Damage

38 Capítulo 38


Notas iniciais
Gostaria de agradecer pelas recomendações, amo vocês, leitores lindos do meu universo.

Algumas pessoas podem achar que se ferir e ficar algum tempo na enfermaria era algo bom e ir dar algumas voltas com o primeiro-tenente pela cidade também era algo interessante, mas Heiner não passou nada bem. A primeira coisa que Krieg fez quando o viu foi enfatizar o quanto ele era um pedaço de merda que tinha conseguido a proeza de se machucar durante a limpeza e ainda dar trabalho para ele. O primeiro-tenente também se recusou a prestar-lhe algum apoio e por um momento Heiner sentiu saudade do cuidado excessivo do enfermeiro, já que foi praticamente obrigado a mancar até o estacionamento enquanto escutava Kazimir resmungando algo sobre ele ser lento e até trazendo de volta o fato de que Heiner era um fruto da Puta, afinal.

Quando chegaram ao hospital uma alma divina perguntou ao recruta se ele precisava de ajuda, mas Krieg franziu a sobrancelha e disse algo do tipo “Se ele conseguiu se machucar sozinho ele vai conseguir se virar sozinho também” e Heiner teve mesmo de dar um jeito na sua situação. Quando voltaram para a enfermaria com a radiografia em mãos foi como se a enfermaria de alguma forma brilhasse e Sven fosse um anjo, porque Kazimir conseguia ser um demônio quando queria. Heiner não queria se machucar nunca mais enquanto no exército, não por causa da dor, mas para não ter que ficar escutando o primeiro-tenente de novo.

Sentou-se na cama como se estivesse se jogando em uma montanha de ouro e levou a mão até o rosto aconchegando as bochechas nas palmas da mão, nunca tinha sido tão xingado por se machucar em toda sua vida, a responsável pelo orfanato onde viveu era uma freira velha e sempre ficava muito atenciosa quando alguém adoecia, o contraste nos tipos de tratamento era mais que gritante. Se bem que não dava para esperar menos do exército, quando está saudável é tratado como cachorro, quando está doente ou ferido é apenas um pedaço de lixo que os oficiais são obrigados por lei a tratar. Mas alguns deles colocariam fogo se pudessem, com certeza.

– Porque infernos nós temos uma árvore que se chama “Puta”? – resmungou para o enfermeiro.

Sven quis rir com a situação dele, mas não fez isso porque sabia que um Heiner puto da vida não era um Heiner agradável.

– Na época que o Coronel Souteran era recruta eles estavam realizando um projeto para plantar carvalhos ao redor dos pavilhões e ele ficou encarregado de cuidar das plantas como punição para alguma merda que fez, todas as noites ele tinha que levantar e regar todas elas, mas todas ficavam muito longe então na maioria das vezes ele só regava aquela que estava mais próxima por preguiça. – começou a contar. – As outras cresceram muito pouco durante o verão por causa disso e morreram no inverno, menos aquela que o Coronel sempre regava. Ele se graduou e continuou trabalhando aqui e também manteve o hábito de regar a árvore durante a noite, a esposa dele achou que ele saía a noite para traí-la com uma puta e quando pediu explicações sobre isso ele só foi até a árvore e disse que ela era a puta.

O recruta não soube o que responder, porque não achou que houvesse mesmo uma história por trás daquilo, na verdade tinha certeza de que Krieg tinha inventado aquilo para humilhá-lo. Mal sabia Heiner que o acontecido foi a história principal no quartel durante semanas e nenhum oficial que tinha visto a expressão no rosto da esposa de Souteran conseguia lembrar daquilo e não rir. Até o próprio Coronel Souteran, que agora administrava aquele quartel, tinha cabelos e bigodes brancos denunciando a idade avançada conseguia não rir ao contar o quanto sua esposa tinha ficado vidrada e obcecada com essa história de traição e decepcionada ao descobrir que não tinha puta nenhuma. Mas depois daquilo ele tinha conseguido verbas para cimentar todo o pátio, deixando só alguns pequenos jardins para que nenhum recruta fosse mais obrigado a cuidar de planta alguma durante a noite.

– É uma história muito interessante. – Heiner respondeu sem saber ao certo o que dizer sobre aquilo, porque de certa forma era uma história tão sem sentido quanto engraçada.

– Bom, o quartel está cheio dessas histórias. – sorriu ao se lembrar de outra legal. – Sabia que existem duas enfermarias aqui?

– Não existem, não. – teimou.

– Existem. – respondeu. – Mas há boatos de que ela é assombrada, por isso construíram essa.

Heiner olhou para ele de relance com aquela típica expressão de “Tá de zoação comigo?” e riu de leve.

– Você é muito engraçado, Nikolaevich, mas eu já tenho 18 anos.

– Não, é sério. – não conseguiu evitar de rir um pouco com ele. – No final da Segunda Guerra Mundial os feridos começaram a ser trazidos para cá, mas um dia os médicos pediram para todos se amontoarem naquela sala e disseram que iam buscar remédios. Trancaram-nos lá dentro e nunca mais voltaram, fugiram com medo de serem torturados e presos por crimes de guerra.

– Como sabe que é verdade?

– Esse lugar ficou muito tempo desativado depois da Guerra, mas o governo achou interessante reformar tudo e transformar em um quartel de novo, quando chegaram aqui os cadáveres apodrecidos estavam todos amontoados naquela sala. – respondeu. – Desde então as almas dos soldados feridos estão lá esperando os médicos voltarem.

– Nesse caso é você quem deveria se preocupar, eu não sou enfermeiro. – Heiner respondeu com um meio sorriso.

– Engraçadinho, acho que os remédios acabaram, vou te trancar no banheiro e vou buscar mais, ok? – tentou ficar sério, mas acabou rindo um pouco junto com ele. Apontou para o grande envelope branco em cima do colo dele. – Me deixe ver sua radiografia antes disso, tenho que saber quais são suas condições para trazer os remédios certos.

– Claro. – entregou a ele o fruto da sua tarde de tortura ao lado do primeiro-tenente, mas que finalmente tinha acabado. – Acho que eu preferiria ficar trancado aqui do que sair com o Primeiro-Tenente Krieg de novo.

– Me desculpe por isso, ele não costuma ser tão cruel assim, você deve ter feito algo para deixa-lo tão puto. – Sven comentou tirando a radiografia de dentro do envelope.

– Claro. Eu sempre faço alguma coisa errada, nem que seja respirar alto demais. – respondeu um pouco indignado com o fato de Henry e Krieg pegarem tanto no seu pé. – Bom, pelo menos eu ainda não tive que correr pelo pátio só de cueca, isso seria constrangedor.

– Sinceramente, não sei o que é mais constrangedor, correr pelo pátio de cueca ou gritar que é fruto da puta.

– Você ouviu aquilo? – soltou um logo suspiro, um pouco envergonhado ao se lembrar do acontecido.

– Sim, claro, não tinha como não escutar. – respondeu ao se lembrar de ter ouvido inclusive alguns oficiais comentando sobre isso no almoço e rindo. – Por que teve de fazer aquilo?

– Foi porque eu briguei com o Samuel. – resolveu se explicar antes do enfermeiro perguntar, porque ele provavelmente ia. – Confesso que eu o ataquei verbalmente primeiro, mas ele fez insinuações muito rudes e não deu para deixar passar.

– Insinuações? – ficou curioso.

– É. – murmurou e virou o rosto de leve. – Ele insinuou que eu sou gay.

Sven parou de tirar a radiografia na metade e ficou parado olhando para ela por um minuto, não que estivesse muito surpreso, porque realmente não estava, mas ainda tinha esperanças de Hans estivesse exagerando quando disse que ele era um cretino preconceituoso, se ele tinha arriscado ser expulso só para calar um amigo que havia duvidado da sua sexualidade então as chances dele ser intolerante eram mais que grandes. Não que isso atingisse Sven, exatamente, mas ele de alguma forma ficou um pouco decepcionado em saber aquilo.

– Ah...nossa...que idiota. – deu um sorriso sem graça e se virou de frente para a janela, levantando a radiografia contra a luz, para que pudesse ver os detalhes.

– Não é? – ele pareceu um pouco feliz que Sven concordasse, ao mesmo tempo que pareceu surpreso, porque o enfermeiro parecia bem liberal. – Só porque ele é um viadinho doente não quer dizer que todas as pessoas também sejam.

– Com certeza. – respondeu ainda com aquele tom que as pessoas usam para disfarçar decepção. Pigarreou. – Bom, parece que você realmente não tem nenhuma fratura, como eu esperava, então vai precisar ficar bem menos tempo aqui.

– Ah, não estou mais tão incomodado com isso, você é um cara legal. – falando daquele jeito, até fez Sven se sentir mal por não dizer a ele sobre sua sexualidade, mas não queria que Heiner o odiasse tanto quanto parecia odiar todos os homossexuais. – Além disso, pelo menos vou estar longe dele. Cara, esse tipo de gente deveria ser proibida de se alistar, deviam ser tratados como portadores de doenças contagiosas, tsc, sei lá.

– É...bom...você se importa se eu sair por um minuto? Tenho que entregar alguns relatórios ao capitão.

Heiner arqueou uma sobrancelha, se perguntando porque ele não tinha feito aquilo enquanto o recruta estava no hospital, mas tinha sido ensinado a não questionar seus superiores e Sven era um deles.

– Não, fique à vontade. – disse dando de ombros e se abaixando para tirar os sapatos, já que ficaria deitado o restante da tarde de novo, sendo consumido pelo tédio.

O enfermeiro balançou a cabeça e foi até sua mesa, pegou alguns papéis aleatórios em cima dela e se dirigiu até o corredor. Começou a caminhar sem um rumo definido por eles, assim como seus olhos que vagavam do piso até os pés movendo-se rapidamente sobre o chão sem um ponto fixo. Sua atenção não estava na imagem que seus olhos lhe mostravam, mas no que tinha escutado de Heiner, porque embora o som suma quando as cordas vocais param de se mover a voz do recruta dizendo aquilo batia de um lado para o outro dentro da sua cabeça, sem conseguir sair ou simplesmente se extinguir. Não deveria estar preocupado com aquilo, realmente não era a primeira vez que alguém lhe dizia algo do tipo, aliás, já tinha escutado discurso homofóbico muito pior que aquele, mas os outras entraram por um ouvido e saíram pelo outro rapidamente.

Heiner era um bom garoto, tinha um lado dele que Sven realmente gostava, mas o outro que tinha chamado os gays de doentes, aquele lado o machucava. Não deveria estar tão afetado por causa de algo que um recruta que conheceu a tão pouco tempo disse, mas estava, porque em algum ponto da sua vida ele tinha refletido bastante sobre o que era e sobre isso ser algum tipo de doença ou não, tinha sofrido com aquilo e demorado a descobrir que não, Sven não era doente. Era completamente normal, só que se apaixonava pelas pessoas sem considerar os genitais delas.

De repente todos os papéis que segurava caíram no chão e ele percebeu que tinha trombado em alguém que estava tão desatento quanto ele próprio.

– Me desculpe, Tenente. – o recruta de cabelos louros disse imediatamente abaixando-se para pegar os papéis que caíram no chão. – Realmente, eu sou muito desatento.

– Não, tudo bem, eu também deveria estar prestando mais atenção por onde ando. – respondeu pegando os papéis da mão do garoto. – É Astrophel, certo?

– Sim, senhor. – ele respondeu, também segurava um papel em mãos, deveria estar indo levar aquilo em algum lugar.

Sven se lembrava dele, era o garoto que estava com o capitão desmaiado nos braços, era óbvio que tinha descoberto que havia algo entre os dois naquele momento ou Arthur não estaria segurando Henry como se fosse a coisa mais preciosa que tinha, e nem estado com os olhos trêmulos de preocupação. Sorriu de leve para ele, os dois combinavam perfeitamente, se encaixavam de tal forma que pareciam suprir o que faltava na personalidade um do outro. Se completavam. O enfermeiro não tinha absolutamente nada a ver com isso, mas costumava ser daqueles que gostam de ver o amor acontecendo. Os dois se prepararam para seguir seus caminhos quando Arthur parou de repente e olhou para os próprios pés, refletindo sobre algo que considerava importante.

– Ah, senhor, eu posso perguntar algo?

– Sim, claro. – respondeu, Arthur tinha sido educado tão rigidamente que ficava até fofo tratando os superiores daquela forma.

– Como está Traenkner? – indagou com certa curiosidade, tinha planos de ir na enfermaria vê-lo no final daquele dia, mas não se aguentou e teve de perguntar.

– Ele está bem, só teve uma torção e a radiografia confirmou que ele não quebrou nada, em algumas semanas estará completamente recuperado. – disse arqueando uma das sobrancelhas. – Por que?

– Bom, ele é meu colega de quarto, então fiquei um pouco preocupado. – justificou-se. – E também, tem algo que eu queria dizer.

Não pensou que Heiner fosse dormir no mesmo quarto que Arthur e não perceber nada sobre ele, se bem que o louro se parecia com qualquer homem comum sem nenhuma inclinação afeminada, assim como Henry.

– O que? – arqueou uma sobrancelha, ele estava bem sério.

– Não sei se alguém da enfermaria já presenciou isso, mas o Heiner é sonâmbulo.

– Na verdade eu também não sei, ainda não tive nenhum turno a noite desde que ele se instalou na enfermaria. – confessou. – Mas provavelmente não, já que ninguém me comunicou isso.

– Bom, um dos nossos companheiros de quarto foi dispensado então as duas camas de baixo dos beliches estão sobrando, Heiner fica alternando entre as duas a noite toda, isso sem contar que vez ou outra ele se levanta e confere se a porta está destrancada. – comentou franzindo o cenho, porque ele mesmo nunca tinha entendido aquilo ou considerado normal mesmo com as explicações esfarrapadas que ele dava. – Mas esse nem é o verdadeiro problema, na verdade às vezes ele tem alguns pesadelos e acorda totalmente descontrolado, é sobre isso que eu queria informar.

– Descontrolado?

– Sim, sabe, completamente desesperado, como se algo estivesse atrás dele. – tentou encontrar uma maneira de explicar. – Às vezes ele nem acorda, só começa a gritar ou algo do tipo, nessas vezes quando eu ou Damien o acordamos ele demora alguns segundos para se tocar que não está mais sonhando e eu já levei alguns socos desse jeito.

– Há quanto tempo isso acontece? – indagou, pesadelos são normais em humanos, mas não com frequência e nem na intensidade que Arthur declarava.

– Desde que eu me alistei, no mínimo duas vezes por mês. – respondeu.

– Por que eu não fui informado disso antes? – aquilo era algo que devia ser relatado imediatamente.

– Ele pediu que não contássemos para ninguém. – não pareceu arrependido de não ter contado antes, mas por estar contando agora, embora sua preocupação fosse visível. – Ele sempre fica tão mal quando isso acontece e tão envergonhado que sempre pede desculpas. – arqueou as sobrancelhas. – Senhor, eu não sei se já percebeu, mas Heiner não é muito educado ou simpático, ele não diz coisas como “obrigado” ou “me desculpe”.

Sven suspirou, não precisava de muito tempo para perceber isso e não conseguia imaginar o recruta pedindo desculpas ou totalmente aterrorizado com um pesadelo, embora já tivesse conseguido arrancar certo remorso dele. Heiner não gostava de pedir ajuda e às vezes até se sentia ofendido com ela, como o enfermeiro tinha percebido, depender de alguém para lhe acalmar e acordá-lo de um sonho ruim deveria ser um grande ferimento em seu orgulho. Ele devia confiar muito em Arthur e aquele louro também não deixava de mostrar que estava mesmo preocupado, caso contrário manteria sua promessa de não contar a ninguém.

– Você só precisa...acalmá-lo, só converse com ele como se falasse com uma criança, isso geralmente funciona.

Heiner era tão arrogante e rude, talvez um pouco bárbaro, saber que ele possuía esse lado tão vulnerável era tanto uma surpresa quanto uma ironia, pois sempre te disseram que quanto mais dura a casca, mais mole o conteúdo.

– Certo...bom, pode passar na enfermaria mais tarde para vê-lo, se quiser. – disse.

– Sim senhor, me desculpe por atrapalha-lo, vou indo agora. – o louro balançou a cabeça de leve e voltou a andar na direção contrária a que Sven ia.

O enfermeiro ficou ali parado por alguns instantes, de repente havia uma explosão de informações na sua mente, o sonambulismo, a irritabilidade, o preconceito, o caco de vidro, o distanciamento afetivo, os pesadelos. É, havia algo errado com o psicológico daquele garoto. Arqueou as sobrancelhas e se sentiu ligeiramente idiota por ter se magoado tão facilmente com o que Heiner disse quando o próprio recruta parecia ter muito mais dentro de si do que aparentava. É claro que ainda se sentia mal por ter escutado que era um doente de uma pessoa que gostava, mas decidiu que tinha de aprender a ser mais resiliente ao invés de se abater ao primeiro comentário que o ofendia.

Quis rir de si mesmo, tinha pegado qualquer papel em cima da mesa. Olhou para o que tinha em mãos, mas estreitou os olhos ao perceber que não era o que devia estar ali, tinha em mãos um Formulário de Apuração de Transgressão Disciplinar, ou vulgarmente chamado de FATD pelos recrutas que o preenchiam regularmente. O recruta em questão estava sendo acusado de aparecer para o treinamento com a barba grande e coturnos mal engraxados. Nem se surpreendeu quando viu que se tratava de ninguém menos que Arthur Draven Astrophel. Desceu os olhos até o campo “Justificativas/Razões de Defesa” e instintivamente começou a ler.

“Caro Excelentíssimo Capitão Wardraig, digo que não é culpa minha não conseguir controlar minha barba, pois devido às minhas raízes escandinavas eu possuo muitos pêlos faciais e também um sério problema com o ato de fazer a barba, pois sempre acabo me cortando, então decidi que seria melhor aparecer para o treinamento com a barba grande do que com o rosto picado. Sinto muito se não foi do seu agrado, receberei qualquer punição aplicada. Sobre meus coturnos devo dizer que o senhor tem toda a razão, eu não tive tempo de engraxa-los justamente porque estava envolvido em “outras atividades” dentro do quartel e que isso não foi culpa minha, mas sim dos meus superiores. Também aceitarei qualquer punição, sendo esta leve ou rígida sobre a minha pessoa.

Grato pela atenção, encerro aqui a minha defesa.”

Ficou olhando aquilo por um instante até perceber que tinha uma pequena nota fixada no formulário. Bom, já estava se intrometendo mesmo, não havia porque ignorar a nota.

“Caro Coronel Souteran, após chamar a atenção do recruta Arthur Draven Astrophel e pedir a ele que execute a punição adequada ele se recusou a me obedecer. Pedi a ele que preenchesse um Formulário de Apuração de Transgressão Disciplinar (FATD), formulário este que o recruta em questão já está cansado de assinar, pois está frequentemente ignorando as leis disciplinares deste quartel. Contudo, receio não ter ideia de que “outras atividades” são essas as quais o Sr.Astrophel cita em suas justificativas e jura estar envolvido. Peço então ao senhor, Coronel Souteran, que apure o caso com justiça e julgue o recruta de acordo com sua experiência. Caso descubra que atividades são essas, eu ficaria muito agradecido em tomar conhecimento delas, pois realmente foge do meu conhecimento que Astrophel esteja envolvido em alguma atividade extracurricular.

Atenciosamente, Capitão Wardraig.”

Quis ler aquele campo escrito a caneta azul de novo, mas achou que seria mais digno devolver aquele formulário a Arthur e descobrir o que ele tinha pegado das suas próprias mãos. Teve a leve impressão de que alguém apanharia muito no final daquele dia, pois o que estava acontecendo naquele papel era simplesmente Henry dizendo a Arthur “Duvido que você vai lá e conta para o velho que está me comendo, filho da puta” e aparentemente o louro estava bastante decidido. Era como um jogo de submissão, quem cedesse primeiro perdia, e Sven sinceramente achava que Arthur não teria coragem de dizer ao Coronel que não tinha engraxado seus coturnos porque estava transando com o capitão embora ele aparentasse coragem. Riu um pouco enquanto ia atrás do louro, aqueles dois realmente tinham sido feitos um para o outro.

Virou alguns corredores e apertou o passo depois de olhar as horas no relógio, não faltava muito para o fim do dia e Sven de certa forma estava feliz com isso, porque só trabalharia de novo na noite do dia seguinte então podia fazer alguma coisa na parte da manhã, para se distrair, esquecer do que Heiner tinha dito. Afinal, a opinião dele nem devia ser mesmo tão importante para Sven, não havia porquê.

Notas finais
Heiner, não magoe seu seme! ò.ó