Olhar

Tudo havia começado quando conheci Daryl Dixon. Eu o conhecia do mesmo modo que todas as pessoas o conheciam; ou seja, não o conhecia. Ninguém ali conhecia Daryl. Ninguém sabia quem ele era realmente. Eu ao menos sabia que não.

Hoje, olhando para trás, para o nosso ‘Programa de 12 passos’, vejo que nunca conheci Daryl. Ele era como Tango. Complicado, quase impossível, mas ao conseguir, satisfatório. Esse é Daryl Dixon.

Por meses eu o observei, por meses eu apenas o deixei em seu canto, até que minha curiosidade levou o melhor de mim e tudo começou. Eu não sabia o tipo de animal feroz que eu estava cutucando, mas hoje tenho a plena certeza de que fiz a coisa certa, ou ele não seria meu.

Estava levando duas latas de sopa quente para Daryl e Glenn na torre de vigia, ainda estávamos na prisão na época em que demos o primeiro passo dos doze. Subi com cuidado para não derramar a sopa ou as colheres e primeiro vi Glenn sentado na cadeira de praia remendada. Ele sorriu pra mim.

“Beth, a salvadora.”

Dei risada. Após a gripe que quase o matou, Glenn estava mais sorridente. Entreguei sua lata e sua colher, estremecendo com o frio que fazia ali dentro. Era alto e algumas janelas estavam quebradas, o que fazia passar muito vento por ali. Procurei Daryl com os olhos, mas não o encontrei.

“Onde ele está?”

Glenn sorriu e apontou para cima. Balancei a cabeça e me movi para perto de uma escada de madeira improvisada que dava para um alçapão que estava aberto. Olhei pelo buraco e vi o céu cheio de estrelas e Daryl em pé, o poncho caindo pelos ombros e a arma presa nas mãos.

“Daryl?”

Ele olhou para baixo, os cabelos caindo no rosto, os olhos brilharam estranhos com a luz da lua. Engoli em seco, Daryl sempre havia me assustado com esse tipo de olhar. Tentei sorrir, mas o que consegui foi apenas forçar um lado de minha boca pra cima. Mostrei a lata e ele agachou, esticando a mão.

Tive que subir alguns degraus para poder entregar em sua mão a lata, e ao fazer, o vi me olhar fundo nos olhos, como sempre fazia com as pessoas. Respirei fundo.

“Obrigado.”

Ele levantou e voltou a posição original, apenas agora tomando a sopa e vigiando o perímetro. Sorri para Glenn e desci, voltando para as celas, passando pela cela de Rick e vendo-o dormir junto de Judith.

Deitei em minha cama, a cabeça passeando por tudo que precisaria fazer no dia seguinte. Eu estava encarregada de lavar a louça do café e as roupas de cama. Pensei em quantas roupas de cama teria que pegar e então pensei em Daryl. Eu teria que pegar a dele antes que ele e Glenn voltassem da ronda, ou ele me mataria por acordá-lo para fazer isso.

Mal consegui fechar os olhos e ouvi passos no corredor. Acordei assustada e vi que alguém passava na frente de minha cela. A única cela que havia após a minha era de Daryl e ele deveria estar na ronda. Me levantei e abri a cortina que eu havia colocado para que pudesse ter privacidade. Daryl passava pelo corredor devagar, tirando o poncho dos ombros.

“Daryl?” Ele parou e olhou para trás, seus olhos fixos em meu rosto. “O que faz aqui?”

“Sua irmã foi visitar o Chinês, não sou obrigado a ficar ouvindo aquilo.”

Fiquei vermelha. Eu sabia que Glenn e Maggie estavam transando sempre que possível. Assenti e o vi se virar para poder entrar na própria cela.

“Daryl?” Ele se virou irritado. “Preciso lavar sua roupa de cama, posso tirá-la antes de você deitar? Ia fazer isso de manhã antes de você voltar da ronda…”

“Pega logo.”

Sai da minha cela e entrei na dele, passando por Daryl, que preferiu ficar do lado de fora.

“Que merda é essa que você está usando?”

Olhei para trás enquanto puxava o lençol da cama debaixo do beliche. Vi que Daryl estava me fitando, os punhos fechados e o rosto muito sério. Olhei pra baixo e então, percebi que estava usando minha camiseta de dormir. Essa era uma das camiseta velhas de Rick, estava bem usada e ele não havia se importado quando a peguei.

Engoli em seco, eu estava apenas de calcinha por baixo, mas agradeci pela blusa ser grande o suficiente para cobrir minhas coxas. Puxei a fronha do travesseiro dele e me virei, respirando fundo e vendo Daryl ainda me olhar muito sério. Lembro de ter pensado: a melhor defesa, é o ataque, certo?

“Não me diga que esse é o primeiro par de pernas de mulher que já viu, Daryl.”

Sorri brincando com ele e comecei a sair da cela, apenas para ser parada pela mão de Daryl em meu braço, quase me fazendo deixar cair tudo no chão.

“O que disse?”

Engoli em seco sem querer olhá-lo. A melhor defesa é o ataque. Virei meu rosto minimamente e olhei dentro dos olhos de Daryl. Pela falta de luz, eu apenas via suas iris negras, mas havia algo ali. Havia um brilho.... diferente.

“Apenas… brinquei, Daryl. Você já viu muitas... pernas por aí.”

Minha voz estava estrangulada, meu medo pulsava forte nas minhas veias.

“Não ande desse jeito por aí, garota. É uma ordem.”

Franzi as sobrancelhas, Daryl nunca me dera uma ordem. Abri a boca para responder, mas ele me puxou para mais perto, apertando a mão ainda mais em meu braço, os olhos ainda mais diferentes.

“Apenas concorde, Bethanie.”

“Sim.” Quase mordi a língua ao falar.

“Sim, o quê?”

Pensei por um segundo e então entendi.

“Sim, senhor.”

Ele me soltou e eu fui para minha cela, sem olhar para trás nenhuma vez. O medo de falar algo errado ou olhar novamente para ele acabou me ganhando. Sentei em minha cama e fiquei olhando para a parede, ouvindo a voz de Daryl em minha cabeça: "Sim, o quê?"

O motivo pelo qual eu deveria chamá-lo de senhor me fugindo a razão, mas cravando na mente que ele havia gostado daquilo, e eu viria a descobrir o quanto em breve.

—-*--

No dia seguinte fiquei boa parte do tempo fora da prisão. Primeiro lavando a louça do café da manhã e deixando-a secar ao sol, logo após lavando os lençóis e as fronhas de todos. Não era uma tarefa fácil, mas era uma tarefa que fazia o tempo passar mais rápido. Em pouco tempo já estávamos no hora do almoço, e eu estava me vendo encurralada pelos olhos de Daryl Dixon.

Estava ajudando Carol a servir o almoço que tínhamos e ele chegou pelos corredores que davam aos chuveiros. Ele estava secando os cabelos, passando uma toalha por eles, enquanto conversa com Rick, que vinha ao seu lado e estava muito sério. Meus olhos me traíram, eles desceram pelos braços de Daryl que estavam a mostra. E eu conseguia ver os músculos por debaixo da pele queimada do sol, conseguia ver as gotas que ainda estavam escorrendo por ali.

Não sabia que estava encarando do modo como estava, até Carol rir ao meu lado e eu olhá-la.

"Consigo ver o apelativo."

Ela me disse sorrindo e eu olhei para onde ela olhava. E é claro que ela estava olhando para Daryl, que agora vinha na nossa direção pegar sua comida. Abaixei minha cabeça e evitei olhar para cima novamente.

"Oh Beth, não existe problema algum olhar."

Carol disse rindo baixo e quando Daryl se aproximou, coloquei a comida em sua tigela e lhe entreguei sem olhar em seus olhos.

"Tem algum suco, Bethanie?"

Me chamar por meu nome acabou por trazer a atenção de Carol e Rick para nós dois, e eu não sabia o que fazer a seguir. Assenti com a cabeça sem olhá-lo ainda e ele esperou no mesmo lugar. Eu não entendia o que ele queria, então levantei a cabeça e o fitei, vendo Daryl sério me olhando. Tentei olhar em outra direção, mas era impossível com as pessoas começando a parar atrás de Rick e olhando para o que estava impedindo Daryl de continuar.

"Sim, tem suco." Lhe disse e fui pegar um copo, e então entendi. Entendi o que ele queria. Olhei em seus olhos e vi novamente aquele brilho de ontem. Respirei fundo, ele estava me forçando a isso por algum motivo. Soltei o ar e disse: "Senhor." Mais baixo, mas mesmo assim ele e Carol ouviram, e acredito que Rick também.

Entreguei seu copo e coloquei o suco para ele, vendo-o me fitar o tempo todo. E aquele olhar me incomodaria muito ainda. Não conseguia entender qual era o problema dele, mas eu estava começando a achar que ele queria me ver abaixo dele. Submissa. Eu apenas não entendia, na época, o motivo.

Após esse incidente no almoço fui recolher e terminar de colocar as roupas de cama no varal, o ar fresco do lado de fora me faria muito bem. Estava recolhendo alguns lençóis e colocando outros pra secar quando vi uma sombra do lado esquerdo e não foi necessário me virar para saber quem era, eu conseguia ver pela sombra a besta no ombro dele.

"Posso te ajudar, Daryl?" Dei uma pausa curta. "Senhor."

Eu sabia bem que me fingir de boba não me ajudaria em nada, mas o que mais eu poderia fazer? Eu não tinha ideia do que estava acontecendo ali.

"Repita a pergunta que me fez ontem."

Engoli em seco sem parar o que estava fazendo e repeti a pergunta:

“Não me diga que esse é o primeiro par de pernas de mulher que já viu."

Ele se moveu devagar atrás de mim, sem chegar perto, apenas me cercando. Ficou ao meu lado direito, enquanto eu me abaixava e pegava mais uma fronha para colocar no varal.

"Não, não é o primeiro." Ele deu um passo a frente, ficando mais próximo. "Um dos mais bonitos, sim."

Engoli em seco e deixei a fronha que estava na minha mão, cair. Ele queria mexer com a minha cabeça, e estava conseguindo. Respirei fundo e peguei a fronha que estava no chão, colocando-a em outro cesto, já que agora estava suja novamente.

"Curiosidade não é uma boa coisa, Bethanie."

"Sim, é." Eu queria entender, então eu tinha que instigar.

"Sobre o que está curiosa, inferno?"

Sim, sobre o que eu estava curiosa? Eu não sabia responder aquela pergunta, mas mesmo assim olhei para ele ao meu lado. Daryl era mais alto, e me olhava de cima, como que me deixando ainda mais baixa, me colocando para baixo, onde ele dizia que era meu lugar — nunca com palavras, apenas naquele modo de me olhar.

A melhor defesa é o ataque.

"Tudo."

Minha resposta fez os olhos de Daryl inflamarem e eu lembro de pensar que talvez tivesse falado algo de muito errado. Ele se aproximou um passo, o vento mais forte anunciando a chegada do fim da tarde. Os lençóis balançavam fortemente, os cabelos de Daryl escondiam parte de seus olhos verdes. Eu precisava saber o que eu queria perguntar de verdade. E se teria coragem de dar aquele passo.

"Então pergunte, Bethanie." Desafio. "Comece a fazer as perguntas certas e ganhará as respostas certas."

Com isso Daryl se afastou e eu lembro bem que meus joelhos fraquejaram ao vê-lo voltar pra dentro da prisão. O modo de andar, como ele não olhou para trás e como eu sabia bem que tudo que ele fizera ali fora para me aguçar a ser mais curiosa. E eu queria. Eu queria ser mais curiosa, queria saber mais, questionar mais, entender as respostas dele, entender as frases, os olhares.

Mal sabia que eu era Alice naquele momento, e Daryl logo seria o coelho que me levaria para dentro do País das Maravilhas. Eu apenas tinha que estar preparada. E eu não estava. De modo algum.

—-*--

Dois dias. Após dois dias de Dary longe da prisão em uma missão com Rick e Carol, ele voltara. Eu estava feliz em vê-lo, preocupada com todos, mas meus olhos estavam colados nele. Meus olhos procuraram por ele e aquela moto barulhenta. E quando todos estavam reunidos no pátio para recebe-los, eu vi. Vi que ele estava me procurando entre todos, e ao me achar, seu olhar acendeu novamente.

Eu era ingenua demais para entender o que aquele olhar queria dizer, mas lá estava. Lá estava a parte em que eu começaria a ser a coisa mais importante para ele e ele para mim. Os caminhos seguiriam rotas diferentes, mas o destino era o mesmo. O destino era aquele que eu estava com ele agora. Mas daquele dia no pátio em diante, começaríamos a dançar, começaríamos a nos rodear e a nos procurar entre os outros.

A cada vez que ele me olhava, eu sentia como se ele estivesse afirmando que eu deveria questioná-lo, perguntar mais e mais e ganhar as respostas como elas viessem, questionar e questionar até me saciar. O grande problema era o que me deixaria saciada?

Dias. Eu estava na biblioteca há dias tentando achar um livro que não era de história americana ou russa ou espanhola para ler. Queria um romance, algo que não fosse meloso ou quente demais, meu pai me mataria se me pegasse lendo algo assim. Eu tinha dezessete anos, mas ele me mataria do mesmo jeito.

É apenas estória.

Minha mente me dizia que não acharia problema algum em ler aquelas coisas, talvez achar um romance me desse as direções certas para perguntar o que eu queria para Daryl. E foi exatamente o que achei. Encontrei entre os livros no chão, um romance que via vender nas bancas de jornal da cidade. Aqueles romances em que o casal está em uma posição sórdida na capa, e que o livro é grosso, mas compacto.

Até hoje me pergunto se aquele livro foi o culpado de que eu tivesse conseguido formular as perguntas para Daryl. Me sentei na poltrona mais próxima da janela, Judith dormia tranquilamente em seu bebe conforto. Comecei a ler e ria em algumas passagens, mas então um cena me deixou intrigada.

Damien, o homem do livro, havia dito que Leanne, a mulher que ele tentava seduzir a todo custo, era difícil, que ele deveria ganhá-la. Que ela seria totalmente dele, que não haveria nada nem mesmo um olhar, suspiro, pensamento ou parte do corpo, que não seria dele. Mordi meu lábio e abaixei o livro. Daryl. Minha mente estava girando há um mês nele.

Todos meus pensamentos eram focados em suas ações, seus olhares sérios, suas ordens, as perguntas que eu deveriam fazer. Ele já estava me consumindo e eu não havia nem ao menos perguntado nada. Eu não havia nem ao menos pensando na primeira pergunta. Mal sabia que naquele momento eu jogaria gasolina na pequena centelha que havíamos acendido juntos.

“Bela leitura.”

Voltei meu foco para a biblioteca e percebi que Daryl estava a cinco passos na minha frente, sentando no sofá que não estava rasgado e revirado próximo as poltronas na janela. Engoli em seco ao vê-lo tirar a besta do ombro, deixando-a em seu pé no chão com o tapete sujo de sangue. Olhei Judith um momento, vendo-a dormir tranquila. Era aquele momento. Eu sabia que tinha que jogar a isca. Mal sabia que estava mordendo a isca dele e o veria puxar o anzol pela primeira vez.

“Para mudar de ares.” Ele apenas me fitou sério, assentindo devagar. A melhor defesa é o ataque, Bethanie. “Porque… me olha tanto?”

“Porque não?” Ele deu de ombro, agora mordendo o dedão da mão esquerda. Ele sempre fazia aquilo quando estava pensativo.

“Cada pergunta que eu fizer, vou ganhar uma resposta satisfatória?”

Ele pensou bem antes de responder. Vi seu peito subir e descer, os braços tensionando e a garganta se movendo enquanto ele engolia.

“O que é satisfatório, Bethanie?”

“Não essa resposta que me deu.” O vi me mirar ainda mais sério. “Senhor.”

Minutos. Daryl formulou a resposta perfeita, e eu me pergunto até hoje quantas vezes ele jogou aquele jogo, quantas vezes ele dançou aquela dança com alguém. Não conseguia vê-lo como um caçador, um galanteador, um homem das mulheres, mas com aquela resposta, com aquele primeiro passo em nossa dança, ele havia me cercado e me atiçado.

“Olhar uma caça tentar fugir, é interessante. A presa sabe que vai ser capturada, mas ela mesmo assim tenta fugir. E algo que é bonito, vira caça rapidamente.” Ele se inclinou para frente devagar, seus olhos correndo meu rosto e então meu pescoço. Eu sabia que estava ficando vermelha. “É ainda mais bonito quando a caça se debate, quando acha que está no controle, e então é a hora de abater.” Engoli em seco e ele seguiu com os olhos para minha blusa, para meus seios, minha barriga. “É a hora em que o caçador fica satisfeito com o que está diante dele.” Ele desceu os olhos por minhas coxas, até meus pés e então voltou rapidamente para meus olhos. “Saia desse jogo, Bethanie.”

“N-não…” Estremeci com a força do olhar dele para mim. Era como se eu estivesse levando uma bronca.

“Não existe volta. Você… merda, Bethanie.” Ele levantou, a voz e o movimento fazendo Judith se mexer no bebe conforto, mas não acordar. Ele então se aproximou, inclinou-se sobre mim, segurando os braços da poltrona com força. Me joguei para trás, ficando colada ao encosto, mirando dentro daqueles olhos verdes que até hoje me deixam entorpecida. “Você não tem idade para me perguntar as coisas que está começando a perguntar.”

“Como sabe o que vou perguntar?” Ele levantou uma sobrancelha enquanto eu tentava me fazer parar de tremer.

“Se começar isso, não terá volta.” Engoli em seco.

“Espero que lembre disso.”

Ele sorriu pelo canto da boca, levantando-se e indo pegar a besta no chão. Olhei Judith e então recolhi minha coragem que tinha sido espalhada pela biblioteca quando ele se aproximou.

“Boa caça.”

“A presa está me ajudando dessa vez.”

Ele me disse ainda de costas e saiu da biblioteca. Lembro bem que naquele momento eu sabia que mesmo que fosse pensar em sair, não haveria modo. Daryl havia me enrolado na teia da curiosidade e eu sempre fui curiosa demais para meu próprio bem. Respirei fundo e voltei para minha leitura, juntando as partes de nossa conversa com as coisas que eu queria saber. Ao final do livro eu estava segurando uma folha de um caderno que achara na bagunça e um lápis com a ponta horrivelmente grossa. Eu faria uma lista de tudo que queria de Daryl Dixon. E ele me daria. O que não esperava é que ele também formaria uma lista em sua cabeça naquele mesmo dia.