Darcanjo

4 Round 4 – Nós formamos um grupo


O tão aguardado dia chegou. David ainda não sabia o que fazer, mas resolveu tentar a sorte. Às 22:30h desligou seu computador e foi dormir.

– Estrela da manhã – Gritou em alto e bom som assim que fez sua viagem astral.

Por um segundo nada aconteceu. Nem por dois segundos, por três, por cinco minutos, meia hora. David ficou rodando por tanto tempo em volta daquela piscina abandonada que já estava pensando se poderia dar um mergulho enquanto esperava.

Dessa vez ele tinha ido parar num clube. Ao longe se era possível ver um estacionamento, sendo seguido respectivamente por um parquinho, um espaço vazio com algumas mesas (com algumas árvores ao lado que pareciam perfeitas para se armar uma rede), logo depois um campinho de futebol de areia e as piscinas. Ao seu lado havia um restaurante com uma mesinha de tênis e uma sinuca.

Em geral era um local simples e agradável para se passar um fim de semana. Procurou em vão algum ponto de referência para o caso daquele clube ser em sua cidade, pois, pela quantidade de cerâmicas lascadas ao redor da piscina – três do lado direito, duas em cima, cinco do lado esquerdo e uma embaixo – não devia ser tão caro para entrar. Que foi? Se você passasse mais de meia hora rodando ao redor de uma piscina você também prestaria atenção em todos os detalhes dela, como nas três abelhas que boiavam na água e na aranha que tecia suas teias pela cadeira de praia. Por fim, depois de ficar um pouco tonto, se juntou à aranha, prestando atenção na delicadeza em que compunha sua obra de arte.

Somente às 23:45h alguma coisa aconteceu. Não sabia direito a sensação. Algo como se estivesse perdendo peso, como se fosse um montinho de poeira e o vento passasse e o levasse para longe, só que, infelizmente, de um modo que doía para caralho. Estavam sugando sua energia, era tudo uma armadilha e tudo que conseguia fazer naquele momento era fechar os olhos, cerrar os dentes e evitar urrar de dor.

Logo depois, sua energia foi voltando lentamente misturada a um zum zum zum de pessoas falando alto. A dor havia passado então já conseguia abrir os olhos e observar o ambiente: um galpão fechado repleto de pessoas, algo por volta de 300, conversando e correndo de um lado para outro. Bom, aquilo não se parecia em nada com o céu, nem com o inferno, logo, ou ele estava vivo ou havia sido mandado pro purgatório. Olhou para trás e viu que ainda possuía o seu cordãozinho prateado que o acompanhava em viagens astrais e respirou fundo aliviado ao mesmo tempo em que levava um pontapé na cabeça.

– Sai do meio – Reclamou o estranho.

– Formem grupos de 5 pessoas – Ressoava uma voz ao fundo.

Tudo parecia girar ao seu redor, tanto suas ideias que surgiam como um turbilhão, quanto as pessoas andando em círculos. Ninguém prestava atenção em sua existência, somente tentavam desesperadamente conseguir aliados. O que diabos estava acontecendo ali? Que tipo de torneio maluco seria aquele?

– David? – Perguntou uma voz desconhecida que acabara de sair de algum lugar da multidão.

– Klaus? É você? – Disse depois de apertar os olhos e analisar a pessoa de cima abaixo, reconhecendo de quem se tratava.

Klaus era um amigo que David havia conhecido na internet numa sala de bate-papo de conteúdo pornô... quer dizer, de conteúdo adulto. Fizeram amizade logo após assustarem duas meninas que haviam entrado na sala meio que por acidente – o nome original da sala era “papo cabeça”, mas o administrador deixou de visitar a página e, consequentemente, trocar seu nome. Eles já haviam ficado horas conversando bobagem por lá.

– Não sabia que você conseguia fazer viagens astrais – Disse David ainda um pouco assustado.

– Nem eu sabia que você também podia fazer. Sabe como é, se a pessoa falar sobre isso para todo mundo vão nos chamar de loucos. Mas, e então, já tem um grupo?

– Acabei de chegar aqui, me explica o que está acontecendo.

– Não sei direito, só sei que isso é algum tipo de torneio. Uma pessoa fez uns truques com fogo e disse que talvez eu pudesse aprendê-los se eu me unisse a eles para caçar fantasmas.

– No meu caso foi uma apresentação com uma lança – Disse uma voz mais atrás.

– Ah, acabei esquecendo de te apresentar... – Disse Klaus sendo interrompido.

– Karla, muito prazer, seu nome é David, não é? – Disse tomando a frente de Klaus e apertando a mão de David – O nome dessa outra é Elizabeth, minha irmã, não ligue para ela não, ela é meio pirada – terminou com uma voz sussurrante.

– … – A garota pareceu querer reclamar ou xingar, mas acabou preferindo ficar calada e olhar feio para sua irmã.

– Mas voltando ao assunto, David, quer ficar no nosso grupo? Você ainda não arranjou nenhum, não é? – Falou Klaus.

– Claro, mas para que esses grupos?

– Sei lá, estão nos dizendo para formar um e dar nossos nomes numa bancada ali mais a frente. Temos 4 pessoas, precisamos arranjar mais alguém até a meia noite e quinze – Explicou Karla.

– Tem um amigo que eu chamei para vir, apesar dele não saber fazer viagem astral. Ele é meio anti-social, se ele tivesse vindo provavelmente estaria em pé, parecendo um poste num dos cantos deste... ali!! Eiiiiii...

– Ele? – Perguntou Klaus meio preocupado.

– Vou chamá-lo, volto já.

Klaus fez como se fosse chamar a atenção de David sobre algo, mas Elizabeth segurou seu ombro e fez o sinal de não com a cabeça.

Eric estava em um dos cantos do local, sozinho, olhando para o chão de forma pensativa. A medida que David se aproximava, não sabia porque, começava a sentir um frio na barriga, uma sensação desagradável, mas enfim falou:

– Eric?

– … – Eric levantou sua cabeça, olhou um pouco desanimado para o rosto de David e enfim forçou um sorriso – Oi.

– Então você finalmente conseguiu fazer a viagem astral, né?

– Mais ou menos.

– Já tem algum grupo?

– Ainda não, tava meio sem vontade de procurar um. Posso entrar no seu? Pelo jeito você arranjou um, né?

– Claro, deixe-me te apresentar ao restante do grupo – Disse puxando-o pelo braço e levando-o para perto de seus amigos – Um dia essa sua preguiça te mata. Bem, esse é Klaus, essa é a Karla e essa a Elizabeth.

– Olá! – Saudou Eric ainda meio desmotivado.

– Oi – Respondeu Klaus meio que evitando seus olhos.

Houve um breve momento de silêncio, mas logo Klaus voltou-se para David um pouco mais animado e quebrou o gelo:

– Bom, então agora só falta a inscrição.

– O local de inscrição é lá na frente – Comentou Eric.

Foi difícil passar pela multidão. Muitos ainda corriam contra o tempo para conseguir um grupo. Felizmente o de David foi formado quase que imediatamente.

Quando chegaram perto enxergaram um rapaz meio estressado, com uma papelada sobre uma mesa comum de madeira. Ele brigava com um grupo que, ao que pareceu, os membros estavam querendo se separar e procuravam sua ficha pela mesa ao mesmo tempo que outros dois grupos falavam alto tentando se inscrever e ainda havia outras duas pessoas que se engalfinhavam – pelo que parecia tinham trombado um com o outro e se desentendido. David percebeu que reconhecia a pessoa das inscrições de algum lugar, só não sabia de onde, até que finalmente se lembrou:

– Olá, Marcos!