou? — ele perguntou, a voz tão gelada quanto a chuva que lhe ensopava as roupas.
Kazunori o encarou com raiva outra vez, não escondendo a expressão de puro desprezo.
— Você está zombando de mim, Uchiha?
A expressão de Sasuke permaneceu neutra, muito embora uma raiva branda queimasse dentro dele. Detestava ser atacado sem motivos, ainda mais por Shinobis conterrâneos, oriundos da vila que ele lutou para proteger tantas vezes, chegando ao ponto de sacrificar coisas tão valiosas e que ele estimava mais do que tudo no mundo, como passar tempo com a sua família.
— Não estou — assegurou a Kazunori com sinceridade. — Quero mesmo saber a razão por trás desse ataque.
Kazunori deixou escapar um riso baixo, repleto de escárnio.
— Qual é o problema, Uchiha? Está com amnésia? Ou será que enlouqueceu de vez como todos os outros membros do seu clã amaldiçoado? A insanidade deve ser um traço dos Uchiha, eu presumo, assim como o instinto de ser um traidor de merda.
Kazunori cuspiu no chão perto dos pés de Sasuke.
— Faça o que quiser comigo, mas não lhe darei nenhuma informação de Konoha. Não sou um traidor como você.
Sasuke não queria ter de apelar para a tortura, mas o faria se fosse necessário para extrair informações daquele homem. Com seu chakra se restabelecendo, ele ativou o Sharingan e usou-o para intimidar Kazunori.
— Tem certeza de que quer me provocar? Posso te machucar muito e isso sem precisar infligir um único ferimento ao seu corpo. Posso despedaçar a sua mente mil vezes se for necessário para te fazer me contar o que quero saber. Ou talvez prefira que eu use as minhas técnicas de tortura num dos seus subordinados? Você o ouviria gritar e implorar para que eu o matasse em menos de dez minutos.
Sasuke viu a incerteza tomar o rosto do homem. Ele podia ser corajoso, mas não gostaria de assistir em primeira mão um dos seus subordinados ser torturado e ter a mente violada pelo genjutsu potente de um Mangekyō Sharingan.
— N-não precisa fazer isso! — ele murmurou em pânico, apoiando as palmas das mãos no solo lamacento e suplicando a Sasuke com os olhos que não cumprisse a ameaça. — Você pode me torturar no lugar deles, p-por favor...
— Quem ordenou que me atacassem?! — Sasuke repetiu a pergunta, com menos paciência dessa vez, e fez menção de ir até um dos Shinobis inconscientes em seguida.
Kazunori implorou para que não fizesse isso e encostou a testa ao chão encharcado num gesto que expressava subserviência, ou talvez desonra por dar a Sasuke o que ele queria.
— O Hokage ordenou! — ele bradou no mesmo momento em que um relâmpago seguido de um trovão ensurdecedor fez estremecer toda a floresta ao redor deles.
Sasuke enrijeceu, tomado pelo choque e pela dor da revelação. Trincou os dentes.
— Explique-se. Por que o Hokage iria querer que eu fosse assassinado?
Kazunori balançou a cabeça ao se empertigar, lançando a Sasuke um olhar incrédulo.
— Por que ele não haveria de querer, Uchiha?! Você é um criminoso internacional, procurado em todas as nações, aliadas ou não. Seu nome é o primeiro a aparecer em qualquer Livro Bingo e a recompensa pela sua captura, vivo ou morto, é a maior que já existiu. Só o seu nome provoca asco e medo em muitos.
“Até mesmo o Hokage sabe que só a sua morte aplacaria uma parte de todas as desgraças que você causou. Você é como uma praga, espalhando caos, medo e dor por onde passa. Konoha chegou perto de te capturar tantas vezes, mas você sempre conseguiu escapar. Você é um maldito demônio!
Sasuke sacudiu a cabeça com raiva.
— Que merda você está dizendo? Eu fui absolvido de todos os meus crimes contra Konoha e contra os outros países há mais de quinze anos. Houve um julgamento e eu recebi a absolvição de todos os Kages.
Kazunori o olhou como se Sasuke tivesse enlouquecido.
— Você nunca foi perdoado. Você nunca sequer voltou a pôr os pés em Konoha, Uchiha.
— Mentiroso! — Sasuke explodiu, o Sharingan ardendo no olho direito e intimidando o homem prostrado. — Minha esposa e minha filha vivem na vila! Eu trabalho em conjunto com o próprio Hokage e realizo missões secretas por Konoha há anos!
Kazunori recuou, colocando-se de pé ainda meio cambaleante.
— Esposa? Filha? O que está dizendo? — ele repetia, aturdido. — Você nunca se casou, nunca formou uma família, não que tenhamos ciência disso. Você não pode ter trabalhado em conjunto com o Hokage, ele jamais aceitaria te receber de volta e você tampouco expressou essa vontade nesses anos todos. Não enquanto assassinava os grupos enviados para te capturar e continuava em fuga.
“Você tem deixado um rastro de sangue e de destruição por onde passa há anos, Uchiha. Muitos foram os que tentaram acabar com a sua existência miserável, e todos falharam sem exceção. O Hokage pessoalmente me selecionou para mais uma tentativa de te eliminar há quase um mês. Passei as últimas semanas rastreando o seu chakra por todo o país do Fogo, seguindo pistas do seu paradeiro, e eu te encontrei, maldito. Eu te achei!
Sasuke deu três longas passadas até o homem e o agarrou pelo colete, estava transtornado àquela altura, lutando para manter a calma e o controle sobre a raiva que o consumia.
— Então quem é o Hokage? Quem é que ordenou a minha morte?
Kazunori se atrapalhou para responder. Com o rosto de Sasuke tão próximo do seu, e o Sharingan praticamente queimando-o, ele tremia. E não por causa da chuva que os ensopava.
— Quem mais haveria de ser o Hokage? O Rokudaime Hokage... Hatake Kakashi, seu antigo sensei, Uchiha.
— E quanto a Naruto?! — Sasuke questionou. — Onde está Uzumaki Naruto?!
— Você só pode estar brincando — Kazunori riu sem humor, mas se escolheu quando encarou a expressão transtornada de Sasuke. — Você o matou, Uchiha! No Vale do Fim, ao término da Quarta Guerra Shinobi, onde vocês dois lutaram há mais de quinze anos! E foi lá que você o matou. Atravessou o coração dele com seu próprio punho e o matou, traidor! — explodiu.
Sasuke soltou Kazunori como se houvesse levado um choque, e este recuou até escorar seu corpo no que restara do tronco de uma árvore. Ele abaixou ambas as mãos, sacudindo a cabeça imperceptivelmente e negando-se a tomar as palavras do homem como verdade.
O que ele dizia tinha que ser mentira. Sasuke tinha visto Naruto na noite anterior, tinha até mesmo bebido com ele enquanto conversavam sobre o passado e sobre a paternidade de ambos. Mas então se lembrou do pesadelo de antes, do horror que sentiu ao ver seu braço atravessado no peito do amigo, do momento em que ele próprio despencou num abismo em cujo fundo um par de olhos sangrentos o encarara. Tinha de haver uma explicação plausível para tudo aquilo, deduziu. Não poderia perder a calma ou a razão.
Sasuke reordenou os pensamentos e as prioridades. Tinha de descobrir o que estava acontecendo ali. Não acreditava que Kazunori estivesse mentindo para ele, mas tampouco aceitaria docilmente o que ele lhe dissera. Precisava de respostas mais concretas, e tinha preferência que elas viessem de alguém de sua confiança. Teria de postergar o seu retorno à vila, não podia aparecer nos portões da vila, não até ter certeza do que era aquele lugar e como tinha ido parar ali.
Sem pressa, ele se afastou de Kazunori, abaixando-se para pegar sua Kusanagi que estava caída perto dali e guardando-a na bainha. Então deu as costas ao homem, que, indignado, esbravejou:
— Aonde você vai, Uchiha?!
— Não é da sua conta — ele respondeu friamente, sem se dar ao trabalho de deter-se ou mesmo de fitá-lo.
— Não pode ir embora assim, traidor!
Sasuke o ignorou e continuou a atravessar a clareira. Kazunori se colocou numa posição ofensiva e partiu no seu encalço com passadas largas, lançando-se num desvario contra ele, que anteviu seu ataque débil e desviou do punho direcionado à sua nuca. Ainda deteve o golpe do homem com o próprio punho, virando-se para o homem e interceptando-o.
Perfurou-o com seu olhar duro e apertou seus dedos ao redor do punho de Kazunori, fazendo-o choramingar e se curvar ante a notável disparidade de poder.
— Não interfira ou me siga — advertiu-o num tom intimidante antes de soltar o punho do homem, deixando-o prostrado no chão encharcado outra vez.
Voltou a dar-lhe as costas e continuou a se afastar da clareira onde a luta acontecera. Um momento depois, embrenhou-se na floresta e saltou do solo para os galhos altos das árvores, viajando bem perto do nível das copas frondejantes.
Tentava não pensar muito nas palavras de Kazunori, mas estava perdendo uma batalha que era travada contra a sua própria mente e contra o seu próprio coração. Não queria se deixar ser dominado pelo desespero e pelo horror, mas combatê-los estava se tornando cada vez mais difícil.
Naruto morto. E o mais agravante: pelas próprias mãos dele. Kakashi ainda Hokage. Konoha estaria em qual estado? E ainda havia Sakura. Onde estava Sakura? E Sarada? Onde estaria sua filha? Pensar numa realidade em que Sarada não existisse, em que ele e Sakura jamais a houvessem concebido juntos, enchia-o com uma dor tão profunda e visceral que era praticamente física, uma pontada lancinante no lado esquerdo do seu peito.
Sua família precisava estar bem. Aquilo tudo tinha que ser um truque. Sasuke não podia estar sozinho no mundo outra vez. Por isso, tiraria satisfação com alguém do seu passado que sabia que não lhe omitiria a verdade.
Com pressa, ele continuou a galgar de galho em galho, um borrão vestido de preto entre as árvores, rumo ao norte. Com sorte, atravessaria o golfo ainda naquela tarde e seguiria pelo território do país do Fogo até o seu objetivo.
A chuva ainda caía pesada sobre toda a floresta, o céu acima de Sasuke estava muito escuro. Mas dentro dele, uma escuridão muito mais densa ameaçava despertar de novo depois de ser sobrepujada por tantos anos pela luz de Naruto e pelo amor de Sakura. E enquanto tentava manter a cabeça fria — por vezes falhando —, ele só conseguia pensar que se algum deus pudesse ouvi-lo naquele momento, que não permitisse que nenhum dos seus medos mais profundos se tornasse realidade.
Que ele não estivesse sozinho no mundo outra vez.
Fale com o autor