Damnation

15 Chapter Fourteen: The Drappery Falls


Sentado, Bill bebia água. Depois de ter escapado da igreja por pouco, o garoto havia corrido, com medo que a criatura da igreja o perseguisse, mas isso não aconteceu. Estava novamente sozinho: sem os amigos, sem criaturas, sem esperanças. Somente a névoa o fazia companhia.

Estava cansado de tudo aquilo, e já não sabia se continuava em busca de Dominique ou simplesmente desistia e encarava o fato que só ele estava vido de todos os seus amigos.

Milhões de memórias vinham em sua cabeça. A maioria era sobre o seu pai, odiado pelo garoto. Uma pequena parcela era de sua mãe, e as peças de teatro que ela o levava. Sentia falta dela. Sentia falta de seu jeito doce, de seus carinhos, de seu amor. Culpava o pái pela morte de sua mãe. Ela morrera por tomar uma dose muito alta de um remédio controlado, mas Bill, por algum motivo, desconfiava que seu pai tinha culpa nisso tudo, ele apenas não conseguia provar.

Terminou de beber e olhou a garrafa, não havia muita água restante.

"A água nessa garrafa é como as chances de eu sair vivo daqui: cada vez se esgotando mais"

Guardou-a na mochila e suspirou, olhando ao redor.

"É incrível. Há essa hora ontem eu estava animado pelo fato vir aqui e pegar as bebidas. Hoje, estou lutando pra sobreviver."

Começou a rir com esse pensamento. As risadas não eram sinceras, eram cheias de dor e raiva. Pareciam ironizar toda aquela situação. Os risos foram se abafando e começaram a dar lugar para as lágrimas. Bill não era de chorar, havia suprimido qualquer choro depois da morte da mãe. Mas, naquela situação, o choro parecia aliviá-lo de toda angustia e desespero que assolavam sua mente.

Depois de alguns minutos as lágrimas acabaram. Ele se lembrou do diário em sua mochila. Pegou-o e voltou a ler a partir do ponto que havia parado.

"16:21


Já faz 3 horas que estou nessa maldita cidade. Nada, além da mais pura maldade, existe aqui. Não sei se irei sobreviver, a esperança está me fugindo aos poucos, assim como minha sanidade. Essas memórias que ficam voltando, sempre terríveis, apenas pioram o meu estado. O pânico já se foi, o que restou foi o desespero.

18:45

Um homem apareceu para mim a poucos minutos. É humano, porém de seus olhos consigo ver o inferno, o MEU inferno. Nada disse, apenas me observou, com um sorriso doentio no rosto. Será ele que "controla" essa cidade? Não quero ficar aqui para descobrir, tenho que fugir daqui o mais rápido possível.

19:21

Ele está me vigiando agora. Parece que está esperando que eu faça alguma coisa.

21:03

Estou cansado, porém a dor física não é maior que a dor que atinge minha alma. As memórias estão se tornando mais freqüente.

22:29

Encontrei uma casa aberta. Ficarei aqui para dormir. Espero que o homem me mate durante o sono.

Dia 02/07 — 06:19

Sonhei coisas terríveis durante a noite. Vi várias pessoas correndo pela cidade e, no final, quando se viam desesperadas demais, se matavam. Acordei suando frio. Será esse o meu destino aqui?

07:54

Acabei de encontrar um corpo..... Um homem em frente a uma loja de conveniência... Eu juro que sonhei com ele durante a noite. No meu sonho ele se matou cortando a própria garganta e há um corte profundo em sua garganta. Acho que aquilo não foi um sonho, e sim essa cidade me mostrando suas vitimas. Acho que sou mais uma delas.

09:11

Comecei a deixar "recados" nas paredes indicando o meu trajeto pela cidade. Tomara que...”

Um barulho próximo fez o garoto interromper sua leitura.

Olhou ao redor e viu um homem parado em frente a um prédio. Por culpa da névoa, Bill só conseguia distinguir a forma do seu corpo, não conseguindo ver o rosto.

Com cautela, ele guardou o diário na mochila e se levantou, olhando para o homem. Reunindo coragem, ele perguntou:

- Quem é você?

O homem nada respondeu, simplesmente entrou dentro do prédio em sua frente.

"Devo segui-lo? Não, isso seria loucura de minha parte, deve ser mais alguma coisa que essa cidade está me pregando."

Estava pronto para andar em direção contrária do prédio, mas...

"O que eu temo? Minha vida? Do que adianta viver se for pra ser nesse inferno? Dominique, David, Cindy... todos eles devem estar mortos. E mesmo que estejam vivos não conseguirei encontrá-los. Minha esperança... se foi?"

Com esse pensamento, o medo do garoto sumiu e ele começou a andar em direção do prédio. Quando estava na sua frente viu que não era um prédio comum, havia uma bilheteria na entrada.

"Bilheteria? O que é isso, um teatro?"

Tentou abrir a porta: trancada. Olhou em volta procurando algo para abri-la, até que viu um pequeno aviso na parede:

"A porta se abre automaticamente com a entrega do bilhete"

"O bilhete de entrada no diário!", se lembrou.

Ele pegou o diário dentro da mochila e pegou o bilhete. Suspirou e colocou na pequena entrada que tinha na bilheteria. Ouviu um "Click" na porta. Abriu-a.

Estava num lugar enorme. Havia várias portas e uma grande escadaria.

"Esse lugar deveria ter sido muito bonito vários anos atrás"

Havia algo no chão próximo a uma porta dupla no centro. Parecia uma criança de longe. Uma mancha vermelha estava embaixo do corpo.

"Será que está morta?"

Cautelosamente, Bill se aproximou do corpo. O rosto estava virado para o chão. Com o pé, Bill virou o corpo.

- Merda — exclamou ele quando viu o rosto do corpo.

Não era uma criança, era uma marionete. Havia um corte profundo em sua cabeça.

"Que merda é essa? Será que isso era uma criatura? Foi aquele homem que entrou aqui que a matou? Mas o sangue está seco no chão, já deve estar morta faz tempo"

Ainda um pouco chocado, o garoto olhou para um quadro que estava do lado da porta dupla. Havia uma imagem desbotada que ele não conseguiu identificar o que era, porém ele conseguiu ler o anúncio em cima da imagem:

"É com o prazer que informamos: O Artaud Theater apresenta "Hamlet", um grande clássico de William Shakespeare."

Bill estremeceu.

"Hamlet? Mas... essa foi a ultima peça de teatro que vi com a minha mãe.."

Uma lembrança veio à cabeça do garoto:

Os quatro personagens estavam fazendo a cena em cima do palco

- Ele confessa que se sente distraído, mas por razão alguma irá dizer o motivo.

O pequeno garoto, sentado na primeira fila, sussurrou para sua mãe:

- Qual parte da peça é essa, mamãe?

- Esse é o terceiro ato, querido — respondeu ela com sua voz doce e meiga.

- Ele lhe recebeu bem?

- Como um cavalheiro

- Está gostando da peça, querido? — perguntou para o garotinho.

- Sim, mas estou esperando o jovem príncipe retornar no palco, Hemlat.

Sua mãe riu:

- Hamlet, querido. — e lhe deu um beijo na testa

A cena no palco continuou, até que...

- Ele irá entrar agora, filho.

O garoto se mexeu na cadeira esperando ansiosamente seu herói na história. Alguns segundos depois, o jovem príncipe entra em cena:

- Ser... ou não ser? Eis a questão.

Os olhos do garoto brilharam de alegria com a entrada do seu personagem favorito...

O garoto continuava com o olhar fixado no quadro.

"O que significa isso tudo? A cidade quer me enlouquecer com o meu passado? Com a morte de minha mãe?"

O choque foi substituído pela raiva. Raiva do que estava acontecendo.

- Vamos ver o que você tem pra me mostrar — exclamou Bill, e entrou na porta dupla.

Estava na parte principal do teatro. O palco estava no fim de um longo corredor com várias fileiras de cadeiras. A única fonte de luz vinha da porta aberta, fazendo o garoto pegar a lanterna e ligá-la.

Não havia ninguém além dele ali.

Começou a percorrer o corredor até chegar na frente do palco. Percebeu que as cortinas estavam fechadas.

"Deve haver alguma porta além das cortinas"

Subiu no palco e começou a procurar pela divisória da cortina, mas, quando chegou no centro dele...

Uma luz no teto se ascendeu e iluminou Bill. Ele se virou para as fileiras de cadeiras mas a luz o cegou. Uma salva de palmas começou a preencher o teatro. Quando seus olhos se acostumaram com a luz, levou um susto.

As cadeiras, antes vazias, estavam repletas de pessoas o aplaudindo. Elas pareciam entusiasmadas. Usavam roupas elegantes, de gala.

Ele não sabia o que estava acontecendo.

"Isso deve ser um sonho"

As pessoas começaram a aplaudi-lo de pé. Pareciam ainda mais entusiasmadas, felizes. Algumas ovacionavam seu nome enquanto aplaudiam.

A porta dupla se abriu em um estrondo e os aplausos cessaram. Todas as pessoas, antes alegres, ficarem mortalmente sérias enquanto um homem andava pelo corredor. Era Vincent.

- Você! — exclamou Bill.

- Olá, meu caro amigo — falou Vincent, fazendo uma referência irônica — Vejo que hoje o senhor é a atração principal.

- Você fez tudo isso, não? Você criou a criatura naquela igreja, fez eu vir até o teatro e me deparar com a última peça que vi com a minha mãe!

- Ops, pego no flagra — o debochou — Sim, presumo que suas afirmações estejam corretas.

- Por quê?

- Ora meu jovem senhor, pelo espetáculo! Pelo show! Tudo que eu fiz foi por esse grande show chamado Silent Hill.

- Show? Um show que enlouquece as pessoas até a morte.

- Nossa, Bill — Vincent fingiu-se chocado — Falando assim até parece que eu sou uma má pessoa.

- Se você for uma pessoa.

- Assim você me magooa profundamente — falou Vincent debochado, e então gargalhou. Sua gargalhada era doentia e fez Bill se arrepiar.

- Me desculpe se você se sente assim — continuou Vincent — Sou apenas um servo que segue as ordens do "Todo-Poderoso" da cidade.

- E quem é esse?

- Não se preocupe com ele. Vamos conversar um pouco agora.

Com o estalar dos dedos, uma cadeira apareceu para Vincent e Bill. O homem se sentou mas Bill não.

- Ela não morde — falou Vincent.

- Prefiro ficar como estou, obrigado — retrucou Bill.

- O senhor que sabe — disse o homem — SENTEM-SE — berrou ele para as pessoas em pé, que se sentaram rapidamente.

- Então Bill — continuou Vincent — Vamos conversar um pouco sobre a sua mãe.

- Não há nada sobre ela que eu queira conversar.

- Sério? – se surpreendeu — Pois eu acho que há.

- VOCÊ ESTÁ ENGANADO — Bill cuspiu essas palavras com todo ódio que sentia naquele momento.

- Calma garoto, minha intenção não foi deixá-lo nervoso.

Bill nada falou. A única coisa que queria era correr até Vincent e matá-lo com as próprias mãos.

- Aliás, o que falar da sua mãe, han? Uma pessoa extraordinária, que amava o seu filho mais do que tudo.

As mãos de Bill começaram a tremer.

- Uma pessoa meiga, doce, carinhosa, zelosa. As vezes pessoas boas vão muito cedo enquanto as más vivem por muitos anos.

O garoto fechou os olhos.

- Uma tragédia de fato. Um engano que custou a vida. Mas será que foi um simples engano?

A respiração do garoto se tornou mais rápida e pesada.

- É assim que você se sente dentro de você não é, Bill? Você sabe que não foi um engano, que a culpa toda é de... seu pai.

Lágrimas começaram a escorrer pelas suas bochechas.

- Um homem sem escrúpulos, que amava a si mesmo e o dinheiro acima de tudo. A culpa que você põe em seu pai pode ou não ser verdade. Mas de que importam provas se é no que você realmente acredita que você vai tomar como verdade.

Seu corpo todo tremia de ódio agora.

- E no fim, você tem medo de no final... tornar-se igual a ele.

Bill soltou um berro de fúria, pulou do palco e correu em direção de Vincent, que não se moveu um centímetro e nem mudou a expressão de deboche em seu rosto.

O garoto preparou o soco e quando chegou perto do homem desferiu em sua face, mas o soco apenas transpassou Vincent.

- O quê? — se assustou Bill.

Vincent começou a gargalhar enquanto o garoto ia se afastando.

- É bom ver o ódio dentro de você garoto, é bom vê-lo florescer e envenenar seu corpo todo.

As pessoas sentadas sumiram quando Vincent se levantou.

- QUE SE ABRAM AS CORTINAS — exclamou ele.

Bill se virou para o palco no momento que as cortinas se abriram. O homem que antes havia visto entrar no teatro esteve atrás dela o tempo todo. Agora, Bill conseguia ver seu rosto.

- P-pai? – surpreendendo-se quando viu o rosto do homem.

- Essa é minha deixa. — falou Vincent — QUE COMEÇE O TERCEIRO ATO! — e desapareceu da sala, deixando Bill sozinho com seu maior inimigo: O ódio.