Dark Dawn

12 Capítulo 12: Falhas


Notas iniciais
Décimo segundo capítulo. Boa leitura!

Capítulo 12:

Falhas

○♦○

KAKASHI LEVOU A KUNOICHI de Chigakure, ainda inconsciente, como prisioneira. Foi escoltada por um esquadrão completo de Shinobis de elite até a Divisão de Investigação. Mais tarde ele confidenciou, uma vez que se abrigaram da chuva no seu gabinete na Torre do Hokage, que ela seria interrogada assim que despertasse. Sasuke não estava disposto a esperar até que isso acontecesse.

Shikamaru se uniu a eles não muito depois, cerrando a porta do escritório e trocando um olhar cauteloso com o Rokudaime Hokage. Trazia numa das mãos uma pasta, que entregou ao seu líder. Kakashi abriu-a, revelando uma ficha minuciosa. Folheou algumas páginas rapidamente, correndo os olhos pelas linhas, e, então, jogou-a sobre a mesa.

— O nome dela é Hayashi Kiyoko. E é uma Kunoichi extremamente perigosa, procurada em todas as Nações Aliadas e em muitos outros países — revelou. — É também a herdeira de um kekkei genkai bastante afamado de Chigakure: o chiton.

Kakashi relanceou a Sasuke um olhar compadecido, condoído.

— O clã dela, o Hayashi, foi quase completamente extinto durante a última guerra civil do país do Sangue. Isso faz dela, talvez, uma das últimas usuárias do elemento sangue ainda viva.

— Jamais tinha ouvido falar sobre isso — Sai comentou num tom contemplativo.

— Foi bastante difícil reunir informações sobre Kiyoko — Kakashi admitiu num suspiro. — Nos últimos anos, ela agiu nas sombras, cometendo assassinatos contra todo o tipo de figura política nas nações vizinhas ao país do Sangue; jamais foi pega. Chegou a assassinar até mesmo um Lorde Feudal há dois anos. Descobrimos que ela possuía uma extensa lista de contatos em vários países, inclusive dentro das Nações Aliadas. Os informantes a mantinham a par de praticamente tudo, facilitavam o acesso dela às aldeias e forneciam todo o tipo de informação dos alvos de Kiyoko.

Sasuke estendeu o braço para pegar a ficha da Kunoichi. Não havia foto alguma anexada à primeira página, e as informações contidas não passavam de nome, idade aproximada, afiliação e local de nascimento, bem como estavam listadas algumas das suas habilidades conhecidas. Nas folhas seguintes, entretanto, figuravam todos os seus crimes durante os últimos oito anos e estes preenchiam páginas e mais páginas. Ele ergueu os olhos da ficha e fitou Kakashi incisivamente:

— Todos os crimes foram cometidos a mando do Chikage — afirmou. — Todos os assassinatos cometidos, tudo está ligado a ele. Ela o servia há anos, Kakashi, e veio até Konoha sob uma ordem dele.

Os ombros de Kakashi caíram, derrotados, em concordância.

— Sim. Ela foi a responsável por eliminar cada ameaça em potencial ao Chikage. Tudo feito à surdina, sem deixar muitos vestígios para trás e, sendo assim, sem provas concretas que pudessem conectá-lo aos crimes. Kiyoko foi extremamente cautelosa... Até agora — finalizou, devolvendo o olhar cortante ao antigo aluno.

— O que ela poderia realmente querer contigo, Sasuke-kun? A ponto de se expor dessa maneira? — Sai indagou, virando-se para Sasuke.

— Ela disse que estava aqui para me transmitir uma mensagem do Chikage. Mas quanto mais penso nisso, menos sentido faz para mim.

— Sim — Kakashi concordou. — Kiyoko foi cuidadosa para encobrir todos os seus passos. Por que ela se exporia agora, sabendo que correria todos os riscos, e apenas para entregar uma mensagem a Sasuke?

Shikamaru, que estava de braços cruzados e encostado a uma das paredes numa pose ociosa, manifestou-se pela primeira vez desde que entrara no escritório:

— É uma armadilha, é óbvio. Você disse que ela lhe entregou a localização atual do Chikage, que ele está, neste momento, no país do Ferro... Bem, se quer a minha opinião ela teve a intenção de ser capturada e de fornecer essa informação desde o princípio.

Ele olhou duramente para Sasuke.

— Ela quer que você vá para o país do Ferro, Sasuke. É uma armadilha do Chikage. O que significa que estarão lá, à sua espera. Possivelmente toda a Guarda Escarlate dele. Ele está contando que você aparecerá lá.

E Sasuke não pretendia desapontá-lo. Abaixou o rosto, ponderando.

— Tem mais nessa história: Kiyoko me disse que o meu doujutsu era a chave para que eu saia desse mundo. O que significa que o meu Sharingan será fundamental para a derrota do Chikage.

Shikamaru descruzou os braços e desencostou da parede, aproximando-se alguns passos dos outros três.

— Então você é uma ameaça para ele. O Chikage vai querer te neutralizar antes de tentar qualquer outro movimento contra a Aliança. Ele te enviou a esse mundo, de alguma forma, mas isso ainda não é o suficiente.

— Ele vai tentar me matar — Sasuke concluiu, a voz soando tão fria e impassível aos seus ouvidos quanto soava ao dos outros.

Sasuke colocou a ficha de Kiyoko sobre a mesa. Kakashi se virou para a grande janela do escritório, o olhar vagando em direção ao vazio; a chuva havia embaçado o vidro e os respingos escorriam por toda a sua extremidade. Konoha estava envolta por uma névoa tépida.

— Pode apostar que ele vai se empenhar para conseguir isso — Shikamaru murmurou.

— Não pretendo facilitar para ele — Sasuke rebateu.

Shikamaru se voltou para o Rokudaime.

— Se Sasuke é a nossa melhor chance de derrotar o Chikage então precisaremos ser mais cautelosos. Ainda não temos ideia do que ele esteja planejando no país do Ferro, mas a Cúpula dos Kages acontecerá dentro de uma semana. Os líderes de outras nações afetadas pelo país do Sangue também comparecerão. Seria a oportunidade perfeita para ele: matar dois coelhos com uma única cajadada. — Olhou de Kakashi para Sasuke, e de volta para Kakashi.

Kakashi suspirou outra vez, contornou a mesa e sentou-se, apoiando o rosto num punho enluvado. Ergueu o olhar para o antigo aluno, expectante.

— E então? O que quer fazer?

— É simples: eu vou ao país do Ferro, vou transmitir a sua mensagem à Sakura e vou acabar com o Chikage — prometeu num tom sombrio, endurecendo o rosto. — Depois, vou voltar ao meu mundo. Suponho que, com ele morto, boa parte dos problemas da Aliança acabem.

— Vai mesmo permitir que ele aja como bem entender? — Shikamaru inquiriu, indignado, ao se aproximar da mesa. — Mesmo depois de tudo o que debatemos? Isso é muito arriscado, Kakashi. Ele pode representar a nossa única chance de vencermos o Chikage, por mais que eu deteste essa ideia depois de tudo o que aconteceu.

— Você, como todo mundo, Shikamaru, sabe que o Sasuke só fará o que ele quiser fazer. — Deu de ombros. — Seria inútil tentar detê-lo. — Riu sem humor. — Então, o melhor que podemos fazer é confiar no julgamento dele. Se ele está convicto de que dará conta do Chikage podemos muito bem aproveitar a oportunidade e apostar todas as nossas fichas nessa vitória.

— Eu não gosto nem um pouco disso — ele cerrou os dentes em resposta e averteu o rosto, zangado.

— Não temos que gostar. Mas, já que está tão preocupado, te enviarei com ele, junto de Ino, Sai e Chouji. Vocês devem se reunir à Sakura e à equipe de Shinobis que eu enviei na frente. Assegure-se de que nada dará errado durante a Cúpula e antecipe todos os passos do Chikage — Kakashi demandou. — Acima de tudo: proteja a minha sucessora. Já é hora de eu me retirar e passar o cargo.

Ele sorriu então, amenizando a expressão no rosto mascarado:

— Aproveite a oportunidade e reveja a Rokudaime Kazekage. Dê um olá a ela por mim.

Shikamaru silvou através dos dentes trincados, murmurou alguma imprecação à meia voz que Sasuke não conseguiu ouvir direito — e nem se importou em tentar descobrir. E virou-se para a porta, desconcertado.

Sasuke se voltou para o Hokage, que se debruçou sobre a mesa para escrever uma mensagem num pergaminho que retirou de uma gaveta, removendo seu lacre e desenrolando-o parcialmente. Ao fim, selou-o com algum jutsu e o ofereceu ao antigo aluno.

— Esta mensagem só deve ser aberta por Sakura. Estou, oficialmente, nomeando-a Nanadaime Hokage e incumbindo-a de representar os interesses de Konoha e do país do Fogo na Cúpula dos Kages. Ela está pronta para me suceder — determinou num tom que não abria brechas para quaisquer questionamentos.

O suspiro de Shikamaru ecoou por todo o recinto.

— Queria que a Godaime pudesse vê-la. Estufaria o peito de tanto orgulho, aquela velha.

E olhou para Sasuke depois disso, apertando os lábios numa linha fina.

— Ainda não confio completamente em você, para falar a verdade. Não depois de tudo o que houve, de toda a dor que você causou nesse mundo. Mas confio no julgamento do Kakashi. E é por ele que vou acatar a missão de te acompanhar até o país do Ferro e evitar que você caia em uma armadilha do Chikage.

— Não vai precisar se esforçar muito para isso — Sasuke garantiu, carrancudo.

Guardou o pergaminho num bolso da calça e se virou para ir embora, passando por Sai e por Shikamaru, sem esperar pela dispensa de Kakashi. Não se importou com nada disso. Estava cansado. Seu braço esquerdo tinha voltado a latejar, e não havia se recuperado por completo da perda de sangue que sofrera.

— Façam todos os preparativos — Kakashi ordenou quando a mão de Sasuke tocou na fechadura. — E partam ao anoitecer, com o máximo de discrição possível. Não há como sabermos se ainda há algum informante de Kiyoko na vila, mas a julgar pelo que houve hoje o meu palpite é de que temos um espião espreitando nas sombras. Mantenham essa missão só entre vocês. Mais ninguém deve saber — finalizou.

Sasuke girou a maçaneta e abriu a porta, saindo do escritório. Deixou a Torre do Hokage, saindo na chuva fria que ainda caía sobre a vila e então não soube mais para onde ir. Não queria ter de voltar para o apartamento no qual fora confinado mais cedo, mas tinha deixado alguns pertences por lá e teria de pegá-los. Sua cabeça estava cheia, pesada.

Caminhou sem rumo pelas ruas quase vazias no intuito de fazer o tempo passar depressa. Estava com fome, mas não se atreveria a entrar em qualquer lugar que fosse para comer. Os poucos transeuntes o olhavam com suspeita, cheios de medo. Afastavam-se dele como se estivesse infectado por uma moléstia e sussurravam o seu nome quando acreditavam que seria mais seguro fazê-lo. A notícia do seu retorno espalhara-se por toda a vila e, agora, todos eram capazes de apontar o dedo e dizer que aquele era o homem que assassinou Uzumaki Naruto, a Godaime Hokage Tsunade, e tantos outros mais.

Sasuke vagou pela vila como um verdadeiro fantasma com a chuva como companheira constante. Cogitou tentar encontrar o local onde a sua casa estava localizada, no outro mundo, mas o pensamento o fez se sentir ainda mais solitário e miserável. Pensou em Sakura e Sarada a fim de amenizar aquele sentimento pesado que fazia seu coração afundar no peito. Como elas estão agora?, perguntou-se, angustiado. Estão seguras? Não gostava de pensar no Sasuke daquele mundo perto delas. Por isso precisava sair daquele lugar o mais depressa possível. Elas estavam esperando por ele, estavam contando que ele conseguiria voltar para casa. Não podia desapontá-las.

Quando deu por si, tinha se afastado demais da vila e se enveredado por uma rua ainda mais deserta e escura. Sasuke se encolheu de repente quando sentiu uma fisgada de dor no lado direito da cabeça. Tão potente que ele cambaleou até o muro mais próximo, usando-o como apoio. Pressionou o punho contra o olho direito, de onde a dor irradiava por toda a sua cabeça, e cerrou os dentes. Jamais havia sentido algo parecido.

A dor escureceu a sua visão por um momento, mas então seu globo ocular direito ardeu em brasa; o Sharingan se ativou sem que ele pretendesse, e a partir daí a dor triplicou de intensidade. Pensou em gritar, mas não encontrou forças ou a própria voz para fazê-lo.

A escuridão caiu sobre ele, repentina e inexorável. Quando conseguiu recuperar um pouco dos sentidos, a visão estava turva, enevoada; viu apenas vultos a princípio, sombras que se moviam depressa demais e que ele quase não acompanhava. Ouviu sons, mas estes eram dissonantes, abafados. Era como estar embaixo d’água, percebeu.

Lutou para reaver os sentidos, debatendo-se como um peixe numa rede. E, aos poucos, venceu aquela inexatidão que o envolvia. Primeiro, os sons se tornaram mais distintos, mais claros. Eram duas pessoas conversando entre si — ou discutindo. Seus tons exaltados reverberavam por todo o recinto, ricocheteando nas paredes apertadas como shurikens. Sasuke as reconheceu quase de imediato. Sakura! Naruto!

Então os vultos tomaram forma, materializando-se na figura da esposa e do melhor amigo, muito embora ainda houvesse algo de errado na forma como Sasuke os via. Sua visão persistia em desfocar-se. Ele não sabia onde estava, mas se sentia sufocado pelas paredes grossas que se fechavam à sua volta e pela ausência de janelas no recinto.

Estava sentado numa cadeira, pelo que percebeu, no centro do cômodo. Rodeado por todo um esquadrão de Shinobis de olhares hostis. Naruto e Sakura eram os mais próximos dele e, ainda assim, não estavam com a guarda baixa. Então Sakura se moveu, avançou pisando firme contra ele. Estendeu uma mão e envolveu o punho na gola da blusa que ele usava, puxando-o para frente com certa persuasão no gesto. Os olhos verdes ardiam em brasa e os lábios se ergueram sobre os dentes quando ela os cerrou.

— Exijo que me diga onde está o meu marido! Ou eu juro que não vou mais responder pelos meus atos!

Naruto, de semblante fechado, encarou-o impassivelmente, os braços cruzados sobre o peito. Sasuke quis abrir a boca para dizer a eles que estava de volta, dizer que, de alguma forma, havia conseguido retornar, mas percebeu com horror que não comandava o próprio corpo. Era um mero espectador naquela sala de interrogatório.

— É melhor abrir a boca e começar a nos contar tudo o que sabe, impostor — Naruto advertiu com seriedade. — Comece nos contando quem você é de verdade e onde está o meu amigo. Se cooperar, posso me mostrar mais leniente contigo. Caso contrário, eu não vou mover um dedo para tentar conter a Sakura-chan quando ela se cansar das suas esquivas.

Sakura apertou os dentes ainda mais e, num gesto abrupto, soltou a gola da blusa dele, empurrando-o de volta ao encosto da cadeira. A cabeça de Sasuke quicou, deixando-o tonto por um momento.

— O seu chakra está diferente — Naruto observou, os olhos agora dourados contornados por um forte tom de laranja. — Você com certeza não é o Sasuke que eu conheço, embora, de alguma forma, ainda seja ele na sua essência.

Naruto bufou, tamborilando os dedos num gesto impaciente no próprio braço.

— Ele está agindo estranho desde aquela luta que travou contra a Kunoichi de Chigakure — Sakura pontuou, o sobrecenho crispado. — Despertou na manhã seguinte à batalha confuso, desorientado... Não se lembrou de Sarada e de que somos casados. Fazia muitas perguntas o tempo inteiro, não sabia se orientar dentro da própria casa. O comportamento dele também estava bastante... — Sakura relutou com a palavra. — Suspeito. Passei a observá-lo de perto, mas de alguma forma eu apenas sabia... — Ela suspirou. — Esse homem não é o meu marido. Eu sinto isso. E eu te disse, Naruto. Alguma coisa... aconteceu. Alguma coisa aconteceu com ele. E eu não sei explicar o quê.

Sasuke se desesperou quando percebeu que a imagem de ambos Naruto e Sakura estava se tornando desfocada outra vez, enquanto os sons das suas vozes desapareciam pouco a pouco. Eles se tornaram vultos de novo e Sasuke se viu puxado por uma força invisível de volta para a escuridão. Não!, gritou, tentando retornar àquela sala de qualquer forma.

Voltou a si depois do que pareceu uma eternidade. E, pela chuva que o encharcava e pelos muros altos que o cercavam, estava de novo no mundo ao qual não pertencia. Em algum momento, perdera as forças e tombara de encontro a um dos muros. Seu olho direito ainda ardia, o Sharingan ativado, mas a dor de cabeça havia desaparecido sem deixar vestígios para trás.

Esgotado, ele se apoiou com cuidado no chão, testando o equilíbrio, e só então se levantou. Usou o muro como apoio, tateando-o com os dedos rijos e frios enquanto se movia, passo por passo. O que havia sido aquilo?, perguntava-se ainda um tanto desnorteado.

Por um instante, breve demais, estivera no mundo ao qual pertencia, arrebatado para o corpo que era seu e que agora era ocupado por um “impostor” nas palavras do seu melhor amigo.

Então eles também já tinham descoberto sobre a troca no seu mundo. Quanto tempo levariam para ligar o acontecimento ao Chikage?, perguntou-se. Sakura já se provara estar no caminho certo. Talvez eles pudessem ajudá-lo. Talvez, se o Chikage fosse derrotado no seu mundo, Sasuke seria capaz de retornar ao seu lar. Por mais que sentir tantas esperanças o conduzisse por um caminho perigoso, não conseguia evitar. Tinha muitas saudades do seu mundo, especialmente da família. Como Sarada estava lidando com tudo aquilo?, remoeu.

Sasuke continuou a se mover pela rua, afastando-se do muro quando percebeu que os seus passos estavam mais estáveis e ele não precisava mais usá-lo como apoio. Respirou fundo, relaxando os músculos do corpo a fim de desativar o Sharingan. Questionou-se, aflito, se aquela experiência voltaria a acometê-lo, e imaginou que sim. Precisava derrotar logo o Chikage. Não podia depender dos esforços de Naruto e Sakura no seu mundo. A urgência daquela situação exigia que ele se comprometesse em resolvê-la o mais depressa possível. Havia coisas demais em jogo, inclusive o futuro de duas realidades distintas.

Avançou pela rua até deparar-se com um beco sem saída, sentindo-se cada vez menos entontecido e mais confiante a cada metro que avançava sobre pernas estáveis. Ouviu o som de passos e se virou, alarmado, a tempo de ver Kakashi se aproximar sob a chuva fria, tão encharcado quanto o próprio Sasuke.

— Você está péssimo — Kakashi comentou com certa ironia, subindo os olhos até o rosto do antigo aluno.

— Não tenho tido boas experiências ultimamente — replicou num humor ácido.

— Bem, sim, posso imaginar.

Kakashi se aproximou mais alguns passos, relaxando a postura ao passar por Sasuke; estendeu a mão e tocou no ombro dele num gesto inesperadamente camarada.

— Venha comigo. Você precisa colocar roupas secas e alguma coisa quente no estômago.

Sasuke se deteve onde estava, incerto a respeito de seguir ou não o Rokudaime. Não esperava por aquela cortesia, mesmo depois de ele haver lhe confiado uma missão tão importante — e perigosa.

— Kakashi — chamou-o, detendo o homem. — Por quê?

Ele se virou para Sasuke com uma expressão serena no rosto.

— Por quê? Você mesmo disse: não tem tido boas experiências nos últimos dias. Achei que um gesto amigo viria a calhar agora. Afinal, você ainda é o Sasuke, de alguma forma. É o garoto cheio de raiva e medo que eu treinei por um tempo, e que eu acreditei que pudesse ajudar. Mas tudo o que eu lhe dei foram apenas conselhos vazios e falhas atrás de falhas. Me pergunto se, no mundo de onde você vem, o meu eu de lá também se sente um fracasso como professor.

— Você não falhou comigo, Kakashi — Sasuke murmurou, sucumbindo ao impulso de aliviar um pouco do remorso que enxergou no rosto do seu antigo sensei. — Fui eu que falhei contigo no passado. Fui eu que descartei os seus ensinamentos, vendi a minha alma pela vingança e ainda tentei tirar as vidas dos meus próprios companheiros. Você tentou me alertar para as consequências que eu enfrentaria se continuasse naquele caminho; eu não quis te escutar.

— Eu falhei sim — ele persistiu, mas num tom mais brando. — No seu mundo, não fui capaz de impedir que você quase afundasse em trevas. Se não fosse por Naruto, tudo terminaria exatamente como aconteceu aqui. E, neste mundo, a minha falha foi ainda mais grave. Não consegui te impedir de seguir por um caminho de violência e solidão, e também não te impedi de ter assassinado a única esperança para todos. E, agora, aqui estou eu: velho, cansado e ainda tentando compensar todos os meus fracassos com Naruto e com você em Sakura.

Kakashi balançou a cabeça num gesto exasperado então.

— Mas chega de falarmos sobre o passado ou sobre as minhas falhas como professor. Vamos até a minha casa, assim você poderá se preparar melhor para a missão para a qual te designei.

Ao término, sorriu sob a máscara para Sasuke, instigando-o o segui-lo. Sem escolha, ele o fez. Manteve certa distância enquanto a chuva, enfim, dava-lhes uma trégua, abrandando para um sereno para, então, dispersar-se por completo.

O céu clareou e a luz do sol transpassou as nuvens que ainda restavam, incidindo sobre as poças d’água pelas quais passavam. A luz refletida nas partículas de água projetou uma miríade de cores; criou um arco-íris.

Notas finais
E finalmente eu estou de volta com os capítulos de Dark Dawn! Já estou escrevendo o último arco da história e me preparando pra começar a escrever o clímax! Pra ter uma motivação a mais pra concluir DD, decidi retomar as publicações dos capítulos, que acontecerão a cada quinze dias, assim tenho um prazo mais folgado pra terminar tudo. A história estando concluída, os capítulos serão publicados semanalmente ou até mesmo duas vezes por semana. Sobre o capítulo: o que acharam? Se as coisas já estão difíceis pro Sasuke agora esperem só até a chegada da Sakura HAHAHAHA E vai um pequeno spoiler agora: falta um capítulo só pra ela chegar chegando! Quanto ao Sasuke do outro mundo, o que será que vai rolar?! Muito obrigada por todos os comentários! Vou responder todos, prometo! Até o próximo capítulo!