Damage
37 Capítulo 37
Notas iniciais
Terminou de se enxugar e pegou uma cueca entre as roupas, era branca. Por um breve momento ficou imaginando se Sven tinha escolhido aquela cor ou foi só algo aleatório, mas soltou um “Pfffffff” ao imaginar o quão ridículo aquilo era e o quão desnecessário era pensar naquele tipo de coisa. Quer dizer, nenhum homem faz esse tipo de coisa, fica escolhendo a cor da cueca. Vestiu-a e em seguida puxou a calça preta que ele usualmente usava para dormir quando estava muito frio, o enfermeiro tinha tido um pouco de razão em pegar aquela porque estando inutilizado naquela enfermaria não havia porque Heiner vestir o uniforme que usava sempre para o dia-a-dia.
– Muito bem. – disse fitando a calça em mãos, ainda não conseguia se apoiar em ambos os pés para vestir aquilo como usualmente fazia.
Pensou em se sentar no chão, mas se fizesse isso havia uma grande chance dele realmente não conseguir se levantar sozinho e seria muito desconfortável pedir a ajuda do enfermeiro, mesmo que ele não parecesse ser uma pessoa tão ruim. Podia se abaixar e enfiar uma perna de cada vez e então puxar a peça até a cintura, mas com certeza cairia se fizesse isso em um pé só.
– Traenkner? Está tudo bem? Você está aí há um tempão. – o enfermeiro perguntou.
– Sim, sim, perfeitamente. – bufou e jogou a calça no chão sussurrando um breve “Eu não vou conseguir vestir essa porra em menos de uma hora”.
– Disse alguma coisa?
– Não senhor. – respondeu, Sven era um enfermeiro, mas ainda era um Tenente e Heiner ainda lhe devia algum respeito embora ele não fosse tão rígido quanto um oficial da sua patente devia ser.
Imaginou por um segundo, se o enfermeiro fosse como o capitão Wardraig provavelmente ele o teria puxado pelo pé até a enfermaria e o amarrado na cama para que não desse trabalho.
Olhou para a calça no chão, em todas as alternativas Sven estava envolvido, precisaria da ajuda dele mais cedo ou mais tarde. Escorregou as costas na parede até que estivesse sentado no chão e enfiou uma perna de cada vez dentro da calça, precisando fazer algum contorcionismo para encaixá-la na cintura e abotoar. Quando estava enfim dentro da calça percebeu que a camiseta estava longe demais para que ele alcançasse.
– Não é que eu esteja precisando de ajuda, porque isso é idiota, eu não estou, mas se você não estiver ocupado e quiser vir aqui me dar uma mãozinha eu não vou ficar bravo contigo. – disse um pouco mais alto para que ele ouvisse.
Ouviu Sven dando uma risada mais discreta como se dissesse “Eu sabia” e então o viu girando a maçaneta aos poucos e empurrando a porta hesitante, afinal, ele não sabia se Heiner já estava vestido ou não até vê-lo sentado no chão com os braços cruzados e uma expressão emburrada, o que foi uma cena bastante engraçada de se presenciar. O recruta também estava sem camiseta e por mais que Sven tenha tentado não olhar ele acabou olhando, porque isso era mais forte que ele. Heiner tinha o corpo igual ao de qualquer homem no final da puberdade, com a exceção de que seus músculos mostravam sinais dos exercícios constantes e os braços eram uma prova de que ele era punido constantemente com flexões juntamente com o abdômen que denunciava os abdominais, mas mesmo assim ele não tinha proporções excessivamente masculinas, seu corpo parecia mais suave. Vê-lo daquela forma também fez Sven descobrir que ele tinha uma pinta negra embaixo da clavícula direita e outra três dedos a esquerda do umbigo.
– Você disse que não precisaria de ajuda. – ficou muito tentado a dizer aquilo.
– Isso não é ajuda, é só...um pequeno auxílio. – respondeu estendendo a mão para o enfermeiro.
O tenente segurou a mão dele e o puxou até que ficasse em pé com uma careta e obviamente bravo consigo mesmo pelo fato de ter precisado de ajuda. Seus ombros se ressaltavam na tonalidade clara da sua pele com uma cor avermelhada, consequência de ter tomado banho com água tão quente e logo enchido o ambiente com um ar carregado de umidade e vapor.
– Claro, um pequeno auxílio. – disse com certa ironia se abaixando para pegar a camiseta branca no chão. – Enquanto estava tomando banho o Primeiro-Tenente veio me dizer que irá te levar para tirar uma radiografia do tornozelo após o almoço.
Heiner balançou a cabeça positivamente sem absolutamente nenhuma empolgação e pegou a camiseta das mãos do enfermeiro, encostou-se a parede para não balançar enquanto vestia a peça e a colocou no corpo com certa maestria em se equilibrar em um pé só.
– Está sentindo alguma coisa?
– Não, melhorou com a água quente. – respondeu olhando de relance para o tornozelo.
– Acho que seria legal se eu enfaixasse. – arqueou uma sobrancelha como se fosse uma sugestão, mas ia fazer aquilo independente da opinião do recruta.
Heiner meneou a cabeça sem parecer muito preocupado com aquilo de novo e Sven concluiu que ele não se importava mesmo com qualquer coisa que o enfermeiro fosse fazer com seu tornozelo, desde que ficasse bom logo. Levou a mão até o ombro dele prevendo que ele precisaria de alguma ajuda para andar e o garoto segurou seu pulso antes que Sven sequer o tocasse, mas não o prendeu, somente desviou sua mão depressa.
– Eu consigo fazer isso sozinho. – disse como se fosse uma justificativa.
– Certo...me desculpe. – Sven respondeu com um meio sorriso, mas não conseguiu esconder certa frustração na voz, porque estava com a intenção de ajuda-lo quando levou a mão até ele e Heiner a desviou como se o enfermeiro fosse lhe acertar uma facada.
– Não foi minha intenção parecer ingrato, é que...eu me sinto um inválido que nem ao menos consegue andar sozinho. – respondeu ao perceber que tinha sido visivelmente rude. Heiner costumava ser agressivo verbalmente com todo mundo, mas só tinha graça quando o alvo retribuía e ambos ficavam discutindo, quando encontrava um oponente como Sven que não fazia isso era como se tivesse jogado uma flecha em um colchão e ela tivesse voltado no seu rosto.
– Você consegue andar sozinho, só está machucado, é diferente de ser um inválido. – retrucou, mas não se aprofundou muito em tentar convencê-lo. – Mas bem, não vou insistir.
O enfermeiro deu mais um daqueles meio sorrisos sem graça e se dirigiu até a porta com alguns passos largos e por alguns segundos Heiner só ficou pensando em como conseguia ser idiota com pessoas legais com tanta maestria e precisão, mas então se lembrou de que aquilo aparentemente não tinha uma solução e decidiu sair do banheiro como planejado anteriormente. Apoiou-se na parede e mancou até a porta e depois alguns metros até chegar a cama, até podia se deitar, mas seria muito entediante ficar olhando para o teto o tempo todo. Tateou em cima do cobertor e encontrou o objeto negro e gelado que era seu celular, desprovido de qualquer vida e sentimentos assim como todo o restante das máquinas, talvez ser um cretino fosse algo que eles tivessem em comum, as máquinas e Heiner.
– Você não ia enfaixar meu tornozelo? – perguntou ao se lembrar que ele tinha mencionado aquilo no banheiro.
– Eu...posso fazer isso?
– Sim, claro, você é o enfermeiro. – deu levemente de ombros e desviou o olhar.
Ele meneou a cabeça um pouco indeciso e então abriu uma das gavetas da sua mesa onde havia alguns curativos, pegou bandagens elásticas brancas e se dirigiu até o recruta que subitamente pareceu um pouco arrependido. Pediu para que ele se deitasse e se sentou colocando o pé de Heiner em cima do colo para poder enfaixa-lo adequadamente. Não há muitas pessoas no mundo que fiquem arrependidas de verdade após ofender alguém, na verdade essa capacidade em humanos costuma desaparecer logo no começo da adolescência, Heiner não o tinha ofendido, na verdade só havia negado sua ajuda, mas mesmo assim de alguma forma ele parecia querer demonstrar arduamente que não tinha tido a intenção de ser grosseiro.
– Você não tem ideia de como fica assustador enfaixando um tornozelo inchado e vermelho enquanto sorri. – Heiner comentou subitamente ao notar a mudança na expressão do tenente.
Sven riu com o comentário inesperado e passou a bandagem algumas vezes em volta da área avermelhada, enquanto seus pensamentos ainda pareciam distantes sem querer voltar.
– Me falaram sobre você hoje, que é uma pessoa horrível. – resolveu comentar o que se passava na sua mente. – Mas eu não acho que seja uma pessoa ruim, talvez orgulhoso e precipitado, mas não uma pessoa ruim.
– Você só me conhece há um dia, como tem tanta certeza? – arqueou uma sobrancelha.
– Não tenho um motivo, só sei.
– Bom, se te disseram isso então provavelmente há uma base para que essa ideia se sustente. – respondeu.
Sven olhou de relance para ele por alguns segundos, esperava que ele dissesse algo sarcástico e irônico, mas o recruta sequer tentou imitar esse tom, parecia estar sendo sincero ao mesmo tempo que parecia sentir muito por aquilo, como um corte que não cicatriza, não por sua culpa, mas porque simplesmente é algo que está fora do seu controle.
– Eu prefiro tirar minhas próprias conclusões. – o enfermeiro disse voltando as orbes coloridas de volta à bandagem. – Terminei.
– E se as suas conclusões te levarem a concordar?
– Por que está tão preocupado com isso? – sorriu de leve, ele estava bastante interessado para alguém que parecia não dar a mínima para a opinião alheia.
– Eu não estou. – virou o rosto para outra direção.
O enfermeiro não conseguiu deixar de rir um pouco daquilo, porque ao mesmo tempo que ele tinha uma personalidade rude e arrogante que afastava as pessoas, em algum lugar havia uma outra que contradizia totalmente aquela que ficava por fora, como se a mascarasse fortemente. Sven particularmente gostava mais daquele Heiner, porque parecia ser quem ele era de verdade. Levou a mão até a cabeça do recruta e mexeu nos cabelos negros do rapaz, mas não houve muito efeito já que o corte militar o impedia de ficar totalmente bagunçado.
– Pare com isso. – Heiner balbuciou levando a mão dele para longe da sua cabeça. – Você é estranho.
– Eu? – indagou com certo sarcasmo. – Bom, não fui eu quem escorregou em uma vassoura e torceu o tornozelo.
– Não tem graça, a culpa foi do Samuel por ter deixado aquilo no chão. – ele fitou o enfermeiro e por um momento voltou a ser exatamente o mesmo recruta que havia negado sua ajuda. – Aquele maricas idiota, tsc, não consegue fazer nada direito.
– Não fale desse jeito, ele ficou preocupado. – respondeu ao se lembrar da expressão de Lieppert quando apareceu na enfermaria.
– Não adianta ficar arrependido depois de fazer merda, não vai consertar nada. – cuspiu as palavras, não parecia irritado, só parecia...o Heiner normal.
O enfermeiro pareceu entender aquilo como um súbito fim de alguma conversa que os dois pudessem ter, porque Sven não gostou da forma como ele falou e tinha certeza de que não chegariam a lugar nenhum se começassem a discutir. Colocou o pé dele de volta na cama e se levantou, enfiando as mãos nos bolsos do jaleco e caminhando até sua mesa.
– Acho que você tem um pouco de razão, mas não fique bravo, obviamente não foi a intenção dele vê-lo machucado. – respondeu com um suspiro e pareceu ser o suficiente para Heiner, pois ele só meneou a cabeça sem nenhum sentido definido e começou a procurar pelo seu celular entre as cobertas.
Logo que o recruta se ocupou com algum joguinho o enfermeiro arqueou as sobrancelhas e se lembrou de que queria conferir algo que povoou sua mente com especulações por algum tempo, mas tinha desistido delas e concluído que era muito mais fácil ver nos arquivos.
Abaixou-se na frente de um dos armários atrás da sua mesa e procurou pela letra “T” até encontrá-la, o recruta era um dos últimos na categoria. Puxou a pasta médica dele e a colocou sobre a mesa, não era muito grossa, na verdade a de ninguém no exército era, com algumas raras exceções que incluíam Henry, aparentemente o capitão tinha sofrido várias internações ao longo da infância e na maioria a opção “maus tratos” tinha sido marcada pelo médico que o atendeu. Mas, o capitão Wardraig a parte, grande parte dos militares tinha a saúde exigida pelas forças armadas Alemãs, ou seja, quase perfeita. Na verdade era até um pouco entediante para Sven como enfermeiro, porque ele quase não trabalhava naquele lugar e volta e meia estava fazendo algo para o qual não tinha sido designado, como ajudar o jardineiro ou jogar cartas com Hans.
Abriu a pasta, havia uma cópia do formulário de alistamento com uma foto de Heiner, depois um da avaliação médica e psicológica, estas pelas quais todos os recrutas passavam e aparentemente Traenkner tinha ido bem em ambas. Não tão bem na avaliação psicológica, mas tinha passado. Depois tinha uma cópia da certidão de nascimento, algo que realmente não teria chamado sua atenção se alguns campos não fossem diferentes dos que costumava ver ali. Simplesmente o único nome que constava ali era o de Heiner, todos os outros campos estavam preenchidos com “desconhecido(a)” o que deixava mais que claro que ele nunca tinha tido uma família, mesmo que adotiva. Desceu até o campo observações, não se tinha certeza sobre a data exata de nascimento do recruta, porque ele tinha sido abandonado ainda bebê no acostamento de uma rodovia, então a data que constava era a de quando ele tinha sido encontrado. Constava ali também o estado em que ele se encontrava, desnutrido e doente.
Olhou de relance para o homem deitado na cama entretido com os barulhos de tiro que vinham do aparelho eletrônico enquanto ele apertava na tela incessantemente, se sentiu um pouco mal por ele, afinal, o que seus pais fizeram foi cruel. A Alemanha possui leis que tecnicamente permitem o aborto até o final do primeiro trimestre de gestação, sua mãe tinha tido a escolha de não tê-lo e por mais que você diga “ela o amava” isso nunca será verdade, porque ela o tinha abandonado em uma área deserta para morrer, se ela o amasse teria no mínimo o doado apropriadamente a um abrigo. Sven sempre teve uma família e não podia se imaginar morando em um orfanato, vendo as crianças indo embora e nunca ser adotado, porque era o que tinha acontecido com Heiner, ele completou 18 anos e ainda não tinha uma família.
Suspirou, sem querer se prender muito a aquilo, porque era demasiadamente emocional e logo começaria a fazer perguntas indiscretas para Heiner sobre a sua infância. Chegou finalmente ao histórico médico, começava com uma internação devido à sua desnutrição e alguns cortes externos causados pela aderência da pele com o asfalto, depois havia algumas consultas devido a doenças comuns em crianças, como catapora e gripe, abaixo dessas havia um longo período em que ele permaneceu sem visitar nenhum hospital, aparentemente ele tinha tido uma saúde elogiável. Alguns pontos na perna com 13 anos, Sven não conseguiu evitar de balançar a cabeça negativamente com um meio sorriso, aparentemente ele foi mordido por um cachorro e embora não houvesse nenhuma informação além dessa o enfermeiro podia quase ter certeza de que Heiner tinha sido uma daquelas crianças que invade os quintais dos vizinhos para buscar a bola ou algo do tipo.
Encontrou. Uma internação com 16 anos devido a hemorragia grave no pescoço, ferimento causado por um caco de vidro, alguns dados sobre o estado dele e nada sobre como o vidro tinha chegado até o pescoço de Heiner. Olhou atrás da folha na esperança de que houvesse mais alguma coisa, mas todos os episódios em que Traenkner voltou ao hospital depois dos 16 anos foram devido a brigas na escola e no próprio orfanato onde vivia. O histórico acadêmico no entanto não mostrava muitas mudanças, apenas algumas faltas a mais no começo do Ensino Médio e reclamações sobre brigas, agressividade e linguagem vulgar.
Queria perguntar a ele o que havia acontecido, mas Heiner não parecia ser alguém que compartilharia suas memórias com qualquer um, pelo menos não o Heiner que costumava ficar exposto ao ambiente na maior parte do tempo, aquele com as sobrancelhas juntas e voz rouca. Quis se lembrar do que tinha feito para invocar aquela outra personalidade mais amável, mas não se lembrou de nada em específico, apenas o tinha tratado como tratava qualquer outra pessoa. Perguntou a si mesmo qual era a diferença entre ele e o restante dos oficiais, além da que Sven não tinha treinado tanto quanto os outros oficiais normais porque tinha um diploma e boa qualificação. Se fosse pensar claramente sobre aquilo era um pouco injusto que ele tivesse entrado no exército e já ganhado logo de cara a patente de Tenente, isso significava que ele estava acima de Krieg, que era somente um ano mais novo e havia passado bons anos ali dentro, treinando e estudando. E também criando punições cômicas, porque se tinha alguém criativo naquele lugar esse alguém era Krieg, sempre colocando os seus recrutas o mais baixo que podia.
Oh, percebeu de repente, a maior diferença entre ele e o restante dos oficiais era que Sven tratava todo mundo como igual, com cordialidade. A única coisa que tinha feito de diferente é que tinha sido gentil com Heiner, olhou para ele de novo e sorriu de leve, bom, havia um pouco de fundamento nisso, todo mundo gosta de ser tratado bem e nem mesmo aquele recruta era uma exceção, embora tivesse moldado toda sua personalidade para se defender de palavrões e socos Heiner não sabia como lidar com gentilezas e afeto. Nikolaevich podia ser chamado de pervertido ou coisa do tipo por Hans, mas não conseguia negar que esse aspecto em Heiner era um pouco interessante e o incitava a querer ver mais do lado menos agressivo dele.
– Você parece bom nisso. – comentou de repente fitando-o.
Ele olhou para o enfermeiro com o canto dos olhos, sem tirar verdadeiramente a atenção da tela, embora tenha ficado sem jeito e deixado o personagem ser atingido algumas vezes soltando um “Ugh!”.
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