Dark Dawn

13 Capítulo 13: A Partida


Notas iniciais
Décimo terceiro capítulo. Boa leitura!

Capítulo 13:

A Partida

○♦○

SASUKE PERMANECEU NA CASA de Kakashi pelo tempo que levou para se preparar para a missão no país do Ferro. Seu antigo professor foi gentil em lhe ceder roupas secas, que ele colocou depois de tomar um segundo banho quente a fim de espantar a friagem da chuva.

Sem ter a quem recorrer, Sasuke trocou sozinho o curativo no cotoco do braço esquerdo, apertando as ataduras com firmeza. Com a toalha ao redor do pescoço e aparando o excesso de umidade do cabelo ainda molhado, saiu do banheiro e seguiu para a cozinha, onde encontrou seu anfitrião.

Kakashi estava ocupado diante do fogão, finalizando alguma coisa quente e rápida, que ele serviu em duas tigelas, colocando-as sobre a mesa, cheias e fumegantes. Então, indicou para que seu convidado sentasse e comesse.

— Achei que um missoshiro pudesse cair bem.

Em silêncio, Sasuke puxou a cadeira e se sentou. Com uma habilidade adquirida ao longo dos anos, destacou os hashis e comeu de uma pequena porção de arroz que havia sido servida numa tigela menor. Quando sorveu um gole do missoshiro, ele ainda estava agradavelmente quente.

Kakashi comeu junto com ele, afastando a máscara do rosto apenas o suficiente para isso. Terminada a refeição, equilibrou os hashis sobre as bordas da tigela e entrelaçou os dedos, fitando Sasuke.

— E então? Como eu sou no seu mundo? Suponho que não muito diferente...

Sasuke ergueu os olhos para o antigo sensei.

— Não. Mas você tem uma boa aposentadoria. Passa a maior parte do tempo descansando em hotéis com termas ou viajando por países com o Gai. O Naruto sempre reclama que você atende aos telefonemas dele de mau humor, resmungando sobre “estar de férias permanentes”.

Kakashi alisou o queixo coberto pela máscara e sorriu com os olhos.

— Não me parece tão ruim assim.

E não era, Sasuke refletiu, contendo o reflexo de sorrir. Mais tarde, Kakashi convocou um Shinobi e pediu-o que recuperasse os pertences de Sasuke e os trouxesse à sua casa.

Caía o ocaso na vila quando Sasuke começou a se preparar para a missão. O pôr-do-sol tornou-se uma noite escura, nuviosa, de modo que as poucas estrelas visíveis ficaram encobertas por uma densa camada de nuvens.

Sasuke prendeu a bainha da espada à cintura, pendurando a alça ao ombro, e prendeu o fecho do manto negro ao redor dos ombros. Kakashi o levou até o ponto onde o restante do grupo o aguardava, além dos portões da vila e sob o dossel das árvores; ali, a luz baça do luar não penetrava a escuridão.

Shikamaru, Sai, Ino e Chouji estavam todos lá, também envoltos em mantos negros com os capuzes puxados sobre os rostos. Seriam eles a guiar e a auxiliar Sasuke naquela missão. Não que ele tivesse gostado da imposição, antes preferiria agir sozinho. Mas Kakashi fora categórico ao afirmar que ele precisaria de ajuda daquela vez, e que o time selecionado a dedo não o atrapalharia ou ficaria no seu caminho.

— É bom ter alguém para vigiar a sua retaguarda, de vez em quando — murmurara quando Sasuke protestou que não queria ninguém mais envolvido naquela história. — Além do mais, não pense que você é o único que quer derrotar o Chikage. Aprenda a compartilhar o fardo um pouco, Sasuke-kun. — Brincou Kakashi. E isso serviu para silenciar os seus protestos pelo restante do percurso.

— Estamos todos aqui, e prontos, Hokage-sama — Shikamaru anunciou assim que Kakashi e Sasuke pisaram na pequena clareira sob a qual todos se abrigavam.

— Muito bem — Kakashi aprovou. — Lembrem-se de serem discretos até que alcancem o país do Ferro. Uma vez lá, certifiquem-se de que nada dará errado durante a Cúpula dos Kages, e obedeçam as ordens de Sakura. Ela dará as cartas daqui em diante. — Ele sorriu com os olhos com certo orgulho. — Também deem assistência ao Sasuke no que ele precisar. Dependemos dele, mais do que qualquer um, para derrotar o Chikage e o país do Sangue.

— Hai, Hokage-sama! — Ino, Sai e Chouji concordaram ao mesmo tempo.

— Mais uma coisa — Kakashi os alertou antes que se virassem para partir: — Não morram — pediu.

Sasuke se aproximou dos quatro, unindo-se a eles e, então, todos partiram, disparando pela floresta que circundava a vila. Correram num ritmo constante, não desacelerando sob nenhuma circunstância enquanto as nuvens se dispersavam e a noite aclarava.

Teriam de atravessar metade do território do país do Fogo antes que alcançassem a costa e o mar, e, além dele, o país do Ferro. Durante o duro percurso, passariam por uma das nações aliadas, o país da Água. Embora, a essa altura, o Rokudaime Mizukage já devesse ter partido para a Cúpula há tempos também.

Por isso, apertaram o passo e viajaram sem descanso sob a cobertura da noite. Mesmo exausto, Sasuke se forçou a seguir em frente, acompanhando os parceiros de viagem e, por vezes, chegando até mesmo a liderá-los ao assumir a dianteira nas vezes que Shikamaru o permitia.

Havia sido um dia longo demais, que começara com Sasuke invadindo Konoha e exigindo falar com o Hokage, e evoluíra para ele decepando o próprio braço, lutando pela segunda vez contra a Kunoichi de Chigakure, passando por aquela estranha experiência e culminara com ele ali, seguindo em direção a um país distante a fim de entregar uma mensagem importante à Sakura e, se tivesse sucesso, derrotar o Chikage.

A noite tornou-se madrugada, e o dia estava começando a clarear — os primeiros sinais da alvorada avançando pelo negrume do céu — quando eles chegaram à costa do país do Fogo. O sol já despontava no leste, e as águas revolviam na faixa de areia e nas falésias ao longe. Para que não chamassem atenção, evitaram as cidades portuárias mais próximas e saíram da floresta diretamente para uma praia desabitada.

Uma vez lá, Shikamaru contatou, através de um comunicador de longo alcance, o homem que os esperava num barco a poucos quilômetros da costa. Concentraram chakra nas solas dos pés e seguiram a viagem pelo mar, caminhando sobre a superfície das águas até onde o barco estava ancorado, subindo a bordo. Sasuke viu que o capitão do barco era um homem de meia-idade que se apresentou como Shinobu, e que se colocou à disposição de todos eles.

— Aproveitem o restante da viagem pelo mar para descansar um pouco e recuperar a energia que gastaram — Shikamaru recomendou ao restante do grupo, puxando o capuz para longe do rosto. — Mas não abaixem a guarda em momento nenhum.

Sai, Ino e Chouji assentiram ao mesmo tempo, e cada um deles seguiu para um ponto diferente do barco. Shikamaru se apoiou na amurada, o olhar vagando pela praia que ficava cada vez mais distante. A brisa marítima estava suave, e o céu, da cor de um pêssego maduro.

Sasuke relutou em se aproximar, a princípio, mas estava cansado e entediado, e a última coisa que queria fazer no momento era pegar no sono, por isso venceu o orgulho e encurtou a já pequena distância que o separava de Shikamaru, apoiando-se na amurada também.

Ao contrário dele, contudo, não ousou afastar o capuz do rosto. Não sabia como o capitão do barco reagiria à visão do seu rosto. Imaginava que não seria algo agradável, a julgar como todos naquele mundo, sem exceção, detestavam-no ou temiam-no, ou ambos.

Fechou os olhos por um momento, a brisa constante afagava seu rosto com um toque de ternura, e permitia-o imaginar que estava longe dali, que não fazia parte daquele mundo tão destruído, que estava de volta à sua casa cercado por todos que mais amava. Cerrou o punho sobre a amurada, abrindo os olhos no mesmo momento quando se lembrou de que toda aquela destruição havia sido causada por ele mesmo.

Virou-se para Shikamaru, enfim.

— Kakashi comentou algo sobre uma Rokudaime Kazekage?

Shikamaru massageou o pescoço, tombando a cabeça para trás a fim de alongá-lo. Fitou o céu por um longo momento. O semblante pouco entregava, além de cansaço e tédio.

— Você não deixa escapar nada, não é? — retrucou secamente. — Mas, sim, Temari é a Rokudaime Hokage. Ela foi nomeada logo depois do fim da Quarta Guerra e do assassinato do irmão mais novo... pelas suas mãos — disse, virando o rosto para Sasuke a fim de olhá-lo com severidade. — Ela não podia recusar o cargo. A vila de Sunagakure, o país do Vento... Precisavam dela mais do que eu precisava e, por isso, ela assumiu a posição.

Sasuke suspirou. Aquilo estava se tornando um hábito. Como pudera ser o responsável pela infelicidade de todas as pessoas que conhecia, e de outras até que ele jamais vira em toda a sua vida. Sua revolução trouxe mais desgraça ao mundo do que imaginou ser possível.

— Eu sinto muito orgulho pela mulher que ela se tornou — Shikamaru continuou, alheio ao desconforto de Sasuke. — Ela sempre foi durona e extremamente mandona, então não foi nenhum desafio ter de agir de repente como a líder de todo um país. Mas nem todo o orgulho que eu possa sentir compensa esse... vazio. Nós nos encontramos de vez em quando, é claro. Mas o lugar dela é em Suna, e o meu, em Konoha.

— Nunca imaginei que a minha revolução pudesse trazer tanta dor a tantas pessoas diferentes — Sasuke confessou num momento de vulnerabilidade. — Eu queria me tornar o novo Uchiha Madara, aquele que uniria todas as nações por um mesmo objetivo: me matar.

“Pensei que a paz só pudesse ser alcançada através do meu sacrifício. Pensei que estivesse pronto para suportar o ódio de todo o mundo, e a solidão que isso me traria. Eu estava equivocado. No meu mundo, Naruto abriu os meus olhos antes que fosse tarde demais, mas aqui... Nesse mundo, nada foi capaz de me deter, ninguém foi capaz de me derrotar. E o ciclo de ódio jamais se rompeu. E, agora, todos vocês estão pagando o preço pelos meus equívocos.

Shikamaru continuou fitando-o por um longo tempo. Depois de outro momento em silêncio, comentou com um sorriso ácido:

— Não me entenda mal, Sasuke. Estou descobrindo, pouco a pouco, que você não é um cara tão mal assim. Pelo menos, essa versão de você. — Ele coçou o pescoço, desconcertado. — Você cometeu erros no seu mundo também, mas, pelo que vejo, foi capaz de se redimir. Então, não vejo por que se culpar pelos erros que o Sasuke da nossa realidade cometeu.

— Não cometi, mas cheguei bem perto de cometer — acrescentou num tom autodepreciativo.

— É, e pode ficar remoendo isso, ou pode tentar consertar um pouco dos erros que a outra versão de você causou a esse mundo. Derrotar o Chikage pode ser um bom começo para isso.

Ao término, Sasuke estava se sentindo um pouco mais leve. Até mesmo arriscou um meio sorriso para Shikamaru.

— Nunca pensei que ouviria algo parecido vindo de você.

— Não se acostume — o outro replicou, relutante.

Shikamaru escondeu as mãos nos bolsos das calças e fez menção de se afastar, mas parou na metade do caminho; o corpo estava apenas meio virado para Sasuke, o semblante estava sério e o tom, grave.

— Ah, deixe-me lhe dar mais um pequeno conselho...

Sasuke ouviu-o com atenção.

— Quando nos encontrarmos com a Sakura, eu vou explicar toda a situação para ela primeiro antes que você possa se revelar. É melhor que você também não diga nada para ela. E não aja imprudentemente. Isso se você tiver algum amor à sua vida, é claro. — Shikamaru suspirou como se o futuro encontro já o houvesse drenado até a última gota de vigor: — Vamos torcer para que ela não tente te matar mesmo depois de me ouvir.

— A Sakura... — Sasuke relutou em questioná-lo sobre a antiga companheira de equipe, mas a sua necessidade de saber como ela estava era premente e sobrepujou o seu orgulho: — Como ela está?

— Como ela está? — Shikamaru ecoou, aturdido. — Bem, eu diria. Ela seguiu com a vida dela. Não espere encontrar a mesma Sakura que você conhecia... Ou conhece no seu mundo. Levou alguns anos, mas ela conseguiu refazer a vida depois daquele dia no Vale do Fim. Como todos nós. Ela até mesmo se tornou uma sensei. Você vai conhecer os alunos dela no país do Ferro.

E dizendo isso se afastou de vez.

O vento soprou as velas do barco, levando-os em direção a mar aberto. A costa se tornava cada vez mais distante, uma mera faixa fina de terra encapsulada por uma imensidão de água. Sasuke olhou à sua volta para tudo aquilo, o mar que ondulava no casco do barco, balançando-os, e então para o céu do amanhecer; o sol dourado se firmava sobre a sua cabeça, devagar.

Algo o aguardava no país do Ferro, não saberia precisar o que era, tampouco se seria bom ou ruim, mas Shikamaru estava certo. Lamentar-se não mudaria nada naquele mundo. Não fora o responsável direto por todas aquelas desgraças, mas isso não o impedia de tentar remendá-las da melhor forma que encontrasse.

E ele decidiu que começaria pelo Chikage. Mais especificamente matando-o.

○♦○

Sasuke pegou no sono um tempo depois. Estivera lutando contra o cansaço que sentia desde antes de embarcar naquele barco, e a exaustão cobrava o seu preço agora. Tinha passado por muita coisa, lutado tantas batalhas, e a aflição do que viveu em Konoha ainda o perturbava. Mesmo assim, lutou contra as necessidades do próprio corpo até onde pôde, receoso de que com o fechar dos seus olhos seria arrancado do próprio corpo e viveria aquela experiência outra vez, forçado a assistir os acontecimentos do seu próprio mundo a partir da perspectiva de um impostor.

Estavam apenas na metade do percurso, e a tarde avançava, sorrateira, em direção a um crepúsculo. Se mantivessem aquele ritmo — e o vento continuasse a colaborar —, estariam na costa do país do Ferro antes da alvorada do dia seguinte. O capitão do barco, ao menos, parecia otimista quanto a isso.

— Ótimo — Shikamaru aprovara; a postura cautelosa não cedia em momento algum, só não estava mais cansado do que o próprio Sasuke, e ele percebeu isso. — Vá descansar, Sasuke. Você não terá utilidade alguma para mim nesse estado. Além do mais, perdeu muito sangue quando decepou o próprio braço, e não deu tempo ao seu corpo para se recuperar.

— Eu estou bem — mentiu, por reflexo, optando por negar a fraqueza.

Shikamaru percebeu isso, e o censurou com um olhar duro.

— Não vou me repetir. Não me obrigue a te forçar a descansar, Sasuke.

— Gostaria de ver você tentar — ele replicou, de mau humor, mas virou as costas e se afastou de todo modo, sentando no convés do barco com as costas apoiadas na amurada.

Usou o capuz para esconder os olhos da luz do sol, que já desvanecia num horizonte nuvioso, e, enfim, pegou no sono depressa. Teve sonhos confusos a princípio, e não conseguiu se lembrar da maior parte deles. No fim, pareceram-lhe fragmentos desconexos que não se encaixavam de maneira alguma se tentasse uni-los para compor uma narrativa verossímil.

E o que recordava confundia-o. Num dos sonhos, viu-se de volta à noite escura em que perdeu o seu clã e a sua família, ao dia em que foi apresentado ao Time 7, e depois ao dia em que decidiu abandonar todos os seus laços em nome da vingança. Noutro, memorou os dias e as noites em que viveu nos esconderijos de Orochimaru, aquela época passando depressa pelos seus olhos, como uma breve menção. Lembrou o dia em que Itachi morreu, e o dia em que o reencontrou, mais morto do que vivo. Viu a si mesmo lutar contra Naruto pela segunda vez no Vale do Fim enquanto rochas eram despedaçadas ao seu redor e a geografia da região se alterava para sempre.

Viu-se chorando, pedindo perdão e sorrindo ao lado dos companheiros no fim de tudo. Viu-se chegando, e partindo enquanto atravessava os portões da vila mais vezes do que poderia contar. Casando-se com Sakura num templo no alto de uma montanha, com flores de cerejeira desabrochando à volta deles e o sorriso dela eclipsando todo o restante. Viu-se amando a esposa, noite após noite, com paixão e fervor, e mais tarde ele assistia, hipnotizado, ao crescer de uma nova vida no ventre dela. Viu Sarada, chorando e esperneando, quando chegou ao mundo. Os primeiros anos da filha eram algumas das lembranças mais preciosas que possuía. Viu desertos, montes nevados, desfiladeiros intermináveis e vales florestados enquanto os atravessava e as estações mudavam. Mas então, de repente, viu-se sozinho no escuro, com água fria sob os seus pés e um espelho diante de si.

Exceto que não se tratava de um espelho, Sasuke percebeu mais tarde, mas sim de outra versão dele, encarando-o de volta com olhos hostis e desconfiados. Abriu a boca, mas palavra alguma saiu. Seu outro eu também se limitou a um silêncio soturno que tudo engolia.

Tentou dar um passo adiante, e o homem diante dele reagiu, ativando o Sharingan no olho direito e recuando abruptamente, cada músculo do corpo retesado e pronto para peitá-lo.

— Achei que só estivesse sonhando — Sasuke murmurou num tom brando, o corpo permanecendo tão imóvel quanto fosse possível para não intimidar o homem diante de si outra vez.

— Assim como eu — respondeu o outro com frieza. — Quem é você? — ele inquiriu.

— Eu sou... você — afirmou. — De outro mundo, de outra realidade. De algum modo, nós trocamos de lugar.

Sasuke ergueu o rosto e olhou à sua volta, aturdido.

— Que lugar é esse? Tenho a sensação de que já estive aqui...

— Eu sei tanto sobre isso quanto você — replicou o outro, ainda ressabiado, o único olho visível brilhando carmesim.

Numa epifania, Sasuke recordou-se de algo extremamente importante e voltou a encarar o outro homem tão idêntico a ele; um lampejo de medo e de horror atravessou o seu rosto por um momento, empalidecendo-o.

— A minha família, a vila da Folha...

Sasuke não soube dizer se o que viu no rosto do seu outro eu foi mágoa por ele fazer semelhante implicação, mas a emoção abandonou-o depressa demais, esvaziando o seu semblante e tornando-o uma máscara de gesso.

— Estão todos bem — disse, conciso, abrandando um pouco dos piores temores de Sasuke. — Mas não estão sendo exatamente corteses comigo enquanto me interrogam e me mantém prisioneiro. Estão convencidos de que eu seja um impostor.

— E você não é um? — escarneceu.

— Tanto quanto você é um no meu mundo — o outro replicou, amargo.

Sasuke resolveu adotar uma postura mais cautelosa. Não podia confiar que aquele homem diante de si fosse seu outro eu de verdade. Havia a possibilidade de ser um truque do Chikage para torturá-lo e enfraquecê-lo, deixar a sua mente completamente à mercê dele.

— O que você pretende fazer? — indagou.

O outro Sasuke olhou à volta dele, o carmesim do Sharingan ainda cintilava no seu olho direito, contrastando com toda aquela escuridão que os abarcava. Mexeu os pés, e agitou as águas sob eles.

— Nada — respondeu, depois de um tempo. — E mesmo se pretendesse não revelaria a você. Não tenho motivos para confiar em nada do que me diga. Não tenho motivos sequer para acreditar que o que você está me dizendo seja verdade.

Sasuke ignorou o olhar acusador e intimidante que recebeu, e resolveu testá-lo.

— O Chikage foi o responsável por essa situação. Você certamente deve ter ouvido sobre ele. O Chikage tinha planos para Konoha e para a Aliança, eu pretendia impedi-lo, mas fui jogado no seu mundo antes que conseguisse — Sasuke decidiu revelar, num movimento arriscado, testando as reações e estudando as expressões faciais daquele completo estranho.

— É mesmo? Já ouvi sobre o Chikage e sobre a guerra que estava liderando contra outros países no leste — o outro afirmou, o rosto apático, o timbre neutro.

— Sim. Ainda não sei o que ele pretende de verdade com isso, mas está bem óbvio para mim que a intenção principal foi me neutralizar, impedir que eu o detivesse. Ele me quer morto, mas, talvez, antes prefira me torturar um pouco. Por isso, me jogou no mundo que você criou.

Pela primeira vez, Sasuke enxergou uma vulnerabilidade na face do outro homem. Durou pouco, mas a expressão de dor e o remorso contraíram seu rosto e expuseram a ele tudo o que precisava saber sobre a sua versão daquele mundo, o que mais importava saber.

— Podemos trabalhar juntos para consertar essa situação — emendou num tom mais brando e conciliador. — Você pode deter o Chikage no meu mundo, e eu posso detê-lo no seu.

— Isso não vai consertar nada — o outro replicou, áspero. — Não vai mudar nada do que eu fiz.

— Você pode se redimir — Sasuke persistiu, usando de toda a persuasão para apelar a ele. — Ainda pode mudar.

O outro o fitou com raiva, repelindo a sua tentativa de demovê-lo daquela inércia que o regia.

— Eu fui longe demais. Tive a chance de redimir naquele dia, no Vale do Fim, mas fui adiante com o meu plano, com a minha revolução. Você viu o mundo que eu criei, o ódio que eu concebi. Pensei que fosse o único modo de alcançar a paz.

— O ódio nunca foi a resposta — Sasuke disse dificultosamente, cada palavra pesando no seu coração. — Você não percebeu isso a tempo, mas eu percebi. Naruto me mostrou a verdade. Ele me mostrou que eu estava errado.

O outro sorriu, um sorriso doloroso, cheio de remorso.

— E graças a ele você tem a vida que tem hoje. Trabalha junto a ele pelo bem da vila e de todo o mundo, e, ainda que não busque reconhecimento por isso, aqueles que conhecem os seus sacrifícios te respeitam e até mesmo te admiram.

Depois de uma pausa, ele continuou.

— Você está casado com a única mulher que já amou. E tem uma filha linda. Você construiu um futuro, construiu uma família e deu ao nome Uchiha uma segunda chance.

O outro Sasuke avançou um passo de cada vez, os pés criando ondas nas águas.

— Como você estaria, contudo, se o Naruto tivesse falhado naquele dia? Se ele não tivesse sido forte o bastante para te deter e te fazer ver a verdade? Conseguiria suportar a escuridão e a solidão sem enlouquecer? Você tem a resposta bem diante dos olhos — pontuou, olhando nos olhos de Sasuke. — E é assustador, não é? Ver o que você poderia ter se tornado, tudo o que teria jogado fora se o seu punho apenas tivesse perfurado o coração de Naruto naquele ataque. Você estaria no meu lugar então e compartilharíamos o mesmo destino amaldiçoado. Kakashi te desprezaria como me despreza, Sakura te detestaria como me detesta. E todos os outros te odiariam como me odeiam. O último Uchiha fadado a viver uma existência miserável e solitária até o fim dos seus dias... Porque ele escolheu o ódio quando poderia ter escolhido o amor. Você suportaria conviver com a dor que eu convivi? — A voz dele tornou-se um sussurro. — Você suportaria carregar todo o ódio do mundo?

Sasuke se afastou do outro num pulo, a postura rija e defensiva.

— Essa não é a última vez em que nos veremos — declarou.

O outro esboçou um meio sorriso no fim.

— Até lá então.

A escuridão em torno deles desvaneceu, e Sasuke despertou abruptamente, sentindo-se desorientado e atônito pelo que aconteceu; as ondas do mar tinham voltado a embalá-lo e sacolejavam o barco num abraço frouxo. Esteve mesmo diante do Sasuke daquela realidade?, perguntou-se. Tinha sido real demais, sua mente não teria tido capacidade de concebê-lo com tamanha fidelidade. Então foi real, pensou consigo mesmo, e não soube como se sentir.

Ergueu-se, fitando o horizonte tomado pelas trevas outra vez. Mar e céu misturavam-se, os seus limites borrados pela noite. Uma lua cheia era a principal fonte de iluminação. O vento estava mais forte àquela hora, inflando as velas com maior determinação e empurrando-os em direção ao continente.

Shikamaru se aproximou de repente, e anunciou:

— Estamos quase chegando. Esteja pronto para desembarcar dentro de no máximo duas horas.

Sasuke aquiesceu mecanicamente enquanto o outro se afastava de novo. Já podia vê-la: a faixa de terra que se tornava cada vez mais distinta, a costa do país do Ferro. Puxou o capuz com força sobre o rosto e suspirou. A experiência de antes — o encontro com o Sasuke daquela realidade — deixara-o perturbado outra vez, mas ao menos o seu corpo estava descansado e pronto para a ação.

Que venha, declarou em desafio para qualquer um que se colocasse no seu caminho para voltar para casa. Até mesmo para o Sasuke daquele mundo, se ele ousasse tentar impedi-lo.

Não demonstraria piedade para com nenhum deles.

Notas finais
Sasuke tá pronto pra enfrentar tudo e todos pra poder voltar pra casa. E o que acharam desse encontro tenso com a outra versão dele?! No próximo capítulo, finalmente, finalmente alguém aparecerá por aqui! Qual será a reação dessa pessoa quando encontrar o Sasuke?! Algum palpite?! Por falar em próximo capítulo, estou cogitando atualizar novamente na segunda-feira (aproveitando o feriado). Vocês gostariam de mais um capítulo? Muito obrigada pela leitura e até o próximo capítulo!