Dark Dawn
17 Capítulo 17: A Cela
Notas iniciais
Capítulo 17:
A Cela
○♦○
SASUKE FICOU AFASTADO DA CASA e dos seus moradores pelo máximo de tempo que pôde. Então caiu o ocaso, o sol desapareceu por trás das montanhas no oeste, a floresta escureceu e ele se recordou de que era um ser humano com necessidades básicas.
Suspirou antes de se aproximar das construções às margens do lago congelado, deixando pegadas na neve branca que cobria todo o chão e sufocava toda forma de vida sob a sua frieza. Um vento glacial soprava vindo do norte, e persistia em tentar empurrar para longe do seu corpo o manto pesado de inverno que usava. As faces do seu rosto queimavam por estarem expostas ao frio implacável da região, e as pontas dos dedos continuavam dormentes.
Quando se aproximou da varanda, Kumiko, a matriarca, acendia uma lamparina a óleo, pendurando-a num dos caibros. Ela notou a presença dele tarde demais; Sasuke se movia muito silenciosamente. E se assustou quando o encontrou ali, parado sob a suave luz dourada que se derramava da chama no pavio.
— Oh, não te ouvi chegando! — disse, levando uma mão até o peito. — Como se chama mesmo?
Sasuke não se lembrava de já ter dito seu nome a ela, mas não se importou em corrigir o pequeno equívoco.
— É Sasuke.
Kumiko sorriu em resposta.
— Muito bem, Sasuke-san, você deveria entrar. À medida que a noite for caindo mais frio fará. Dentro de algumas horas você com certeza vai querer estar dentro de quatro paredes. — E riu.
Kumiko se encolheu sob o quimono pesado que usava. Uma haori grossa sobrepunha a vestimenta e envolvia os ombros trêmulos da mulher. Ela tinha um rosto redondo e amável, com olhos castanhos e cabelos também castanhos presos num penteado simples.
— Farei sukiyaki para o jantar — ela acrescentou como se a perspectiva de apreciar uma boa comida quente e saborosa o tornasse mais propenso a aceitar a gentileza.
Sasuke aquiesceu, prometendo que entraria em breve. Kumiko passou pela porta e a fechou, mantendo o vento frio do lado de fora. Apesar dos muitos hóspedes, a casa estava inesperadamente silenciosa. Tinha certeza de que Sakura estaria reunida com Shikamaru e os outros agora, planejando com cuidado cada movimento e tentando antecipar cada armadilha do Chikage.
Não havia espaço para Sasuke entre eles, contudo. Era um forasteiro, um viajante vindo de muito longe. E naquele mundo só haveria ódio e hostilidade reservados para ele.
Espiou o céu bicolor, o contraste do azul com o amarelo e as primeiras estrelas que surgiam no céu. Pensou uma última vez no seu objetivo antes de decidir que não podia mais adiar aquilo: precisava enfrentar Sakura outra vez. Por isso, aproximou-se da porta de correr, deslizou-a para o lado e entrou, fechando-a assim que passou pela entrada.
Estava muito mais aconchegante ali dentro. Lamparinas de papel de arroz iluminavam um longo corredor estreito. Sasuke deixou os sapatos no desnível, próximos aos outros, e subiu os degraus, pisando no assoalho escuro. As crianças, Kaito e Kaya, brigavam por um brinquedo num dos cômodos adjacentes ao corredor, uma sala de estar espaçosa e organizada; não deram atenção a Sasuke daquela vez, ignorando-o.
Kumiko não estava à vista, provavelmente cuidava dos preparativos para o jantar, pois teria muitos hóspedes naquela noite. Ele seguiu pela casa, sondando cômodo atrás de cômodo pela presença do time de Konoha. Mas só os encontrou nos fundos da casa, num dos quartos, quando deslizou uma porta só para que cinco pares de olhos se volvessem para ele, estagnado na entrada como uma perfeita escultura de gelo.
Deveria ter interrompido uma reunião importante, pois o silêncio que se seguiu constrangeu todos. Todos exceto por Sakura, que o encarava com uma sugestão de reprimenda nos olhos e no suave arqueado de uma sobrancelha. Ela também tinha os punhos cerrados sobre as coxas e se posicionava de modo que fosse o centro, com todos os outros sentados à sua volta; uma líder, verdadeiramente.
Sasuke ignorou os olhares homicidas dela ao pisar no quarto e fechar a porta. Não se sentou junto dos outros, mas se acomodou num canto, ao lado de um armário. Passou a alça do estojo de sua Kusanagi por cima da cabeça e o repousou contra um ombro. Encostou as costas à parede e fechou o manto ao redor do corpo, desafiando-os a continuar a discussão com a presença dele no cômodo num gesto petulante.
Ino trocou um longo olhar com Sakura. Shikamaru se limitou a suspirar e a murmurar como tudo aquilo era “complicado”. Chouji abaixou os olhos, fitou o tatame e nada mais. Enquanto Sai foi o único a se virar para Sasuke para lhe mostrar um sorriso encorajador.
Sakura estava visivelmente tensa com a presença dele, mas se esforçava para não demonstrar. Tanto que não demorou a retomar o assunto que discutiam antes que fossem interrompidos:
— Como eu disse, acredito que a passagem entre essas montanhas seja a rota mais segura até o local onde a Cúpula dos Kages acontecerá. Se partirmos dentro de três dias, chegaremos lá em cima da hora, mas surpreenderemos o Chikage, que provavelmente acredita que nos moveremos mais cedo.
Shikamaru esfregou a nuca, contraindo o rosto numa expressão ainda mais tensa. Por fim, voltou a suspirar e decidiu estudar o mapa aberto no centro do círculo que eles formavam de um jeito crítico.
— Ainda não estou convencido disso. Há muitos locais propícios para uma emboscada.
Sakura seguiu um traçado imaginário no mapa com o dedo indicador.
— A maior parte do terreno é extremamente íngreme. Os promontórios criam túneis estreitos, verdadeiras muralhas de granito que se estendem por quilômetros; não estaríamos à vista de nenhum inimigo num raio de duas milhas. É um local perfeito para os seus jutsus, e para os estilos de luta destrutivos que eu e o Chouji utilizamos. Quero que Sai e Ino vão à frente, pelo ar. Não há qualquer vegetação na área, o que significa que não há como o inimigo se esconder. Mais: Ino ainda será capaz de senti-los e de nos avisar através de um dos clones de tinta de Sai caso se deparem com qualquer eventualidade.
Shikamaru expirou uma profunda lufada de ar, resignado.
— Bem, você conhece a região melhor do que eu, Hokage-sama. E os seus argumentos são suficientemente satisfatórios. — Ele ergueu o rosto para Sakura, mostrando-a um meio sorriso. — Sempre foi uma das mais inteligentes da turma.
Sakura riu. O som surpreendeu Sasuke.
— Enquanto o gênio nato dormia em praticamente todas as aulas — devolveu mordaz.
— O que posso dizer em minha defesa?
— Nada — ela replicou e, com isso, a discussão acerca dos próximos movimentos do grupo pareceu ter se encerrado.
Todos se levantaram ao mesmo tempo, exceto por Sasuke, e foram saindo do cômodo um a um. Mas Sakura ficou para trás, as costas rígidas voltadas para Sasuke. Ele esperou que ela dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Recebeu apenas silêncio a princípio. Contou os segundos, e chegou a quase um minuto até que ela se decidisse e se dirigisse a ele:
— Pensei que você fosse partir depois do que eu te disse na floresta.
Ele ponderou, escolhendo as palavras com cuidado.
— Tenho uma missão a cumprir.
Sakura se virou para ele, havia um ardor nos seus olhos incrivelmente verdes.
— Sim, você foi bastante claro. Mas não entendo por que continua aqui. Sempre preferiu fazer tudo sozinho, agir de forma independente. Toda essa situação desagradável me faz lembrar... No começo, você viu a mim e ao Naruto apenas como fardos que te retardariam, meros empecilhos que atrasariam o seu objetivo. Quando isso começou a mudar? Por que mudou?
A pergunta dela pegou-o de surpresa. Não esperava por isso. O que ela pretendia interrogando-o daquela forma? A resposta dele seria capaz de mudar alguma coisa? Tinha dúvidas sobre isso, mas seus instintos lhe diziam para ser sincero, para abrir seu coração e dizer a verdade.
— Começou a mudar assim que conheci um pouco melhor vocês dois. Era difícil me manter distante e indiferente quando tudo o que eu mais queria você, Naruto e Kakashi poderiam me fornecer.
— Mas a vingança ainda era tudo para você naquela época — ela concluiu por Sasuke com pesar.
— Eu achava que era — ele admitiu. — Achava que a vingança era tudo com o que deveria me importar. Ficar vivo para matar o Itachi. Eu só sobrevivi por isso e, no fim, fui consumido por essa escuridão.
— Alguma vez se arrependeu? De ter trocado o que tinha pela vingança?
Sasuke suspirou, reconhecendo o sentimento denso que sufocava seu peito.
— A minha vida foi quase inteiramente construída em cima dos meus arrependimentos, Sakura. Mesmo depois que me encontrei e me redimi, cometi alguns erros que me custaram caro demais.
A resposta enigmática de Sasuke pareceu atiçar a curiosidade dela.
— Que tipo de erros?
Sasuke não se sentia pronto para contar a ela sobre os seus erros como pai, por isso se levantou, apanhando a espada, e se dirigiu até a porta. Sakura afastou-se ante a proximidade inesperada dele, recuando contra a parede numa velocidade inumana. Tinha os olhos arregalados, as narinas infladas e os lábios pressionados.
Ele a olhou com tristeza e culpa, deslizou a porta e saiu do cômodo. Respirou fundo quando a porta deslizou de volta. Não deveria sentir tanto remorso pela reação dela; o medo que viu nos olhos dela, por um momento, não deveria fazer seu coração doer tanto, mas não conseguia evitar.
Não fui eu quem cometeu todas essas atrocidades, confortou-se. Não fui eu quem a machucou dessa forma. E, ainda assim, as palavras soavam cada vez mais vazias para si mesmo. Como desculpas pífias.
Sasuke então seguiu pelo corredor e foi se reunir aos outros na sala de estar, o cômodo principal da casa, onde todos estavam sentados ao redor de uma grande panela fumegante. O cheiro da comida estava delicioso e fez o estômago dele roncar; sua última refeição haviam sido alguns bolinhos de arroz amassados que guardara para a viagem.
A carne era cozida na água fervente, tiras finas precisamente cortadas e temperadas. Kumiko surgiu diante dele e ofereceu-o uma tigela limpa com um par de hashis. Indicou para que se sentasse junto aos outros e apreciasse a refeição. Sasuke agradeceu a cortesia, serviu-se de uma porção generosa de sukiyaki, mas foi se sentar num canto bem afastado da grande mesa, longe das conversas e do calor da panela. As crianças eram quem mais se deliciavam com a comida.
Sakura chegou um pouco depois, sentou-se perto de Ino e do vapor da panela. Serviu-se da comida, agradecendo Kumiko mais uma vez pela hospitalidade, e engatou numa conversa agradável com a anfitriã, fazendo-lhe perguntas banais e inofensivas. Durante aquele meio tempo, conheceu alguns detalhes da vida simples da anfitriã.
Kumiko era uma boa mulher. Perdera o marido quando os filhos ainda eram muito novos e contou a história de como Sakura a ajudou no passado, curando as suas crianças de uma doença perigosa quando esta estava de passagem pelo País do Ferro. Por isso lhe seria eternamente grata, praticamente tratando-a como uma filha.
Kaito e Kaya eram crianças encantadoras, cheias de energia e de inocência. Tudo o que conheciam do mundo limitava-se àquele vale entre as montanhas, e Kumiko garantiu que continuaria assim até que crescessem e pudesse decidir os próprios caminhos.
— O mundo nunca foi um lugar seguro para crianças, mas nos últimos anos viajantes têm chegado com rumores ainda mais inquietantes — ela disse, soturna, olhando para os rostos dos filhos com pesar. — E estando tão próximos das fronteiras do país do Sangue... Eu temo pelo futuro do país do Ferro e pelo futuro dos meus filhos, é claro.
— Nós deteremos o Chikage — Sakura afirmou. — Isso é uma promessa, Kumiko-san. Não só Konoha e a Aliança Shinobi estão empenhadas em garantir que o país do Sangue seja derrotado, mas nações menores e vizinhas à Chigakure estão declarando o seu apoio à nossa causa. É um interesse em comum que compartilharmos. Quem sabe, quando o destruirmos, possamos dar um passo adiante em direção à paz. — E, dizendo isso, ela lançou um olhar incisivo na direção de Sasuke, como se o desafiasse a contrariá-la.
Sasuke abaixou a cabeça e se concentrou na sua comida como resposta. Ao término do jantar, Kumiko comunicou a todos como ficariam acomodados nos dois quartos vagos da casa — uma vez que Kaito e Kaya dormiriam com ela —: Sakura e Ino dormiriam no quarto maior enquanto Sai, Shikamaru, Chouji e Sasuke dividiriam o quarto menor.
Futons haviam sido estendidos pelo cômodo e Sai e Chouji já se preparavam para dormir; Shikamaru não estava à vista, mas Sasuke não se preocupava com ele. Provavelmente quereria estar só com os seus pensamentos, como o próprio Sasuke.
Quando saía do quarto acabou passando pelo corredor. A porta do quarto que Ino e Sakura dividiriam naquela noite estava entreaberta, o que o permitiu entreouvir uma parte da conversa tensa que elas tinham:
— ...estou dizendo que o que eu vi não foi um truque, Sakura! Ele está dizendo a verdade!
— Eu não quero mais ouvir nada sobre isso — Sakura disse entre dentes. — Já basta das mentiras dele, Ino!
— Mas eu sei o que eu vi nas memórias dele! O mundo de onde ele diz que vem, o fato de Naruto estar vivo e ser o Hokage, as crianças! — Ino resfolegou, o tom da voz se alterando. — Eu vi os rostos delas, inclusive o rosto do meu filho!
— E eu já disse que não quero mais ouvir sobre isso — ela teimou, encerrando o assunto e calando os protestos de Ino.
Fez-se silêncio então. Ele captou os sons de pés pisando no tatame, de tecido farfalhando contra tecido. Enrijeceu quando Sakura deslizou a porta, alargando a fresta, e encontrando-o ali, parado no meio do corredor. Os olhos dela se estreitaram para ele. Ela os averteu em seguida e se afastou pelo corredor.
Sasuke permaneceu mais um tempo parado ali. Decidiu voltar ao quarto e ocupou um dos futons, puxando a coberta sobre o corpo. Precisava de uma boa noite de descanso. Tudo se ajeitaria pela manhã. Tinha que aguentar aquilo por apenas mais dois dias e então eles partiriam em direção à Cúpula dos Kages.
Pegou no sono depressa. A viagem até ali havia sido exaustiva e seu corpo estava finalmente se recuperando de tudo o que passou desde que chegou àquele mundo. Teve sonhos confusos, contudo. Depois de anos livre dos pesadelos, revisitou a noite do massacre do clã, o dia em que lutou contra Naruto pela primeira vez no Vale do Fim, a batalha mortal contra Itachi, e seu confronto com Madara na Quarta Guerra Ninja que quase lhe custou a vida.
Então estava de volta ao Vale do Fim, enfrentando Naruto. Trocou golpes, realizou jutsus. E, no fim, acabou no início de tudo: com Naruto indefeso, machucado e ajoelhado diante dele enquanto o seu punho esquerdo formou os selos para o Chidori. O seu corpo se curvou, o seu braço desceu. E se enterrou no peito de Naruto.
Não!, gritou de algum lugar muito escuro e frio. Não foi assim que aconteceu! Eu não o matei. Forçou-se a lembrar, resgatando as memórias verdadeiras daquele dia, do momento em que Naruto encontrou forças para reagir e, assim, escapar da morte pelas mãos de Sasuke. Mas o sangue de Naruto estava quente contra a sua pele e os olhos azuis que o fitavam já perdiam luz e calor.
Sasuke despertou de sobressalto, horrorizado pelas nuances vívidas do pesadelo. Um suor frio cobria todo o seu corpo. Estava escuro quando abriu os olhos, escuro demais para falar a verdade. Tentou se erguer, mas foi em vão; seus membros não lhe obedeciam.
Outra vez?!, ele se perguntou, ansioso, tentando forçar a sua mente a trabalhar a fim de reconhecer onde estava.
A cama sob ele era desconfortável e o colchão fino cheirava mal. Sons indistintos chegavam até seus ouvidos, mas por mais que tentasse não conseguia distingui-los; estavam abafados demais e as paredes eram grossas justamente para que causassem esse efeito.
Sua cabeça tombou no travesseiro e ele conseguiu enxergar, graças à parca iluminação oriunda de uma lâmpada no teto baixo do corredor adjacente, as barras de ferro de uma cela.
Estou numa prisão?, perguntou-se. Nenhum guarda vigiava-o. Sentiu uma comichão no pulso, uma sensação desagradável. Havia algo duro e incômodo ao redor do seu pescoço. Vagamente ele se lembrou dos dispositivos que Konoha usava para inibir prisioneiros de reunir chakra. A coleira de ferro no seu pescoço serviria para selar o seu dōjutsu.
Estou na prisão de Konoha, constatou e um formigamento atípico percorreu toda a extensão da sua coluna. Era a súbita certeza de que não estava mais sozinho. Seu corpo se lançou para frente, sentando no colchão enquanto o visitante recuava das sombras e adentrava o facho de luz da lâmpada que zumbia.
Olhos vermelhos encararam-no com coragem. Olhos do Sharingan. Sarada!, Sasuke a reconheceu de imediato, lutando para chamar pelo nome da filha, mas aquela boca já não lhe pertencia e dela não foi proferido um único som.
Sarada se manteve a uma distância segura da cela, não ousando se aproximar demais.
— Os guardas vão voltar em breve. Boruto e Mitsuki estão distraindo-os agora — ela disse, mordendo o lábio. — Então não tenho muito tempo.
— E o que você quer de mim? — A boca de Sasuke se abriu para verter palavras que não eram as que ele pretendia dizer.
O olhar dela endureceu. O carmesim do Sharingan contrastava com toda aquela escuridão.
— Eu só quero uma coisa de você: devolva o meu pai.
— Não depende de mim e já deve saber — respondeu. — O Naruto e a Sakura extraíram todas as informações úteis de mim e então me jogaram nessa prisão. Não tenho ideia de como vim parar nesse mundo nem o que devo fazer para trazer o seu pai de volta para você.
Ele estava mentindo, Sasuke sabia disso. Tinham conversado há alguns dias. O que ele pretende?, perguntou-se, assustado com as possibilidades. Frustrava-o que não pudesse fazer nada para impedir aquele Sasuke. Era um mero espectador outra vez.
Os olhos dela lacrimejaram, enchendo-se de lágrimas. Sarada as enxugou antes que se derramassem. Queria ser forte diante daquele homem que se parecia tanto com o seu pai, mas que, no fundo, não era ele.
Ele se levantou e caminhou até as barras da cela, roçando os pés descalços no piso frio. Sua roupa estava amarrotada, e os cabelos estavam despenteados.
— Mas eu posso tentar descobrir como trazer o seu pai de volta — disse à Sarada, que o fitou, surpresa. — Não preso, e não da cela dessa prisão, contudo. Se conseguir me tirar daqui, posso encontrar uma forma de reverter o que foi feito.
Não!, Sasuke apelou, tentando se impor sobre o outro Sasuke, lutando para assumir o controle sobre aquele corpo. Sarada se encolheu, incerta sobre a proposta daquele homem.
— E como eu conseguiria te tirar daqui?
— Você é uma Uchiha. Encontrará uma forma — ele garantiu, a voz mansa e aveludada.
Sasuke se desesperou quando imaginou Sarada desprotegida e à mercê de seu outro eu. Não podia permitir isso. Mas então, no seu tormento, a escuridão caiu sobre ele e o arrastou para longe daquela cela e para longe da filha que tanto amava. Não ouviu a resposta dela à proposta do outro Sasuke. Nem sequer viu mais a face dela.
Acordou ofegante, de volta ao quarto que dividia com os outros três Shinobis da Folha. Seus pulmões se comprimiam, exigindo mais ar, mas Sasuke não era capaz de dar o que queriam. Levantou-se do futon, suando abundantemente, e afastou as cobertas aos chutes.
À sua volta, todos continuavam adormecidos. Avançou até a porta num passo trôpego e vacilante, deslizou-a em silêncio e cruzou o corredor, por pouco não se chocando contra as paredes e contra a mobília. Quando deu por si, estava diante da entrada da casa.
Sem pensar duas vezes, abriu-a e saiu para a madrugada invernal, o frio penetrando o seu corpo como mil agulhas de gelo. Uma lua cheia aclarava tudo, incidindo sobre a neve alva e criando uma aura cintilante no gelo.
Seus pés descalços afundaram na neve, mas Sasuke continuou avançando às cegas. Seu Sharingan queimava e a sua cabeça parecia que explodiria a qualquer momento. A dor era insuportável.
Ele pressionou a palma da mão contra o olho direito, esperançando aplacar a sensação incômoda, mas de repente foi demais: o ardor no seu globo ocular, o latejar da sua cabeça e a compressão da sua caixa torácica. Desmaiou ali mesmo, em meio a toda aquela neve.
E bem diante de uma Sakura insone e estupefata.
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