Darcanjo

3 Round 3 – Eric


David acordou assustado. Assim como Marcos havia falado, no momento em que recuperou suas energias, voltou instantaneamente para casa.

O que ele não falou, mas já era de se esperar, foi a dor de cabeça e muscular infernais resultantes de quem não faz viagem astral com frequência ou é atacado por alguma alma penada.

David morava numa casa alugada com sua família, era somente um pouco mais espaçosa que um apartamento: três quartos, um banheiro, uma cozinha e uma sala de estar. No seu quarto era possível encontrar alguns posteres de bandas fixados na parede, um notebook sobre o criado mudo, uma cadeira retrátil de plástico, um guarda-roupa e, por fim, sua cama de solteiro que, apesar de velha, tinha um colchão macio e confortável.

- 9h? Estou atrasado! – Disse se esquecendo que estava todo quebrado por causa da viagem e dando um pulo da cama, fazendo com que seus músculos doessem desde o dedo mindinho do pé até seu último fio de cabelo.

Já era hábito acordar correndo de um lado para o outro para chegar a tempo no trabalho, seu despertador nunca o acordava e seus pais e irmão saíam mais cedo. Pelo menos assim ninguém se incomodava com seus uivos de dor sempre que sua canela batia na estante que David apelidou carinhosamente de quebra-perna.

O restante do dia seguiu-se sem nada fora do normal, exceto pelos pensamentos que surgiam sobre participar ou não daquele torneio sem pé nem cabeça.

- Afinal ele queria arranjar pessoas para lutar contra fantasmas em geral ou somente num torneio? – Pensou enquanto errava o caminho da boca e derrubava o café em sua calça nova.

Não tinha jeito, teria que falar com mais alguém sobre o assunto. Como não pediram segredo, poderia falar com qualquer pessoa que não fosse interná-lo num manicômio em seguida.

A primeira coisa que fez ao chegar em casa, como sempre, foi ligar seu notebook e sentar-se em sua desconfortável cadeira de plástico. A segunda foi enviar uma mensagem de texto ao seu amigo: “Eric, entra aí na internet. Quero te perguntar uma coisa”. Poucos segundos depois uma janelinha de bate-papo da rede social se abre:

- Tô on, diz aí.

- Eu odeio essa janelinha pequena daqui – Retrucou David.

- Eu também, sem falar que vive travando, mas fazer o que, né?

- Fazer o que? Entra aí no msn!

- Eu não, tô com preguiça.

- Põe pelo menos no ocupado para ver se trava menos.

- Se eu sair do invísivel tem 3% de chance de alguém falar comigo.

- Aí você fala com ela, ué.

- Eu não, tô com preguiça.

- Então é só não falar, fingi que não viu a janelinha.

- Aí vão me chamar de chato.

- Enfim, deixa eu te explicar o que houve.

Em poucos minutos David resumiu a história e ficou esperando uma resposta que veio mais rápido do que ele imaginava:

- Complicado – Respondeu Eric como sempre fazia antes de dar sua opinião – Por ser um ser humano é mais confiável, mas mesmo assim pode ser algum tipo de armadilha. Acho que você deveria ir, afinal se você conseguir um machado daqueles não teria mais que se preocupar com o que poderia ocorrer durante uma viagem astral.

- É, somente isso que me faz querer ir.

- Mas por que está perguntando isso a mim? Mesmo sabendo que nunca fiz uma viagem astral.

- Nunca fez, mas sabe das coisas. Como daquela vez que você me disse que se eu não quisesse fazer viagens era só tentar depositar toda a energia espiritual que eu conseguisse num objeto.

- Ah, aquilo deu certo? Que bom.

- Como assim, que bom?

- É que eu supus aquilo, não sabia se ia funcionar.

- Desgraçado!

- Se eu pudesse fazer viagem astral eu iria com você, mas eu já tentei e não consigo.

- Sem problemas. De qualquer forma, continua tentando, esse torneio só acontecerá daqui a praticamente um mês.

- Ok, qualquer coisa depois me conta o que você viu por lá e se conseguiu um machado.

- Pode deixar.