Dark Dawn

27 Capítulo 27: Olho de Sangue


Notas iniciais
Vigésimo sétimo capítulo e estamos nos aproximando cada vez mais do fim! Boa leitura!

Capítulo 27:

Olho de Sangue

○♦○

SAKURA OBSERVOU A CENA COM uma suspeita crescente. Embora estivesse empalado na lâmina de Sasuke, o Chikage mantinha o sorriso vitorioso que tanto a enervava. E mais: fitava Sasuke como se tivesse uma dezena de cartas escondidas na manga, prontas para serem usadas ao sinal dele.

Ela não gostava de nada disso.

— Hokage-sama! — Shikamaru alertou-a para a movimentação do terceiro Shinobi, aquele que escapara do golpe de Chouji.

O homem esguio de longos e lisos cabelos negros moveu-se pelo recinto, contornando o punho gigante de Chouji e chegando ao ponto de saltar por cima deste a fim de alcançar o seu líder. Ao mesmo tempo, o efeito do jutsu de contenção de Shikamaru sobre os gêmeos começava a evanescer, as sombras tornando-se mais delgadas, mais frouxas ao redor dele. Ele suava a fim de mantê-los sob o seu controle, o maxilar cerrado devido ao esforço que realizava para evitar que escapassem das suas sombras.

Sakura precisou pensar rápido. O terceiro homem ainda se movia em direção a Sasuke e o Chikage. Sem escolha — e cerrando os dentes devido a isso —, lançou-se em uma investida contra o homem, esperançando afastá-lo do seu alvo. Ele mudou de ideia, contudo, e deteve-se, estagnando diante de Sakura. Chouji juntou-se a ela. E Shikamaru precisou liberar o seu jutsu de contenção, libertando os gêmeos, que olharam um para o outro e anuíram, espelhando sorrisos diabólicos.

A voz do Chikage soou de repente, moribunda, trêmula.

— Está na hora... Hatori. Yuki. Miyuki. — Depois de chamar pelos nomes de cada um deles, Kazuma completou: — Comecem!

— Hai, Chikage-sama! — Os três assentiram e prepararam os seus chakras, reunindo uma quantidade grandiosa para poder para liberar, cada qual, a sua técnica mais destrutiva.

Sakura cerrou os dentes.

— Preparem-se! — ordenou aos demais, que se dispuseram a lutar ao lado deles.

O Mizukage, por fim, sacou a grande espada que trazia nas costas, a Hiramekarei, toda envolta em ataduras brancas e com o cabo duplo em couro macio tingido num tom claro de amarelo. Chōjurō apoiou a base pesada da espada no chão. Sakura sempre a achara uma arma curiosa, desde o seu formato singular até as habilidades incríveis que ela conferia ao seu portador.

— Mizukage-sama, essa luta exigirá que usemos todo o nosso poder — ela informou ao tímido homem, que ajeitou os óculos no rosto e assentiu: — Os gêmeos diante de nós são Taniguchi Yuki e Taniguchi Miyuki.

— Ah, os Dragões Gêmeos de Gelo — ele concordou. — Entendo a seriedade da situação, Hokage-sama. Não há necessidade de reforçá-la, eu garanto.

— Bom — Sakura aprovou e voltou a se concentrar nos adversários diante deles. Alguns poucos de metros separavam-na de Sasuke e do Chikage. Se ao menos ela pudesse passar pelos capangas e alcançá-los... Não, ela forçou-se a lembrar qual era a sua prioridade como Hokage ali. Mordeu o lábio pintado de batom com força, prendendo-o entre os dentes. Teria de confiar em Sasuke — naquele Sasuke —, e ela confiava.

Os gêmeos entreolharam-se mais uma vez.

— Está na hora, Miyuki! — o homem declarou, reunindo as mãos num selo.

— Deixa comigo, aniki! — a mulher anuiu e também juntou as mãos num selo peculiar.

O chakra deles explodiu a partir dali, enchendo toda a sala com um poder inimaginavelmente grandioso e perigoso. Sakura grunhiu e apressou-se, lançando-se em outra investida contra os gêmeos.

— Não permita que concluam o jutsu, Mizukage-sama! — ela o alertou antes de acelerar, disparando como a flecha disparada um arco.

— Entendi, Hokage-sama! — Chōjurō concordou e também avançou contra os inimigos, trazendo consigo a gigantesca Hiramekarei, cujo gume vincava o piso, o atrito criando uma chuva de fagulhas que delimitava o seu percurso.

O terceiro homem, a quem o Chikage chamou de Hatori, afastou-se dali, tomando uma boa distância para avaliar a situação e tentar chegar perto do Chikage de novo. Para quê, Sakura não tinha certeza, mas sabia que tinha que detê-lo. Felizmente, Shikamaru e Chouji avançaram e o bloquearam, impedindo-o de tentar contornar os demais adversários para chegar ao seu líder ferido.

— Mizukage-sama! — Sakura convocou pelo parceiro de luta.

— Sim! — ele respondeu ao chamado no momento em que o homem chamado Yuki reuniu chakra e plantou as palmas das mãos no chão para construir uma parede de gelo sólido.

Sakura concentrou todo o chakra do corpo no punho direito num único instante, deixando-o pronto para arrebentar a parede sem esforço, mas o Mizukage tomou a dianteira e, manejando a sua grande espada num corte horizontal, direcionou a arma diretamente para o bloqueio. A espada Hiramekarei flamejou de poder, cintilou, envolta por uma aura anil, e, por fim, tomou a forma imaterial de uma bigorna gigante que se chocou contra a superfície da barreira e a espatifou. Lascas de gelo voaram em todas as direções com o impacto.

Yuki antecipou o movimento, esperando pelo Mizukage por trás da barreira quando esta estilhaçou. Tão logo terminou de modelar o chakra, o homem escancarou a boca:

Hyouton: Rekku Suigeki!

Yuki expeliu com velocidade uma grande quantidade de dardos perfurantes de gelo. Sakura enviou chakra até os pés e acelerou, chegando a tempo de interceptá-los. Com a lateral da mão, desviou os projéteis numa única pancada. Eram tão frias que queimavam mesmo através do couro das suas luvas, e tão mortalmente afiadas que cortaram tecido e carne. Ela ignorou a dor e aproveitou a brecha para saltar, girar sobre o próprio eixo do corpo e tentar acertar um chute no pescoço grosso do homem.

Yuki foi mais rápido, contudo. O chute poderoso de Sakura espatifou-se num clone de gelo que se fragmentou por inteiro com a potência do golpe, desmontando como uma verdadeira escultura de gelo. Ele estava de volta ao lado da irmã então, reunindo aquela quantidade monstruosa de chakra outra vez.

Sakura cerrou os dentes e virou o rosto para Sasuke, impaciente:

— Acabe com ele! Depressa!

Foi aí que notou. Havia algo de estranho com Sasuke, algo de antinatural na sua aparente imobilidade, no modo como ele nem se movera desde que enfiara a espada no corpo do Chikage. O que ela havia deixado escapar? O que estava acontecendo?, perguntava-se.

Percebeu também que o Lorde Feudal do país do Pântano tinha perdido a consciência em algum momento, jazendo estirado no chão; estava incólume porém, o peito subindo e descendo num ritmo regular. Algum imprevisto havia acontecido, uma manobra do Chikage que eles não foram capazes de prever, mas o quê ela não saberia precisar. Não no momento.

O tempo corria contra todos eles, os gêmeos continuavam a reunir chakra para o seu jutsu e não permitiam a aproximação de mais ninguém do Chikage. Sakura virou-se para os inimigos. Lidaria com eles primeiro então. Depois, ajudaria Sasuke a dar conta do líder deles.

○♦○

Sasuke não sabia como ou por que havia ido parar naquele lugar. Num momento, tinha a espada cravada no corpo do Chikage, o sangue dele secava no seu rosto e a vitória lhe parecia certa. No outro, estava de volta àquele lugar escuro e sem vida com Kazuma a vários passos dele, de pé e incólume. Fitando-o com maliciosos e astutos olhos escarlates.

— Onde estamos? — perguntou ao homem através dos dentes cerrados.

Olhou para baixo e viu que o henge no jutsu se fora. Era Uchiha Sasuke outra vez, ao menos, dentro daquele lugar.

Kazuma casualmente deu de ombros.

— Pensei em te trazer a um lugar menos tumultuado. Para que pudéssemos conversar sem sermos interrompidos, você sabe.

— Não estamos dentro de um genjutsu — Sasuke constatou o óbvio.

— Não, não estamos — o outro confirmou; os olhos dele reluziam de um jeito sobrenatural naquele lugar, como se tivessem luz própria e como se fossem lampiões avermelhados.

— Então que merda de lugar é esse? — Sasuke estava perdendo a paciência depressa.

Kazuma curvou a boca num meio sorriso e estendeu as mãos a fim de gesticular para o entorno amplo e vazio, como se tentasse abarcá-lo com a mera extensão dos braços.

— Seja bem-vindo ao que eu chamo de “a fenda entre mundos”, Uchiha Sasuke. Um lugar que apenas eu posso alcançar devido ao meu kekkei genkai. — Kazuma fitou Sasuke com seriedade, os olhos ainda brilhantes. — Este é o meu poder, o meu dōjutsu, o Ketsuekigan.

— Ketsuekigan? — Sasuke ecoou, atônito. Jamais havia ouvido falar sobre isso.

— Sim, o temível Olho de Sangue. A linhagem sanguínea extremamente rara mesmo entre os membros do meu clã, o clã Honma. Apenas alguns poucos conseguiram despertá-lo e uma parcela ainda menor destes conseguiu ter acesso ao seu verdadeiro poder. O poder de viajar entre mil mundos, o poder de penetrar na mente dos seus inimigos e tomar conhecimento de todos os seus medos, o poder para transportá-los para realidades perversas e quebrá-los sem que eu precise mover um único dedo.

— Foi com este poder que você me trouxe até aqui? — Começava a entender; as poucas peças que faltavam naquele quebra-cabeça complexo encaixavam-se por fim. — Eu já deveria ter suspeitado que apenas um dōjutsu seria capaz de realizar tamanha façanha.

Kazuma não negou nenhuma palavra proferida por Sasuke.

— Deve estar curioso a respeito do modo como funciona, eu presumo. Bem, farei o favor de lhe explicar. — O homem tocou o espaço sob os olhos com as pontas dos dedos. — Este é o único legado deixado pela minha família. Sou o último a carregá-lo. E este olho me permite realizar coisas inimagináveis. Por exemplo, já se perguntou se havia outros mundos como o nosso? Outras versões de você, outras versões de mim... Universos inteiros coexistindo em harmonia. Dezenas, centenas, talvez milhares de outros universos. Alguns deles com a sua própria linha temporal, já outros espelhando os seus acontecimentos até que um evento altere toda a sequência de acontecimentos. Pense nisso: mundos convergindo, mundos distanciando-se uns dos outros conforme os nossos atos individuais repercutem em cada universo.

“Neste mundo, as suas ações de assassinar Uzumaki Naruto e os cinco Kages, bem como a concretização da sua revolução no mundo Shinobi, criaram uma cadeia de eventos responsável por alterar e redesenhar o futuro de cada pessoa no mundo. Acredito que você mesmo tenha comprovado isso, bastava que desse uma olhadinha no estado decadente deste mundo, na escuridão e na violência que o assolam. Você foi o único responsável por criar tudo isso.

— Então o seu dōjutsu te permite acessar esses outros mundos — Sasuke conjecturou.

— Exatamente! Mas o meu poder não me permite alterá-las da maneira que eu bem entender. Sou capaz de acessar universos infinitos, tão distantes da minha realidade e sou capaz de adquirir conhecimento e tomar ciência de eventos que mudaram esses mundos. Pense em mim como aquele que possui a chave que destranca as portas de todos os universos existentes. Uma chave-mestra capaz de acessar todos os mundos. Também sou capaz de fazer com que outros acessem esses mundos, quer queiram, quer não... — Os olhos vermelhos relampejaram maliciosos. — E tudo isso a partir de uma pequena gota do meu sangue.

Sasuke arregalou os olhos, enfim entendendo como havia ido parar naquele mundo sem sequer ter feito contato com o Chikage antes.

—Hayashi Kiyoko — anunciou o nome da kunoichi que lealmente servia Kazuma a fim de confirmar a sua suspeita.

— Sim, Kiyoko é a minha mensageira — ele anuiu. — Você a conheceu em outro mundo, mas mesmo neste ela me serve lealmente. Ela envia a outros mundos todos os meus inimigos porque é assim que eu os destruo. Para isso, misturei o meu sangue ao dela ao longo de anos, a cada vez que ela partia para cumprir o seu papel. E há um limite para a minha habilidade, é claro. Sou capaz de enviar a outros mundos apenas a consciência e o chakra de alguém. Nunca um corpo físico. Também sou capaz de me encontrar e me comunicar com as outras versões de mim. Sempre adquiro informações interessantes com eles.

“Naquela noite, o Chikage do seu mundo enviou Kiyoko para que te encontrasse, te fizesse entrar em contato com o seu sangue e, mesmo que estivessem separados por milhas de distância, ele ativou o Ketsuekigan e te trouxe até aqui, até este mundo em particular de todos os outros que existem... Suponho que você entenda o porquê. Afinal, o Sasuke dessa realidade causou o sofrimento de tantas pessoas, levou adiante a ideia equivocada de revolução e o conceito equivocado de Hokage, e terminou onde terminou: sozinho, amargurado e cheio de remorso.

“Ele queria te fazer reviver os dias mais sombrios da sua vida quando os seus olhos só eram capazes de enxergar as trevas, quando todos te desprezavam e não havia esperança de redenção para você. Então me diga se foi agradável ter o seu passado revivido dessa forma, se valeu a pena intrometer-se nos planos dele e acreditar que seria capaz de derrotá-lo. — Kazuma riu. — Ou melhor: nos derrotar. Afinal, somos versões de uma mesma pessoa, moldadas pelos mesmos eventos e pelo mesmo sistema podre que nos cria a todos nós, os Shinobis, apenas para que sejamos descartados como ferramentas quebradas quando não servimos mais a propósito algum.

— Eu ainda nem fiz esforço algum para te derrotar — Sasuke garantiu com um semblante confiante. — Você saberá quando eu começar a tentar te matar de verdade.

Kazuma encarou-o irreverentemente, desafiando-o, provocando-o.

— Quer descobrir qual é a única forma de você sair desse mundo e voltar para o seu? — Não esperou por uma réplica de Sasuke para acrescentar: — Precisa me derrotar tanto nessa realidade quanto na outra. Só então poderá voltar para o seu mundo.

— Aa. Eu já desconfiava disso — Sasuke comentou com displicência. — Por isso, convenci o Sasuke desse mundo a me ajudar a te deter. E ele não só tomou a iniciativa de cooperar como também se mostrou disposto a se entregar à Aliança para pagar pelos crimes que cometeu quando as trocas forem desfeitas.

O Chikage riu, cético.

— Está blefando. O Sasuke desse mundo jamais te ajudaria a voltar para o seu mundo. Por que ele faria isso se pode ter tudo o que você tem lá? Uma esposa, uma filha, o melhor amigo vivo e atuando como Hokage num mundo em que a paz pôde ser alcançada e as vidas de todos melhoraram graças aos sacrifícios de tantos, inclusive o seu. Dei ao outro Sasuke a salvação pela qual ele tanto suplicava.

Iie. — Sasuke negou. — Você mesmo disse: o meu eu desse mundo estava sozinho, amargurado e cheio de remorso por todo o mal que causou. Eu dei a ele a oportunidade de se redimir que tanto queria. No meu mundo, ele não fará isso sozinho. Naruto e Sakura estarão ao lado dele para ajudá-lo. E eu também não estou sozinho aqui.

Dizendo isso, Sasuke ativou o Sharingan e encarou o Chikage destemidamente.

— E graças aos conselhos de uma aliada, eu já tenho uma ideia de como vou te derrotar e voltar para o meu mundo.

— Isso é o que veremos — Kazuma respondeu o desafio com outro de seus meios sorrisos.

Sasuke queimou chakra nos olhos, ativando seu Fuumetsu Mangekyō Sharingan no olho direito. No globo ocular esquerdo, o Rinnegan respondeu, tomoes surgindo num padrão ao longo das espirais que circulavam a pupila. Com o dōjutsu ativado, olhou nos olhos do Chikage, lendo o chakra estranho que circulava através dos nervos ópticos. Se a teoria de Sakura estivesse certa, bastaria sincronizar o seu Sharingan com a fenda certa e ele seria capaz de abrir um portal de volta para o seu mundo.

O Chikage reagiu a isso, pois aquele chakra estranho avolumou-se nos seus olhos até expandir-se ao redor dele. Uma energia incomum manifestou-se, crescendo e tomando forma até tornar-se visível aos olhos de Sasuke na forma de uma aura escarlate. Seu Sharingan observava e estudava cada etapa do fenômeno sem deixar escapar um único detalhe.

— O que está esperando então? — Kazuma desafiou-o. — Venha!

Sasuke moveu-se ao mesmo tempo em que a energia pulsante reuniu-se à volta de Kazuma, transformando-se num portal de bordas iridescentes com filamentos delgados dançando em harmonia. Lançou-se em direção ao Chikage numa velocidade estupenda, chocando-se contra o homem com brusquidão e força suficiente para empurrar ambos para dentro do portal que se abrira às costas dele.

Uma claridade dolorosa invadiu os olhos de Sasuke a seguir, sensibilizando-os.

Forçou-se a averter o olhar enquanto se acostumava com a luz branca ofuscante que se derramava ao seu redor. O Chikage desapareceu do alcance de sua mão de alguma forma, e reapareceu a alguns passos de distância, de pé e no centro de uma rua pavimentada.

Sasuke foi atingido por um baque assim que assimilou o entorno. As casas tão dolorosamente familiares, as ruas estreitas de pedra, os muros que delimitavam os limites daquele complexo residencial. Leques pintados em branco e vermelho adornavam-nos.

Cerrando os dentes devido à raiva, virou-se para o homem.

— Onde estamos?

— Num outro mundo — ele respondeu, os olhos ainda brilhando de uma forma macabra. — Este é o Distrito Uchiha, o lugar onde você passou uma parte da infância, não é?

Sasuke se colocou ereto devagar. Focou-se apenas no homem diante dele, ignorando as memórias — tanto as felizes quanto as atormentadoras — que lhe invadiam a mente, tirando a sua atenção do que verdadeiramente importava. Kazuma sorria, e mantinha as mãos escondidas dos olhos perspicazes que o observavam o tempo todo ao deixá-las às costas.

— Não passou pela sua cabeça que, dentre tantos milhares de mundos, existisse um em que o seu clã não foi exterminado? — O que fazia os olhos de Kazuma reluzirem agora era pura astúcia. — Mundos em que você jamais precisou experimentar a solidão e provar do fruto amargo da vingança?

Kazuma gesticulou para o entorno; Sasuke continuou a ignorá-lo. Mesmo quando silhuetas começaram a surgir, uma de cada vez, nas ruas; homens, mulheres, adolescentes, jovens ninjas. Conversavam entre si, sorriam uns para os outros. Eram outros tempos, num outro mundo. Nenhum deles pareceu reparar nos dois homens, contudo.

Sasuke tentou não se deixar abalar quando as silhuetas de seu pai, de sua mãe e de Itachi surgiram por último. Os três caminhavam a esmo pelas ruas, discutindo assuntos triviais. Sua mãe trazia uma sacola de compras pendurada no braço e ria de algo para Itachi, cujo semblante sereno tocou algo dentro de Sasuke. E mesmo Fugaku tinha a sombra de um sorriso nos lábios. O trio se aproximou dele, vindo na sua direção, uma aura brilhante envolvia-os, tornando-os quase etéreos.

— Olhe ao seu redor, Sasuke — Kazuma soou persuasivo, o timbre tornando-se suave como veludo. — Contemple o mundo em que você jamais perdeu aqueles a quem mais amava. Seus pais, seu irmão... Todos vivos! — Seu tom de voz derramava-se como o néctar mais doce nos ouvidos de Sasuke, tentando-o de todas as formas possíveis a sucumbir, a ceder. — Eu poderia te dar isso. Poderia te trazer a este mundo definitivamente. Tudo o que precisa dizer é apertar a minha mão.

Ele estendeu a mão num convite para Sasuke.

— Eu posso te devolver a sua família — finalizou.

Sasuke expirou o ar devagar. Não trocou de postura nem relaxou o corpo. Tampouco a expressão do seu rosto alterou-se. Evocou na mente os rostos do pai, da mãe e do irmão. Sempre os amaria. Sempre se lembraria deles.

— Você não me devolverá nada — ele respondeu, o tom de voz firme, imutável. — Eu tenho uma família à minha espera, aguardando pelo meu retorno. — Sasuke curvou-se numa pose ofensiva, separando as pernas e dobrando os joelhos. Sakura e Sarada eram uma constante na sua mente. — E eu não pretendo desapontá-las.

Dizendo isso, partiu para cima do Chikage, ergueu um punho e conseguiu atingi-lo com um soco no rosto. Empurrado pela força do golpe, o homem agarrou-se às roupas de Sasuke, trazendo-o junto enquanto caía, e queimou chakra nos olhos mais uma vez. O portal abriu-se a tempo de levá-los a outro lugar.

Sasuke caiu na água gelada, afundando antes que pudesse agitar o braço e as pernas para nadar para cima, em direção à luz pálida do dia. Emergiu na superfície ofegante expelindo toda a água que havia engolido. Concentrou chakra nas solas dos pés e se colocou de pé sobre a água. Olhou para cima e ficou paralisado. Uma gigantesca construção toda feita de pedra assomava sobre a sua cabeça; uma ponte. Ele reconhecia aquele lugar.

Mais uma vez, Kazuma estava diante dele, de pé sobre a água. A mão dele alisava o hematoma que começava a se formar na bochecha esquerda, resultado do gancho de direita de Sasuke.

— Isso foi... inesperado — disse. — Então, resolvi te trazer para um lugar, quem sabe, mais nostálgico. — Kazuma riu, os ombros tremendo. — E então? O que acha? Neste mundo, Uzumaki Naruto não chegou a tempo de te impedir e, como resultado, você assassinou Hatake Kakashi e Haruno Sakura. Bem aqui. — Ele indicou para o local com o dedo.

O ódio por pouco não cegou Sasuke. Não queria mais ouvir nada, não queria ter aquela imagem assombrosa tatuada no seu cérebro. Água escorria pelo seu rosto e pesava as suas roupas.

Kazuma ignorou a expressão severa no rosto dele e prosseguiu.

— Quando Naruto chegou aqui e encontrou os corpos do professor e da companheira de time, ele não te perdoou. Vocês travaram uma batalha mortal, mas, no fim, ele te derrotou e pôs um fim à sua existência miserável. Embora o próprio Naruto tenha sucumbido aos ferimentos que você o infligiu não muito tempo depois. Um final trágico para o Time 7, não acha?

— Já chega! — Sasuke vociferou. — Estou farto dos seus joguinhos mentais.

— Faça alguma coisa sobre isso então — Kazuma replicou.

Sasuke decidiu que valeria a pena morder a isca se isso significasse poder dar uma surra naquele homem. Correu em direção a ele e, diferentemente das outras vezes, Kazuma também veio ao seu encontro. Encontraram-se numa colisão de poder, trocando golpes variados. Como não dispunha de sua arma, Sasuke confiou no seu punho e pés para acertá-lo. Evadiu dos golpes do homem e contra-atacou. A água sob os pés deles se agitava, lançando borrifos frios nos rostos de ambos.

Sasuke saltou por cima de um chute, girou habilmente e acertou com o pé o antebraço de Kazuma, que usou o membro para bloquear o golpe. Sasuke insistiu, recuou o braço, apertou o punho e direcionou-o num soco para o rosto desprotegido. Kazuma reagiu a tempo, ergueu o outro braço e capturou o punho que por pouco não o acertou.

Sasuke reuniu chakra e uma lâmina de Chidori explodiu na sua mão, atravessando a palma de Kazuma. Sasuke pousou sobre a água, segurou a mão do Chikage contra a sua e o trouxe para perto com um puxão, olhando nos olhos escarlates do homem.

— Agora me diga tudo o que quero saber a respeito do seu dōjutsu.

Sem esperar por uma resposta, apertou os dedos ao redor dos dedos do homem num enlace doloroso. Kazuma contraiu o rosto, mas não exprimiu um único som. O sangue dele umedecia a luva de Sasuke, pingando na manga da sua blusa.

— Terá que se esforçar um pouco mais — Kazuma advertiu.

— Eu nunca pretendi pegar leve com você — Sasuke queimou chakra no olho esquerdo a fim de invocar o Susano’o. A lâmina gigante da espada, envolta por uma cintilante aura violeta, perfurou o corpo do homem, atravessando-o.

O sangue verteu aos borbotões para a água sob os seus pés, tingindo-a e espalhando-se numa mancha tão carmesim quanto os olhos do homem que o derramou.

— Quer saber o segredo desses olhos?! — Kazuma grunhiu, cuspindo sangue na face de Sasuke outra vez. — Quer saber qual preço paguei para tê-los?! O sangue da minha mãe! — ele vociferou, descontrolando-se pela primeira vez. — O sangue dela que caiu através das frestas das tábuas do piso onde eu estava escondido e derramou-se sobre os meus olhos enquanto eu chorava pela morte dela em silêncio... Enquanto eu chorava em silêncio pela morte de tudo o que mais amava.

O homem tossiu, mas não desmanchou a expressão de ódio no rosto.

— O sangue de alguém que eu amava... O sangue de alguém que deu a vida para me proteger... Um sangue tão precioso! — disse, esbugalhando os olhos escarlates. — Sobre estes olhos... Deu origem ao Ketsuekigan. Um olho de sangue. Um poder ocular tão amaldiçoado quanto o seu Sharingan, Uchiha Sasuke.

— Não diga mais nenhuma palavra — Sasuke decidiu ao se afastar do homem num salto, levando consigo a espada do Susano’o que o havia perfurado e recuando o braço gigantesco do jutsu. — Eu não quero mais ouvir nenhuma palavra vinda de você.

— Mas ouvirá! — Kazuma teimou, sangue escorrendo profusamente da boca e fitando Sasuke com olhos esbugalhados e vidrados. — Você e eu somos iguais. Você e eu fomos sacrificados por esse mundo odioso, não foi? Tivemos tudo o que mais amávamos arrancados de nós da forma mais brutal possível e fomos abandonados à própria sorte. E então, aqueles que tanto nos prejudicaram tiveram a audácia de tentar nos eliminar quando nos rebelamos, nos transformaram em criminosos quando na verdade fomos revolucionários o tempo todo. — Ele riu, sangue e saliva escorrendo pelo canto da boca.

— Não — Sasuke negou. — Não somos iguais.

— Ah sim, nós somos — Kazuma sibilou, respirando com um pouco mais de dificuldade. — Uma vez, trilhamos o mesmo caminho, aspiramos pelos mesmos objetivos: transformar esse mundo podre no qual vivemos. Eu sou como você, um revolucionário. No meu país, tornei-me um deus para todos os meus subordinados. A diferença é que... Eu persisti nesse caminho enquanto você se deixou ser dissuadido e desistiu de tudo.

Sasuke torceu a boca num gesto involuntário.

— Eu não fui dissuadido. Eu fui salvo — pontuou. — Por pessoas que não desejavam que eu continuasse a afundar em ódio e escuridão. Lamento que ninguém tenha tentado fazer o mesmo por você.

Kazuma atirou a cabeça para trás e gargalhou. Sasuke formou uma nova lâmina de Chidori e endireitou a postura.

— Mas isso acabará agora. Nós não temos mais nada para conversar.

E dizendo isso, queimou chakra no olho direito a fim de revestir a lâmina de Chidori com as chamas negras do Amaterasu. Numa velocidade espantosa, antes que Kazuma pudesse prever e se prevenir do golpe, Sasuke partiu para cima do adversário com tudo, preparou a lâmina envolta pelo calor das chamas e, com um movimento perfeito do braço, manejou-a contra o corpo do homem, dilacerando-o em dois.

Olhou nos olhos de Kazuma antes que concretizasse a investida, lendo pela última vez com o seu Sharingan o estranho chakra que circulava através dos nervos ópticos.

Quando o chakra sombrio nos olhos do Chikage se dispersou, todo o restante desvaneceu, fragmentando-se e dissolvendo-se. E Sasuke foi atirado à escuridão uma vez mais.

Caiu dentro dela sem qualquer resistência.

Notas finais
TÁ PEGANDO FOGO BICHO!!!!! METE PORRADA NO CHIKAGE, SASUKE-KUN! ISSO AÊ! PORRADA NESSE MALUCO!!! HAHAHAHA No capítulo passado, a Sakura-chan brilhou demais, mas nesse capítulo foi a vez do nosso mozão Sasuke mostrar como superou o seu passado e se tornou o homão maravilhoso que ele é. Vamos dar muito amor pra ele! Me perguntaram sobre o capítulo especial com a perspectiva do Sasuke do outro mundo e ele será o último capítulo da história, amores. Será um capítulo extra, todinho dedicado a mostrar o ponto de vista dele quando ele se viu no mundo do nosso Sasuke. A luta não será longa, mas ela continua no próximo capítulo. Fiquem atentos que Chikage e companhia ainda vão aprontar! ;D Muito obrigada pela leitura e até o próximo capítulo! xoxo