Da Infância à Adolescência

5 Capítulo V. Teoria sobre Ataques a Ruivas I


Notas iniciais
Olá, caro leitor! Eu desapareci por um mês mais ou menos, eu acho. Estava de férias na casa de vovó tehe~! Sobre o Kendô: http://www.japaoemfoco.com/arte-marcial-kendo/ Eu por enquanto estou usando as informações básicas, mas farei um estudo completo sobre e até vou considerar escrever uma possível luta de kendô na fanfic. Pode ser interessante! Por enquanto é só. Agradeço os comentários anteriores e espero que gostem! Um abraço e até mais ver!

...

Aquele garoto não era como os outros. Ele era um pouco mais flexível com as amizades, já que cumprimentava cada pessoa que cruzava o seu caminho com um sorriso tão largo que o fazia parecer o próprio sol. Sem falar no cabelo que parecia de quem tinha acabado de acordar e de cor ruiva alaranjada brilhante. Ryan tinha sido gentil o suficiente para acompanhar as amigas e evitar qualquer problema.

Elesis estreitava os olhos para ele, desconfiando de sua boa atitude e andando um pouco atrás observando. Pessoalmente ela acreditava que ele não seria capaz de protegê-la mesmo com o físico forte, de qualquer forma ela mesma podia dar conta de qualquer coisa.

Arme e Lire andavam atrás de si, falando sobre algo e Amy ia na frente, olhando para os lados como se procurando alguma coisa. Elesis se aproveitou disso.

—Você não precisava se dar o trabalho, Ryan. – disse a ruiva, dando de ombros, chamando a atenção do garoto.

Ryan virou a cabeça para trás, com uma grande interrogação na face.

—Não é trabalho nenhum... Eli-chan. – disse ele, inclinando a cabeça e sorriu. Elesis franziu a sobrancelha para isso, tendo a impressão que ele era mais ingênuo do que já parecia.

—Hm. O que eu queria dizer é que eu gosto de lidar com as coisas sozinha. Não preciso da sua companhia.

O ruivo arregalou os olhos instantaneamente, pego de surpresa pela grosseria, e ficou um tempo ainda olhando para ela.

Incomodada, Elesis ficou com o rosto um pouco corado. Ela odiava, odiava ser encarada.

—O que é?! – retrucou nervosa. – Ficou bravo com o que eu disse? Sinto muito, pois é a verdade.

—Não. – ele respondeu imediatamente, balançando as mãos.

Depois de dois segundos ele deu uma risada comportada, mas alegre e envolvente. Elesis encheu as bochechas um pouco, se sentindo insultada. Ele cobriu a boca com a mão e diminuiu o passo um pouco para andar ao lado dela.

—Não é nada. – ele disse e riu de novo.

—O-O que é, droga?! Tem algo engraçado no meu rosto?! – Elesis exclamou fechou os punhos, irritada.

—Nada, é só que você é bem fofa, não é?

—HAH?! – Elesis virou-se incrédula para ele, chamando a atenção das colegas atrás.

—O quê? O que está acontecendo? – Arme perguntou, parecendo empolgada com a conversa.

—Absolutamente nada! – Elesis disse definitiva, olhando seriamente para as meninas.

Depois disso, a ruiva encarou Ryan, tentando tirar aquele sorriso pretensioso do rosto dele, mas era inútil. Não dava para saber se ele tinha falado no sentido sério da palavra ou tinha sido apenas um comentário para fazê-la ficar alterada.

—Enfim, chegamos. – Ryan cortou a tensão do ar com sua fala e apontou a porta de incêndio com os dizeres “REFEITÓRIO” acima.

—Obrigada, Ryan! – Lire disse a ele, tocando seu ombro delicadamente e dando um tchauzinho, já indo na frente e abrindo a porta.

—Vai ficar me devendo essa! – ele falou alto, respondendo o cumprimento.

Depois que Amy e Arme entraram, Ryan segurou Elesis um pouco.

—Tem algo que eu quero dizer para você. – ele falou, coçando a nuca.

Elesis arqueou a sobrancelha.

—Sabe, eu fui criado numa reserva no limite da cidade e desde criança tive que lidar com muitas coisas sozinho. Por causa da distância eu não tinha muitos amigos, então os animais da reserva eram os mais próximos que eu conhecia. – ele disse, com os olhos baixos, parecendo um pouco desconfortável em ir falando assim sobre a própria vida.

—Por que está me contando isso?

—Bem. Eu gostava muito da minha vida lá, mas me sentia sozinho às vezes. Mas Eli-chan, você é incrivelmente independente! Eu realmente admiro isso. – Ryan disse, sorrindo envergonhado. – Eu só queria te dizer isso.

O garoto não deu tempo para Elesis ruborizar e mandar uma frase de volta, passando por ela e acenando.

—Bom almoço, não se meta em problemas ok, Eli-chan?

A ruiva ficou o vendo desaparecer na esquina do corredor. Daí algo clicou em sua mente.

—Ele está me chamando de Eli-chan também! – rosnou, nervosa.

—Eli-channn, que demora! – Amy saiu do refeitório, chamando-a e a puxando junto consigo.

XXX

A ruiva junto às colegas tinha acabado de se sentar numa mesa para seis e provava com distração seu prato de macarrão coberto de queijo quando captou pelo canto dos olhos um grupo entrando no refeitório numa conversa bastante animada.

Os cabelos bagunçados negros eram inconfundíveis, ela não teria deixado passar. Ele sorria para os amigos, caminhando entre as mesas para ir pegar o almoço e depois ir se sentar numa mesa alinhada a delas, um pouco distante. Elesis não tirou os olhos dele em nenhum momento, absorvida pelo sentimento negativo que tinha por ele.

Inesperadamente, quando Elesis piscou, colocando o garfo de macarrão enrolado na boca, Sieghart endireitou a cabeça e seus olhos se encontraram. Ela arregalou os olhos.

—Eli-chan!

A atenção de Elesis foi tomada por Rey, que havia acabado sentar-se à sua frente, tapando a figura do garoto ao fundo.

—Olá, Rey. Como foi sua aula? – Elesis indagou com um sorriso amarelo, mentalmente agradecida pela mais velha ter chegado.

—Ahhh, péssima! Eu quase cacei uma detenção para fugir daquela aula. – a garota reclamou, girando os belos olhos verde-escuros.

Nessa hora Amy e as outras duas se viraram.

—Você devia estar na nossa aula então. O J.D. ia te expulsar rapidinho. – Arme riu, levantando no garfo uma bolinha de queijo.

—Ah, vocês pegaram a aula dele então. Hehe. – Rey disse, abaixando um pouco a cabeça para comer. No movimento, Elesis deu uma rápida olhada e por cima dos fios róseos de Rey ela viu o olhar sério de Sieghart, concentradíssimo, como se estivesse esperando para encará-la de novo.

Por um segundo ela ficou em choque, mas no próximo franziu a sobrancelha e mostrou sua expressão de quem não se intimidava. E Sieghart aceitou a briga. Ele deixou a talher e limpou a boca com o guardanapo, se levantando em seguida, sem tirar os olhos de si em nenhum momento.

Ele caminhou sozinho, deixando seus amigos confusos, e parou bem ao seu lado na mesa. Com as mãos nos bolsos, ele fez a conversa parar.

Algumas cabeças no refeitório se viraram para assistir quietamente à próxima briga do dia.

“Eles vão brigar de novo, quanto quer apostar?!” Ouvia-se pelo local.

Ele estreitou os olhos claríssimos.

—Oh, Sieghart. – Rey disse, piscando surpresa, olhando para Elesis e de volta para ele, consciente da briga dos dois. Sieghart a cumprimentou com a cabeça e ela resolveu ficar quieta enquanto ele se voltava para a ruiva.

—Tch. O que você quer agora? – Elesis soltou de uma vez, grossa.

—Você estava me chamando para a briga com esse seu olhar de convencida, ruiva. – ele respondeu num chiado, levantando a mão e afastando a franja. – Ou será que você está pronta para se desculpar?

—Até parece. – devolveu ela, o ignorando. “O melhor a se fazer agora é não dar mais motivos para ele encher o saco. Não preciso levar uma advertência logo no segundo dia. O pai não vai ficar feliz se isso acontecer”.

Ele fez que não gostou, mas não pôde continuar a falar. Ao lado dele surgiu alguém bem mais indesejável, de olhos azuis prepotentes e cabelos louros.

—Olha só, todos reunidos! Nos vimos há pouco, não é? – Allen disse entre dentes, inclinando-se na mesa de forma que empurrasse Sieghart para o lado, com a mão em seu ombro e a outra na mesa.

Elesis mastigou com lentidão, olhando de um para o outro.

—O que vocês querem aqui? Não está na hora de vocês deixarem ela em paz? – perguntou agressivamente Arme, que bateu as mãos na mesa, cortando a tensão entre o trio.

—Fica quietinha, nanica. – retrucou Allen, balançando a mão para ela e olhando Elesis. – Eu disse não? Que não ia permitir umazinha feito você estudar aqui. Por que não volta pra roça de onde veio e usa essa vassoura vermelha na cabeça para limpar o chão da sua cabana?

Nessa hora Elesis arrepiou-se toda, sentindo que o colégio inteiro tinha ouvido isso e nem demorou as risadinhas começaram a ressoar. Ela na raiva foi para levantar e dar adeus à sua expectativa de boa aluna no ano, mas parou no meio do caminho.

Sieghart segurou a mão de Allen em seu ombro e “gentilmente” a tirou, segurando-a no ar. Seu olhar estava mortalmente sério.

—Allen, você está interrompendo a minha conversa. E eu não gostei do jeito que falou com ela. – ele disse, afiando os olhos e ao mesmo tempo aumentando a força do aperto. Allen sentiu a dor, fechando um olho, mas não conseguiu se soltar. – Você não tem noção de que está sendo desrespeitoso aqui?

Elesis assim como todos os presentes ficou sem fala. O Rei realmente parecia irritado com o que Allen tinha dito, com a testa franzida e as sobrancelhas juntas sobre os olhos brilhantes. Não, ele parecia furioso.

—Melhor me soltar, Sieghart. – Allen murmurou, olhando para os lados discretamente.

—Você ouviu o que eu disse, Allen? – indagou o moreno, aproximando-o de si quase como uma mãe faz ao repreender um filho. – Não importa o quanto você a odeie, nada justifica essa humilhação que você a está fazendo passar. Essa atitude constrangedora não faz jus a esse colégio.

Allen rangeu os dentes, olhando para o outro com uma raiva bastante visível, mas ele não se atreveu a fazer um pio. Elesis, por sua vez, estava bastante confusa... Por que ele, Sieghart, que tinha deixado claro que não gostava dela – o que era mútuo, só para lembrar – estava defendendo ela?

—Isso não é da sua conta. – Allen respondeu entre dentes e a força arrancou o pulso do agarre de Sieghart.

Sieghart empinou o nariz como quem diz “tenho tudo a ver com isso” e deixou o louro ir embora, ainda olhando feio para ambos, Elesis e Sieghart.

Assim que a tensão diminuiu as meninas trocaram olhares surpresos e sorridentes. Afinal, Sieghart praticamente tinha agido como herói ali. Ou foi o que pareceu.

—Eu não fiz isso por que vou com a sua cara. – disse ele, virando-se para Elesis. – Eu simplesmente não gosto que se intrometam nos meus assuntos. Mas isso serviu também para você ver que idiotas como ele existem por aqui. Pessoalmente eu odeio julgar pelas aparências ou primeiras impressões como ele, mas até agora continuo não gostando de você.

Sieghart deu uma pausa, parecendo esperar para ver o que ela diria. Elesis apenas lhe dava um olhar duro, já que mal sabia o que dizer após ter sido salva de uma situação complicada.

—Hunf. Se tiver alguma coisa para dizer, fale na minha cara, não precisa ficar me encarando. – Sieghart disse com o tom baixo, apenas para quem estivesse na mesa pudesse ouvir. Ele colocou as mãos nos bolsos, virando-se para sair, mas Elesis finalmente teve coragem para falar.

—Eu não ligo pra que tipo apareça na minha frente. – ela fechou os punhos, apertando os olhos, envolvida de pura irritação. – Seja Sieghart ou Allen, eu posso lidar com qualquer um que entre no meu caminho. Não preciso do seu auxilio para me sentir melhor.

Sieghart entreabriu os lábios perfeitamente desenhados e a olhou, tocado pela ingratidão da ruiva. Ele tinha acabado de protegê-la de um ato de bullying que poderia acabar com a sua vida escolar. Ele parecia pronto para uma longa discussão.

—Mas você é muito orgulho-,

—Chega! – Rey interrompeu a conversa, já ao lado do moreno, segurando-lhe o braço e começando a rebocá-lo para longe.

Elesis só percebeu que estava de pé com as duas mãos na mesa quando os dois foram para a mesa do moreno. Então, olhando para seu prato metade comido sentiu que não conseguiria digerir a comida tão facilmente.

—Você está bem, Eli-chan? – Lire perguntou, preocupada.

Arme fechou as mãos nas talheres, irritada.

—Mas é demais para um dia só! Esses caras não se tocam?!

Amy chamou a atenção de Elesis, com um sorriso afável.

—Eles só não gostam de você porque não te conhecem, Eli-chan. – disse ela, balançando a mão para Elesis. – É verdade que na primeira vez achei que você era ingrata e não se importava com ninguém, mas por mim pode continuar desse jeito. Afinal você é muito legal sendo assim!

Elesis corou. Para disfarçar tossiu baixinho.

—O-O que uma idol como você está falando? Você deve ser muito mais legal que qualquer outro por aqui. – Elesis retrucou, sentando-se.

—Haha! – Amy riu, voltando a comer e fazendo com que elas falassem sobre outra coisa.

—E então...? – a voz de Rey soou assim que ela voltou a se sentar na mesa. –Tudo okay por aqui?

—Tudo okay. – Elesis respondeu normalmente. – Você é amiga dele por acaso?

Rey encostou o queixo na mão e deu um sorriso largo digno de sarcasmo.

—Ow, você é direta! Hahah! – Rey riu docemente, estreitando seus olhos esmeralda. – Você pode ficar surpresa com isso, mas... Eu sou a ex do Sieghart.

E a ruiva realmente ficou, tanto que ela parou o garfo no meio do ar.

—Que cara é essa? Parece até ciúmes. – Rey comentou, indiferente, dando de ombros e tomando sua bebida refrigerada.

Um arrepio atravessou a espinha de Elesis.

—C-Ciúmes?! – chiou Elesis, olhando para os lados com medo. – Não seja ridícula! Eu nunca poderia! Não por um cara como ele!

Rey riu e as amigas acompanharam. A ruiva sem querer olhou na direção da mesa de Sieghart e ela acabou encontrando os olhos dele novamente, mas dessa vez os dois desviaram, constrangidos.

—Você está fazendo um escândalo, Eli-chan. – avisou Rey, fazendo um gesto para Elesis se acalmar.

A ruiva a olhou feio, mas sua cara estava vermelha como um tomate, fazendo-a parecer infantil, bem diferente do que aparentava normalmente.

—Por favor, pare. – pediu a ruiva, cansada.

—Hahah, você é fofa! Ela não é fofa? – Rey atiçou, acenando para as amigas, que riam também, concordando.

—Caladas! – Elesis fechou as mãos, desejando que elas parassem.

XXX

Aos seus pés caia uma carta, descia levemente como uma pena.

Quem costuma ler romances ficcionais sabe que geralmente essa seria uma carta de amor. Mesmo para o primeiro dia de aula isso não seria impossível, sabe, “amor à primeira vista”, é bem comum e até confissões prematuras de primeiro dia. Isto é, nas historias.

Acontece que o envelope vinha escrito como desafio, com tinta nanquim pesada e letra de forma grossa. O nome na frente era o dela, “Elsteiner”, e dentro havia não a carta de amor, mas uma carta de ódio.

Elesis não teve medo da ameaça de pegar ela de jeito pelo colégio, nem raiva pelos xingamentos sobre ela, sobre seu cabelo e sua atitude de macha. Contudo, sentiu um ódio profundo quando leu barbaridades sobre sua família e sobre como ela devia ir morrer numa vala.

Qualquer pessoa se chocaria lendo uma coisa dessas.

“Como se eu tivesse feito alguma coisa!” Elesis pensava irritadiça, batendo a porta de seu armário com muita força, assustando quem estivesse em volta, e amassando a carta, mas guardando-a no bolso.

—Foda-se! – ela exclamou, pegando sua mochila e dando meia volta.

Ela saiu do prédio de aulas e se dirigiu definitiva para a área dos clubes que tinham suas instalações fora do Prédio Principal.

Na parte da tarde Elesis não tinha aulas, então podia entrar em um clube e usar bem seu tempo para treinar como fazia em Canaban quando mais nova. Quando criança tinha praticado com o pai, mas no fundamental boa parte do tempo ela dedicou aos estudos.

A porta corrediça estava aberta e os sons de dentro eram de espadas de bambu balançando no ar e gritos altos de determinação.

Ela respirou fundo, com o cabelo já bem preso num coque, e tirou as botas, aproximando-se e pondo a cabeça para dentro do dojo de kendô.

—Com licença. – disse já pronta para entrar até que avistou as costas de um rapaz ajoelhado, vestido na roupa tradicional, de cabelos azulados presos num rabo de cavalo baixo.

Ele levantou o rosto sobre o ombro e a vendo arregalou os olhos.

—Ohh, você!

Elesis engoliu em seco, quase fugindo, mas o azulado estava na beira da instalação, segurando-a pelo colarinho. Ele sorriu de modo inocente.

—Seja bem vinda ao Clube de Kendô! Não tive a oportunidade de saber o seu nome da última vez! – ele deu uma risadinha, fazendo-a entrar.

—Uh... – Elesis resmungou, tentando sorrir. Não se lembrava do nome dele. Só sabia que ele era o irmão de Sieghart.

Elesis foi colocada em frente aos membros, quase nove, suados, segurando suas shinais e usando a vestimenta apropriada, assim como o líder. O gi (parte de cima) era branco e o hakama era preto (de baixo).

—Bem, apresente-se. – ele pediu, ainda com o sorriso duplo.

—Elesis Elsteiner. É um prazer conhece-los. – cumprimentou seriamente, se curvando. Os outros fizeram o mesmo e se entreolharam, falando sobre alguma coisa.

—Uau, você leva a sério mesmo. – o azulado riu brevemente, batendo de leve em seu ombro. Elesis o olhou feio.

—É claro.

—Calma, calma. Eu já disse o meu nome para você, mas vou dizer de novo. Meu nome é Ronan Erudon, o capitão do kendô.

—Prazer. – disse a ruiva às duras penas.

—Seu olhar esta todo desconfiado para mim. – Ronan comentou, rindo amarelo. – Eu já pedi desculpas sobre o Sieghart, não é?

—Hm. – Elesis assentiu e pensou um pouco antes de continuar. – Não importa. Se você é o capitão eu não tenho outra escolha. O que não tem a ver com o treino pode ficar fora do treino.

Ronan pareceu ficar surpreso, então ele sorriu. Estava aliviado.

—Você é tão seria. Deve gostar muito de praticar. – Ronan disse, apontando para o equipamento.

—Sim. – ela assentiu, começando a ficar com o coração acelerado. Ela sempre se sentia assim quando estava prestes a segurar aquela espada e por seu hakama.

Ronan a olhou com uma empolgação quase igual.

—Então se troque. Acredito que ninguém vai te subestimar depois da demonstração pública de ontem. – ele disse, com um sorriso indecifrável.

Elesis encarou-o com relutância. Não queria que ele misturasse as coisas e levasse para o lado pessoal. Seria problemático.

—Não se preocupe. Eu ainda acho que o Sieghart mereceu... Mas você devia se segurar um pouco também. – Ronan disse ao ver o olhar perturbado da ruiva.

—Conversamos sobre isso depois. – Elesis o interrompeu, incomodada. – Capitão Ronan.

A ruiva vestiu-se com um hakama vermelho que ela mesma havia trazido e pegou a sua própria shinai. A empunhadura em seus dedos a fez se sentir emocionada por um momento, dando uma sensação de nostalgia e também de estranhamento. Ela lembrava-se que a arma era bem mais pesada e difícil de mover, tanto que ela a empunhava para trás, de um jeito que seu pai havia ensinado especialmente para ela, arrastando-a e usando o peso como vantagem. Agora a arma parecia extremamente leve e ela podia facilmente balança-la para frente e para trás, como seu pai fazia.

—Vamos continuar. – Ronan liderou e Elesis rapidamente se posicionou ao lado dos outros membros, repetindo os movimentos ordenados.

Quando se passou algum tempo e o suor começou a aparecer, Elesis parou e Ronan finalizou as atividades.

Enquanto os rapazes saíam para os lavatórios que ficavam do lado de fora, Ronan se sentou e Elesis ficou em pé, respirando devagar, ainda segurando forte a shinai. Não entendia por que, mas quando a segurava, não tinha vontade de largá-la.

—Incrível... – disse Ronan, sorrindo. Ele também suava, mas não parecia nenhum pouco cansado.

Elesis o olhou de canto, recuperando o fôlego.

—O quê?

—Você. Nunca vi alguém se mover assim.

—E você tem bons olhos. – Elesis disse apenas, internamente grata por ter seu talento reconhecido. Pelo menos algo de bom em seu dia tinha que acontecer.

Ele riu de novo e se aproximou dela, segurando seu ombro. Elesis o encarou, dura.

—O treino acabou. Pode tirar a mão?

—Seus ombros são flexíveis e a sua força é bem distribuída. O balanço é focado no centro do corpo e você tem uma postura firme. Esse tipo de base não é fácil de conseguir e nem é um estilo muito comum de se ver por aí. Sua família tem algum estilo secreto ou coisa assim? – ele questionou, interessado.

Elesis arregalou os olhos, afastando-o.

—Não importa. Se está bom o bastante, então não tem por que perguntar. Eu não diria mesmo se tivesse. Tudo o que tenho a dizer é que faz muito tempo que eu não seguro uma shinai e que aprendi o básico com meu pai. Nada além disso.

—Hmm...

—Posso ir? – Elesis perguntou, soando cansada.

—Pode.

Elesis limpou o suor, saindo do local, que tinha sido todo esvaziado quando ela chegou ao lavatório e foi se inclinar para beber água.

—Ah.

Elesis ouviu uma voz e olhou pelo canto do olho. Em seguida se levantou de supetão, quase batendo a cabeça na torneira.

—Você está me seguindo?! – ela soltou, franzindo a testa e apontando para o individuo.

Era Sieghart, quem estava relativamente suado, com um uniforme esportivo vermelho, branco e dourado e chuteiras de futebol de salão.

Ronan saiu do dojo e o viu, então caminhou até eles.

—Trouxe o que eu pedi, Sieg? Ah, vocês dois não briguem aqui, por favor. – Ronan disse, aproximando-se do irmão mais novo.

—Trouxe. – respondeu o moreno, olhando encarado para a ruiva e colocando uma pasta na mão do azulado. – E o que ela está fazendo aqui?

—Se eu estou bem aqui fale direto comigo, imbecil! – Elesis exclamou, apontando para ele e virando-se para beber água.

Ronan suspirou, tentando ignorar.

—Sieg, não dá para perceber pela roupa que ela faz parte do clube? – ele perguntou, inclinando-se e falando algo no ouvido de Sieghart e dando meia volta, acenando. – Vou ficar ocupado agora, então não briguem por aqui, certo?

—O que ele te disse? – Elesis perguntou curiosa, apesar de seu tom ser de pura indiferença.

—Não é da sua conta, não é? O Ronan é meu irmão então só vim entregar algo para ele. Não é que eu tenha te seguido ou coisa assim. Como pode ver, eu saí do meu treino e vim até aqui. – o moreno deu de ombros, mas não foi embora, ficou olhando.

Elesis trincou os dentes, mas virou o olhar, soltando um “Hunf”. Os dois se entreolharam, mas não conseguiram falar mais nada durante uns segundos.

Quando o silêncio ficou insuportável ela deu um olhar de canto e o braço a torcer.

—Você faz futsal então. – comentou ela, deduzindo pelo uniforme. Ficava perfeito nele.

—É. – ele respondeu monossilábico.

Em sua cabeça Elesis não conseguia negar só uma verdade. Sieghart de perto era um dos homens mais bonitos que ela um dia tinha visto. Diferente de sua família ele tinha os cabelos mais negros, como a noite pura, não os cabelos que pareciam ter pegado fogo com o sol escaldante. E os olhos eram gélidos e calmos, nada explosivos e vivos como uma chama. Era o total oposto, muito atraente, mesmo os menores traços.

—Você está com um cheiro bem ruim. – disse ele na maior casualidade, olhando-a mais diretamente.

Elesis sobressaltou-se, lembrando que estava com o hakama e somente com algumas faixas prendendo os seios, e imediatamente ela segurou a espada de bambu, quase acertando a cabeça dele.

—S-SEU!

Sieghart ria debochado e levantava as mãos no ar, desviando dos ataques.

—Calma aí! Calma, ruivinha!

—Não me chama de “ruivinha”! – Elesis disparou, balançando a espada de bambu com tanta força que Sieghart caiu sentado ao lado de sua mochila, que tinha apoiado ao lado do lavatório e onde seu uniforme estava dobrado. Do bolso do paletó o bolinho de papel caiu no chão, sendo captado em um segundo pelo moreno.

Elesis travou quando o viu segurar o papel e desamassar tão rápido quanto aquele seu irmão intrometido que tenta pegar seu celular escondido para ver a mensagem que você recebeu do namorado.

—Me devolve! – ela inclinou-se, tentando tirar a carta de mais cedo das mãos dele.

Sieghart tirou o papel de seu alcance e se levantou, mantendo distância.

—Recebendo confissões logo no primeiro dia? Você está tão popular, ruivinha! – ele riu, pondo os olhos no papel.

A ruiva não soube, mas sua expressão foi lamentável. Ela não queria que alguém lesse aquilo. Era humilhante. E pareceria que ela estava precisando de ajuda. Deixar alguém saber daquilo era quase como a morte para ela.

Elesis quis chorar, mas não conseguia. Seu corpo automaticamente foi na direção dele, mas pareceu que ela tinha perdido toda a força e ao tentar tirar das mãos dele acabou falhando. O moreno a manteve afastada com a mão e ela ficou tentando alcançar a carta inutilmente.

A ruiva rangeu os dentes, vendo que era tarde. Sieghart leu a carta em poucos segundos, desfazendo sua expressão zombeteira a cada linha que seus olhos desciam.

—Me devolve. – ela pediu de novo, acordando de seu estado letárgico e tirando o papel das mãos dele e amassando de novo para se afastar dele e ir pegar suas coisas.

Seu coração palpitava. Ele tinha visto. Era tudo o que conseguia pensar.

—Ei.

Elesis sentiu a mão em seu ombro e virou-se de forma bruta, quase batendo nele. Ela agarrou a mochila e a shinai e saiu andando para longe dele, empurrando-o.

—EI! – ele a chamou novamente, segurando seu pulso.

Elesis fechou os olhos, contando os segundos. “Tenho que sair daqui”.

—Me solta-,

—Isso tudo é mentira.

Elesis abriu os olhos, virando-se para ele com uma fúria que não sabia de onde vinha.

—O quê?

Sieghart ficou quieto uns segundos, parecendo pensar e aos poucos afrouxou seu agarre. Elesis se soltou, mas esperou a resposta.

—Eu não acredito que qualquer coisa escrita nessa carta absurda seja verdade. – Sieghart passou a mão no rosto, afastando a franja e parecendo perturbado. – Por mais que eu não goste de você, não posso dizer nada sobre terceiros. Para mim a família é algo muito importante... Acho isso aqui inadmissível. Você não tem uma família amaldiçoada. Você não vem de um lugar sem valor. Isso é uma grande mentira.

Elesis arregalou os olhos, apertando suas coisas com tanta força que parecia que algo ia explodir.

—Mas você é a pessoa mais forte que eu conheci.

—Huh? – Elesis o olhou, surpresa, sentindo seu rosto esquentando como um vulcão.

O moreno não entendeu também, mas seu sorriso começou a aumentar e ele riu uns segundos, cobrindo o rosto com a mão, para depois fita-la. Ele a olhava pacificamente pela primeira vez.

—Você não me parece uma aberração. – ele deu de ombros. – O remetente citou meu nome... Disse que eu a achava uma aberração e outras coisas. Mas é uma puta mentira. Nem de longe você me parece qualquer coisa dessas que estão escritas.

Elesis corou, segurando a respiração. Algo estava acontecendo errado ali.

—Eu não gosto de você. – Sieghart comentou, fazendo o brilho dos olhos de Elesis desaparecer. Ele sorriu vendo a confusão nos olhos vermelhos dela. – Mas eu não sou cego. Por outro lado, consigo te ver perfeitamente.

—Você... — Elesis gaguejou, fechando os punhos e o olhando enojada. – É muito galinha!

Ele riu, dando meia volta e acenando.

—Jogue isso fora. Não é digno de você.

—Cala a boca! – Elesis xingou, rasgando o papel e colocando no bolso de novo. Ela tomou outro caminho e começou a ir para o dormitório.

—Ruivinha. – chamou ele.

—QUE É?! – ela explodiu, olhando por cima do outro para ver o sorriso convencido dele.

—O único que pode te deixar para baixo sou eu, okay?

Elesis fez “Hunf” e ignorou-o, caminhando sem dar mais atenção. Ela não queria saber. Ele era exatamente o que ela temia... o mulherengo convencido.

“Pode esquecer! Eu não vou cair nessa. Agora ele tem algo para me fazer ficar devendo uma... Isso era o que eu mais temia, mas não vai funcionar, não mesmo”.

Continua