Dama Assassina
4 Surpresas no Desembarque
Notas iniciais
Anthony estava entediado de ficar sentado, mesmo a viagem ao menos ter começado direito, enquanto Heitor apreciava a paisagem que passava correndo em meio a velocidade do trem.
–O senhor não acha melhor sair um pouco e caminhar? – perguntou Heitor, sem tirar os olhos da janela.
–É uma boa ideia. Farei isso.
–Não se perca no caminho.
–Mas é claro que não! Como irei me perder?
–Não me refiro a isso. – Heitor o olhou.
–Ah sim... – Anthony riu – Pode deixar, não irei me “perder” para ficar com alguma bela dama que encontrar enquanto caminho vagarosamente.
–Pelo o que eu te conheço, irá se perder sim aos encantos dessa tal bela dama.
–Não se ela se perder pelos meus encantos primeiro. – Anthony falou num tom convencido.
–Perdão, senhor. Mas não tem muito encanto em sua pessoa.
–Caro Heitor, você me desanimou agora.
–Não foi minha intenção, senhor.
–Tudo bem, eu sei que você me acha muito charmoso.
–De certa forma, sim. Pelo menos uma coisa que o faz chamar atenção, seu charme.
–Também sou bonito. Aliás, lindo.
–Não seja tão convencido.
–Muitas mulheres me dizem isso.
–Nos seus sonhos? – Heitor o olhou sério, mas depois abriu um sorriso, pois o que havia falado foi engraçado.
–Sério, tá me deprimindo.
–Quando eu tento brincar o senhor não acha graça, mas quando falo sério o senhor ri. Não o entendo.
–Então tudo o que falou não é verdade? Sou mesmo lindo!
–Não se empolgue, pois eu não desmenti nada que disse.
–Que seja, fique aí tentando admirar essa paisagem que nem dá pra ver direito, que eu vou jogar meu charme.
–Boa sorte, irá precisar. – disse Heitor voltando a olhar pela janela.
Anthony saiu dali e foi caminhando entre os vagões. Acabou esbarrando em alguém.
–Pardon. – Ele segurou a pessoa, antes que ela caísse.
–Está tudo bem, não se preocupe.
–Mesmo assim preciso me desculpar com uma linda mulher como você. – Anthony deu um sorriso provocativo.
–É um cavalheiro, mas não precisa tanto.
–Eh bien. Prazer, sou Anthony. – Disse ele segurando a mão da moça e levando até seus lábios, a beijando delicadamente. – E você?
–Anne Marie, mas pode me chamar apenas de Anne.
Os dois sorriram um para o outro. Ficaram em silêncio por algum tempo.
–Eu vou voltar, deixei minha amiga sozinha. Foi um prazer em conhecê-lo. – Anne ia sando, quando Anthony a chamou.
–Espera! Eu posso saber mais sobre você?
–Mais sobre mim?
–Ér... Um contato, número de...
–Não sabia que havia gostado de mim no primeiro esbarrão. Pensei que depois, sem querer, iria se esbarrar em mim novamente, falando que foi apenas coincidência. E aí sim me pedir mais informações. – Ela riu.
–Era o que eu tinha planejado, mas me encantei por você. E não sei se a verei novamente.
–Eh bien, estou indo à Bordeaux. E acho que você também.
–Oui. Estou indo a uma festa.
–Olha só que coincidência. Eu irei a uma festa também.
–Acho que o destino está nos ajudando muito.
Anne Marie riu e sentiu seu celular vibrar no bolso da calça.
–Un instant. – Ela pediu, atendendo o celular.
Anthony apenas assentiu. Anne desligou e falou:
–Preciso ir, minha amiga está me esperando. Como eu disse, a deixei sozinha.
–Tudo bem. Nos falamos depois se você me der seu número. – Ele sorriu galantemente, nem hesitou em pedir.
–Depois desse sorriso, não tem como eu recusar.
Anne pegou uma caneta e um pedaço de papel em sua bolsa, escreveu o número e entregou a ele.
–Merci. – Anthony deu um sorriso vitorioso.
–Não demore pra ligar. – Ela se virou e saiu dali.
–Com certeza não... – Anthony sussurrou para si, guardou o papel e continuou pensando na linda moça que acabara de conversar, até ser afastado de seus pensamentos.
–Senhor? – Chamou uma moça com o uniforme da empresa do trem que estava viajando.
Anthony se virou e viu que estava atrapalhando a passagem, pois estava parado bem no meio do vagão.
–Pardon. – Ele saiu dali e voltou ao seu lugar.
Anthony chegou perto de Heitor sorridente, o que chamou a atenção do senhor.
–Encantou alguém com seu charme?
–Não, eu fui encantado pela beleza de uma bela dama.
–Ah! Então você encontrou a tal dama?
–Oui. Anne Marie. Linda.
–Pegou algum contado com ela?
–Sim, ela me deu seu telefone e ela também irá a uma festa em Bordeaux.
–Hum... Que coincidência.
–Sim, caro Heitor, mas pra mim é o destino agindo em meu favor. – Anthony deu um suspiro.
–Já cedeu aos encantos da moça?
–Acho que sim. Mas não conversamos muito, pois ela tinha que voltar para seu lugar, uma amiga muito chata estava ligando pra ela.
–Pelo menos deu para conhecê-la.
–É... Um pouco.
–Como ela era?
–Ela tem o cabelo ruivo, olhos verdes, pele macia...
–Sentiu a pele dela?
–Sim, beijei sua mão.
–Um cavalheiro e uma dama ao meio de um trem. Muito romântico.
– Une belle dame.
–E um cavalheiro charmoso.
–E lindo também, caro Heitor.
Os dois riram, Anthony sentou-se em seu lugar, pegou o celular e salvou o número dela.
–A viagem ainda vai demorar? – indagou Anthony.
–Não, senhor. – Heitor olhou seu relógio – Faltam menos de uma hora para desembarcarmos.
–Acha que eu devo ligar agora? Já que falta pouco tempo para chegarmos a Bordeaux e talvez eu nunca mais irei vê-la.
–Se apaixonou?
–Heitor, eu não sou homem de se apaixonar, prefiro encantar os corações, desfrutar de uma bela companhia, um belo vinho e depois... – Anthony sorriu.
–Não quer nada sério, não é?
–É.
–Acho que o senhor deveria começar a procurar uma pessoa...
–Não comece com esse papo, já preciso ouvir isso do meu pai. – Antecipou-se Anthony, antes de Heitor concluir a frase.
–Tudo bem. Não tocarei mais no assunto, mas ainda acho que o senhor deveria ter alguém ao seu lado.
–Quando essa pessoa surgir, eu pensarei em algo mais sério, mas... Por enquanto vou aproveitar.
–O senhor sabe o que faz... – Heitor pegou um livro que começou a ler quando Anthony saiu.
Anthony ficou em silêncio e depois percebeu que ainda não sabia se ligava ou não para Anne.
–Eu já decidi! – Ele disse determinado.
–Então faça o que decidiu e ligue para a menina. – Disse Heitor, não tirando sua atenção do livro.
–Como você sabia que era disso que eu estava falando? – Anthony levantou uma sobrancelha, um tanto assustado.
–Antes de eu mudar o assunto, você havia me feito uma pergunta sobre ligar ou não para ela.
–Ah é! Essa sua mania de mudar de assunto toda hora.
–Acho melhor o senhor se apressar, logo, logo chegaremos ao nosso destino.
–Irei ligar para ela.
Anthony pegou seu celular e, como já estava salvo o número, ligou direto.
–Não vai atender? – perguntou uma jovem de cabelo loiro.
–Desconhecido... Será que é o...? – Anne abriu um sorriso.
–Quem é? – indagou a jovem.
–O Anthony, que eu havia contado a você, Rachel.
–Ah sim. Atende, então!
–Allo. – Anne pôs o celular no ouvido.
–C´est moi, Anthony.
–Ah sim, Anthony! Pensei que jogaria meu número fora, ou talvez nem ligasse.
–Jamais faria tal ato, adorei conversar com você, mesmo que tenha sido por pouco tempo.
Os dois riram e Anne continuou.
–Posso te fazer uma pergunta? Já vamos desembarcar e eu não sei se o verei novamente.
–Oui.
–Você irá a qual festa? Se não quiser responder, tudo bem, eu... – Anthony a interrompeu.
–Na Praça da Bolsa, um grande monumento, muito lindo. É uma festa com vários homens de negócios. Será a festa de aniversário de César, filho de um dos grandes empresários da França. E um grande amigo meu.
–Hmm... Então acho que não preciso mais me preocupar.
–Como assim?
–Iremos nos encontrar na festa.
Anthony sorriu do outro lado da linha e Heitor percebeu, mas permaneceu quieto e voltou a ler seu livro.
–Já que nos veremos mais tarde, até bela dama.
–Até. – Anne desligou o celular e sorriu para a amiga.
–Uau! Pensei que não pararia de falar com esse tal de Anthony. – Rachel riu.
–Você ainda não o conheceu, ele é lindo e muito charmoso.
–Não se encante logo com isso, ainda não sabe como ele realmente é.
–Iremos nos ver hoje, ele irá à mesma festa que nós.
–E lá haverá outras damas e ele irá chama-las desse mesmo jeito.
–Ai Rachel, você também irá se encantar pelo charme dele.
–Sei...
O trem começou a parar, era sinal de que haviam chegado à Estação de Bordeaux.
–Viu? A viagem não foi muito longa. – Disse Heitor, saindo do trem.
–É... Eu pude conhecer uma linda mulher e já tenho um encontro marcado.
–Pegue nossas malas, estarei esperando-o ali no banco.
–Mas o senhor veio a viagem toda sentada, porque não me ajuda?
–Porque eu quero permanecer sentado. A festa toda irei ficar em pé, conversando com os amigos de seu pai, já que o mesmo não pôde comparecer.
–Bien, bien. Vou lá buscar. – Anthony saiu e foi até o vagão onde estavam suas malas.
Heitor foi para um banco, a Estação estava cheia, muitos passageiros saindo apressadamente do trem. As meninas saíram e passaram por onde Heitor estava sentado, mas como não se conheciam nem se falaram.
Ainda era de manhã, o sol estava brilhando e refletia nas janelas de vidro do Trem. Por mais que o sol estivesse reluzente, era uma manhã bem fria, por isso muitos usavam casacos e calças. Casacos esses um mais lindo que o outro. Muito falatório, pessoas se encontrando, outras ignorando totalmente tudo e saindo da Estação, outras com um olhar vazio, o fato é que havia muita gente.
Heitor estava sentado ao lado de uma moça com mais duas crianças. Ele observava atentamente onde Anthony estava, não demorou muito e o mesmo estava voltando com as malas.
Anthony estava caminhando, com um pouco de dificuldade, já que eram três malas.
–“Bem que Heitor falou para não trazer muita coisa, pareço uma mulher quando vai viajar, aff!” – Pensou o rapaz com raiva de si mesmo.
A moça que estava ao lado de Heitor se levantou com as crianças, parecia ter encontrado alguém que chegava de viagem, o senhor acompanhou com os olhos ela se afastando, mas depois olhou para Anthony, que chegava ofegante.
–Eu avisei.
Anthony o encarou e depois soltou as malas no chão.
–Senhor, eu acho que deveria ter pedido aos gentis homens que trabalham aqui para lhe ajudar. Eles são pagos para isso, não precisava trazer tudo sozinho.
–E por que não me disse antes, Heitor?
–Queria rir um pouco, já que eu avisei para não trazer muita coisa, só ficaremos uma semana. Talvez um pouco mais, mas não precisava de tanta coisa.
–Tudo bem, eu exagerei mesmo, mas... – Anthony parou de falar quando ouviu um grito desesperado, ele se virou.
Heitor se levantou para ver o que havia acontecido e avistou a mesma moça, que estava com as crianças, ajoelhada no chão, um pouco mais a frente, perto de um homem, porventura poderia ser seu marido, ou alguém da família. Os dois ficaram assustados com tal cena daquela mulher no chão chorando, as duas crianças paralisadas e sendo afastadas pelas pessoas que queriam ajudar naquele momento tão desesperador. O homem que estava no chão havia morrido com uma facada. Um assassinato rápido e silencioso.
Duas pessoas passavam por Anthony e Heiror. Uma jovem e um jovem conversando sobre o acontecido.
–Falaram que ele havia saído do vagão e viu a esposa se aproximando, voltou para o trem, pois estava terminando de pegar algumas coisas que deixou no banco, quando saiu, alguém enfiou uma faca. Ele permaneceu em pé por um momento, a pessoa que o assassinou, provavelmente, saiu dali tranquilamente. Por isso ninguém percebeu. – Contou a jovem.
–Nossa, Mirella, você ainda estava no vagão quando isso aconteceu?
–Não, eu havia saído, ouvi isso enquanto me afastava da multidão que se formou, para me encontrar com você, meu amor.
Os dois se beijaram e continuaram andando para a saída da Estação. Pareciam não se preocupar muito com o acontecimento repentino.
–Heitor, você ouviu? – Anthony olhou novamente para o senhor, um tanto assustado com tudo.
–Sim. Aquela senhora parecia estar tão feliz quando saiu daqui com as crianças. Uma lástima isso ter acontecido. – Lamentou o senhor.
–Nunca imaginaria que um assassinato acontecesse aqui e justamente quando eu chego a Bordeaux. – Anthony parecia muito assustado.
–Coincidência ou não, devemos ir.
–Claro, espero que isso se resolva logo. – Anthony olhou mais uma vez para a moça no chão com o homem deitado e sentiu um arrepio.
–Essa cena te lembrou... – Heitor não terminou a frase.
–A morte do meu irmão. – O rapaz falou num tom sério, pegou as malas e se dirigiu a saída.
Heitor deu mais uma olhada, por mais que estivessem ignorando aquele acontecimento, não sairia tão cedo das mentes deles e nem de ninguém presente na Estação. Logo depois ouviram-se sirenes de viaturas policias e ambulância.
Um dos policiais se aproximou do corpo e viu a faca prata, com um “A” no cabo. Como já havia sido retirada, ele a embalou e entregou para seu superior, o mesmo olhou a faca fixamente.
–Dama Assassina. – Murmurou o policial.
Notas finais
Ah! Antes que nos esquecemos:
>Un instant - um momento
>Merci - obrigado
>Oui - sim
>Une belle dame - uma bela dama
>C´est moi - sou eu, Anthony
Há outros, mas acho que dá para entender, esses também tem como entender, mas achamos melhor por para não ficar tão confuso.
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