Dama de Sangue
17 O despertar
Livia abriu os olhos e já não sabia onde estava. A escuridão tomava conta do ambiente de tal forma que, tentando piscar com força para ver se era capaz de enxergar ao mais, acabou sem saber se estava de fato com os olhos fechados ou abertos. No fundo, não importava como estavam. Não veria nada, de qualquer forma.
– Eu, eu já abri os olhos... — respondeu à voz que possivelmente tentara acorda-la.
Não recebendo resposta, tentou buscar com as mãos a pessoa que poderia estar ali. Estender os braços não foi possível, uma estranha parede de madeira era tudo o que havia em seu redor e tão perto... Nem mesmo era possível se mexer. Tampouco levantar-se, já que havia um teto bem acima de sua cabeça, impedindo que isso fosse feito. Livia estava presa entre a madeira fria que a envolvia. Tocava as paredes, buscando alguma fresta, mas não havia nenhuma. Tentou bater contra a madeira, esperando que alguém a ouvisse, mas não havia ninguém para ouvir.
O ar começava a fazer falta e o espaço parecia cada vez menor. Sentia como se fosse ser esmagada e sufocada a qualquer instante. Sentia como se o mundo todo pudesse desabar sobre a sua cabeça através daqueles pedaços de madeira compactos. Via-se presa, refém de uma estrutura doentia criada à sua volta... possivelmente como uma
tortura bem sucedida.
Era injusto como as coisas tinham se desenrolado, em como parecia, mais uma vez, estar esperando apenas que a morte lhe chegasse. O desespero, porém, lhe vinha a mente em proporções bem maiores que a melancolia que poderia sentir. Levava a mulher a fincar as unhas bem-feitas contra a madeira acima de si, para tentar se livrar de todo aquele sufoco que o local lhe causara. Mas, como o ar lhe faltara, cessou as tentativas por um breve instante. Tentou respirar fundo, mas também não havia ar para respirar e estaria perdida se ficasse parada, simplesmente esperando que ele chegasse até si.
Bufou irritada com a situação e tentou novamente arranhar o teto e as paredes de madeira que a envolviam. Era sua única chance de sobrevivência... Sua única chance.
Estendia as mãos, puxava e empurrava a madeira conforme podia. Chutava-a, se espremendo no pequeno espaço que tinha. Tentava, instintivamente, respirar, em vão. E, voltava a se debater contra as paredes, relutando contra o aperto e o sufuco que passava. Implorando para que seu corpo pudesse ser mais forte e que suportasse por mais
um minuto, por mais um minuto que fosse... porque acreditava ser capaz de fugir daquele caixão se tivesse uma chance um pouco maior, quem sabe.
O ar fazia falta, mas Livia acabou por perceber que já não precisava mais dele. De alguma forma que o minuto a mais foi dado, uma e outra vez... Até que se completasse uma ou duas horas de tentativa e, finalmente, a madeira cedesse. A terra que desabou sobre a mulher era mais macia e mais maleável que a madeira e pôde ser retirada com mais facilidade que esta... De modo que, em algum tempo, conseguira se livrar de tudo aquilo.
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