Dark Dawn
24 Capítulo 24: A Sombra do Sangue
Notas iniciais
Capítulo 24:
A Sombra do Sangue
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NA HORA MARCADA, TODOS se dirigiram para a sala onde aconteceria a reunião. Uma grande mesa redonda com um centro oco estava posicionada no meio do recinto amplo e bem iluminado, com assentos separados para os Kages e lugares à volta para os guarda-costas particulares que eles traziam.
Bandeiras representando os países que participariam da Cúpula tinham sido penduradas no teto cupular e pendiam — faixas estreitas de tecido claro — compridas de modo que coroassem os assentos designados para cada líder de cada nação.
Sakura se dirigiu até o seu assento, pousando o chapéu de Hokage na mesa e puxando a cadeira. Sentou-se ao mesmo tempo em que outros líderes o faziam enquanto as suas escoltas enchiam o salão, posicionando-se à direita, à esquerda e mais atrás de cada um deles. Logo, o salão tornou-se um pouco abarrotado devido à presença de tantos ninjas e líderes.
Ela observou os Kages se acomodarem à sua volta e à sua frente. A Kazekage estava à sua direita, e o Mizukage, à esquerda. Ao lado dele, sentou-se o Raikage, e um assento adiante, a Tsuchikage.
Havia assentos vagos à frente dela. Um deles foi ocupado por um homem franzino, o Lorde Feudal do país do Gelo, e outro mais robusto sentou-se à sua esquerda com um assento entre eles, era o Lorde Feudal do país do Pântano. O Lorde Feudal do país da Nevasca estava atrasado, de forma que o assento entre ambos continuou vago. À cabeceira da mesa, como era tradição, acomodou-se o atual líder do País do Ferro, um homem sisudo de meia idade que trazia embainhada na cintura uma elegante katana.
Sakura tinha lido sobre ele, informando-se a respeito da sua história e dos seus feitos a fim de inteirar-se para a Cúpula. Seu nome era Abe Shinji, e seria ele a presidir a reunião como anfitrião e realizador da Cúpula.
Ela olhou para cima de repente quando percebeu a aproximação de Sasuke. Ele colocou-se à esquerda dela, um pouco mais atrás da sua cadeira. Não a olhou, mas aquiesceu. Ainda seguiam o plano. Uma rápida espiadela pelo salão assegurou-a de que ninguém prestava atenção nele, o que significava que o disfarce estava funcionando. Ótimo, concluiu. Que permanecesse assim até o último momento.
Aos poucos, o burburinho que predominava no recinto foi se extinguindo e dando lugar a um silêncio denso e desconfortável. Sakura cruzou as mãos sobre a mesa, entrelaçando os seus dedos inquietos. A partir dali, assumiria a postura de uma líder, de uma Hokage a fim de representar e defender os interesses do país do Fogo e de Konoha.
O homem que encabeçava a reunião apresentou-se brevemente numa voz firme:
— Sejam todos bem-vindos ao país do Ferro. O meu nome é Abe Shinji e eu represento os interesses desta nação, tendo autorização para exercer a função de porta-voz. Assim sendo, declaro o início desta Cúpula dos Kages. — E finalizou com uma meia reverência, curvando o torso de modo que a sua testa ficasse próxima da superfície da mesa.
— A pedido de Kondo Kyoichi-sama, Lorde Feudal do país do Pântano — Shinji indicou para o jovem homem sentado à mesa à sua esquerda —, eu convoquei esta reunião com os cinco líderes militares das cinco nações que compõem a Aliança Shinobi. Por favor, sintam-se à vontade para se apresentar aos demais presentes.
O jovem homem de cabelos azuis espetados, olhos escuros e que usava um par de óculos excêntrico com protetores auriculares atrelados à armação ergueu a mão, tomando a liberdade de se apresentar primeiro:
— Chōjurō. Sou o Rokudaime Mizukage e represento os interesses do país da Água, assim como de Kirigakure no Sato. Estou honrado por estar aqui — Diante dele, o chapéu de tonalidade azul clara confirmava a sua posição de poder; o kanji da palavra “água” decorava o seu centro, em tinta azul.
De braços cruzados, e do lado oposto a Chōjurō, o homem de pele negra, cabelos claros caindo-lhe sobre um dos olhos escuros e com um bigode também claro cobrindo-lhe o lábio superior, copiou-o e se apresentou:
— Darui. Godaime Raikage. Represento os interesses do país do Relâmpago, assim como de Kumogakure no Sato. — O chapéu amarelo-mostarda tinha o kanji da palavra “relâmpago” no seu centro.
A Kunoichi de curtos cabelos negros e olhos também negros ao lado dele apresentou-se com um sorriso para todos os outros, as mãos enluvadas sobrepunham-se; os dedos entrelaçavam-se diante do semblante amigável:
— Kurotsuchi. Yondaime Tsuchikage. Represento os interesses do país da Terra, bem como de Iwagakure no Sato. — Diante dela, um chapéu marrom com o kanji da palavra “terra” adornava-o.
À esquerda de Sakura, Temari suspirou profundamente antes de se apresentar aos demais.
— Sabaku no Temari. Rokudaime Kazekage. Represento os interesses do país do Vento e de Sunagakure no Sato. — Havia um chapéu verde com o kanji da palavra “vento” diante dela, sobre a mesa.
Sakura entendeu que aquela era a sua deixa. Apresentou-se a todos os presentes, murmurando as palavras que ensaiara mentalmente nos últimos minutos, num tom de voz uniforme e polido.
— Haruno Sakura. Nanadaime Hokage. Estou aqui em nome dos interesses do país do Fogo e de Konohagakure no Sato.
O líder do país do Ferro pigarreou, atraindo a atenção dela para si.
— Nós aguardávamos pela presença do Rokudaime Hokage, Hatake Kakashi. Houve algum contratempo?
Sakura não hesitou ao respondê-lo, e o fez com naturalidade e segurança.
— Não houve nenhum contratempo. Kakashi-sensei... O Rokudaime Hokage — ela se corrigiu — me nomeou oficialmente a sua sucessora e me incumbiu de representar os interesses do meu país e da minha vila natal.
Shinji aquiesceu de modo sucinto.
— Compreendo. Prossigamos então. — E indicou aos dois Lordes Feudais presentes para que dessem procedência às apresentações.
Os homens estavam claramente desconfortáveis e tensos. O assento vago entre eles deixava uma impressão esquisita em Sakura. Segundo o que lhe fora dito, três Lordes Feudais haviam sido convidados a participar da Cúpula. No entanto, viam-se apenas dois, e o Chikage ainda não tinha se revelado. Aquele jogo de gato e rato fartara-a havia muito tempo. Onde você está, seu desgraçado?, ela se perguntava e sentia aquela mesma inquietação emanar de Sasuke, de pé ao seu lado e apenas a dois passos curtos de distância da sua cadeira.
O homem franzino apresentou-se primeiro. Ele tinha olhos escuros e encovados, assim como uma expressão cansada no rosto. Vestia um quimono de seda cinza luxuosa e tinha os cabelos grisalhos bem presos com um grampo de ouro no alto da cabeça.
— O meu nome é Yamaguchi Jiro. Represento o país do Gelo, e sou o atual detentor do título de Lorde Feudal, sendo o quinquagésimo nono governante do meu país.
O homem robusto ao lado dele, que vestia um quimono roxo também suntuoso e usava os cabelos pretos num penteado elaborado, pigarreou ao entender que aquela era a sua deixa.
— Eu sou Kondo Kyoichi e represento o país do Pântano. Carrego o título de sexagésimo sexto Lorde Feudal. — Ele entrelaçou os dedos roliços, as bochechas enrubescendo levemente; era anos mais jovens do que o outro Lorde Feudal que se apresentou antes, e muito inexperiente Sakura percebeu com um estreitar dos olhos. — Sucedo o meu pai, Kondo Tanaka, como governante do meu país.
Após as breves apresentações, um pequeno burburinho se iniciou no recinto. Vozes dispersas sussurravam à frente e às costas de Sakura. Temari se inclinou um pouco na sua cadeira para murmurar algo para ela:
— Onde está o Lorde Feudal do país da Nevasca? Ele está muito atrasado para a reunião.
Sakura mordeu o lábio, tensa e receosa, mas não compartilhou seus temores com a Kazekage; ainda não era hora. Portanto, deu de ombros e fingiu desconhecer qualquer informação a respeito do paradeiro do homem. Impaciente, ela bateu o solado das botas contra o piso a fim de aliviar um pouco da tensão.
Shinji Abe, o líder do país do Ferro, pôs fim às conversas dispersas, demandando que a atenção de todos os presentes se voltasse para ele uma vez mais:
— Reuni-os aqui — ele passou os olhos primeiro pelos cinco Kages presentes, as maiores autoridades no mundo Shinobi —, incluindo os líderes militares dos países do Fogo, da Água, do Relâmpago, do Vento e da Terra, assim como os Lordes Feudais dos países do Gelo, Pântano e Nevasca, para que discutamos uma estratégia de contenção aos avanços do país do Sangue, que atualmente ocupa os territórios do país da Lua e do país do Ácido. Recentemente, o líder militar do país do Sangue, que se autodenomina “Chikage”, declarou o seu interesse de expandir os seus avanços militares para mais três nações vizinhas, além de ter feito ameaças à Aliança e às nações aliadas que a compõem.
“A Aliança já declarou a sua intenção de recorrer a uma ação mais ofensiva para conter o país do Sangue caso as negociações pacíficas não apresentem resultados imediatos. Ao término da reunião, poderemos oficializar ou não essa intenção através de uma votação.
Sakura fechou os olhos, a voz de Shinji zumbia no seu ouvido e a dor de cabeça de antes ameaçava voltar a importuná-la, culpa de toda a tensão que experimentara nas últimas semanas. Toda aquela formalidade deixava-a ainda mais impaciente para que avançassem logo para a parte crucial da reunião: a votação dos Kages e dos Lordes Feudais. Batia no piso o solado das botas de cano alto que usava sob a mesa num tique nervoso.
Shinji se voltou para um dos Lordes Feudais, o mais velho, incitando-o a dar o seu relato:
— Yamaguchi-sama, poderia compartilhar conosco as informações que possui da situação política do país do Sangue assim como do homem que o lidera?
Sakura se endireitou quando percebeu que o Lorde Feudal do país do Gelo compartilharia informações. O homem não precisou ponderar por muito tempo, uma vez tendo sido invitado a falar. Entrelaçou os dedos finos e pigarreou.
— A nossa história com o país do Sangue é antiga, como poucos presentes nesta reunião o sabem. O país foi devastado por guerra após guerra logo depois que um de dois irmãos decidiu questionar a legitimidade do direito de governança do outro. Antes disso, toda a nação já vinha sofrendo com a miséria e com catástrofes naturais que o devastavam de tempos em tempos. Pareceu-me... adequado que o país envergasse o nome que carrega, afinal, foi construído sobre o sangue de muitos. O homem que o fundou, Ōtsuka Soichiro, ficou conhecido na história como um carniceiro que destruiu todos aqueles que se opuseram a ele em verdadeiros banhos de sangue.
— O território do país do Sangue engloba regiões com alta atividade vulcânica e tectônica — o lorde feudal do país do Pântano divagou, interrompendo o relato do outro enquanto secava o suor da testa com um delicado quadrado de seda: — É claro que isso também garante solos muito férteis e há muitas riquezas... Sim, infinitas minas de ferro, de prata, de cobre e de minerais preciosos.
Ele enrubesceu quando percebeu o que havia feito. Sakura ergueu uma sobrancelha. Kyoichi era, de fato, inexperiente demais. Jovem demais. Uma completa antítese do segundo lorde feudal presente.
— Oh perdão, Yamaguchi-sama! Eu nem mesmo percebi o que estava fazendo.
Yamaguchi disfarçou uma tosse com outro pigarro.
— Como eu estava dizendo, o país do Sangue foi devastado por muitas guerras civis nos últimos cinquenta anos. Disputas internas de poder terminavam por enfraquecer e, mais tarde, por desmantelar qualquer governante que tentasse assentar a sua liderança no país.
“O último deles se chamava Yamamura Eiji e depois de uma dura campanha que custou um terço das suas forças e doze longos anos, ele conseguiu ocupar o cargo de lorde feudal do país. Eiji, no entanto, acreditava que o poder só seria mantido se ele governasse com punhos de ferro, e foi isso o que ele fez por três anos e meio até cair numa noite para o homem a quem chamamos de “Sombra do Sangue”. As informações de que dispomos sobre esse homem são — Yamaguchi ergueu uma sobrancelha — convenientemente escassas, uma vez que ele não costuma se expor e prefere agir a partir das sombras, usando seguidores fanáticos para cumprir os seus desejos e vontades. Existem até mesmo aqueles que sustentam rumores de que o Chikage, na verdade, seja um deus executando a sua vingança contra aqueles que o prejudicaram no passado e que por isso não se revelaria mesmo para os seus inimigos.
— Isso é um completo absurdo — O Raikage, Darui, interrompeu Yamaguchi. Sua voz soava monocórdia, quase entediada. — O homem não é deus algum, é apenas covarde demais.
— Concordo com o Raikage — Temari, a Kazekage, ecoou, cruzando os braços. — O homem é apenas covarde se prefere não se revelar. Não o transformemos no que ele não é.
Yamaguchi pigarreou.
— Sim, de fato, esses rumores são absurdos, mas eles se sustentam porque o Chikage jamais se mostrou antes. Ele é praticamente uma lenda viva no meu país, e eu conheço homens que tremem apenas ao ouvir o seu título. Além do mais, os Shinobis que o protegem, que integram a Guarda Escarlate, têm fama de serem conhecidos como sujeitos perigosos e instáveis que cultuam o seu líder com uma espécie de devoção fanática.
Ele amenizou o tom de voz.
— Eu concordo que o homem não deve ser transformado no que não é, mas a fama que o precede já o faz sem que precisemos contribuir para isso.
— Yamaguchi-sama, não há mesmo uma informação concreta sequer a respeito da identidade desse homem? — A Tsuchikage indagou, aflita. — Parece que estamos nos referindo a um fantasma, a um homem sem rosto.
— Eu receio que não, Tsuchikage-sama — ele respondeu condoído. — Tentei infiltrar espiões no país do Sangue para arrancar qualquer informação sobre ele: seu passado, suas habilidades, sua fraqueza, mas, infelizmente, todos foram descobertos de alguma forma sobrenatural e terminaram mortos. No fim, eu já não podia mais arriscar as vidas de homens e mulheres leais a mim. Tudo o que me restou foi fortificar as minhas fronteiras e manter vigília constante, temeroso de que a qualquer momento o Chikage viria atrás de mim e do meu país.
— Isso não faz muito sentido — Sakura objetou. — Yamaguchi-sama, o senhor se refere ao Chikage, ainda que o considere um homem, como um ser senciente. Ou mesmo onisciente. O que eu considero igualmente impossível.
— Com todo o respeito, Hokage-sama — Yamaguchi murmurou —, mas há sim algo de sobrenatural no modo como esse homem age. Como ele sempre antecipa e neutraliza qualquer um que o ameace ou ameace o país do Sangue, como ele instiga o medo entre os seus inimigos e mesmo entre os prováveis aliados.
— Eu li os memorandos sobre as invasões ao país da Lua Crescente e ao país do Ácido — ela disse secamente. — Inclusive sobre como os ambos os lordes feudais desses países cometeram suicídio um pouco antes que os seus oficiais percebessem que a batalha estava perdida e se rendessem às forças do país do Sangue. Ambas as invasões aconteceram à noite, com ataques sorrateiros às capitais e aos castelos que abrigavam os seus governantes. E, ainda assim, ambos os líderes cometeram suicídio. Isso me soa bastante suspeito, para não dizer como foi conveniente para o Chikage.
— O meu pai trocou cartas com o Lorde Feudal do país da Lua Crescente por dois meses antes da sua morte e da invasão ao país — Kyoichi, o jovem lorde feudal, interpôs: — Ele relatava através das cartas os pesadelos que o acometiam, dizia que, às vezes, tinha sonhos tão intensos que acreditava fervorosamente que era transportado para outros mundos... — Kyoichi abaixou o tom de voz para um mero sussurro, como se apenas mencionar o acontecido pudesse lhe atrair má sorte: — Algo parecido com experiências extracorpóreas.
Sakura espiou Sasuke de viés, ainda sob o disfarce do henge no jutsu, e percebeu-o tenso. Não poderia culpá-lo. Ela mesma estava tensa com tudo o que estava sendo relatado. Via nitidamente o medo nos olhos dos Lordes Feudais, via a sombra do Chikage nos silêncios arrastados, nas palavras sussurradas. Ele já estava vencendo a guerra a julgar pela expressão derrotada que se via nos semblantes daqueles homens e não precisou ter movido um dedo para isso.
— De qualquer modo, é crucial que entendamos o nosso inimigo para que possamos traçar uma estratégia eficaz para contê-lo — Shinji Abe interviu, conciliador como sempre. — Agradeço pelas informações que compartilhou conosco, Yamaguchi-sama.
O homem mais velho aquiesceu em resposta. Shinji se voltou para Kyoichi em seguida.
— Há algo mais que gostaria de acrescentar, Kondo-sama?
Kyoichi tornou a secar o suor com seu lenço de seda. Pareceu mais tenso de repente. Menos jovem, e mais como um líder de um país aflito que precisava de ajuda para derrotar um inimigo poderoso.
— Como poucos sabem, o meu pai faleceu no mês passado. Sucumbiu para uma doença agressiva que o fez definhar por semanas. Com tudo o que Yamaguchi-sama compartilhou conosco, eu não poderia deixar de atestar a veracidade dessas informações, afinal, eu as testemunhei de perto — disse com um riso nervoso.
— O que quer dizer, Kondo-sama? — Shinji indagou.
Kyoichi engoliu em seco.
— Quero dizer que testemunhei tudo isso que Yamaguchi-sama relatou em primeira mão... Através do meu pai. Não posso provar que o Chikage esteve diretamente ligado à sua morte, mas com base em tudo o que nos foi dito suspeito que o meu pai tenha sido assassinado.
— É uma acusação muito grave — Temari pontuou.
— Tenho ciência disso, Kazekage-sama, mas acontece que o meu pai foi acometido por muitos pesadelos nos últimos meses de vida. Por vezes, despertava a todos no castelo com gritos pavorosos durante a madrugada. Tinha tanto medo de dormir que passou a depender de remédios muito fortes para fazê-lo. E, ainda assim, pela manhã, ele me dizia que o Chikage encontrava uma forma de entrar nos seus sonhos, de manipulá-los e de fazê-lo viver diferentes realidades, quase como se o arrancasse do próprio corpo e o abandonasse em outros mundos muito mais hostis.
— Suponhamos que as suas acusações tenham algum fundamento além de especulações e do relato de um homem morto em cartas confidenciais, Kondo-sama — Sakura interrompeu-o com delicadeza. — Suponhamos que o seu pai tenha sofrido essas experiências extracorpóreas que outros também relataram ter vivido... Haveria alguma forma de revertê-las? E como poderíamos conectá-las ao Chikage?
— Eu honestamente não tenho ideia, Hokage-sama — ele admitiu com pesar. — Mas ninguém além do Chikage se beneficiaria com a morte do meu pai e com as mortes de outros dois lordes feudais.
Sakura crispou os lábios e voltou a se recostar contra a cadeira. Não poderia contestar o garoto, não quando ele apresentara um argumento tão contundente. De fato, ninguém ganharia mais com as mortes de três lordes feudais. E nada parecia conectá-las umas às outras, exceto pelos homens terem tido experiências semelhantes à que Sasuke sofreu quando foi atirado naquele mundo.
— A morte do meu pai desestabilizou o meu país — Kyoichi murmurou num tom embargado. — Eu precisei assumir a posição de Lorde Feudal quando ainda estava de luto pelo meu pai. Mas precisei ser forte pela minha nação e pelo meu povo. Foi por isso que decidi que pediria ajuda à Aliança para conter o Chikage e o país do Sangue. Não poderíamos fazê-lo sozinhos, mas com o auxílio das nações aliadas... — Kyoichi se curvou sobre a mesa, abaixando a testa até que esta quase tocasse a superfície da mesa. — Por favor, eu imploro, nos ajude a derrotar o Chikage! Antes que ele decida invadir o meu país também, antes que ele possa fazer o meu povo sofrer...
— Kondo-sama, por favor — Shinji repreendeu-o. — Nós não terminamos. As votações ainda não começaram.
— Pois então pulemos toda essa burocracia e votemos — Temari protestou. — Podemos passar o resto do dia debatendo fantasmas, deuses e alucinações... Ou podemos decidir de uma vez por todas se acabaremos com o reinado de terror desse sujeito.
— Eu concordo — o Raikage ecoou, os braços musculosos cruzados sobre o peito. — Já nos foram fornecidos argumentos suficientes. Votemos de uma vez, e acabemos logo com isso.
Shinji Abe suspirou profundamente.
— Muito bem. Passemos para o tópico das votações.
Um silêncio tenso seguiu a declaração do líder do país do Ferro. Todos se remexeram nos seus assentos, desconfortáveis e conscientes de que decidiriam os destinos de milhares de vidas nos próximos minutos.
Shinji foi o primeiro a votar.
— Como líder do país do Ferro e representante máximo dos seus interesses, digo que a possibilidade de uma guerra que futuramente envolva todos os países é concreta e verdadeira, portanto, o meu voto é para que as forças somadas das nações aliadas, do país do Ferro e dos países do Gelo, Pântano e Nevasca declarem guerra ao país do Sangue e àqueles que compactuem com os objetivos do seu líder, o Chikage.
Shinji se virou para Yamaguchi em seguida.
— Yamaguchi-sama?
O homem assentiu, tenso mas convicto de sua decisão:
— Guerra — declarou.
O próximo a votar foi Kyoichi, que, aliviado, juntou-se ao coro de vozes que clamavam por justiça:
— Guerra.
Depois, foi a vez do Mizukage de votar.
— Não estou convencido de que não possamos tentar o diálogo com esse sujeito — ele alegou. — Eu preferiria arriscar uma abordagem mais diplomática primeiro. Portanto, voto para que o tentemos antes de iniciar qualquer confronto mais direto.
A Tsuchikage não pensava de uma forma tão diferente.
— Chōjurō tem razão. Deveríamos tentar uma abordagem mais diplomática primeiro. Podemos fazer o Chikage compreender que não tem chance de derrotar todo o nosso poderio. Se isso não funcionar, então usaremos a força contra o sujeito.
O Raikage suspirou antes de anunciar a sua decisão.
— Apesar de não gostar da ideia de iniciar uma nova guerra mundial shinobi, concordo que o Chikage precisa ser detido e quanto mais cedo o fizermos, melhor será para todos os países. Eu voto para que declaremos guerra.
Quando chegou a vez de Temari, ela respondeu sem preâmbulos:
— O Raikage tem razão. Quanto mais cedo o detivermos, melhor será para todos. Eu voto para que declaremos guerra contra o país do Sangue. Com todas as nossas forças unidas, ele não terá chance alguma de vitória.
Sakura suspirou quando percebeu que era a sua vez de anunciar uma decisão. Ela sentiu os ombros pesados. De repente, a responsabilidade por milhares de vidas shinobis leais a ela por pouco não a sufocou.
Lembrou-se então de um dos ensinamentos mais duros de sua mestra, um que carregou consigo por toda a vida: “Um Yriō-nin está sempre acompanhado pela morte, Sakura”, ela lhe disse num tom de voz que não escondia o remorso que sentia. “Habitue-se a isso. Você nunca será capaz de salvar todas as vidas. Você também nunca se esquecerá dos rostos daqueles que não conseguiu curar. O dom de curar é uma dádiva maravilhosa, mas pode se tornar um tormento para aqueles que não estiverem preparados para conviver com a morte. Lembre-se disso. Houve uma época em que eu convivi com a dor de não ter conseguido salvar o meu irmão e o homem que eu amei. E isso quase me destruiu”. Ela então tinha lhe sorrido, aquele sorriso amplo e belo, cheio de uma confiança admirável. “Não seja como a sua mestra nesse ponto”.
Sakura estava prestes a anunciar a sua decisão quando a voz de Ino soou desesperada na sua mente, surpreendendo-a por um momento.
Ele está aqui!, Ino alertou. Sakura varreu os arredores com os olhos, desconfiada. Onde?, perguntou-se, ignorando num primeiro momento todos os olhares que se viraram para ela, aturdidos devido à sua reação.
Vindo para cá, Ino informou num só fôlego. Sai ainda o está seguindo. E ele não está sozinho.
Sakura voltou ao presente quando percebeu que todos a encaravam, expectantes e confusos, para que anunciasse o voto do país do Fogo. Foram interrompidos antes que ela o fizesse, contudo.
Do corredor que antecedia a sala de reuniões, soaram passos; muitos deles vindo apressados, batendo no piso de pedra. Todos se viraram na direção da entrada enquanto Sakura se colocava de pé abruptamente, empurrando a cadeira para longe, e encontrava o olhar de Sasuke.
— Ele está aqui — sussurrou para ele, que enrijeceu.
Os muitos passos apressados se aproximaram ainda mais pelo corredor. Então se acalmaram, com apenas o som das passadas espaçadas de uma única pessoa ressoando no piso de pedra. Cada passo ecoava uma batida do coração de Sakura.
Ela engoliu em seco, fitando a entrada do recinto. Um ardor tomou-lhe o peito, queimando dentro dela enquanto aqueles segundos se arrastavam e faziam crescer o sentimento de apreensão. Sentimento este compartilhado por Sasuke, ao seu lado, pelo que conseguira ler da expressão tensa no rosto e da postura corporal dele quando o olhou.
Sakura virou os olhos para a entrada do salão no momento em que todos os passos cessaram.
Um homem entrou primeiro.
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