Dark Dawn
19 Capítulo 19: Ponto de Ruptura
Notas iniciais
Capítulo 19:
Ponto de Ruptura
○♦○
ELES PARTIRAM BEM CEDO nas primeiras horas do dia seguinte, ainda sob a semiescuridão de uma madrugada extremamente fria. Sakura dissera que quanto mais depressa partissem, mais depressa chegariam às montanhas Três Lobos, onde a Cúpula dos Kages aconteceria.
Apesar do céu azul cobalto sobre o vale encontrar-se desanuviado, a trilha nas montanhas que eles usariam como rota de viagem estava completamente encoberta por nuvens cinzentas e volumosas. Sasuke as mirara com preocupação horas antes, intuindo que uma nevasca violenta os apanharia no caminho.
— Não mudaremos os nossos planos; partimos dentro de poucas horas — Sakura tinha dito quando Ino ecoou a preocupação silenciosa de Sasuke, vocalizando-a a melhor amiga. — Ainda que a nossa visibilidade diminua consideravelmente, temos as suas habilidades sensoriais e os jutsus de Sai para nos localizarmos e localizarmos possíveis inimigos.
Isso pareceu ter encerrado o assunto. Então, eles deram procedência aos preparativos para a partida. Sasuke cuidou dos seus preparativos sozinho no quarto, arrumando os seus pertences dentro da bolsa que levava sob o manto de inverno, atravessada num ombro.
Ao sair do cômodo, deparou-se com a garota outra vez, Hikari, esperando-o. Tinha uma postura relaxada e a expressão descontraída. Ele não se habituara a ter os olhos azuis dela seguindo-o por todo o canto às vezes. Não que ela fizesse isso por malícia, parecia-lhe apenas... desatenta. E inacreditavelmente ingênua, mas também era amável e gentil com todos, e sorria o tempo todo em que estivesse com o seu time. Agora que sabia parte da história dela graças à Sakura, o fato de que a menina era capaz de sorrir daquela forma tocava algo dentro dele, comovendo-o.
— Precisa de alguma coisa? — inquiriu-a.
A garota meneou a cabeça em negativa, mas não fez menção de sair do seu caminho. Como tinha as mãos escondidas atrás do corpo, Sasuke julgou mal as suas intenções, intuindo que ela só pretendia atrasá-lo ou desperdiçar o seu tempo até que Hikari, sorrindo, trouxe as mãos à frente do corpo, mostrando a ele o retângulo grosso de tecido que elas seguravam.
— O que é isso?
A garota caçoou dele, decidindo tratá-lo com alguma condescendência; deveria vê-lo como um ingênuo ou pior: um ignorante.
— É um cachecol. Para usar em torno do pescoço. Faz muito frio aqui.
Sasuke a censurou com o olhar.
— Eu sei o que é um cachecol. Quero saber por que está me oferecendo isso.
— Porque é um presente. Uma gentileza — insistiu, emburrada, empurrando o cachecol contra ele. — As pessoas costumam demonstrar gentilezas para com os próximos de vez em quando. Eu percebi que você tem sofrido com o frio mais do que os outros, Sasuke-sama. Então, pedi um cachecol que estava sobrando ao Yusuke-kun, e ele me cedeu. Agora, estou dando-o a você porque não tem nenhum.
O gesto pegou-o de surpresa, até mesmo sensibilizou-o um pouco.
— Por que está sendo gentil comigo?
A voz de Hikari não tremeu ao respondê-lo.
— Tem uma aura triste e solitária à sua volta. Só desejo dispersá-la, mesmo que temporariamente.
Hesitante, ele tocou as pontas dos dedos no tecido grosseiro do cachecol. Era macio e quente de um tom escuro de cinza. Sasuke o pegou das mãos dela com um aquiescer da cabeça.
— Sua professora provavelmente não gostaria de saber que você está conversando comigo.
— A Sakura-sensei não gosta de demonstrar, mas ela também está sofrendo com essa situação. Ela acha que precisa ser forte o tempo todo pelo nosso bem, mas eu vejo através dela — Hikari afirmou. — Como vejo através de você, Sasuke-sama.
Depois disso, ela se virou e partiu pelo corredor. Sasuke esfregou o polegar na textura aveludada do cachecol e sorriu sozinho, desenrolando-o e enrolando-o ao redor do pescoço. Então passou pela porta da frente e balbuciou algumas palavras de agradecimento à Kumiko, a anfitriã, pela hospitalidade sob o olhar atento das crianças dela.
Todos os outros já estavam lá fora, e o esperavam para partir. O ar frio da madrugada ardeu na pele do seu rosto, mas, graças à Hikari, sua nuca e pescoço estavam aquecidos agora. Ele pensou ter sigo observado por Sakura por um momento, mas o olhar foi breve demais e, no fim, não soube dizer se ela o olhou com reprovação ou não.
Por fim, ela se curvou numa reverência à mulher parada sob a varanda, cheia de gratidão pela hospitalidade da qual desfrutaram nos últimos dias:
— Kumiko-san... Obrigada. Obrigada por nos acolher.
— Não precisa me agradecer, Sakura-san — ela respondeu, abafando um riso delicado com a mão. — Sempre estarei em dívida contigo por haver salvado as vidas das minhas crianças.
Kaya e Kaito tinham os olhos marejados. Agarravam com força as roupas da mãe, fungando enquanto olhavam para a mulher esbelta cheios de afetos e já de saudades.
— Venha nos visitar mais vezes, Sakura-chan! — a menina encorajou, e o menino juntou-se a ela num coro choroso.
— Sim, Sakura-chan! Prometo até que vou me comportar e obedecer à mamãe se voltar aqui mais cedo!
— Prometo que tentarei — disse com um sorriso encabulado.
Então ela lhes deu as costas, e foi copiada pelo restante do grupo. Afastaram-se da casa, pisando na neve e, no segundo seguinte, saltaram, ganhando velocidade numa corrida acelerada. Sakura ia à frente, guiando-os em direção às montanhas tempestuosas.
O frio da região acompanhou-os a todo o momento, não os abandonava, mas, envoltos nos seus mantos, eles avançaram através de uma trilha serpenteante, orlada por uma elevação coberta de neve de um lado, e por uma ravina enlameada que daria numa floresta de pinheiros do outro.
Resfolegavam no ar congelante conforme a manhã ia se concretizando, empurrando o que restava de escuridão da madrugada para longe do horizonte pálido como leite. O sol começou a despontar muito timidamente por trás dos picos irregulares das montanhas, no leste, mas sua luz logo foi suplantada por uma grossa camada de nuvens violáceas, tornando aquele mundo já sombrio um pouco mais escuro.
Logo, Sasuke avistou as montanhas entre as quais eles passariam mais de perto. Eram grandes elevações, monstruosas na realidade, cujos picos estavam encobertos por uma nevasca intensa. A mesma nevasca que os atingiu assim que eles alcançaram o perímetro da garganta rochosa.
Ali, a vegetação tornou-se mais esparsa e rasteira. As rochas se projetavam para cima por quilômetros, por vezes alargadas, por vezes estreitas demais, fechando-se à volta deles como paredes sólidas e inescapáveis. Uma vez que chegaram à garganta rochosa, o plano de Sakura foi posto em ação: Sai invocou um pássaro gigante de tinta e um clone, deixando-o com o grupo antes de subir no dorso do animal com Ino para que pudessem ter um alcance maior no campo de visão. O restante do grupo permaneceu no chão, viajando pela trilha estreita e passando pelo meio das montanhas.
— Mantenham os olhos bem abertos, não sabemos se Shinobis leais ao Chikage poderiam nos seguir até aqui! — Sakura comandou aos subordinados, que aquiesceram em uníssono.
A nevasca se intensificava a cada minuto, ou pelo menos essa foi a impressão de Sasuke; o vento forte empurrava-o na direção contrária a que deveria seguir e flocos de neve eram soprados contra os seus olhos insistentemente ainda que o capuz do manto lhe fornecesse alguma proteção.
Mesmo com o frio, ele forçava os músculos das suas pernas a manter o ritmo da corrida, aquecendo-os e aquecendo o restante do seu corpo. Olhou para cima e tentou enxergar o pássaro de tinta de Sai sobrevoando-os, mas a nevasca impossibilitava-o de enxergar muito além. Talvez se ativasse seu Sharingan ele obtivesse êxito, mas desde o acontecimento da outra noite estava receoso de recorrer ao dōjutsu. A última coisa que precisava no momento era ser transportado para a outra realidade ou ter de confrontar a sua versão daquele mundo — ele antecipava e temia ambos ao mesmo tempo.
O clone de Sai corria junto a eles, relatando à Sakura o que quer que conseguisse enxergar lá de cima com a ajuda das habilidades sensoriais de Ino. Sasuke queria estar preparado para quaisquer eventualidades, por isso deixou a espada pronta para ser desembainhada. Não tinha certeza se, nas atuais circunstâncias, ele ou Sakura seria o alvo prioritário do Chikage, então não descuidou dela também, vigiando a sua retaguarda mesmo que ela, provavelmente, fosse respondê-lo com raiva caso viesse a saber disso.
— Sai, relatório! — ela pedia de tempos em tempos, virando o rosto para fitá-lo; os cabelos eram selvagemente afastados dos olhos verdes em brasa e do rosto esculpido em gelo.
— Nenhuma anormalidade até o momento — ele reportou pela terceira vez na última hora, abrandando momentaneamente a preocupação do grupo com uma possível emboscada.
— Continue a averiguação e me dê uma posição a cada meia hora! — Sakura urgiu.
— Hai, Hokage-sama! — Sai respondeu.
Seguiram viagem por quase mais dez quilômetros, avançando cada vez mais para dentro da garganta formada pelas montanhas nevadas. Sai reportou a situação a cada meia hora, como lhe foi ordenado pela sua líder. Ele e Ino continuavam invisíveis lá em cima, sobrevoando a formação rochosa no dorso de um grande pássaro de tinta.
Sasuke manteve o ritmo, acompanhando o grupo o tempo inteiro. Era o último na ponta de trás da formação, logo após Shikamaru e Chouji, e era o responsável por cuidar da retaguarda do grupo. Mantivera-se vigilante durante a viagem inteira, atento a cada movimentação nos arbustos que se agarravam às pedras ou nas reentrâncias e saliências que eram formadas pelas rochas.
Os seus demais sentidos de Shinobi precisavam compensar constantemente a pouca visibilidade devido à nevasca. Felizmente, sempre tivera bons instintos mesmo que não possuísse as habilidades sensoriais da Yamanaka. Mas apesar de toda determinação do grupo, avançar durante uma tempestade de gelo não era fácil. Sasuke acreditava que a nevasca lhes fornecia uma cobertura conveniente ao mesmo tempo em que quase os cegava para a presença de inimigos escondidos por mais que Ino e Sai vasculhassem a região à frente deles. Fazia-o perguntar o que Sakura realmente pretendia e por que os comandara a viajar naquelas condições desfavoráveis.
De repente, o clone de tinta de Sai correu mais rápido, deslocando-se do meio do grupo para mais perto de Sakura.
— Ino localizou duas presenças à frente, Hokage-sama!
Sasuke ficou mais atento depois de ouvir essa informação sendo gritada sob o rugido do vento nos seus ouvidos. Olhou à sua volta, vasculhando o terreno, mas não encontrou absolutamente nada fora do comum.
— Quantos quilômetros adiante? — Sakura indagou.
— Dois quilômetros. Não estão se movendo.
— Então morderam a isca — ela comemorou, exultante, surpreendendo Sasuke. Virou-se para o restante do grupo: — Seguiremos com o plano! Nós os interceptaremos em dez minutos, estejam todos preparados para a abordagem!
— Hai, sensei! — o time dela respondeu de imediato.
Mesmo Shikamaru e Chouji aquiesceram, acatando a ordem. Sasuke trincou o maxilar quando percebeu que havia sido ludibriado e que informações importantes foram omitidas dele de propósito. Lembrou-se da reunião da outra noite, de como Sakura tinha hostilizado a sua presença no cômodo, e de como Shikamaru e Chouji tinham reagido — o primeiro com relutância, e o segundo com certa timidez. Tudo fazia sentido agora. Sakura tinha mentido para ele.
Com raiva, Sasuke aumentou a velocidade, avançando pelo grupo até alcançar Sakura, na dianteira. Contornou-a, posicionando-se no caminho dela a fim de impedi-la de continuar.
Sakura parou de repente, e todo o grupo parou junto a ela. Sasuke não fez menção de sair da frente dela, o que a irritou. O vento uivava cada vez mais alto ao redor deles.
— O que pensa que está fazendo?! — ela bradou. — Saia do meu caminho!
— Você mentiu para mim. — A acusação dele não foi feita aos brados, muito pelo contrário: pronunciou cada palavra numa meia voz constante, porém ainda carregada de indignação.
— Não me lembro de ter prometido que lhe anunciaria cada passo e cada decisão que eu tomasse — Sakura rebateu visivelmente nervosa. — Você não se provou digno da minha confiança ainda. Queria que eu fizesse o quê?! Que me atirasse aos seus pés com um sorriso e lhe contasse cada detalhe dos meus planos?!
Sasuke voltou a cerrar os dentes.
— Você disse que confiaria em mim.
— E estou tentando — garantiu num tom firme. — O fato de que continua respirando e que permiti que você nos acompanhasse já é mais do que poderia pedir. Pergunte a qualquer um se eu não estou assumindo riscos demais ao permitir que você nos acompanhe; um nukenin — pronunciou a palavra com dificuldade, através de dentes cerrados — procurado em todas as nações Aliadas por tantos crimes, incluindo o assassinato de cinco Kages e de um herói de guerra... O que você espera que eu faça? Agora, saia do meu caminho.
Ele ignorou a ameaça implícita na voz dela.
— Não até que me diga o que está planejando.
— Como se eu fosse simplesmente te dizer. Está nos fazendo perder tempo! Não ouviu o que Sai reportou?! Há dois Shinobis de Chigakure nos esperando, acreditando que vão nos pegar numa emboscada. Só que nós vamos pegá-los primeiro.
Sasuke trocou o peso de uma perna para a outra, fincando os pés na neve. A atitude insolente enervou Sakura ainda mais.
— Se quiser a minha ajuda terá de compartilhar informações comigo — ele declarou com obviedade. — Não estou me recusando a ajudar vocês e tem de reconhecer que as minhas condições são bastante justas.
Uma tensão palpável começou a crescer entre o grupo. Shikamaru e Chouji se entreolhavam, confusos, sem saber de quem deveriam tomar partido. Os alunos de Sakura dividiam reações: os garotos censuravam a audácia de Sasuke, olhando-o com raiva, mas a garota sentia compaixão por ambos. O clone de tinta de Sai não esboçava reação ante a situação desagradável.
— Está questionando a minha autoridade como líder dessa missão e como líder de toda a vila — Sakura sibilou através dos dentes cerrados.
— Agora eu devo te lembrar de que não sou um Shinobi filiado à Konoha — ele respondeu, não insolentemente mas também não demonstrando qualquer indício de subordinação. — Mesmo no meu mundo em que ajo de acordo com os interesses da Aliança e do Hokage, tenho total autonomia para decidir os meus próprios passos.
Sakura franziu o cenho, nem um pouco confortável com a situação. Mas por mais que detestasse a ideia sabia que precisaria da ajuda dele e das habilidades excepcionais de combate que apenas ele possuía. Como líder de toda uma vila, estava ciente de que os seus sentimentos pessoais jamais deveriam ficar no caminho do seu julgamento e dos interesses do país do Fogo. Ela sabia disso tudo e, ainda assim, relutava em acatar as condições de Sasuke.
— Vai ter que confiar em mim, Sakura — ele reiterou resoluto, com mais suavidade, a voz grave fazendo-a estremecer de forma involuntária sob o manto de inverno. — Eu não sou seu inimigo.
Sakura averteu os olhos, abaixando-os para a neve no chão que o vento feroz revolvia, observando os flocos alvos espiralarem ao redor dos seus pés por um momento. “O que o Naruto faria no meu lugar?”, gostaria de se perguntar, mas já tinha a resposta na ponta da língua, só não gostava do sabor que ela deixava na sua boca.
Naruto está morto, uma voz fria sussurrou de algum lugar de dentro dela, alimentando os seus piores medos e fazendo-a lutar ainda mais contra a ideia de confiar no homem diante dela. Sakura sacudiu a cabeça, fitou-o por um segundo e então voltou a evitá-lo.
Ele tinha o rosto de Sasuke, falava como Sasuke, agia como Sasuke, mas, de alguma forma — tinha de reconhecer —, havia uma aura completamente diferente ao seu redor.
Sakura só não queria admitir, mas estava se apegando àquele rancor, àquela mágoa apenas para se proteger e proteger seu coração. A dor da traição estava fresca demais, mesmo depois de tantos anos. O sangue de Naruto e de sua mestra não esfriara nas mãos dele.
Quem é você?, ela tinha vontade de perguntar àquele homem tão estranho e tão familiar ao mesmo tempo. Eu te conheço? Alguma vez cheguei a te conhecer de verdade? Conhecer o seu coração? Interrompeu o fluxo de pensamentos, suspirando. O que estou fazendo?, questionou-se. O que estou realmente fazendo? De repente, nada mais fazia sentido para Sakura, e ela se sentiu uma tola por estar parada ali, no meio de uma nevasca, com os olhos escuros de Sasuke fitando-a, esperando para que tomasse uma decisão.
Fechou os olhos, recompondo-se. Sou uma líder agora. Devo agir como uma, lembrou-se. Ah, Naruto, se ao menos você estivesse aqui. Jamais imaginou que teria o fardo de um Hokage colocado sobre os seus ombros, esse não havia sido o seu sonho, havia sido o sonho de Naruto. Mas Naruto não estava mais ali e havia pessoas contando com ela, dependendo dela. Teria de deixar os próprios sentimentos de lado. Teria de sobrepujar os próprios medos. Precisava ser forte como sua mestra havia sido, precisava ser indulgente como Naruto havia sido.
Quando abriu os olhos, nada havia mudado e, ao mesmo tempo, tudo estava diferente. Sua percepção tinha se alterado, contudo. Talvez tivesse começado a ver aquele Sasuke menos como um inimigo e mais como um aliado. Seu coração não estava pronto para confiar nele completamente outra vez, mas a parte racional dela estava disposta a colaborar e sobrepujar aquele medo de ser traída que ameaçava dominá-la sempre que estava na presença dele.
— Muito bem — disse, finalmente, rompendo o silêncio. — Vou aceitar a sua condição, mas em troca quero que não omita informações de mim também. Vamos estabelecer uma parceria aqui e agora. Você afirma que age com autonomia, mas deve entender a minha posição como líder. Existem pessoas que dependem de mim, pessoas que confiam no meu julgamento. Estou te concedendo o benefício da dúvida, não traia a minha confiança outra vez.
— Estamos todos trabalhando pelo mesmo objetivo — Sasuke anunciou.
— Estamos perdendo tempo na verdade — Shikamaru se interpôs, dando um passo adiante e se colocando ao lado de Sakura. — Os Shinobis leais ao Chikage esperam nos emboscar e eles vão desconfiar se continuarmos aqui, discutindo trivialidades.
Sakura olhou do rosto dele para o de Sasuke.
— Eu vazei informações de propósito para um dos informantes do Chikage há uma semana quando estava numa cidade a oeste daqui. Deixei que entreouvisse a minha conversa com o meu time, revelando a ele que rota usaria para chegar ao local da Cúpula e quando o faria — ela disse num só fôlego. — Sempre tive a intenção de emboscá-los nesses penhascos. Como bem sabe, tenho vantagem nesse tipo de terreno. Dois dias atrás, planejei os últimos detalhes da minha armadilha com a ajuda do Shikamaru — indicou para o homem soturno estagnado ao lado dela.
— Conhece os Shinobis que nos esperam? — Sasuke indagou, relaxando uma vez que começava a se inteirar da situação.
— Tenho uma vaga ideia de quem sejam — ela disse, pragmática. — Venho estudando as habilidades da Guarda Escarlate por meses, informando-me sobre as suas identidades e habilidades, muito embora as informações ainda sejam bastante escassas. — A última parte soou mais como uma queixa.
Sasuke aproximou-se dela, cada passo deixando pegadas profundas na neve alva. O vento agitava seu cabelo negro, jogando-o de encontro aos seus olhos sóbrios, e empurrava o manto para longe do seu corpo.
— Quero que me conte tudo. Quem eles são e quais habilidades possuem.
— Não ouviu o Shikamaru? Precisamos partir, e logo, ou vão desconfiar quando não passarmos pelo ponto que esperam nos emboscar na hora certa.
Ele não foi persuadido pelo argumento dela.
— Sugiro que seja breve então.
Sakura suspirou, mas se viu sem saída. Olhou para Sasuke ainda com um pouco de ressentimento. Embora esse sentimento estivesse começando a trepidar no coração dela, afrouxando por mais que ela não gostasse daquilo. Então contou a ele tudo o que sabia sobre os dois inimigos que os esperavam mais adiante.
— E o que sugere que façamos agora? — ela indagou depois de revelar a informação.
Ele não precisou pensar por muito tempo para respondê-la.
— Quero que confie em mim — Sasuke reafirmou. — E eu tenho outro plano.
Sakura franziu a testa, aturdida.
— Outro plano?
— Sim. E se concordar em segui-lo, poderemos emboscar mais do que os dois subordinados do Chikage. Poderemos, até mesmo, descobrir a localização dele no país do Ferro e o que ele pretende.
Sakura apoiou as mãos na cintura.
— Muito bem, vá em frente. Conte-me o que tem em mente. Vejamos do que se trata o seu plano, Sasuke-kun.
○♦○
Na hora esperada, o grupo liderado por Sakura adentrou o perímetro marcado pelos Shinobis de Chigakure para a emboscada acontecer. A nevasca ainda estava intensa; o vento uivava e neve era soprada em todas as direções desde os topos ocultos das montanhas, que pareciam ser varridos pela ventania, até as bases sólidas da garganta.
O local escolhido para a armadilha era extremamente estreito, pouco mais do que um corredor de rochas sólidas pelo qual o grupo de Sakura conseguiria passar lado a lado apenas se se mantivessem bem próximos uns aos outros.
Uma vez que se inteirou de todos os detalhes, Sasuke reformulou quase todo o plano, oferecendo-se para realizar a maior parte deste. Tinha por objetivo enganar o Chikage e os seus subordinados. Mesmo se sentindo um pouco contrariada, Sakura acabou concordando com o plano que ele traçara por acreditar que, dessa forma, as chances de sucesso seriam maiores e — caso ele tivesse êxito — ninguém seria exposto ao perigo.
— Teremos mais chances de chegar em segurança às montanhas Três Lobos se seguirem o que estou dizendo — Sasuke usara todo o seu poder de persuasão para convencê-la, e no fim ela tinha concordado. Era mesmo um bom plano.
O sucesso da investida ainda dependeria da condição de poderem trabalhar em equipe, especialmente Sasuke e Sakura. Esta, inclusive, quem lideraria toda a operação.
Ela seguia na dianteira da formação, correndo adiante do grupo de oito membros. Seu time vinha logo atrás com Sai, enquanto Ino, Shikamaru e Chouji moviam-se na retaguarda. Estava atenta a qualquer movimentação suspeita. Esperava que, mordendo a isca do inimigo, forçasse-os a revelar suas posições.
De repente, todo o grupo parou. Um grande tremor começou desde o pico das montanhas, sacudindo-as e sacudindo o chão sob o qual pisavam. Uma grande quantidade de neve se desprendeu dos topos angulosos, deslizando terreno abaixo numa imensa avalanche que engoliu tudo no seu caminho, mesmo as árvores mais resistentes e antigas. À frente da avalanche, uma alcateia corria: lobos feitos de neve traziam a devastação montanha abaixo, não deixando dúvida a respeito de se tratar de um jutsu muito poderoso.
Os sons que os lobos e a neve descendo pelo despenhadeiro produziam era ensurdecedor, engolindo os uivos do vento enquanto detritos eram arrastados pelo mar de gelo.
— Cuidado! — Sakura mal teve tempo de avisar ao grupo antes que a avalanche os soterrasse, enchendo toda a garganta e soterrando-os debaixo de metros e mais metros de neve.
A avalanche avançou pelo corredor estreito como uma inundação e, depois de um tempo, houve apenas o silêncio ocasionado por uma grande devastação. Troncos de árvores partidos brotavam da superfície da neve, como se quebrados ao meio por uma mão gigantesca.
Não houve qualquer sinal de vida por algum tempo.
Quando o solo voltou a se estabilizar e o pior passou, duas figuras pousaram lá embaixo em meio a toda aquela destruição. Eram um homem e uma mulher, ambos vestidos de preto com trajes reforçados para aguentar as temperaturas baixas. Os hitaiates que usavam nas testas, entretanto, eram carmesins e traziam no centro a insígnia de Chigakure. O metal polido cintilava fracamente na baixa iluminação.
Os dois caminharam por alguns metros, averiguando o cenário caótico. O homem era alto e robusto e a mulher, baixa e esbelta. Tinham traços semelhantes como os cabelos lisos e compridos num tom de castanho-escuro — a mulher tinha os dela soltos enquanto o homem prendia-os num rabo de cavalo frouxo — e os olhos num pálido azul.
A mulher, de repente, parou e apoiou as mãos na cintura.
— Foi bem mais fácil do que eu pensei — comentou como se, no fundo, estivesse desapontada.
O homem esboçou um meio sorriso.
— O informante estava certo. Pegamos todos eles! — comemorou.
— O que é uma pena — ela queixou-se. — Esperava conseguir uma boa luta contra a pupila da Godaime Hokage. Há anos venho querendo dar uma surra naquela cadela prepotente.
— Poupe os seus insultos, Miyuki — o homem a censurou. — Não os gaste com os mortos.
— Não me dê ordens, aniki. Sabe que detesto — ela respondeu mal-humorada, olhando para o irmão mais velho com censura. — Bem, de uma forma ou de outra, está acabado para todos eles. Nosso trabalho está feito.
— Não há como nenhum deles ter sobrevivido à avalanche que causamos — seu irmão confirmou.
Miyuki afastou-se dele, caminhando alguns passos pela neve profunda com as solas dos pés envoltas em chakra a fim de impedi-la de afundar. A Kunoichi tinha uma desenvoltura notável, e uma postura tão elegante e rígida quanto a lâmina de uma espada. A neve sob os seus pés era úmida, fofa e fria, e ameaçava congelar os seus tornozelos envoltos em faixas brancas.
— Devemos retornar e relatar a situação ao Chikage-sama — ela propôs, soando ansiosa para sair daquele lugar e para se abrigar da tempestade violenta que rugia ao redor deles o mais depressa possível.
Os dois Shinobis aquiesceram um para o outro, então saltaram para longe do desfiladeiro arruinado. Desapareceram pela floresta de abetos que se curvavam ante a nevasca, as árvores dobrando-se e retorcendo-se sob a ventania incessante.
Enquanto se afastavam, contornando pinheiros, rochas cobertas de musgo, e pequenos arbustos, não se deram conta do par de olhos cintilantes que os observava da semiescuridão: um era vermelho-carmesim com uma flor de lótus gravado em negro no seu centro, o outro era lilás com padrões em espirais tomando todo o globo ocular. Seu plano tinha funcionado; os shinobis haviam caído no seu genjutsu.
Quinze minutos depois, após uma rápida averiguação de que os inimigos haviam mesmo partido, Sasuke abandonou o esconderijo, na borda do desfiladeiro, oculto à sombra profunda de um pinheiro coberto de neve, e saltou lá embaixo, aguardando que os outros se reunissem a ele.
Os primeiros a chegar foram Shikamaru, Ino, Chouji e Sai. As habilidades sensoriais de Ino haviam sido fundamentais para o sucesso do plano. Fora ela a determinar a posição exata do inimigo, escondido numa reentrância na rocha. Mas fora o estrategista Shikamaru quem orientou Sasuke sobre o melhor local — suficientemente seguro e fora de vista — para que pudesse se mover através dos portais e colocar a própria armadilha em ação, lançando o genjutsu e tecendo a sua teia ilusória na qual os aprisionara.
Em seguida, chegou o time de Sakura com Hikari, Yusuke e Toyoharu. Por último, a própria Sakura saltou para o desfiladeiro, pousando em meio a toda aquela neve e destroços carregados pela avalanche de mais cedo. O vento jogou o manto que ela usava para longe do corpo, descobrindo-a para a fúria glacial daquela nevasca. E, por um instante, ela estremeceu de frio.
Quando relanceou a Sasuke um olhar, contudo, a sua expressão transformou-se numa máscara austera. Seu cabelo agitava-se todo ao redor do rosto de feições duras como pedras de gelo. De repente, ela se virou para Sai:
— Seus pássaros estão seguindo-os?
O Shinobi confirmou com um aceno da cabeça.
— Não perderei os rastros deles. A nevasca está intensa o bastante para encobri-los e garantir que permaneçam quase invisíveis enquanto os seguem.
— Ótimo — ela aprovou. — Aqueles dois eram Taniguchi Miyuki e Taniguchi Yuki. Eles são mais conhecidos como os Dragões Gêmeos de Gelo e são extremamente perigosos. Há uma boa recompensa por cada um deles no Bingo Book. E, como já devem ter deduzido, ambos integram a Guarda Escarlate do Chikage. Imaginei que eles estariam aqui à nossa espera, mas confesso que não esperava que provocassem uma avalanche para nos matar.
Sasuke se aproximou dela, cada passo produzindo um som úmido devido a toda aquela neve.
— O plano funcionou. Eles estão indo em direção ao Chikage agora e nem sequer desconfiam de que estejamos no encalço deles. O que faremos? — ele indagou.
Sakura não hesitou ao respondê-lo.
— Agora usaremos a vantagem do anonimato a nosso favor. O Chikage pensa que nos emboscou e que nos matou. Isso pode deixá-lo confiante demais, e pessoas confiantes demais se tornam desleixadas e cometem erros. Além disso, a sua presença aqui será o maior trunfo de Konoha. O Chikage não desconfia de que você esteja no país do Ferro ainda e eu pretendo mantê-lo ignorante por mais um tempo.
Ela se virou para o trio Ino-Shika-Chou com uma expressão determinada.
— Vocês irão com o Sai, continuarão a seguir os gêmeos que tentaram nos emboscar nesse desfiladeiro. Descubram o paradeiro do Chikage nesse país e, se possível, o que ele planeja durante a Cúpula dos Kages. Permaneçam fora de vista e de perigo. Evitem confronto e só travem uma batalha se forem descobertos e se provar estritamente necessário. Reúnam-se a mim novamente em dois dias nas montanhas Três Lobos.
— Hai, Hokage-sama! — disseram em uníssono.
Sakura se virou então para o seu jovem time com um sorriso leve.
— Quanto ao restante, virão comigo para as Montanhas Três Lobos e me acompanharão durante a Cúpula dos Kages. São minha responsabilidade, afinal.
— Nós te protegeremos, sensei! — prometeu Hikari, empolgada.
— Seremos os melhores guarda-costas de que já se ouviu falar — ecoou um dos garotos, confiante.
Sakura aquiesceu para eles. Por fim, dirigiu-se a Sasuke.
— Você também virá comigo. — Ela suspirou. — O mais certo é que o Chikage tentará alguma coisa durante a Cúpula, portanto, quero você presente durante toda a reunião. Não por mim, mas por todos os outros líderes que participarão.
Sasuke comprimiu os lábios, mas não a retrucou, acatando o comando daquela vez.
— Muito bem. Faremos do seu jeito — concordou. — E quando o Chikage estiver em minhas mãos eu o derrotarei.
— E com isso você poderá voltar ao seu mundo — completou por ele; Sasuke se perguntou se começava a parecer previsível demais para ela. — O que estamos esperando então? — dirigiu-se a todos. — Já sabem o que devem ser feito. Aconteça o que acontecer, nos reuniremos nas Montanhas Três Lobos em dois dias.
Eles concordaram uma última vez e então se foram, deixando o desfiladeiro para trás. Uma nevasca que não arrefecia acompanhou-os o tempo todo enquanto se separavam e partiam em direções opostas: o grupo de Shikamaru se virou para o leste, tratando de seguir os pássaros de Sai, que por sua vez seguiam os rastros dos dois irmãos.
Já o grupo de Sakura continuou em direção ao norte sem desvios. Ao longe, as Montanhas Três Lobos aguardavam a todos; lá os seus caminhos voltariam a convergir, ou era nisso que ela apostava.
Tsunade-sama, Naruto, olhem por mim, ansiou, apertando um punho contra o peito. Estou dando a ele o benefício da dúvida, estou confiando em Sasuke-kun uma vez mais. Não tinha mais tanta certeza se isso ainda fazia dela uma tola ou uma ingênua. Seu coração começava a se convencer — por mais que ela ainda relutasse contra aquele sentimento familiar — de que não se tratava de nenhum dos dois casos.
Quem era aquele homem?, ela ainda se perguntava enquanto o ouvia correr ao seu lado. Achou que tinha a resposta, mas descobriu que estivera enganada. Aquele não podia mesmo ser o Sasuke que ela conhecera. Não o Sasuke que a ferira tão profundamente.
E aquela súbita certeza a inquietava.
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