Dark Dawn

25 Capítulo 25: Exposição


Notas iniciais
Vigésimo quinto capítulo. Boa leitura!

Capítulo 25:

Exposição

○♦○

PARA UM HOMEM CUJO NOME despertava tanto medo e apreensão nos seus inimigos, o Chikage era relativamente pequeno: de estatura média, esguio porém atlético. As suas características mais chamativas, talvez, fossem o cabelo num tom vivo de vermelho combinando com os olhos, que reluziam como duas pedras de sangue.

Usava trajes escuros, um colete cinza por cima de tudo e trazia na testa o hitaiate escarlate com a insígnia do país do Sangue; o adereço não escondia de nenhum dos presentes a sua identidade. A tez era doentiamente pálida, contudo, e havia olheiras profundas sob os olhos encovados. O maxilar era forte, e os lábios curvavam-se num sorriso ligeiro, quase imperceptível, mas cheio de malícia.

Sasuke acompanhou a entrada do homem, escoltado por outros três Shinobis de auras perigosas e trejeitos desdenhosos, dentre eles os gêmeos que tentaram emboscá-los nos despenhadeiros congelados, além de um homem soturno e franzino de longos cabelos escuros que também vestia trajes escuros e usava o hitaiate de Chigakure.

Cada músculo do seu corpo estava rígido de tensão, e seus dentes se apertavam dolorosamente. Ali estava o homem responsável por tudo o que ele viveu nas últimas semanas. Ali estava o homem que o aprisionou naquele pesadelo, torturando-o ao fazê-lo ver com seus próprios olhos o mundo distorcido e sem esperança que a sua revolução poderia ter criado. O homem que o havia apartado de tudo o que Sasuke mais amava. Não o perdoaria por isso.

Um silêncio denso preencheu todo o recinto. Ninguém nem ao menos respirava ou se movia nos seus assentos. Seria possível ouvir o ruído de um alfinete caindo no chão.

Sakura estava de pé, um pouco mais atrás de Sasuke, e tão tensa quanto ele próprio. Aquele estranho estado de estupor durou por mais uma batida de coração. Então, cadeiras foram arrastadas e todos os demais também se colocaram de pé enquanto as suas escoltas cercavam-nos, prontos para defendê-los com as suas próprias vidas se fosse preciso.

— O que significa isso?! — Temari, a primeira a protestar, logo foi imitada pelos outros que também se perguntavam o que aquele homem estava fazendo ali.

Sakura, Sasuke e os outros Shinobis de Konoha presentes no cômodo eram os únicos a não parecerem surpresos com a aparição repentina do Chikage na Cúpula dos Kages.

— Esse homem não deveria estar aqui! — Yamaguchi, o Lorde Feudal do país do Gelo, apontou um dedo para o Chikage; estava pálido e nervoso. E foi ecoado por um coro de vozes alteradas.

— Todos se acalmem, por favor! — Shinji pediu aos líderes, tentando abrandar os ânimos, muito embora a expressão no seu rosto e o seu tom de voz sugerissem exasperação e desconforto com a situação.

O Chikage sorriu de forma dissimulada para todos e ergueu as mãos num gesto conciliador.

— Por favor, por favor! Não se exaltem desnecessariamente — pediu. — Não vim até aqui para incomodá-los, muito menos pretendi que a minha presença causasse esse... furor. — O desdém no seu timbre era nítido e indisfarçado. Fazia o sangue de Sasuke correr mais quente e mais rápido pelo seu corpo, bombeado pela raiva.

Cínico — Sasuke ouviu Sakura sibilar atrás dele, baixo o bastante para que apenas ele conseguisse escutá-la, e concordou; o homem era insolente e dissimulado, e gostava disso. Gostava ainda mais do medo que despertava naqueles homens e mulheres, do poder que a sua mera presença evocava.

— Qual é o motivo de ter vindo até aqui? — A Tsuchikage ousou indagar.

O Chikage suspirou então, os ombros caídos e a postura relaxada não enganavam Sasuke. O homem era seguido de perto pelos outros três Shinobis leais a ele, que também cuidavam de vigiar a movimentação de todos os outros. Estavam prontos para defender a vida do seu líder tanto quanto eles, inclusive servindo-o com as suas mortes se fosse necessário.

Os olhos rubros eram um tanto intimidadores, carregavam uma aura sobrenatural, algo que fazia Sasuke se contorcer devido ao seu senso de autopreservação. Aqueles mesmos olhos sangrentos perscrutaram os rostos de todos os presentes, inclusive o de Sasuke por um breve instante. Precisou reprimir a sua vontade de revelar a sua verdadeira identidade para o homem e de partir para cima dele com tudo o que tinha, enfiando a sua espada entre aqueles olhos arrogantes. Conseguiu se conter apenas porque Sakura o lembrou de que deveria esperar pelo sinal dela ao tocá-lo no ombro.

Bastou olhá-la de relance para entender que ainda não era o momento de atacar. Precisavam descobrir o que ele pretendia antes, e extrair a informação que levaria Sasuke de volta para o seu mundo, de volta para casa. Resignado — porém contrafeito —, virou-se para o Chikage de novo.

— Qual é o motivo de eu ter vindo aqui? — ele ecoou com um ar aturdido enquanto se aproximava mais alguns passos e era seguido de perto pelas três sombras que o acompanhavam.

Todos enrijeceram quando ele contornou a mesa com naturalidade, tocando a superfície com a palma da mão enquanto ultrapassava assento atrás de assento. Finalmente, puxou a cadeira vazia que estivera destinada ao Lorde Feudal ausente, o líder do país da Nevasca, e se sentou.

— O que eu faço aqui, vocês me perguntam... — ele repetiu, divagando, e os olhos rubros vagaram pelo teto abobadado do salão. — São petulantes ao ponto de se reunir aqui para discutir o futuro do meu país e do meu povo, nem sequer me convidam para ouvir a minha opinião e ainda têm a audácia de questionar a minha presença!

— Não chegaríamos a esse ponto se você não tivesse invadido dois países vizinhos, assassinado os seus líderes e imposto a sua vontade sobre as suas populações! Além de ter ameaçado fazer o mesmo ao meu país e a mais duas outras nações — Yamaguchi replicou.

— Ah, sim — ele desdenhou. — Os pobres lordes feudais... Meros cordeirinhos sacrificados em nome da minha ambição desgovernada.

Yamaguchi cerrou os dentes.

— E ainda desdenha de todos nós! Faz pouco caso dos crimes que cometeu!

Num rompante, o homem se levantou da cadeira e bateu a palma da mão contra a mesa.

— E quanto aos crimes que vocês cometeram contra o meu país e contra o meu povo?! — bradou. — E quanto ao sangue inocente que foi derramado durante gerações em nome da ambição de homens mesquinhos e desprezíveis como você, Yamaguchi-sama?!

— I-Isso é um ultraje! — Yamaguchi balbuciou.

— O senhor tem muita coragem de olhar na minha cara depois de tudo o que fez contra o meu povo.

— Senhores, pedirei que se acalmem, por favor! — Shinji interviu, mediando o conflito.

A postura do Chikage mudou tão abruptamente que Sasuke quase não conseguiu acompanhá-lo. O homem parecia um quebra-cabeça impossível de ser decifrado. No último minuto, deixou escapar informações importantes a respeito dos outros lordes feudais, mas Sasuke se perguntava até onde o que ele dizia era verdade e até onde era uma tentativa de manipular todos ali.

— Ah, perdão, Abe-sama — ele se desculpou num suspiro, afastando uma mecha comprida de cabelo vermelho dos olhos. — Acho que acabei extrapolando um pouquinho. — Ele riu, erguendo o rosto para olhar as expressões estupefatas e incrédulas de todos os outros. — Por favor, perdoem o meu mau comportamento. Não tenho sido um bom menino ultimamente.

Então, gesticulou para a mesa e para os assentos vazios.

— Ah, e, por favor, continuemos com a reunião! Temos assuntos importantes a serem discutidos... Ou eu estou equivocado?

Temari balançou a cabeça, incrédula.

— Você não pode estar falando sério...

— Por que não? — ele inquiriu, aturdido. — Sou um Kage, assim como você, Kazekage-sama. Assim como os outros quatro Kages presentes nessa reunião — ele apontou para os líderes, um de cada vez, ao recitar os seus títulos: — Raikage-sama, Tsuchikage-sama, Mizukage-sama, Kazekage-sama... — O dedo dele indicou Sakura com um sorriso cheio de malícia. — E Hokage-sama. Confesso que esperava pelo outro, pelo homem de cabelos prateados... O famoso Kakashi do Sharingan. Mas encontrar a pupila da afamada Princesa das Lesmas é tão agradável quanto, eu devo admitir.

— O que você quer, afinal? — Sakura inquiriu entre dentes. — Qual é o propósito de todo esse espetáculo?

— Não há nenhum espetáculo, Hokage-sama — ele disse com um dar de ombros. — Como me expliquei antes, estou aqui para defender os interesses e a integridade do meu país e do meu povo. Espero conseguir fazer de isso da forma mais diplomática possível.

A ameaça implícita no seu tom eriçou os cabelos da nuca de Sasuke. Ainda assim, obrigou-se a ficar em silêncio enquanto os demais líderes se aglomeravam ao redor da mesa sem dar a entender de que voltariam a se sentar nos seus lugares. Mais uma vez, Shinji pediu calma a todos e sugeriu que voltassem a ocupar os assentos e ouvir o que o Chikage tinha a dizer, pois era o melhor a ser feito no momento.

Como se não estivessem prestes a declarar guerra contra o homem meros instantes antes de ele chegar, Sasuke remoeu. Acompanhou Sakura quando ela, contrafeita, sentou-se à mesa com uma expressão zangada no rosto. Outros aparentavam receio, mas todos demonstravam desconfiança. Quanto ao Chikage, o homem se divertia enormemente com toda a situação — e nem mesmo escondia isso.

— Muito bem, Chikage-sama — Shinji virou-se para ele. — Estou permitindo que nos relate os acontecimentos a partir da sua perspectiva. Poderá se defender e defender as suas ações desde que concorde em preservar a paz até o final desta reunião.

— Quanta gentileza sua, Shinji-sama — ele fingiu estar agradecido quando na verdade desdenhava de tudo e de todos. Sasuke quase não conseguia se conter para empalá-lo na sua espada.

Os olhos rubros do jovem homem se voltaram para todos os líderes presentes. Atrás do espaldar alto da sua cadeira, as silhuetas dos seus guarda-costas se destacavam, sempre em alerta, sempre vigilantes. Reagiriam ao menor sinal de que a vida dele estava sendo ameaçada. Sasuke ainda se lembrava da avalanche que os gêmeos causaram no despenhadeiro. Tanto poder... E concentrado nas mãos erradas.

— Muito bem, acredito que antes que possam concluir a votação de vocês... — A voz do Chikage atraiu o olhar de Sasuke de volta para o rosto anguloso e pálido dele. — Talvez eu deva esclarecer quaisquer mal-entendidos no que concerne as relações diplomáticas do meu país com as nações vizinhas.

— Não vejo aonde quer chegar com isso — Temari protestou.

— Entenderá tudo quando eu chegar ao final da história, Kazekage-sama, eu prometo — assegurou num tom grave, diferente do desdém que vinha usando desde que entrara no recinto.

Cruzando os braços sobre o peito, o homem se refestelou com mais conforto contra o encosto da cadeira.

— Tudo começa há mais ou menos cinquenta anos. Talvez mais, talvez menos. — O homem voltou a dar de ombros, como se o detalhe não o incomodasse. — Quem se importa quando começa, não é mesmo? O que realmente importa são os resultados, os frutos que serão colhidos, e os lordes feudais de pelo menos cinco países plantaram as suas sementes da discórdia e esperaram durante décadas para que geminassem e dessem frutos gordos e suculentos. Frutos estes que foram colhidos no meu país, na minha terra, e à custa do sofrimento do meu povo.

“Os lordes feudais dos países do Gelo, Nevasca, Lua Crescente, Ácido e Pântano foram os responsáveis pela guerra civil que causou a devastação do meu país nos últimos cinquenta anos. Eles plantaram a discórdia entre irmãos, forneceram shinobis e armas, até mesmo dinheiro! — O Chikage sorriu de um jeito maníaco. — E financiaram conflitos atrás de conflitos enquanto exploravam secretamente os recursos da minha terra. Enquanto os campos eram lavrados com o sangue dos meus conterrâneos, eles se fartavam com as riquezas roubadas do meu país. Mas fizeram isso em segredo, não poderiam se envolver oficialmente numa guerra tão sangrenta e manchar as suas reputações impecáveis.

— Como ousa nos insultar e insultar os nossos antepassados dessa maneira?! — Yamaguchi ergueu-se num rompante, chegando a cuspir gotículas de saliva quando bradou contra o Chikage, que manteve a compostura e as feições neutras ao fitar o homem.

— A verdade é um insulto para alguns, Yamaguchi-sama — replicou. — Pois saiba que vocês e os seus pais, e os pais dos seus pais não passam de vermes para mim. São parasitas que sugaram o sangue do meu povo por tempo demais. O último que vocês tentaram colocar no poder, Yamamura Eiji, caiu perante o meu poder e perante o poder daqueles que eu reuni porque estávamos fartos de assistir ao nosso país definhar e de ver o nosso povo sangrar em nome de vocês.

— São acusações muito graves — O Raikage pontuou. — Você pode provar tudo o que está nos contando?

Inesperadamente, o homem começou a rir. Seus ombros tremiam com o riso.

— Raikage-sama, a prova de tudo o que estou lhes contando está bem diante dos seus olhos! — disse quando o riso cessou, gesticulando para si mesmo. — Contemple-a em toda a sua plenitude!

— O que quer dizer? — a Tsuchikage indagou, aturdida.

O Chikage secou os cílios úmidos com os dedos, um sorriso se desdobrou na sua boca.

— Ainda não me apresentei oficialmente aos senhores... Quanta desatenção de minha parte — ironizou. — Deixe-me fazê-lo então: o meu nome é Honma Kazuma, do clã Honma.

A descoberta da identidade do homem deixou Yamaguchi lívido.

— Honma?! Isso é impossível! — murmurou. Os olhos que fitavam o Chikage de repente se encheram de um pavor paralisante. — Todos os membros do clã Honma foram chacinados há mais de vinte anos!

Nem todos aparentemente — Temari sibilou, de braços e pernas cruzadas.

— Ah, sim, a chacina do clã Honma — Kazuma ecoou, alguma emoção impossível de ser lida tomou-lhe as feições; Sakura se perguntou se era luto. — Uma tragédia, de fato. Mas para entendermos o porquê de haver acontecido, é necessário retroceder mais alguns anos quando o meu clã foi requisitado por um contratante anônimo para assassinar um nobre no país da Lua Crescente, um parente do Lorde Feudal. Naquela época, o meu clã era o mais temido e respeitado no país do Sangue por causa do raro kekkei genkai que alguns poucos conseguiam despertar.

“Havia algo de incomum naquela missão, contudo. A começar pela identidade do contratante ter permanecido uma incógnita. Ainda assim, o meu pai, Honma Kazuo, prosseguiu com a missão e se infiltrou no país da Lua Crescente para cumprir o que lhe foi designado. Lá, ele caiu numa armadilha e foi delatado. O Lorde Feudal do país da Lua Crescente exigiu satisfações do país do Sangue e, por um tempo, as relações diplomáticas entre as duas nações ficaram fragilizadas. O meu pai só foi liberto depois que o Lorde Feudal pagou uma compensação pela ofensa. E ele jamais foi o mesmo depois daquele dia. Dizia que não deveria ter fracassado na missão, que tudo deveria ter saído como o planejado e que havia algo suspeito naquela história. Sempre teve um bom faro para traidores — o Chikage riu.

“O meu clã também caiu em desgraça depois do fiasco que foi aquela missão. Fomos isolados pelo restante da vila, forçados a nos mudar para uma parte desabitada e distante da aldeia, recebíamos olhares enviesados e as pessoas abaixavam o tom quando nos aproximávamos. Eu era apenas uma criança naquela época, não entendia muito sobre a situação, mas o pouco que era capaz de compreender me inquietava.

“Então, numa noite, silenciosa, escura e sangrenta, todo o meu clã foi chacinado. Uma a uma, as casas foram arrombadas e os membros do meu clã foram assassinados. Um verdadeiro banho de sangue.

Sasuke engoliu em seco, desconfortável com a familiaridade dos acontecimentos. E, ao mesmo tempo, estava enojado por partilhar aspectos do seu passado com um homem que desprezava.

— Minha mãe sentiu que havia algo errado, meu pai mandou que nos escondêssemos e correu para a rua. E aquela foi a última vez em que eu o vi. Então, a minha mãe me pegou nos braços — Kazuma ergueu os braços a fim enfatizar e trazer mais peso a sentença — e decidiu se sacrificar para que eu vivesse. Ela soltou algumas tábuas do piso e me colocou sob elas a fim de me esconder sob o assoalho. Por sorte, sempre fui um garoto muito pequeno. “Não faça nenhum som, não importa o que você escute aqui”, ela me disse com a face banhada em lágrimas, e então recolocou as tábuas do piso.

“Eu me encolhi, chorei, mas fui obediente até o fim. Permaneci em silêncio mesmo quando arrombaram a porta da minha casa e assassinaram sem qualquer traço de clemência a minha mãe bem em cima de onde eu me escondia. O sangue dela penetrou através das tábuas do assoalho e me encharcou. Naquela noite, eu renasci para cumprir um único propósito: vingança. E eu decidi que a teria a qualquer custo.

Sasuke espiou Sakura rapidamente e percebeu-a tensa: os ombros estavam encolhidos, o maxilar, apertado, e os lábios comprimidos numa linha reta. Pelo visto, ela também estava se sentindo desconfortável com a semelhança do passado do Chikage com o passado do próprio Sasuke.

— Não pensem que estou lhes contando isso no intuito de comovê-los — Kazuma se explicou. — Afinal, isso já foi há tantos anos e as feridas se fecham e cicatrizam, por mais tempo que levem para isso.

— Então por que está nos contando isso? — Sakura inquiriu, olhando-o com severidade.

— Porque quero que me compreendam. — Foi a resposta dele.

— Vingança é tudo o que te move? — Ela franziu a testa e encrespou ainda mais o olhar. — Já vi de perto o que vingança faz às pessoas. Só o que ela traz é dor e destruição não apenas para você, mas para todos que estão ao seu redor.

— O que é isso, Hokage-sama? — Kazuma sorriu com desdém, censurando-a. — Espero que não esteja tentando me dar um sermão. Eu sei perfeitamente o que a vingança faz às pessoas. E eu não me importo, contanto que a minha vingança atinja quem eu quero que ela atinja.

— Nada do que você nos contou comprova a ligação dos outros países com a guerra civil do país do Sangue, Chikage-sama. Até que nos forneça provas concretas, as suas acusações não possuem fundamento — Shinji lembrou-o.

— Tudo a seu tempo — o Chikage respondeu. — Onde estávamos? Ah, sim! Na noite em que o meu clã foi massacrado. Como único sobrevivente do clã Honma, eu fugi de Chigakure e escondi a minha verdadeira identidade durante anos. Não me orgulho de ter feito o que fiz naquela época, mas a sobrevivência era a minha única prioridade. Por isso, me fortaleci e treinei duramente. Tornei-me um nukenin temido e fui caçado pelos meus conterrâneos até o dia em que um homem abriu os meus olhos para a verdade...

— Que verdade? — Temari pressionou com impaciência.

— A verdade do meu destino, Kazekage-sama. Eu era pouco mais do que um animal naquela época: não me importava com nada e com ninguém, assassinava com requintes de crueldade qualquer um que se colocasse no meu caminho, mas esse homem, Saitou Shiro, me deu um novo propósito e me deu algo pelo quê lutar: revolução. — O modo como a palavra soou nos lábios de Kazuma voltou a eriçar os cabelos da nuca de Sasuke.

— Saitou Shiro foi um dos shinobis mais respeitados do país do Sangue — Yamaguchi pontuou com severidade. — Você mancha a memória e o legado dele.

— Shiro-sama foi quem me contou sobre toda a podridão envolvendo a guerra civil que devastava o meu país — Kazuma replicou ao devolver o olhar grave de Yamaguchi. — Ele serviu inúmeros candidatos a lordes feudais que tentaram tomar o poder à força no meu país, trocando de mestre como quem trocava de roupa. Cada candidato a lorde feudal estava apoiado por um país diferente, ele me disse, e nenhum deles jamais conseguia se manter no poder por muito tempo porque outro candidato aparecia e lhe tomava o poder.

“Isso se repetiu por cinquenta anos, Yamaguchi-sama. Agora me diga o que teria acontecido ao meu país se outras nações não tivessem interferido nos conflitos? Se as nações vizinhas não tivessem continuado a financiar o conflito em nome de propósitos escusos? Algum lorde feudal certamente conseguiria se manter no poder, algum deles, por mais imbecil que fosse, poderia ter trazido paz ao meu povo. Mas a constante interferência de vocês agravou a miséria e a violência no meu país. Vocês financiaram a guerra no meu país, enriqueceram à custa do sofrimento de tantos inocentes... — O Chikage sacudiu a cabeça, os dentes estavam cerrados, como se estivesse profundamente enojado. — E o meu clã foi uma pedra no sapato que precisou ser removida. O clã Honma apoiava a legitimidade do governo do Lorde Feudal que estava no poder, mas, para que ele caísse, nós tínhamos que cair primeiro, pois éramos poderosos demais, não é verdade?

Kazuma olhava nos olhos de Yamaguchi enquanto pronunciava cada palavra.

— Por isso armaram aquela armadilha para o meu pai. Contrataram os serviços do meu clã anonimamente e o entregaram aos lobos mesmo antes que ele pudesse executar a missão pela qual foi pago. Fomos os bodes expiatórios para que vocês continuassem jogando, para que a guerra prosseguisse e assim vocês pudessem continuar nos explorar. Infelizmente para vocês, contudo, eu sobrevivi àquela noite para trazer vingança a cada um que me prejudicou e prejudicou o meu país. Tornei-me um deus para o meu povo, um líder capaz de protegê-los da ganância de homens como vocês, Yamaguchi-sama.

— Não pode provar o meu envolvimento nisso, tolo! — Yamaguchi retorquiu, exaltado mais uma vez e erguendo-se da cadeira para apontar um dedo para o seu acusador.

O Chikage sorria deliciado ante o nervosismo do homem, os ombros tremendo levemente devido ao riso que jamais cessava.

— Nós agradecemos por todas as informações compartilhadas conosco, Chikage-sama — Shinji mantinha a expressão serena mesmo que a reunião estivesse prestes a explodir como uma bomba-relógio. — Prometo levá-las em consideração enquanto ponderamos uma nova decisão.

— Nova decisão?! — Yamaguchi ecoou, lívido outra vez. — Estávamos prestes a declarar guerra contra esse homem e contra todos que o seguem cegamente! Não há mais nada a ser discutido! O país do Sangue é uma ameaça para todos nós e nada do que esse homem disse muda isso!

Kyoichi, que permanecera calado e desconfortável durante todo o relato do Chikage, também se levantou do seu assento.

— Não estou me sentindo muito bem. Peço permissão para me retirar.

Todos os outros também se levantaram, com exceção do Chikage, que permaneceu sentado.

— Por favor, todos voltem a se sentar. A reunião ainda não terminou — o líder do país do Ferro voltou a insistir.

Um burburinho começou. Os Kages começaram a murmurar uns com os outros e com os seus guarda-costas, que estavam cada vez mais tensos como todos os outros presentes naquela sala. Shinji ainda tentava persuadi-los para que se sentassem, pois ainda havia assuntos a serem deliberados, mas ninguém lhe dava ouvidos.

As vozes esmoreceram à medida que o riso do Chikage crescia, enchendo o recinto e abafando quaisquer outros sons pouco a pouco. Quando o silêncio imperou, ele ainda ria.

— O que é tão engraçado? — o Raikage exigiu saber, zangado.

Vocês — ele admitiu entre risos. — Há poucos minutos, estavam todos unidos por um único propósito: me matar. Agora, estão se dividindo depois de tudo o que lhes contei. Já não têm tanta certeza assim de que preciso morrer pela paz do mundo Shinobi? Depois de tantos anos, era de se esperar que tivessem compreendido que o sistema sobre o qual nos erguemos é podre — ele murmurou, franzindo a testa e olhando-os com ironia. — Pois bem, eu lhes farei um favor. Darei um empurrãozinho para que se unam novamente em nome de um único propósito.

— Do que diabos você está falando? — Temari inquiriu, dando um passo à frente.

Como quem não tinha pressa e dispunha de todo o tempo do mundo, Kazuma se levantou da cadeira. Seus três guarda-costas o seguiram quando ele deu alguns passos adiante e parou de frente para onde todos se aglomeravam, as mãos inocentemente escondidas nas costas. Sorria com travessura, como se houvesse saboreado um fruto proibido.

— Darei a vocês algo que querem desesperadamente, uma informação mais valiosa do que qualquer outra coisa.

Sasuke teve um mau pressentimento sobre tudo aquilo. Sakura também deve ter tido, pois se virou para ele. Os olhos verdes como as folhagens na primavera estavam esbugalhados de pânico.

— Diga logo e acabe de uma vez por todas com esse maldito suspense! — a Tsuchikage pressionou.

O sorriso do Chikage não vacilou quando ele disse:

— Uchiha Sasuke está bem aqui. Entre vocês. O homem que assassinou Uzumaki Naruto, o homem que assassinou a sangue frio cinco Kages, o criminoso que prejudicou as Nações Aliadas durante a Quarta Guerra Shinobi. Está bem debaixo dos seus narizes. Basta que procurem com atenção e o encontrarão.

Os Kages se entreolharam, confusos. A mão de Sakura tremia quando ela tocou o cotoco do braço esquerdo de Sasuke. Suplicava com o olhar para que não fizesse nada, para que não dissesse nada. Ainda não era hora de agir.

O sorriso do Chikage não vacilou nem por um instante quando completou diabolicamente:

— Assim que o encontrarem, façam-me um favor e matem-no por mim.

Notas finais
FOGO NO PARQUINHO! MUAHAHAHAHAHAHAHAHAHA Eu disse que esse homem só tinha vindo ao mundo pra causar tretas e pra causar tretas especificamente na vida do Sasuke! HAHAHAHAHAHAHA Como é que o Sasuke vai escapar da fúria de quatro Kages muito zangados agora?! O que a Sakura-chan vai fazer pra tentar ajudar?! Tenso, tenso, muito tenso! A luta está prestes a começar! Muito obrigada pela leitura e até o próximo capítulo! xoxo