Da Infância à Adolescência
9 Capítulo IX. O Sapo, a Gralha e o Ieti III
Notas iniciais
— Droga. — reclamou Dio, fazendo careta. Sua mão havia molhado de espuma de refrigerante no momento em que abriu o lacre da latinha.
Sieghart estava ao seu lado e deu uma risada pela cara de desgosto que o melhor amigo fazia. Estavam juntos também Jin, ao lado direito e Ryan ao lado esquerdo de Dio. O quarteto caminhava pelo prédio principal durante a tarde após as atividades dos clubes.
Vendo a cena, Ryan imediatamente cruzou dois dedos.
— Ai... Libera, Deusa! — Ryan disse com ar de preocupação, fazendo um sinal para Dio e sua latinha.
— Pelo amor de Deus, Ry. É só uma Sprite. — Dio reclamou.
— Acredite. Isso realmente não é um bom sinal hoje. — Ryan insistiu, olhando para Sieghart. Ele piscou os olhos verdes, muito sério. — Sieg, faz um tempão que nós não saímos juntos. Aconteceu alguma coisa com você ultimamente?
O moreno suspirou. Ele conhecia bem Ryan Woodguard, o rapaz que entrou por um fio no colégio, mas que vinha de uma honorável família de Eryuell, assim como Lire, embora não tão nobre quanto ela. O ruivo tinha uma religião bem antiga e apesar de jovem ele a levava bastante a sério por isso acontecia muitos momentos como esse quando ele tinha... Pressentimentos.
— Você sabe o que é. — indagou Sieghart, fitando o amigo.
O de olhos verdes abriu um largo sorriso.
— Aquela garota!
Os amigos riram. Para eles era óbvio que Ryan era do tipo tapado, mas ele às vezes cutucava a ferida.
— Eu não esperava menos de você, cara. — Sieghart riu. — Ela está conseguindo me perturbar. Tão ingrata, mesmo quando eu fui educado.
— Achei ela bem legal. — Ryan afirmou com um sorriso puro, as bochechas rosadas. — Conversei com ela um dia desses.
Todos encararam Ryan, indignados.
— “Legal”? Ela é bizarra! — Sieghart fechou a cara, falando num tom levemente agressivo. — Ela arranjou briga com aquele nerd presunçoso, o Allen. Depois, não satisfeita, ela brigou comigo no refeitório. Você viu tudo!
— Ah. Vocês não pareciam estar brigando sério. Dava para ver nos olhos.
— Brigamos, Ryan. Com punhos. Ela não é uma pessoa comum.
O ruivo arregalou os olhos, se dando conta do que estava rolando.
— Oloco, impressionante, hein? Você parece interessado, já que mesmo depois de brigar continua indo atrás dela. — Ryan disse, seu olhar ficando intenso. — Faz um tempo que não vemos uma garota assim, não?
Sieghart sorriu de canto, seu olhar afiado. Jin e Dio sorriram também, parecendo trocar pensamentos por telepatia.
Eles estavam animados.
— Mas ela me odeia. Apesar de eu também não ir com a cara dela, acho ela forte. Não sei realmente o que pensar. — Sieghart disse e coçou a cabeça, tentando não falar muito sobre.
O de olhos verdes fez um “Hm”.
— Seu rosto está vermelho, Sieg. — Ryan comentou, com olhos que pareciam atravessar seu corpo.
O moreno sentiu o estômago virar só um pouco. Ele sentiu a bochecha mais quente.
— Ela é grossa, mas é bonita, né? — dessa vez foi Dio quem falou. Sua voz era grave e profunda.
O moreno rangeu os dentes, constrangido e retrucou:
— Hnf. Ela é meio despeitada. Há muitas garotas melhores aqui.
Nesse instante, como o grupo estava virando um corredor, Sieghart bateu de frente com uma pilha de papéis que espalharam pelo chão. Ele se abaixou para pegar, já pedindo desculpas, mas viu de relance o nome “dela” num dos que pareciam ser documentos.
Os olhos prata levantaram-se para encarar o irmão mais novo da diretora: Lass.
O albino piscou, sem demonstrar reação. Ele pegou o papel da mão do moreno e estava prestes a continuar seu caminho dizendo um “Sem problema”, porém, foi interrompido pelo terceiranista.
— Lass, que advertência é essa?
Lass, que tinha dez centímetros a menos que o Rei do colégio, teve que olhar para cima.
— É sobre um ocorrido hoje na classe 2-A. Por que está interessado? — perguntou apaticamente o rapaz.
Sieghart internamente ficou meio irritado. Era óbvio que estava rolando alguma coisa.
— Você não costuma ficar lidando com assuntos sérios desse jeito. Além disso, eu vi o nome dela escrito aí nessa carta... É uma carta não? Eu li bem rápido e parece que você está meio envolvido não é?
— Tirou essas conclusões todas em menos de um minuto? Incrível da sua parte, como sempre, Sieghart. — Lass rebateu, mas continuava estoico. — Incrível, exceto pela sua clara obsessão pela novata. Você poderia simplesmente deixar quieto, mas você fez questão de me questionar.
O moreno engoliu seco, percebendo que tinha deixado as emoções muito óbvias. Lass sempre fora inteligente e sensitivo, então claro que ele notaria.
— Isso aconteceu pela manhã. Estão acontecendo vários ataques a ela em muito pouco tempo e ainda não podemos acusar ninguém. Claro, você não está excluído da lista, visto que vocês tiveram um embate bastante memorável segunda-feira no intervalo.
Lass analisava-o friamente. Sieghart às vezes sentia um frio quando estava sendo observado assim por aquele cara. Não o odiava, mas também não o engolia.
— Você pode investigar e tirar suas conclusões. Mas também está claro que você está interessado nela. Geralmente você não faz pedidos à diretora pessoalmente. Você faz todo o trabalho para aquela mulher, mas eu nunca te vi fazer nada por ninguém desse jeito. Você prefere atingir as pessoas com vingança pessoal, diminuir suas notas, fazê-los perder viagens e finais de semana com serviços de limpeza, ou até mesmo sofrerem leves acidentes que os afetem no cotidiano. Mas nunca te vi abrir uma exceção dessas: escrever uma carta para abrir um pedido de expulsão para quem está fazendo os ataques. Que estranho da sua parte.
Sieghart esboçava uma expressão superior. Ele expelia agora uma aura de leão, ameaçadoramente assustador. Lass sentiu isso também, percebendo que o moreno não tinha freio para dizer o tanto que sabia dos seus podres, do seu lado ruim.
— De qualquer forma, estou fazendo meu trabalho. Acho que você também sabe que o nível dessas pegadinhas está começando a subir e parece que essa pessoa não está para brincadeira. — Lass continuou firme. — Se souber de algo, me informe. Isso vale para todos vocês.
O albino ajeitou os papéis e continuou seu caminho, meneando a cabeça ao passar.
O clima tenso dispersou um pouco com um toque de celular muito empolgante. A voz da cantora pop eles conheciam muito bem. Jin piscou, atendendo o celular fazendo um sinal com a mão para os companheiros, enquanto voltavam a andar.
— Ahn? Agora?
Sieghart, Dio e Ryan trocaram olhares, curiosos. Ouviam uma voz feminina e bastante histérica no celular do boxeador. Ele desligou.
— Gente, eu preciso ir.
O ruivo acenou e saiu rapidamente.
— Estou falando. — Ryan disse com a face perturbada. — Hoje não é um bom dia. Espero que as coisas não fiquem tão feias. Libera, Deusa!
XXX
A academia possuía uma estrutura simplesmente absurda. Elesis ainda não a tinha explorado completamente, mas tinha uma noção que demoraria um tempo para ela poder andar por todo o terreno. Para se ter uma ideia, os 3 andares tinham salas suficientes para comportar todas as turmas e mais os laboratórios e os clubes culturais.
Ela tinha terminado de tirar toda a tinta de seu armário e não tinha muita coisa para fazer. Era finalmente sexta-feira e ela não queria estudar, e já que ela não podia treinar, pois o capitão fez questão de deixar claro que ela precisava descansar de todos os treinos extras que fazia, ela decidiu retomar a ideia de conhecer melhor o local. Ficar na companhia das colegas dentro do dormitório também não era uma boa ideia porque ela ainda não estava inteiramente à vontade com elas.
Cansada de andar, sentou-se na lanchonete e pediu um café espresso, assistindo as poucas pessoas ao redor. Algumas meninas passaram ao seu lado comentando sobre a piscina do ginásio estar aberta, lhe dando uma luz sobre o que fazer naquela tarde.
Um pouco mais tarde, lá estava ela, colocando os pés na água, animada com a ideia.
— Uau, está quentinho!
Elesis estava totalmente sozinha. Por ser uma sexta-feira à tarde muita gente já tinha voltado para a casa dos pais, mas ela queria tirar uma noite somente para si. E assim, como qualquer pessoa normal, ela falava bastante sozinha.
— Essa escola é demais mesmo, até tem piscina com aquecedor... Acho que só falta um campo de golfe haha!
Ela tinha o cabelo preso em um coque e vestia um biquíni preto básico, o mesmo que usou no ano anterior em Canaban. Elesis chegou à conclusão que engordou.
Olhando melhor na água, seus olhos eram castanhos tão intensos que pareciam claramente vermelhos. Seu cabelo era ruivo também, muito fino e grosso. As pessoas se aproveitavam dessas características tão únicas para incomodá-la, chamando-a de monstro. Só porque ela era diferente.
Passou a mão na água. Murmurou:
— Idiota.
— Você?
Elesis saltou para o lado, a mão escorregando e a fazendo cair deitada.
— Ai.
Lass riu ao seu lado. Ele tinha chegado quietinho e se agachado, falando bem seu ouvido.
— Oi, Elsteiner.
Elesis fez uma cara brava, mas se endireitou, olhando novamente para a água. Estava meio com vergonha pelo biquíni.
— Pode me chamar de Elesis.
O albino sentou-se também e mexeu os pés na água. Ele vestia uma bermuda azul marinho acima do joelho e uma jaqueta do time de natação.
— Quem é idiota, Elesis? – ele perguntou novamente, parecendo desinteressado.
— Alguém aí. Tem um monte de gente na verdade...
— O Sieghart, por exemplo?
A ruiva tentou conter uma risada, mas sua cara a delatava facilmente. Lass deu um pequeno sorriso também. Parecia que os dois tinham uma conexão... Eles sentiam que poderiam ser amigos.
— É, tipo ele.
Elesis relaxou os ombros, vendo que estavam sozinhos, mas que a conversa não iria se estender mais do que aquilo. Porém, ele a surpreendeu:
— Eu conferi as câmeras como tinha te dito.
Ela arregalou os olhos. Ela finalmente teria as provas de quem estava fazendo todos os ataques?
— Infelizmente, eu não consegui nada. O segurança estava desatento e parece que perdemos a gravação daquele dia. — explicou o albino, por dentro sentindo que algo havia de errado.
Elesis abaixou a cabeça, suspirando.
— De qualquer forma, obrigada, Lass. Quando eu puder, vou fazer beijinhos para você. – Elesis disse, balançando os pés. — Para te agradecer.
O rapaz assentiu apenas e depois de uns instantes se levantou.
— Farei o máximo possível para resolver sua situação, ok? Não fique até muito tarde, por que os funcionários vêm para fechar, ok? Tchau, Elesis.
A ruiva acenou de volta, contente por dentro. Sentiu uma felicidade pequenina dentro do peito, como se tivesse valido a pena ter mudado de cidade. Uma satisfação que sumiu dentro de minutos.
— Você estava quase em cima dele, ruivinha.
Na cabeça de Elesis o mundo tinha se partido numa cratera quando ouviu aquela voz vibrante.
“Nããão!” Pensou ela, já cansada.
Ela se levantou, olhando por um milésimo de segundo o tórax definido de Sieghart e não se deixando abalar. Ela ignorou o olhar sério que lhe era dirigido e foi passando reto em direção ao vestiário feminino, mas o moreno a barrou.
— Eu não acredito que você estava me seguindo. Já não disse para me deixar em paz? — acusou ela, muito zangada. Ela não tinha sido clara o suficiente da última vez?
Ele levantou os braços, dando um sorriso irônico.
— Como se eu estivesse muito interessado em te ver, senhora nervosinha.
A ruiva girou os olhos e fez um som de irritação para ele, tentando passar de novo.
— Então sai da minha frente, idiota. Ou você está com tanta saudade que não podia esperar?
Sieghart franziu o cenho e encostou o dedo na ponta do nariz da garota.
— A única coisa que quero saber é se alguém mexeu com você de novo, ruivinha. Só estou tentando fazer uma caridade.
— Eu não preciso da sua caridade meia-boca, moleque. – Elesis quase rosnou, afastando a mão do inimigo, empurrando-o com o ombro e conseguindo passar por ele.
Mas ele não conseguia deixar seu orgulho falar mais baixo. Sieghart virou-se para ela, tendo uma visão completa do corpo definido da ruiva. As omoplatas bem definidas, os ombros decididos, braços e pernas fortes e uma bunda bem durinha. Ela era tão... Normal. Era forte, tipo de quem faz exercícios regularmente, mas nada exagerado. Era normal, tão normal, que ele até estranhou. Fazia tanto tempo que não via uma bunda pequena que deu até um aperto no coração.
— Mas a caridade do Lass você aceita.
Ela o olhou de frente meio indignada meio orgulhosa por dentro. Elesis chegou mais perto dele.
— Ei. Você por acaso está com ciúmes?
Sieghart paralisou. Ele podia sentir o rosto começando a pegar fogo, ainda mais com aqueles olhos tão sinceros o encarando bem nos seus olhos. Ela era toda quente, parecia emanar calor assim tão perto. Sieghart negou com todas as forças em sua mente. Ele a odiava. A odiava demais. Ela era tão convencida! Ela era tão despeitada e normal! Aquele rosto sério, aquele olhar... Prepotente!
“Ninguém nunca me olhou assim antes! Essa atrevida!” Sieghart sentiu que seu corpo estava fora de controle. Sua boca não mexia.
Elesis piscou e em um segundo o inesperado aconteceu: ele estendeu a mão, segurando-a no braço. Ela o viu chegando perto.
E então, Sieghart jogou Elesis na piscina.
Quando ela subiu à superfície, ela tinha se tornado um dragão.
— SEU FILHO DA PUTA! — gritou, desacreditada pelo o que tinha acabado de acontecer. — DROGA! A água entrou no meu nariz...
Ele simplesmente pegou a camisa num banco e pendurou no ombro. Depois colocou as mãos dentro dos bolsos da bermuda e foi passando pela porta, dizendo:
— Você estava quente demais, ruivinha. Precisava dar uma esfriada.
Elesis empurrava o cabelo que havia soltado do coque e ficado todo grudado no rosto por cima dos olhos.
— Eu vou matar esse desgraçado! — resmungou ela uma última vez, fazendo uma dezena de juras de morte para o moreno.
Passando pelos jardins, Sieghart chamou a atenção de várias pessoas que passavam. Ele não sabia, mas era a primeira vez que seu rosto ficava tão vermelho na vida.
XXX
Jin esperava inquieto perto do pátio, conferindo vez ou outra o celular para reler as mensagens.
Hoje ele não usava a bandana branca, deixando a franja cair sobre a testa, dando-lhe um ar novo. Claro, ele já era incrivelmente bonito, mas dessa vez ele não estava parecendo o “idiota louco por boxe”.
— É hoje. — ele comemorou, fechando o punho. A conversa com Elesis o tinha encorajado a pedir Amy em namoro oficialmente, o que tinha sido meio inesperado na verdade.
O que o preocupava agora era esse atraso de quase meia hora. Ele só não sabia que ele tinha algo mais sério para se preocupar. Jin era do tipo lerdo também, vai ver que era por isso que se dava tão bem com Ryan, pois ele não suspeitou nem um pouco com o que Amy disse mais cedo na ligação: “Precisamos conversar”.
Qualquer preparo que ele estivesse planejando em sua mente foi interrompido com a chegada da rosada.
— Oi Amy! — ele cumprimentou com um sorriso mais largo que a boca, já abrindo os braços para a idol.
Amy estava com o típico uniforme versão tons de rosa, o cabelo preso em um rabo de cavalo na lateral da cabeça. Ela estava assustadoramente séria.
— Jin, eu-
— Amy, sei que eu demorei para fazer isso, apesar de eu sempre pensar nisso, mas sempre achava que você não ligava e talvez por isso você sempre me tratava dessa forma, né? Só que eu percebi que não é assim que eu quero que as coisas funcionem. Já que estamos há tanto tempo juntos eu queria algo concreto. Nós-
— Jin, eu não quero mais continuar com você.
O ruivo parou um momento. Só ele soube como aquilo foi chocante.
— Como assim de repente?
A rosada o olhou sério, parecendo até mesmo com raiva.
— Não é novidade nenhuma. Nós dois somos completamente diferentes, totalmente incompatíveis.
Jin não soube de onde veio a raiva, mas ela veio como um soco, muito pior do que qualquer coisa que já tivera sentido antes.
— Ah, para com essa palhaçada! — exclamou indignado, com tom de sarcasmo. Ele simplesmente não acreditava. — Me diz os motivos, vai. Pode falar, porque eu não tô’ acreditando.
A rosada pisou firme no chão e pôs uma expressão metida.
— Eu sou uma idol. Eu não quero ser ofuscada por um tipinho igual ao seu, Jin Kaien. Acabou para nós.
— Amy!
— Eu nunca gostei de você! Você é bonito, mas tem um cérebro de passarinho. Em que planeta que eu gostaria de ficar junto de um cara que só fala de boxe? Você é retardado por acaso? E como você ainda anda com bandana feito um nerd? E como você tem esses hábitos nojentos de sair do treino e vir direto em mim para me tocar? Pelo amor de Deus, vai tomar uma ducha antes! Com quem você pensa que está lidando? Eu sou uma estrela, todos me conhecem!
O ruivo mordeu o lábio, paralisado pelas palavras horríveis da menina. Ele jamais tinha ouvido coisas tão duras como essa. Os olhos castanhos dela pareciam atravessá-lo. Dos lábios delicados de gloss parecia que saía verdadeiro nojo.
— E você vive reclamando de eu querer tirar fotos. Eu preciso cuidar da minha imagem, ok?!
Jin estava vermelho. Seu coração estava a ponto de sair pela boca, mas no fundo ele sabia... NADA daquilo era motivo para ela terminar, porque os dois tinham uma história, uma relação longa que ninguém poderia compreender. Ela o olhava com amor, todos os dias. Ela era doce e meiga, muito zangada às vezes e cheia de personalidade. E ela sempre dizia que nada importava, que ela o queria muito.
Ele continha o choro com muita dificuldade, mas conseguiu falar, ainda que sua voz tremesse.
— Eu sei que nada disso importa, Amy! Você me aguentou esse tempo todo! Nós crescemos juntos! Você nunca falaria essas coisas para mim, você nunca foi assim!
— Eu menti, tá? Eu achei que ia ficar tudo bem, mas não dá mais!
— Amy!
— Chega, Jin. Acabou. Ponto final.
Ele a segurou na mão, mas ela o afastou imediatamente. Amy lhe deu as costas e o ex não teve alternativa a não ser virar e ir embora, completamente destruído.
Amy esperou o som dos passos sumirem. Ela apertou as mãos nos braços e se agachou no chão.
— H-Hm...
Ela fechou os olhos e abriu a boca, o choro e os soluços vindo com força total.
XXX
Elesis encarou o espelho, tentando se convencer de que tudo bem, ela tinha ido para nadar mesmo. Fazia algum tempo que ela tinha ficado nadando depois que o idiota a jogou na piscina e a raiva a tinha feito esquecer o horário. A tarde estava no finalzinho quando ela saiu da água e olhou o relógio.
— Ainda bem que já me troquei. Falta enxugar o cabelo só.
Quando terminou de passar a toalha pelo cabelo e rosto, se surpreendeu com duas figuras que a agarraram pelos braços e uma última que fechou a porta. Os sorrisos perversos.
— As pessoas estão realmente querendo matar as saudades de mim hoje. — Elesis ironizou, sabendo que aquilo não ia ser nada bom.
— Morri de saudades.
A voz era rude. Wendy Pole estava com o cabelo branco solto e seus olhos azuis estavam brilhando debaixo dos cílios longos, assim como a tesoura que segurava na mão.
Elesis encarou bem as outras duas. Nunca as tinha visto antes.
— Você ainda não foi introduzida, né? — Wendy disse, seu batom azul cintilando. — Queen Harp é a vice-presidente do Fã-Clube Tríplice do Sieghart e Elyzabeth Marsh é a secretária. Eu, lógico, sou a presidente.
— Bom saber. Mais gente doida por aquele idiota. — retrucou Elesis, sentindo o aperto forte nos braços. Aquelas garotas não estavam pra brincadeira mesmo. Eram fortes.
A morena de cabelos brancos chegou bem perto de Elesis e suas unhas acariciaram a franja. Ela tinha uma aura intensa... De louca.
Elesis sentiu-se estranha. Os peitos grandes da menina apareciam pelo vão da camisa do uniforme mal abotoado e estavam a um centímetro de distância.
— Você até que é bonitinha. — Wendy sorriu, falando com um tom meio... erótico. — Mas seu cabelo é horrível. Vamos tirá-lo dessa cabecinha.
Elesis arregalou os olhos, sentindo a agressividade da mais alta. As capangas riam maldosamente.
O barulho da tesoura foi lento. Elesis viu os fios vermelhos da sua franja espalhando suavemente pelo ar. A risada de Wendy era interna e genuinamente má.
— Seu rosto não vai ficar mais escondido atrás dessa porcaria.
Elesis permaneceu em silêncio, engolindo seu ódio. Sabia que ao se mover, aquela tesoura podia ir em lugares mais perigosos. E também, em silêncio, não daria a satisfação que aquelas vadias queriam.
— Uh, ela é forte. — riu a ruiva mais baixa, Queen.
A Pole se inclinou e encostou seu lábio no ouvido de Elesis, fazendo-a arrepiar.
— Vamos fazer você falar já já, gracinha.
Pela primeira vez, Elesis se sentiu verdadeiramente ameaçada. Wendy era jogadora de beisebol, era alta e extremamente atlética. A morena literalmente a abraçou, encostando seus seios e juntando a coxa no meio de suas pernas. Uma mão puxou seu cabelo pra trás e a outra sem dó manuseou a tesoura sem nexo algum, realizando diversos cortes aleatórios.
O cabelo de Elesis tinha sido destruído.
“Terminou”. Elesis não conseguiu evitar pensar.
— Não terminou ainda. — cantou a maior em seu ouvido.
Wendy puxou violentamente a saia de Elesis para cima, sem cerimônia alguma enfiando a mão por baixo.
Elesis praticamente gritou, chocada. Ela nunca, nunca, tinha passado por aquilo! Ela tentou fechar as pernas, mas o assédio foi persistente.
— SUA DESGRAÇADA, ME SOLTA! — Elesis se rebateu o máximo que pode, até que Marsh colocou a tesoura em seu pescoço.
— A gente não tem medo de te machucar, novata. Está na hora de aprender uma lição.
O coração estava acelerado. O medo a abateu intensamente... Incontrolável.
Wendy deslizou os dedos por sua calcinha, sentindo nas pontas o formato. Ela mordeu os lábios, parecendo muito excitada com tudo. Elesis tremia de medo e de sensibilidade.
— Ops. — Wendy riu, fingindo fofura, esfregando os dedos no meio de suas pernas. Elesis tentou fechar os olhos, mas Wendy agarrou seu seio esquerdo, apalpando com raiva, forçando a camisa aberta.
A ruiva sentiu que ia chorar. Ela que era tão forte.
Wendy brincou com sua intimidade, ameaçando enfiar os dedos por cima da calcinha, mas ficou apenas passando em volta. A outra mão indo apalpar sua bunda, puxando o tecido da calcinha.
— Safada... Está molhadinha. Olha só.
Wendy falava com tom erótico, seus dedos molhados do fluído transparente e textura melada.
Elesis virou o rosto, mas a morena segurou suas bochechas e passou os dedos em sua boca.
A lágrima estava na borda, Elesis estava no limite, mas não chorou.
Por último, Wendy puxou sua calcinha, obrigando-a a tirar.
— Vamos, meninas. — Wendy sorriu, levantando vitoriosa a calcinha de Elesis. — Ah, e temos fotinhos, não se esqueça de não falar pra ninguém, fofa.
Assim que elas se foram, Elesis encostou-se à pia e só não foi atrás delas porque seu corpo não a obedecia direito. Sua mente ainda estava tentando se organizar.
Tudo parecia não fazer mais sentido. Ela se sentiu infeliz e humilhada, seu corpo doía.
Elesis apertou os dedos na borda da pia e tudo o que sentia foi se transformando em ÓDIO. Puro ÓDIO e desejo de VINGANÇA.
A chama ainda sobrevivia em seu espírito. Ela era muito mais louca do que pensavam.
Continua
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