Dark Dawn

24 Capítulo 24: A Sombra do Sangue


Notas iniciais
Vigésimo quarto capítulo. Boa leitura!

Capítulo 24:

A Sombra do Sangue

○♦○

NA HORA MARCADA, TODOS se dirigiram para a sala onde aconteceria a reunião. Uma grande mesa redonda com um centro oco estava posicionada no meio do recinto amplo e bem iluminado, com assentos separados para os Kages e lugares à volta para os guarda-costas particulares que eles traziam.

Bandeiras representando os países que participariam da Cúpula tinham sido penduradas no teto cupular e pendiam — faixas estreitas de tecido claro — compridas de modo que coroassem os assentos designados para cada líder de cada nação.

Sakura se dirigiu até o seu assento, pousando o chapéu de Hokage na mesa e puxando a cadeira. Sentou-se ao mesmo tempo em que outros líderes o faziam enquanto as suas escoltas enchiam o salão, posicionando-se à direita, à esquerda e mais atrás de cada um deles. Logo, o salão tornou-se um pouco abarrotado devido à presença de tantos ninjas e líderes.

Ela observou os Kages se acomodarem à sua volta e à sua frente. A Kazekage estava à sua direita, e o Mizukage, à esquerda. Ao lado dele, sentou-se o Raikage, e um assento adiante, a Tsuchikage.

Havia assentos vagos à frente dela. Um deles foi ocupado por um homem franzino, o Lorde Feudal do país do Gelo, e outro mais robusto sentou-se à sua esquerda com um assento entre eles, era o Lorde Feudal do país do Pântano. O Lorde Feudal do país da Nevasca estava atrasado, de forma que o assento entre ambos continuou vago. À cabeceira da mesa, como era tradição, acomodou-se o atual líder do País do Ferro, um homem sisudo de meia idade que trazia embainhada na cintura uma elegante katana.

Sakura tinha lido sobre ele, informando-se a respeito da sua história e dos seus feitos a fim de inteirar-se para a Cúpula. Seu nome era Abe Shinji, e seria ele a presidir a reunião como anfitrião e realizador da Cúpula.

Ela olhou para cima de repente quando percebeu a aproximação de Sasuke. Ele colocou-se à esquerda dela, um pouco mais atrás da sua cadeira. Não a olhou, mas aquiesceu. Ainda seguiam o plano. Uma rápida espiadela pelo salão assegurou-a de que ninguém prestava atenção nele, o que significava que o disfarce estava funcionando. Ótimo, concluiu. Que permanecesse assim até o último momento.

Aos poucos, o burburinho que predominava no recinto foi se extinguindo e dando lugar a um silêncio denso e desconfortável. Sakura cruzou as mãos sobre a mesa, entrelaçando os seus dedos inquietos. A partir dali, assumiria a postura de uma líder, de uma Hokage a fim de representar e defender os interesses do país do Fogo e de Konoha.

O homem que encabeçava a reunião apresentou-se brevemente numa voz firme:

— Sejam todos bem-vindos ao país do Ferro. O meu nome é Abe Shinji e eu represento os interesses desta nação, tendo autorização para exercer a função de porta-voz. Assim sendo, declaro o início desta Cúpula dos Kages. — E finalizou com uma meia reverência, curvando o torso de modo que a sua testa ficasse próxima da superfície da mesa.

— A pedido de Kondo Kyoichi-sama, Lorde Feudal do país do Pântano — Shinji indicou para o jovem homem sentado à mesa à sua esquerda —, eu convoquei esta reunião com os cinco líderes militares das cinco nações que compõem a Aliança Shinobi. Por favor, sintam-se à vontade para se apresentar aos demais presentes.

O jovem homem de cabelos azuis espetados, olhos escuros e que usava um par de óculos excêntrico com protetores auriculares atrelados à armação ergueu a mão, tomando a liberdade de se apresentar primeiro:

— Chōjurō. Sou o Rokudaime Mizukage e represento os interesses do país da Água, assim como de Kirigakure no Sato. Estou honrado por estar aqui — Diante dele, o chapéu de tonalidade azul clara confirmava a sua posição de poder; o kanji da palavra “água” decorava o seu centro, em tinta azul.

De braços cruzados, e do lado oposto a Chōjurō, o homem de pele negra, cabelos claros caindo-lhe sobre um dos olhos escuros e com um bigode também claro cobrindo-lhe o lábio superior, copiou-o e se apresentou:

— Darui. Godaime Raikage. Represento os interesses do país do Relâmpago, assim como de Kumogakure no Sato. — O chapéu amarelo-mostarda tinha o kanji da palavra “relâmpago” no seu centro.

A Kunoichi de curtos cabelos negros e olhos também negros ao lado dele apresentou-se com um sorriso para todos os outros, as mãos enluvadas sobrepunham-se; os dedos entrelaçavam-se diante do semblante amigável:

— Kurotsuchi. Yondaime Tsuchikage. Represento os interesses do país da Terra, bem como de Iwagakure no Sato. — Diante dela, um chapéu marrom com o kanji da palavra “terra” adornava-o.

À esquerda de Sakura, Temari suspirou profundamente antes de se apresentar aos demais.

— Sabaku no Temari. Rokudaime Kazekage. Represento os interesses do país do Vento e de Sunagakure no Sato. — Havia um chapéu verde com o kanji da palavra “vento” diante dela, sobre a mesa.

Sakura entendeu que aquela era a sua deixa. Apresentou-se a todos os presentes, murmurando as palavras que ensaiara mentalmente nos últimos minutos, num tom de voz uniforme e polido.

— Haruno Sakura. Nanadaime Hokage. Estou aqui em nome dos interesses do país do Fogo e de Konohagakure no Sato.

O líder do país do Ferro pigarreou, atraindo a atenção dela para si.

— Nós aguardávamos pela presença do Rokudaime Hokage, Hatake Kakashi. Houve algum contratempo?

Sakura não hesitou ao respondê-lo, e o fez com naturalidade e segurança.

— Não houve nenhum contratempo. Kakashi-sensei... O Rokudaime Hokage — ela se corrigiu — me nomeou oficialmente a sua sucessora e me incumbiu de representar os interesses do meu país e da minha vila natal.

Shinji aquiesceu de modo sucinto.

— Compreendo. Prossigamos então. — E indicou aos dois Lordes Feudais presentes para que dessem procedência às apresentações.

Os homens estavam claramente desconfortáveis e tensos. O assento vago entre eles deixava uma impressão esquisita em Sakura. Segundo o que lhe fora dito, três Lordes Feudais haviam sido convidados a participar da Cúpula. No entanto, viam-se apenas dois, e o Chikage ainda não tinha se revelado. Aquele jogo de gato e rato fartara-a havia muito tempo. Onde você está, seu desgraçado?, ela se perguntava e sentia aquela mesma inquietação emanar de Sasuke, de pé ao seu lado e apenas a dois passos curtos de distância da sua cadeira.

O homem franzino apresentou-se primeiro. Ele tinha olhos escuros e encovados, assim como uma expressão cansada no rosto. Vestia um quimono de seda cinza luxuosa e tinha os cabelos grisalhos bem presos com um grampo de ouro no alto da cabeça.

— O meu nome é Yamaguchi Jiro. Represento o país do Gelo, e sou o atual detentor do título de Lorde Feudal, sendo o quinquagésimo nono governante do meu país.

O homem robusto ao lado dele, que vestia um quimono roxo também suntuoso e usava os cabelos pretos num penteado elaborado, pigarreou ao entender que aquela era a sua deixa.

— Eu sou Kondo Kyoichi e represento o país do Pântano. Carrego o título de sexagésimo sexto Lorde Feudal. — Ele entrelaçou os dedos roliços, as bochechas enrubescendo levemente; era anos mais jovens do que o outro Lorde Feudal que se apresentou antes, e muito inexperiente Sakura percebeu com um estreitar dos olhos. — Sucedo o meu pai, Kondo Tanaka, como governante do meu país.

Após as breves apresentações, um pequeno burburinho se iniciou no recinto. Vozes dispersas sussurravam à frente e às costas de Sakura. Temari se inclinou um pouco na sua cadeira para murmurar algo para ela:

— Onde está o Lorde Feudal do país da Nevasca? Ele está muito atrasado para a reunião.

Sakura mordeu o lábio, tensa e receosa, mas não compartilhou seus temores com a Kazekage; ainda não era hora. Portanto, deu de ombros e fingiu desconhecer qualquer informação a respeito do paradeiro do homem. Impaciente, ela bateu o solado das botas contra o piso a fim de aliviar um pouco da tensão.

Shinji Abe, o líder do país do Ferro, pôs fim às conversas dispersas, demandando que a atenção de todos os presentes se voltasse para ele uma vez mais:

— Reuni-os aqui — ele passou os olhos primeiro pelos cinco Kages presentes, as maiores autoridades no mundo Shinobi —, incluindo os líderes militares dos países do Fogo, da Água, do Relâmpago, do Vento e da Terra, assim como os Lordes Feudais dos países do Gelo, Pântano e Nevasca, para que discutamos uma estratégia de contenção aos avanços do país do Sangue, que atualmente ocupa os territórios do país da Lua e do país do Ácido. Recentemente, o líder militar do país do Sangue, que se autodenomina “Chikage”, declarou o seu interesse de expandir os seus avanços militares para mais três nações vizinhas, além de ter feito ameaças à Aliança e às nações aliadas que a compõem.

“A Aliança já declarou a sua intenção de recorrer a uma ação mais ofensiva para conter o país do Sangue caso as negociações pacíficas não apresentem resultados imediatos. Ao término da reunião, poderemos oficializar ou não essa intenção através de uma votação.

Sakura fechou os olhos, a voz de Shinji zumbia no seu ouvido e a dor de cabeça de antes ameaçava voltar a importuná-la, culpa de toda a tensão que experimentara nas últimas semanas. Toda aquela formalidade deixava-a ainda mais impaciente para que avançassem logo para a parte crucial da reunião: a votação dos Kages e dos Lordes Feudais. Batia no piso o solado das botas de cano alto que usava sob a mesa num tique nervoso.

Shinji se voltou para um dos Lordes Feudais, o mais velho, incitando-o a dar o seu relato:

— Yamaguchi-sama, poderia compartilhar conosco as informações que possui da situação política do país do Sangue assim como do homem que o lidera?

Sakura se endireitou quando percebeu que o Lorde Feudal do país do Gelo compartilharia informações. O homem não precisou ponderar por muito tempo, uma vez tendo sido invitado a falar. Entrelaçou os dedos finos e pigarreou.

— A nossa história com o país do Sangue é antiga, como poucos presentes nesta reunião o sabem. O país foi devastado por guerra após guerra logo depois que um de dois irmãos decidiu questionar a legitimidade do direito de governança do outro. Antes disso, toda a nação já vinha sofrendo com a miséria e com catástrofes naturais que o devastavam de tempos em tempos. Pareceu-me... adequado que o país envergasse o nome que carrega, afinal, foi construído sobre o sangue de muitos. O homem que o fundou, Ōtsuka Soichiro, ficou conhecido na história como um carniceiro que destruiu todos aqueles que se opuseram a ele em verdadeiros banhos de sangue.

— O território do país do Sangue engloba regiões com alta atividade vulcânica e tectônica — o lorde feudal do país do Pântano divagou, interrompendo o relato do outro enquanto secava o suor da testa com um delicado quadrado de seda: — É claro que isso também garante solos muito férteis e há muitas riquezas... Sim, infinitas minas de ferro, de prata, de cobre e de minerais preciosos.

Ele enrubesceu quando percebeu o que havia feito. Sakura ergueu uma sobrancelha. Kyoichi era, de fato, inexperiente demais. Jovem demais. Uma completa antítese do segundo lorde feudal presente.

— Oh perdão, Yamaguchi-sama! Eu nem mesmo percebi o que estava fazendo.

Yamaguchi disfarçou uma tosse com outro pigarro.

— Como eu estava dizendo, o país do Sangue foi devastado por muitas guerras civis nos últimos cinquenta anos. Disputas internas de poder terminavam por enfraquecer e, mais tarde, por desmantelar qualquer governante que tentasse assentar a sua liderança no país.

“O último deles se chamava Yamamura Eiji e depois de uma dura campanha que custou um terço das suas forças e doze longos anos, ele conseguiu ocupar o cargo de lorde feudal do país. Eiji, no entanto, acreditava que o poder só seria mantido se ele governasse com punhos de ferro, e foi isso o que ele fez por três anos e meio até cair numa noite para o homem a quem chamamos de “Sombra do Sangue”. As informações de que dispomos sobre esse homem são — Yamaguchi ergueu uma sobrancelha — convenientemente escassas, uma vez que ele não costuma se expor e prefere agir a partir das sombras, usando seguidores fanáticos para cumprir os seus desejos e vontades. Existem até mesmo aqueles que sustentam rumores de que o Chikage, na verdade, seja um deus executando a sua vingança contra aqueles que o prejudicaram no passado e que por isso não se revelaria mesmo para os seus inimigos.

— Isso é um completo absurdo — O Raikage, Darui, interrompeu Yamaguchi. Sua voz soava monocórdia, quase entediada. — O homem não é deus algum, é apenas covarde demais.

— Concordo com o Raikage — Temari, a Kazekage, ecoou, cruzando os braços. — O homem é apenas covarde se prefere não se revelar. Não o transformemos no que ele não é.

Yamaguchi pigarreou.

— Sim, de fato, esses rumores são absurdos, mas eles se sustentam porque o Chikage jamais se mostrou antes. Ele é praticamente uma lenda viva no meu país, e eu conheço homens que tremem apenas ao ouvir o seu título. Além do mais, os Shinobis que o protegem, que integram a Guarda Escarlate, têm fama de serem conhecidos como sujeitos perigosos e instáveis que cultuam o seu líder com uma espécie de devoção fanática.

Ele amenizou o tom de voz.

— Eu concordo que o homem não deve ser transformado no que não é, mas a fama que o precede já o faz sem que precisemos contribuir para isso.

— Yamaguchi-sama, não há mesmo uma informação concreta sequer a respeito da identidade desse homem? — A Tsuchikage indagou, aflita. — Parece que estamos nos referindo a um fantasma, a um homem sem rosto.

— Eu receio que não, Tsuchikage-sama — ele respondeu condoído. — Tentei infiltrar espiões no país do Sangue para arrancar qualquer informação sobre ele: seu passado, suas habilidades, sua fraqueza, mas, infelizmente, todos foram descobertos de alguma forma sobrenatural e terminaram mortos. No fim, eu já não podia mais arriscar as vidas de homens e mulheres leais a mim. Tudo o que me restou foi fortificar as minhas fronteiras e manter vigília constante, temeroso de que a qualquer momento o Chikage viria atrás de mim e do meu país.

— Isso não faz muito sentido — Sakura objetou. — Yamaguchi-sama, o senhor se refere ao Chikage, ainda que o considere um homem, como um ser senciente. Ou mesmo onisciente. O que eu considero igualmente impossível.

— Com todo o respeito, Hokage-sama — Yamaguchi murmurou —, mas há sim algo de sobrenatural no modo como esse homem age. Como ele sempre antecipa e neutraliza qualquer um que o ameace ou ameace o país do Sangue, como ele instiga o medo entre os seus inimigos e mesmo entre os prováveis aliados.

— Eu li os memorandos sobre as invasões ao país da Lua Crescente e ao país do Ácido — ela disse secamente. — Inclusive sobre como os ambos os lordes feudais desses países cometeram suicídio um pouco antes que os seus oficiais percebessem que a batalha estava perdida e se rendessem às forças do país do Sangue. Ambas as invasões aconteceram à noite, com ataques sorrateiros às capitais e aos castelos que abrigavam os seus governantes. E, ainda assim, ambos os líderes cometeram suicídio. Isso me soa bastante suspeito, para não dizer como foi conveniente para o Chikage.

— O meu pai trocou cartas com o Lorde Feudal do país da Lua Crescente por dois meses antes da sua morte e da invasão ao país — Kyoichi, o jovem lorde feudal, interpôs: — Ele relatava através das cartas os pesadelos que o acometiam, dizia que, às vezes, tinha sonhos tão intensos que acreditava fervorosamente que era transportado para outros mundos... — Kyoichi abaixou o tom de voz para um mero sussurro, como se apenas mencionar o acontecido pudesse lhe atrair má sorte: — Algo parecido com experiências extracorpóreas.

Sakura espiou Sasuke de viés, ainda sob o disfarce do henge no jutsu, e percebeu-o tenso. Não poderia culpá-lo. Ela mesma estava tensa com tudo o que estava sendo relatado. Via nitidamente o medo nos olhos dos Lordes Feudais, via a sombra do Chikage nos silêncios arrastados, nas palavras sussurradas. Ele já estava vencendo a guerra a julgar pela expressão derrotada que se via nos semblantes daqueles homens e não precisou ter movido um dedo para isso.

— De qualquer modo, é crucial que entendamos o nosso inimigo para que possamos traçar uma estratégia eficaz para contê-lo — Shinji Abe interviu, conciliador como sempre. — Agradeço pelas informações que compartilhou conosco, Yamaguchi-sama.

O homem mais velho aquiesceu em resposta. Shinji se voltou para Kyoichi em seguida.

— Há algo mais que gostaria de acrescentar, Kondo-sama?

Kyoichi tornou a secar o suor com seu lenço de seda. Pareceu mais tenso de repente. Menos jovem, e mais como um líder de um país aflito que precisava de ajuda para derrotar um inimigo poderoso.

— Como poucos sabem, o meu pai faleceu no mês passado. Sucumbiu para uma doença agressiva que o fez definhar por semanas. Com tudo o que Yamaguchi-sama compartilhou conosco, eu não poderia deixar de atestar a veracidade dessas informações, afinal, eu as testemunhei de perto — disse com um riso nervoso.

— O que quer dizer, Kondo-sama? — Shinji indagou.

Kyoichi engoliu em seco.

— Quero dizer que testemunhei tudo isso que Yamaguchi-sama relatou em primeira mão... Através do meu pai. Não posso provar que o Chikage esteve diretamente ligado à sua morte, mas com base em tudo o que nos foi dito suspeito que o meu pai tenha sido assassinado.

— É uma acusação muito grave — Temari pontuou.

— Tenho ciência disso, Kazekage-sama, mas acontece que o meu pai foi acometido por muitos pesadelos nos últimos meses de vida. Por vezes, despertava a todos no castelo com gritos pavorosos durante a madrugada. Tinha tanto medo de dormir que passou a depender de remédios muito fortes para fazê-lo. E, ainda assim, pela manhã, ele me dizia que o Chikage encontrava uma forma de entrar nos seus sonhos, de manipulá-los e de fazê-lo viver diferentes realidades, quase como se o arrancasse do próprio corpo e o abandonasse em outros mundos muito mais hostis.

— Suponhamos que as suas acusações tenham algum fundamento além de especulações e do relato de um homem morto em cartas confidenciais, Kondo-sama — Sakura interrompeu-o com delicadeza. — Suponhamos que o seu pai tenha sofrido essas experiências extracorpóreas que outros também relataram ter vivido... Haveria alguma forma de revertê-las? E como poderíamos conectá-las ao Chikage?

— Eu honestamente não tenho ideia, Hokage-sama — ele admitiu com pesar. — Mas ninguém além do Chikage se beneficiaria com a morte do meu pai e com as mortes de outros dois lordes feudais.

Sakura crispou os lábios e voltou a se recostar contra a cadeira. Não poderia contestar o garoto, não quando ele apresentara um argumento tão contundente. De fato, ninguém ganharia mais com as mortes de três lordes feudais. E nada parecia conectá-las umas às outras, exceto pelos homens terem tido experiências semelhantes à que Sasuke sofreu quando foi atirado naquele mundo.

— A morte do meu pai desestabilizou o meu país — Kyoichi murmurou num tom embargado. — Eu precisei assumir a posição de Lorde Feudal quando ainda estava de luto pelo meu pai. Mas precisei ser forte pela minha nação e pelo meu povo. Foi por isso que decidi que pediria ajuda à Aliança para conter o Chikage e o país do Sangue. Não poderíamos fazê-lo sozinhos, mas com o auxílio das nações aliadas... — Kyoichi se curvou sobre a mesa, abaixando a testa até que esta quase tocasse a superfície da mesa. — Por favor, eu imploro, nos ajude a derrotar o Chikage! Antes que ele decida invadir o meu país também, antes que ele possa fazer o meu povo sofrer...

— Kondo-sama, por favor — Shinji repreendeu-o. — Nós não terminamos. As votações ainda não começaram.

— Pois então pulemos toda essa burocracia e votemos — Temari protestou. — Podemos passar o resto do dia debatendo fantasmas, deuses e alucinações... Ou podemos decidir de uma vez por todas se acabaremos com o reinado de terror desse sujeito.

— Eu concordo — o Raikage ecoou, os braços musculosos cruzados sobre o peito. — Já nos foram fornecidos argumentos suficientes. Votemos de uma vez, e acabemos logo com isso.

Shinji Abe suspirou profundamente.

— Muito bem. Passemos para o tópico das votações.

Um silêncio tenso seguiu a declaração do líder do país do Ferro. Todos se remexeram nos seus assentos, desconfortáveis e conscientes de que decidiriam os destinos de milhares de vidas nos próximos minutos.

Shinji foi o primeiro a votar.

— Como líder do país do Ferro e representante máximo dos seus interesses, digo que a possibilidade de uma guerra que futuramente envolva todos os países é concreta e verdadeira, portanto, o meu voto é para que as forças somadas das nações aliadas, do país do Ferro e dos países do Gelo, Pântano e Nevasca declarem guerra ao país do Sangue e àqueles que compactuem com os objetivos do seu líder, o Chikage.

Shinji se virou para Yamaguchi em seguida.

— Yamaguchi-sama?

O homem assentiu, tenso mas convicto de sua decisão:

— Guerra — declarou.

O próximo a votar foi Kyoichi, que, aliviado, juntou-se ao coro de vozes que clamavam por justiça:

— Guerra.

Depois, foi a vez do Mizukage de votar.

— Não estou convencido de que não possamos tentar o diálogo com esse sujeito — ele alegou. — Eu preferiria arriscar uma abordagem mais diplomática primeiro. Portanto, voto para que o tentemos antes de iniciar qualquer confronto mais direto.

A Tsuchikage não pensava de uma forma tão diferente.

— Chōjurō tem razão. Deveríamos tentar uma abordagem mais diplomática primeiro. Podemos fazer o Chikage compreender que não tem chance de derrotar todo o nosso poderio. Se isso não funcionar, então usaremos a força contra o sujeito.

O Raikage suspirou antes de anunciar a sua decisão.

— Apesar de não gostar da ideia de iniciar uma nova guerra mundial shinobi, concordo que o Chikage precisa ser detido e quanto mais cedo o fizermos, melhor será para todos os países. Eu voto para que declaremos guerra.

Quando chegou a vez de Temari, ela respondeu sem preâmbulos:

— O Raikage tem razão. Quanto mais cedo o detivermos, melhor será para todos. Eu voto para que declaremos guerra contra o país do Sangue. Com todas as nossas forças unidas, ele não terá chance alguma de vitória.

Sakura suspirou quando percebeu que era a sua vez de anunciar uma decisão. Ela sentiu os ombros pesados. De repente, a responsabilidade por milhares de vidas shinobis leais a ela por pouco não a sufocou.

Lembrou-se então de um dos ensinamentos mais duros de sua mestra, um que carregou consigo por toda a vida: “Um Yriō-nin está sempre acompanhado pela morte, Sakura”, ela lhe disse num tom de voz que não escondia o remorso que sentia. “Habitue-se a isso. Você nunca será capaz de salvar todas as vidas. Você também nunca se esquecerá dos rostos daqueles que não conseguiu curar. O dom de curar é uma dádiva maravilhosa, mas pode se tornar um tormento para aqueles que não estiverem preparados para conviver com a morte. Lembre-se disso. Houve uma época em que eu convivi com a dor de não ter conseguido salvar o meu irmão e o homem que eu amei. E isso quase me destruiu”. Ela então tinha lhe sorrido, aquele sorriso amplo e belo, cheio de uma confiança admirável. “Não seja como a sua mestra nesse ponto”.

Sakura estava prestes a anunciar a sua decisão quando a voz de Ino soou desesperada na sua mente, surpreendendo-a por um momento.

Ele está aqui!, Ino alertou. Sakura varreu os arredores com os olhos, desconfiada. Onde?, perguntou-se, ignorando num primeiro momento todos os olhares que se viraram para ela, aturdidos devido à sua reação.

Vindo para cá, Ino informou num só fôlego. Sai ainda o está seguindo. E ele não está sozinho.

Sakura voltou ao presente quando percebeu que todos a encaravam, expectantes e confusos, para que anunciasse o voto do país do Fogo. Foram interrompidos antes que ela o fizesse, contudo.

Do corredor que antecedia a sala de reuniões, soaram passos; muitos deles vindo apressados, batendo no piso de pedra. Todos se viraram na direção da entrada enquanto Sakura se colocava de pé abruptamente, empurrando a cadeira para longe, e encontrava o olhar de Sasuke.

— Ele está aqui — sussurrou para ele, que enrijeceu.

Os muitos passos apressados se aproximaram ainda mais pelo corredor. Então se acalmaram, com apenas o som das passadas espaçadas de uma única pessoa ressoando no piso de pedra. Cada passo ecoava uma batida do coração de Sakura.

Ela engoliu em seco, fitando a entrada do recinto. Um ardor tomou-lhe o peito, queimando dentro dela enquanto aqueles segundos se arrastavam e faziam crescer o sentimento de apreensão. Sentimento este compartilhado por Sasuke, ao seu lado, pelo que conseguira ler da expressão tensa no rosto e da postura corporal dele quando o olhou.

Sakura virou os olhos para a entrada do salão no momento em que todos os passos cessaram.

Um homem entrou primeiro.

Notas finais
FINALMENTE o Chikage chegou pra colocar fogo nesse parquinho! Esse homem só veio ao mundo por dois motivos: causar tretas, e causar tretas na vida do Sasuke! HAHAHAHAHA Estamos no arco final da história! Dark Dawn está nos seus últimos suspiros. O que estão achando de tudo? Estão gostando? A última batalha está prestes a começar e o Sasuke tá muito perto de conseguir voltar pra casa e pra família! E eu tenho uma novidade pra vocês! Como já anunciei há alguns dias na minha página, eu pretendo começar uma nova história para escrever um desfecho adequado pra essa realidade. "Dawn Rising" está vindo aí! Então se preparem pra ver mais da Sakura Hokage, muito angst, o Sasuke dessa realidade tentando se redimir, muito angst, muita treta... Eu já disse que haverá muito angst?! Pois é, haverá. Vou deixar a sinopse mais embaixo pra vocês darem uma conferida no que estou planejando. . . . "Numa realidade remota, durante a sua última batalha no Vale do Fim contra Naruto, Sasuke se tornou o vencedor e, ao assassinar o melhor amigo, rompeu o laço que ainda o prendia a tudo o que ele viveu com o Time 7. Também concluiu a sua revolução e se tornou o novo Uchiha Madara de um mundo destruído que ele próprio ajudou a fundar e construir. Mas a solidão e o arrependimento jamais o abandonaram depois disso. Mais de quinze anos depois, ele trocou de lugar com o Sasuke de outra realidade, uma realidade em que não houve vencedores na batalha do Vale do Fim, em que Naruto se tornou o Hokage e Sasuke, seu braço direito que age nas sombras. Mas mais do que isso: uma realidade em que ele se tornou marido de Sakura e pai de Sarada. Agora ele estava de volta ao próprio mundo, e alegando ter mudado devido à experiência. Sakura, que acabou de se tornar a Sétima Hokage, recebe a difícil tarefa de mantê-lo preso na vila até que possa ser devidamente julgado. Mas ela nem mesmo sabe como encará-lo nos olhos depois de toda a dor que ele lhe causou. Ou se pode confiar no próprio coração quando ele está por perto. Enquanto isso, sombras se movimentam na aldeia da Folha. Há ameaças à espreita: uma facção de Konoha deseja depor a recém-nomeada Hokage, dois inimigos ancestrais agem à surdina, e cinco Nações Aliadas mostram-se decididas a executar Uchiha Sasuke antes que ele sequer tenha a chance de encontrar a redenção. Sakura precisa decidir se Sasuke é digno de receber um voto de confiança para permitir que se redima por todos os crimes que cometeu. Precisa decidir, acima de tudo, se ele também é digno de receber o seu perdão. E, nesse meio tempo, velhos sentimentos poderão aflorar mais uma vez". . . . Talvez eu volte na segunda-feira com outro capítulo. Espero que tenham gostado do capítulo e da novidade. Estou bastante empolgada pra começar a escrever Dawn Rising. Muito obrigada pela leitura e até o próximo capítulo! xoxo