Dark Dawn
18 Capítulo 18: Trégua
Notas iniciais
Capítulo 18:
Trégua
○♦○
ACORDOU COM UMA SENSAÇÃO de leveza correndo pelo seu corpo, relaxando cada músculo tensionado e diminuindo a frequência dos seus batimentos cardíacos. Um calor agradável espalhava-se pelos seus membros, alcançando até mesmo as pontas dos dedos dos pés e da mão.
A dor se fora, assim como o ardor no olho direito. Tudo o que sentia era paz. Lembrava-se bem dessa sensação gostosa de aconchego e de acolhimento. Sentira-a tantas vezes no passado. A cada vez que Sakura usou o seu ninjutsu médico para anestesiar a sua dor e curar seus ferimentos. Era o chakra dela agindo no seu corpo, não havia dúvida. Nada no mundo se comparava a isso.
Abriu os olhos e encarou o céu limpo, a lua cheia grande e brilhante. Virou o rosto e a face dela estava logo acima, pairando sobre ele, praticamente engessada numa máscara de seriedade e compenetração. A mão dela estava pousada sobre o seu peito, envolta por uma aura esmeraldina típica do jutsu da palma mística. E era ela a responsável pela sensação de bem-estar que tomava Sasuke.
— Já acordou? — ela indagou, descendo os olhos pelo rosto dele.
— Aa — ele conseguiu reunir forças para concordar.
— Já estou acabando. Fique quieto até lá — advertiu-o com um franzir do cenho.
A voz dela era uma melodia suave na noite silenciosa e invernal. A neve encharcara as roupas de Sasuke, mas, de algum modo, o frio não o alcançava, não ali, não agora.
— Por quê? — Sasuke quis saber depois de um momento de profunda contemplação; não fazia sentido para ele que Sakura acabasse curando-o, não depois de todas as palavras frias que lhe disse.
Ela suspirou, pareceu-lhe cansada.
— É contra os meus princípios ver uma pessoa desfalecer em agonia e não interferir, não importa quem seja — justificou-se, olhando-o de esguelha. — Mesmo que essa pessoa seja você.
Por fim, a mão dela parou de enviar chakra para o corpo dele e se afastou de repente, abandonando-o. Sasuke descobriu que já conseguia se sentar. Estava um pouco tonto, mas a sensação de mal-estar não passava de um incômodo passageiro.
— O que houve com o seu braço esquerdo? — ela perguntou depois de um momento.
Ele abaixou os olhos até a manga da sua blusa; não usava o manto de inverno por cima das roupas pela primeira vez, então só agora ela era capaz de notar a ausência de um dos seus membros, o braço que terminava um pouco antes do cotovelo.
A resposta veio naturalmente para Sasuke.
— Eu o decepei.
Não olhou para trás para verificar se a havia chocado, muito embora o silêncio dela pudesse ser um indicativo de qualquer emoção menos choque. Ele se colocou de pé então, testando o próprio senso de equilíbrio e a estabilidade nos pés. Atrás dele, Sakura também se levantou, limpando a neve das roupas.
A lua cheia tornava a neve sob eles ainda mais alva e incidia sobre a camada de gelo que cobria o grande lago. Não se ouvia um único som, nem mesmo os lamentos do vento ou o farfalhar dos pinheiros nos fundos da casa.
— Vai me dizer o que foi que aconteceu?
Hesitou em contar a verdade a ela. Um dos principais motivos era que nem ele mesmo entendia o que estava acontecendo. Aquela havia sido apenas a segunda ocasião em que era, de alguma forma, transportado para o mundo ao qual pertencia, muito embora acabasse preso no próprio corpo com o outro Sasuke.
Ante o silêncio relutante dele, ela suspirou.
— Se eu tivesse de supor, diria que tem a ver com o seu Sharingan. Estou enganada?
Sasuke se virou para encará-la, mas nesse momento ouviram passos na neve. Os dois se volveram a tempo de ver Shikamaru se aproximar, recuando das sombras e adentrando a luz do luar.
— O que foi essa comoção toda de agora pouco? — perguntou enquanto massageava o pescoço. — Vocês me acordaram.
— Não foi nada — Sakura afirmou para a surpresa de Sasuke.
Ela passou por ele, e depois por Shikamaru, deixando leves pegadas na neve com as suas botas.
— Voltem a dormir vocês dois.
Quando desapareceu por trás da casa, Shikamaru se focou em Sasuke.
— Aconteceu alguma coisa que eu deva saber?
— Iie — negou, e se afastou pela mesma direção que Sakura seguira antes.
Ouviu Shikamaru resmungar e chamar ambos de complicados antes que se afastasse por completo. Mas não havia nada que pudesse ser feito com relação a isso. Sasuke não tinha certeza se poderia compartilhar a experiência tenebrosa que tivera momentos atrás, e Sakura tomara a iniciativa e escondera tudo de outro membro da sua equipe, inclusive que tinha curado Sasuke.
Não era capaz de entender por que ela fizera isso em primeiro lugar, mas estava grato de qualquer maneira. Uma vez sozinho, encostou-se à parede e cerrou um punho, fitando-o, pálido, sob o luar.
— Sarada — sussurrou o nome da filha num apelo cheio de medo.
Precisava retornar depressa ao seu mundo, não havia como prever o que seu outro eu faria uma vez que estivesse livre. Não confiava nele, especialmente perto de sua família e à solta na vila. Tinha de se apressar.
O tempo continuava contra ele.
○♦○
O alvorecer naquela região era um espetáculo digno de nota. Sasuke o vira no dia anterior quando chegaram, mas testemunhá-lo depois de ter atravessado a escuridão da noite — bem como os horrores que viveu — trouxe um novo tom ao acontecimento, uma nova cor.
A luz do sol refletindo-se sobre o gelo nos picos das vastas montanhas que cercavam o vale tinha um efeito quase incomparável, além de fazer derreter a neve que se acumulara nos pinheiros. Para completar, amanheceu mais um dia claro, com um céu azul limpo de nuvens e todos encararam o feito como um bom presságio.
Depois de tomar o desjejum na companhia dos outros, muito embora se sentisse mais isolado do que nunca, Sasuke decidiu que precisava respirar um pouco de ar fresco. Assim, saiu pela porta e pisou na neve úmida, envolto no seu manto outra vez.
Os horrores da noite anterior continuavam presentes na sua mente, alimentando o seu medo e o seu desespero. Cenários preocupantes passavam pela sua cabeça a cada hora: seu outro eu escapando da prisão em Konoha, ferindo pessoas inocentes, ferindo pessoas com as quais ele se importava, chegando cada vez mais perto de sua família e de Naruto, repetindo o feito de matá-lo no seu mundo.
Perdido nas próprias angústias, vagou pelo local até que ouviu os sons de risadas. Parou e contemplou a cena diante dele: os três alunos de Sakura se divertiam com toda aquela neve, atirando bolas frias e úmidas uns nos outros sob a supervisão da professora.
Na realidade, eram Hikari e um dos garotos — chamado Toyoharu se sua memória não falhasse — quem atiravam, entre risos e gritos de guerra, bolas de neve um no outro e no seu parceiro emburrado, o outro garoto chamado Yusuke. Hikari era a mais animada dos três. Fazia grandes bolas de neve, lançava-as nos parceiros e se esquivava com graça quando tentavam revidar.
Sasuke se aproximou mais, curioso com a cena, e colocou-se ao lado de Sakura, que notou a sua presença de imediato, mas preferiu não demonstrar nenhuma reação quanto à sua proximidade. Desde o acontecido do dia anterior, vinha deliberadamente se movendo com mais cautela ao redor dela para não fazê-la erguer a guarda ainda mais. Os olhos verdes dela seguiam os alunos com afeto e atenção.
— Eu não agradeci pelo que fez por mim ontem à noite — Sasuke disse à meia voz para que apenas ela o escutasse, mantendo a conversa privada dos ouvidos de terceiros; já era ruim o bastante que ele estivesse em dívida.
Sakura apartou os lábios e exalou longamente no ar congelante.
— Não há necessidade de me agradecer. Já expliquei os meus motivos para ter interferido. O que eu fiz por você, teria feito por qualquer outra pessoa. Não precisa encarar o meu gesto como qualquer outra coisa.
Ela o olhou de viés então, um olhar perfurante.
— Sabe que a sua recusa em me contar o que houve não está contribuindo para que eu acredite na sua história, não é?
— Aa — ele concordou. — Estou perfeitamente consciente disso.
— E ainda assim continua retendo informações para si mesmo. Você não mudou nada em todos esses anos, Sasuke-kun.
O nome dele, soando através dos lábios dela e na sua voz suave, surpreendeu ambos. Sakura enrijeceu cada músculo do seu corpo esbelto. Cruzou os braços e enterrou as unhas na própria carne como uma espécie de autopunição por haver recorrido a um velho hábito que ela preferia esquecer.
— Não, eu não mudei muito — Sasuke concordou depois de um momento em silêncio. — Mas me libertei de tudo o que me aprisionava e que me impedia de encontrar a felicidade ao lado daqueles que são preciosos para mim.
Sakura comprimiu os lábios, mas não disse mais nada. Os alunos dela continuavam a atirar neve uns nos outros. Hikari, num movimento perfeito, esquivou-se de uma bola lançada por Toyoharu e contra-atacou com a bola que tinha na mão, acertando-o em cheio no rosto.
O som do riso dela pareceu ter abrandando a expressão rígida na face de Sakura.
— Sensei, olha, olha! — ela chamou pela professora, pedindo que prestasse atenção ao infortúnio do garoto que espanava neve do cabelo e das roupas, emburrado.
— Muito bem, Hikari-chan! — Sakura a elogiou, batendo palmas para o seu desempenho, e acabou arrancando mais sorrisos da garota.
Isso até o instante em que Yusuke a surpreendeu com uma bola de neve em cheio no rosto, vingando-se pelo amigo. Hikari ficou estupefata num primeiro momento, mas assim que se recuperou riu ainda mais alto, com neve derretendo nos longos cabelos lilases.
— Ela é órfã, sabia?
Sasuke se virou para Sakura com uma expressão atônita. Ela suspirou no ar frio da manhã que transformava a respiração de ambos em fumaça branca. Respondeu-a com um silêncio contemplativo, o que permitiu que ela prosseguisse com o monólogo.
— A história dela... Me lembra um pouco da sua. O clã Fukuda foi massacrado quando Hikari ainda era uma criança, e ela precisou fugir e se refugiar num país distante e estranho para poder recomeçar. Eu sei que há muita dor e muita tristeza aprisionadas dentro do coração dela, mas em vez de se entregar ao medo ou à raiva, Hikari escolheu trilhar o caminho do amor. Existe uma pureza nela que mesmo a escuridão desse mundo não conseguiu corromper.
“Quando eu soube quem ela era e o que lhe fizeram... — Sakura balançou a cabeça, consternada. — Eu pedi para ser a sensei dela. De todos os três. Não pude fazer a diferença por Naruto ou por você — Sakura acrescentou relutantemente — no passado, mas jurei que faria a outras crianças. Jurei que daria a elas uma perspectiva, um futuro para o qual pudessem olhar com esperança.
Sasuke se remexeu, visivelmente desconfortável com a confissão dela.
— Por que está me contando isso?
O rosto dela se tornou abatido, então confuso.
— Eu não sei — admitiu. — Talvez só queira te dizer que reconheço os meus fracassos, e as consequências que eles trouxeram para o Time 7.
— Você não fracassou comigo. Ou com o Naruto — Sasuke se adiantou na esperança de oferecer algum conforto para a dor crua que enxergava no semblante dela. Virou o corpo completamente na sua direção, mas a postura de Sakura permaneceu a mesma: rígida como uma estátua.
— Fracassei sim — reiterou e, depois, finalizou num murmúrio. — De várias formas. É assim como eu me sinto, pelo menos.
Antes que pudesse dizer alguma coisa, Sakura se afastou dele para ir se juntar aos alunos, e foi cercada por eles quase instantaneamente.
Sasuke percebeu que queria saber mais coisas sobre aquela Sakura. Queria perguntar quando ela havia se tornado uma sensei, mas acreditava que não tinha direito a isso e não gostava da possibilidade de soar invasivo. Mas era interessante observar a dinâmica dela com o trio. Eles obviamente a idolatravam como professora, respeitavam-na imensamente como Kunoichi e a amavam, acima de tudo.
Talvez ela houvesse encontrado uma forma de se refazer depois de todo o sofrimento que passou. Sempre havia sido uma pessoa emocionalmente forte, que se reerguia não importava quantas vezes a vida a derrubasse. Aquele seu aspecto jamais mudaria e, por isso, ele estava grato. Sakura merecia ser feliz, merecia estar rodeada por pessoas que a amassem. Muito embora nada pudesse apagar as cicatrizes deixadas no seu coração.
Pois, naquele mundo, Uchiha Sasuke jogou fora a sua oportunidade de fazer parte da vida dela.
Mais tarde, Sasuke voltou a matar tempo na floresta nos fundos da casa. Acomodou-se num tronco velho caído, desembainhou sua espada e colocou-se a limpar a lâmina meticulosamente, usando uma perna dobrada como apoio para a empunhadura.
Lá permaneceu até que o último facho de luz desaparecesse por trás da abóboda intricada de árvores. Era difícil admitir, mas se sentia melhor sozinho, por enquanto. Sua cabeça estava cheia demais e ele havia decidido que não contaria a ninguém as estranhas experiências que vinha tendo.
No dia seguinte, partiriam bem cedo dali em direção ao local onde a Cúpula dos Kages aconteceria, nas montanhas Três Lobos, atravessando uma passagem por entre as montanhas que era a melhor aposta de Sakura contra possíveis armadilhas do Chikage.
Sasuke não tinha boas lembranças daquele lugar. Há mais de quinze anos, aquelas montanhas simbolizaram o princípio da sua derrocada, o momento em que verdadeiramente começou a sucumbir à própria escuridão. Ali, tinha enfrentado os Kages, matado samurais que só buscavam servir o seu país e tinha chegado bem perto de morrer várias vezes.
Perto do fim da tarde, voltou a nevar na região e o céu escureceu, atraindo nuvens pesadas e cinzentas que encobriram o que ainda restava de luz diurna. A floresta tornou-se quieta ao redor de Sasuke, exceto pelo som do vento sussurrando nas árvores não se ouvia mais nada. Depois de ter passado praticamente o dia inteiro isolado, ele se levantou, embainhou a espada e seguiu em direção à casa de Kumiko.
Foi interceptado pelo cravar de uma shuriken — uma estrela de metal de quatro prontas bastante afiadas — no tronco de uma árvore, a meros centímetros do seu rosto. Sasuke tinha-a percebido muito antes, mas não viu necessidade de alterar a própria trajetória, uma vez que a shuriken não colidiu contra qualquer outra coisa que não fosse o tronco da árvore mais próxima.
Sem fazer esforço — ou sequer olhar para o adversário —, ele esquivou de uma investida direta, jogando o peso do corpo para o lado. O garoto, Toyoharu, que investia com uma kunai na mão pousou em meio à neve e se recuperou depressa, tentando acertar Sasuke de qualquer maneira. Mas a diferença no nível de perícia e de velocidade era evidente, por mais que o garoto tivesse talento e habilidade.
Sasuke pulou para cima quando mais shurikens foram atiradas na sua direção, vindas pela sua retaguarda. Ele desapareceu em pleno ar e deixou os dois garotos confusos e aborrecidos por um momento.
— Aonde ele foi?! — Toyoharu, que ainda segurava sua kunai, indagou.
O outro garoto, Yusuke, aproximou-se e limitou-se a cerrar os dentes e a encarar a floresta ao redor deles com raiva. Vasculhou tudo num raio de dez, quinze metros, mas mesmo a presença de Sasuke havia desaparecido.
— Eu disse para ficar de olho nele! — Yusuke resmungou para o parceiro, que guardou a sua kunai e passou a recolher as suas shurikens.
— Ele era rápido, tá legal? — Toyoharu retrucou.
— Tsc, você que foi lento demais!
— Quê?! — o outro subiu o tom da voz. — Repete isso se tiver coragem, quatro-olhos!
Yusuke empurrou a armação dos óculos contra o rosto num gesto que tinha como único objetivo debochar do outro garoto.
— Eu disse que você foi muito lento. Teve pelo menos uma dúzia de oportunidades de atingi-lo e conseguiu errar todas!
— Você age como se fosse fácil — ele estalou a língua contra o céu da boca. — Mas pelo menos eu consegui chegar perto dele, você nem isso, quatro-olhos.
Yusuke bufou e cruzou os braços sobre o peito.
— Eu disse que tentar atacá-lo de surpresa era uma péssima ideia. Ele é o último membro vivo do clã Uchiha.
— Você não disse nada.
— É claro que eu disse — teimou. — Você que é cabeça-dura demais e, como sempre, não quis me dar ouvidos. A Sakura-sensei vai nos dar uma bronca quando descobrir que contrariamos as suas ordens e nos aproximamos do Uchiha.
Toyoharu colocou os braços para cima, entrelaçando os dedos e pressionando-os contra a nuca.
— Se você for um linguarudo e ir correndo contar para ela é claro que vamos levar bronca.
— Eu não gosto de mentir para a sensei — Yusuke respondeu num tom mais brando.
— É, nem eu, mas também não estou afim de ir correndo contar para ela que ataquei Uchiha Sasuke. Você a conhece quando ela fica brava, é mais assustador do que enfrentar dez Uchiha Sasuke.
Yusuke riu de repente, causando desconforto no parceiro de equipe.
— E por que você tá rindo agora?!
— É que fracassamos completamente — ele se justificou, ainda entre risos. — Nem sequer encostamos nele.
Toyoharu juntou-se a ele no riso então, admitindo que a situação era mesmo engraçada. Yusuke indicou para o amigo para que saíssem daquela floresta e para que voltassem à casa. Tinha voltado a cair neve àquela altura, flocos brancos e felpudos que se uniam para soterrar o solo da floresta e sufocar a vegetação.
— Anda, vamos voltar agora. Estou congelando aqui.
Os dois garotos se afastaram depois disso. Mesmo que estivesse sozinho outra vez, Sasuke permaneceu em silêncio, escondido na copa cheia de um cedro gigantesco. Tinha ouvido toda a conversa dos meninos e se sentido nostálgico da maneira mais estranha. Eles lhe lembravam de sua amizade com Naruto, na época em que ambos ainda não passavam de dois moleques que pensavam que entendiam a forma como o mundo funcionava.
Encostou a cabeça ao tronco áspero da árvore e suspirou. Desceu um tempo depois, pousando em meio à neve, e saiu da floresta. Chegou à casa de Kumiko a tempo para o jantar. Serviu-se de uma porção de udon com carne de porco e foi se sentar no canto mais distante e isolado da mesa enquanto os outros conversavam e já começavam a se despedir de todos os residentes daquela casa.
Kumiko foi gentil o bastante para lhe oferecer uma boa dose de sakê quente depois do jantar, servindo-o num copo pequeno de cerâmica. Sasuke foi apreciá-lo lá fora, na varanda, pois não se sentia confortável para ter companhia no momento.
O sakê estava suficientemente agradável e aqueceu seu sangue quando o tomou. A lua estava cheia de novo, lembrou-o do horror que viveu na noite anterior e precisou espantar os pensamentos sombrios da mente. Ainda assim, viu-se arrastado de volta para as suas aflições vez após outra. Havia momentos em que o silêncio que se fazia dominante ali o confortava, mas havia outros em que este apenas servia para fomentar o seu tormento.
Tinha tantas saudades de sua casa, do aconchego de sua esposa, da voz da sua filha. Estava se sentindo cada vez mais solitário, cada vez mais propenso a se entregar ao desespero que crescia dentro dele. E, ainda assim, lutava para se manter focado no seu objetivo. Só precisaria aguentar por mais um tempo, e então estaria longe daquele mundo e de volta ao lugar ao qual pertencia.
Só mais um pouco, confortava-se ao beber outro pequeno gole do sakê aquecido. A bebida começou a amargar na sua boca, então ele a deixou de lado, colocando o copo ainda meio cheio nas tábuas do chão. A porta da frente resvalou com um som suave; Sasuke se virou só para ver Sakura pisar na varanda, fechando a porta atrás dela.
Notou que trazia consigo um copo e um pequeno frasco de cerâmica com mais bebida apenas para si. Em silêncio, ela se aproximou dele, cada passo ressoando nas tábuas. Esperou que ela se sentasse ao lado dele ou que lhe dirigisse a palavra, mas nenhuma dessas coisas aconteceu.
Sakura se aproximou ainda mais, mas passou por ele, indo se acomodar na ponta da varanda, perto do desnível. Colocando o tokuri no chão, bebeu um gole de sakê, sozinha, olhando para a vastidão escura do céu diante dos seus olhos. Sasuke não estava com humor para discussões naquela noite, então a deixou com as suas próprias divagações. Pensou em se levantar e em ir dormir, mas então o som da voz dela o deteve, retendo-o onde estava:
— Achei que fosse te encontrar aqui... Sozinho — disse, sem se dar ao trabalho de fitá-lo enquanto se dirigia a ele.
Sasuke não respondeu nada, não havia o que ser dito. Não mais. Então deixou que o silêncio se aprofundasse entre ambos até o ponto em que se tornou algo incômodo, que, surpreendentemente, Sakura se propôs a quebrar.
— É estranho estar aqui na mesma casa que você depois de tudo o que aconteceu, parando para pensar.
Ele não repetiria as palavras dela, mas a situação era mesmo estranha, a começar pela sua presença antinatural naquela realidade. Mais do que estranha na verdade, era indesejável para Sasuke estar ali e ser forçado a ver que espécie de mundo a sua revolução criaria caso tivesse sido concretizada.
Ela se virou de repente, a luz prateada do luar traçando o seu perfil elegante.
— Todos continuam tentando me convencer a acreditar na sua palavra. Especialmente a Ino. Ela parece convencida de que o que viu na sua mente não se tratava de algum tipo de truque, de que você veio mesmo de outro mundo. E eu admito que o seu comportamento nos últimos dias tem me feito questionar algumas coisas.
— Eu não tenho por que mentir sobre isso. — A voz de Sasuke soou despida de emoções mesmo para ele, talvez tivesse começado a ficar entorpecido ou cansado demais de repetir os mesmos argumentos e as mesmas histórias.
— Sim, você nunca foi exatamente um mentiroso — Sakura observou num tom mordaz.
Quase a corrigiu, dizendo que, sim, houve mentiras que contou aos outros e, inclusive, a si mesmo. As mentiras que diziam respeito a ele ter cortado os seus laços com o Time 7, as mentiras que diziam respeito aos seus próprios sentimentos. Sasuke tinha fugido e negado cada um deles na época em que foi tolo o bastante para acreditar que eles o tornavam fraco.
— Mas nós não vamos chegar a lugar algum; estamos andando em círculos aqui — Sakura continuou enquanto despejava mais saquê no pequeno copo de cerâmica pintada. — Então, tomei uma decisão a seu respeito. Não é uma decisão definitiva, apenas algo temporário.
Sasuke não conseguiu conter a própria ironia.
— Vai confiar em mim?
— Apenas temporariamente — ela reiterou mal-humorada. — Pelo menos até que o Chikage seja derrotado. Não posso me dar ao luxo de recusar ajuda, mesmo que isso signifique confiar em você outra vez.
Os olhos verdes emoldurados pelos grossos cílios negros fitavam-no argutos, brilhando intensamente à luz prateada do luar. Era fácil reconhecer aqueles olhos, Sasuke percebeu, era o mesmo tipo de olhar que já vira na Sakura do seu mundo, na sua esposa. Os olhos dela não mudavam pelo menos, pois continuavam a roubar a sua capacidade de pensar e falar. Chegou a afogar-se naquele olhar tantas e tantas vezes, bem como ansiar recebê-lo durante anos. De certa forma, o súbito sentimento de reconhecimento confortou-o um pouco, estabilizou-o sobre um terreno estável e seguro.
— Considere isso uma trégua. Por ora — ela acrescentou com um meio sorriso astuto e com um menear da cabeça. Uma mecha longa do cabelo rosa pálido deslizou pelo ombro e escondeu uma parte do rosto dela do seu olhar, bem como o sorriso que se desfez tão depressa quanto surgiu.
Uma nuvem atravessou o luar, escureceu o mundo por um segundo e projetou sombras profundas nos ângulos suaves do rosto de Sakura. Então, o momento se foi e a tensão incômoda voltou a se colocar entre ambos. O silêncio tornou-se uma terceira presença indesejável e deixou-os conscientes de que a barreira que os separava ainda não havia sido quebrada.
Suspirando, Sasuke se colocou de pé. Teria de dar um basta na conversa antes que a conversa se tornasse outra discussão ou que Sakura mudasse de ideia, o que não estava tão longe de acontecer a julgar pela rigidez que ainda via na sua postura corporal. Sentia os olhos dela seguindo desconfortavelmente cada movimento dele ainda, mesmo que as palavras que viessem da boca dela envolvessem as palavras “confiança” e “trégua”.
— A decisão é sua — anunciou, também mal-humorado, antes de deslizar a porta da frente e entrar na casa.
Deixou-a sozinha para refletir sobre os prós e contras de acreditar no que ele dizia. Estava mesmo cansado. Por isso, foi direto para o quarto para dormir. A noite anterior havia sido emocionalmente exaustiva o bastante e, para completar, Sasuke tinha receios do que veria quando fechasse os olhos daquela vez.
Mesmo assim, deitou no futon e puxou as cobertas sobre o corpo, ansiando para que, se tivesse de reviver aquele horror, pelo menos pudesse ver os rostos da Sakura do seu mundo — a mulher que amava — e, especialmente, da filha Sarada.
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