D.N.A

3 Revelação


Cinco dias depois Alícia teve alta. Duda a tirou de lá assim que o hospital liberou-a totalmente. Não podia dizer que não estava feliz, não agüentava mais aquela roupa horrorosa e aquela comida sem gosto.

Duda estava estranhamente quieta. Não, não era de se estranhar, o clima tinha ficado estranho entre as duas. Era sempre assim quando as duas se estranhavam. Fingiam que estava tudo bem, e de vez em quando até estava, mas havia algo que, por uns dias, impedia a comunicação. Normalmente, depois de alguns dias, voltavam ao normal magicamente.

Alícia não ouvira novamente as vozes, mas quando dormia, sonhava muito. Aparentemente, os sonhos vivos haviam voltado com força total. Eles mudavam, mas não variavam muito. O mais recorrente era um em que ela caminhava por uma trilha, muito semelhante à da Floresta da Tijuca. Ela podia sentir o cheiro do lugar de tão real. Andava muito, sozinha, parecia procurar algo. Em certo momento apareciam duas pessoas, um casal de irmãos gêmeos, porque eram idênticos. Ambos eram um pouco mais altos do que ela, tinham a pele quase transparente de tão clara, sardas e cabelos ruivos como fogo e lisos. Os da garota desciam até metade das costas, como uma cortina perfeita, e os dele eram meio jogados para o lado. Pareciam ter entre dezessete e dezoito anos, não muito mais do que isso.


–Venha conosco, Alícia. – Eles diziam em uníssono e ela os seguia de perto.


Entravam cada vez mais fundo na mata, que ia, cada vez mais, ficando mais escura. Normalmente era aí que ela acordava, sem nunca chegar ao final do sonho. Não sabia dizer o que era pior, acordar cansada ou não saber como terminava. Sim, cansada, pois parecia que ela tinha feito pessoalmente aquela caminhada toda.

Mas agora voltava para a sua casa, seu quarto, seu pequeno conforto. Dormir melhor seria natural, ou era o que ela esperava. Quando entraram, sentiu-se ligeiramente melhor e foi direto para o banheiro. Tomou uma ducha quente e relaxante, vestiu-se e trancou-se no quarto, seu refúgio de paz.

Era um quarto pequeno, com uma cama de solteiro debaixo da janela, um guarda-roupas do outro lado e uma escrivaninha com um computador. As paredes eram pintadas de uma cor clara, mas era a única coisa clara no quarto inteiro. A cama, desarrumada desde a última vez que foi usada, tinha um lençol preto e um edredom da mesma cor, misturado com roxo. O guarda-roupas era cor de madeira, envernizado, mas estava repleto de pôsteres de bandas. Iron Maiden, Led Zeppelin, Apocalyptica, Metallica, ACDC, Within Temptation, Evanescence e muitas outras. Também estavam espalhadas pela sua parede. Na escola sempre teve problemas para fazer trabalho em grupo. Suas colegas tinham medo de entrar no seu quarto. Talvez fosse culpa do pôster do Cannibal Corpse. E Alícia ficava bem satisfeita, não gostava de nenhuma daquelas garotas. Nunca conseguiu se dar bem, convivia por pura obrigação. Por sorte havia terminado a escola havia pouco tempo, agradecendo eternamente à sua mãe, que a botara na escola prematuramente. Não fizera concurso nem nada, queria seguir com sua banda. Dane-se o que Duda achava.

Deitou-se na cama e se enrolou em seus lençóis, cansada. Pegou seu celular, colocou o fone de ouvido e deixou no máximo, desligando o mundo. Nothing Else Matters, do Metallica, preencheu sua mente, relaxando-a automaticamente. Como sentiu falta de poder fazer aquilo naqueles dias. Já quase desligava-se totalmente quando a música mudou e o celular vibrou. Knocking on Heaven’s Door começou a tocar alto e ela olhou para a tela. Era Rob.


–Oi. – Ela disse, em estado quase sonolento.

–Oi, Ali. Como você está? – Ele perguntou do outro lado.

–Em casa. – Ele ficou quieto do outro lado. – Isso significa melhor.

–Ah, sim. Escuta, quer sair com a gente ou quer ficar aí emotiva o dia inteiro?

–Para falar a verdade, acho que prefiro ficar emotiva por aqui. Estou cansada.

–Os garotos querem te ver e sua irmã não vai deixar a gente entrar.

–Eu tenho dezessete anos, posso receber quem eu bem entender em casa. – Ela disse, ligeiramente irritada.

–Por favor, Ali. Não custa nada. Por favor. – Ele disse em um tom de coitadinho comovente. Ela suspirou, revoltada.

–Rob, eu te odeio. Onde vocês estão? – Perguntou se levantando.

–Na garagem. Traga a guitarra, você precisa relaxar. – Ele disse, tentando disfarçar de forma patética a nota de vitória na voz.

–Eu nem sei onde está minha guitarra, como você quer que eu leve? – Ela revirou os olhos.

–Ih, é verdade... – Ele disse para si mesmo e ela quase que revirou os olhos novamente. Ouviu ele falar com alguém e então voltar ao telefone. – Esqueleto trouxe sua guitarra e não falou nada. Pode vir direto, então.

–Certo, vou fugir de casa e já chego aí. – Ela disse, desligando o celular.


Trocou de roupa, botou o celular no bolso e saiu de fininho do quarto. Aparentemente Duda não estava em lugar nenhum. Pegou algum dinheiro no armário da cozinha e saiu silenciosamente pela sala, fechando a porta silenciosa como um ninja. Foi direto para a escada, sem nem pensar no elevador. Desde o acidente com os pais odiava ficar em lugares apertados. Elevador era a morte para ela, só em casos extremos, quando não havia nenhuma opção mesmo. Segundo o psicólogo, era uma claustrofobia tão forte que beirava o pânico. Portanto, mesmo que morasse no sexto andar, a escada era sempre a grande campeã de audiência. Desceu rapidamente os seis andares, já tinha experiência em vencer os degraus de forma veloz. Saiu para a rua tranqüilamente, indo ao ponto de ônibus.

A garagem era na casa de Esqueleto, não muito longe dali. Sentiu-se aliviada ao ver o ponto chegar e descer do ônibus um pouco cheio. Entrou na segunda rua e logo estava na frente da casa do amigo. O próprio Esqueleto abriu a porta e a abraçou desajeitado, como sempre.


–Graças a Deus, garota, achei que você ia empacotar de vez! – Ele quase gritou, a fazendo rir, espremida nos seus braços magricelas.

–Eu estou viva, mas se você não me soltar não posso garantir. – Ela disse e ela a soltou no mesmo momento, ainda eufórico. – Eu sei que você me ama. Agora, onde estão os outros.

–Na garagem, vamos lá. – Ele acenou para que ela o seguisse e ela o fez.


Fred e Rob estavam sentados no chão da garagem, recostados na parede, conversando distraidamente. Ambos sorriram ao vê-la, Rob um pouco mais abertamente.


–E aí, Alícia? Ainda sabe pegar na guitarra? – Desafiou Fred, levantando-se.

–Eu pego no seu baixo se quiser e ainda toco melhor que você. – Ela respondeu, no mesmo tom, o que fez Esqueleto rir.

–Já vi que definitivamente está melhor. – Fred respondeu, tirando o baixo da capa.


Rob se aproximou com uma capa preta na mão, entendendo para Alícia. Era a capa de sua guitarra. Ela abriu o mais rápido que pode e a tirou de lá, conferindo. Por sorte, estava tudo certo, nenhum arranhão se somava aos que a palheta já havia causado. Levantou-se, conectou-a ao amplificador, afinou rapidamente enquanto os outros faziam o mesmo.


–Então, o que vamos fazer hoje? – Perguntou quando tinham se ajeitado.

–Você que sabe, vocalista. – Respondeu Esqueleto, girando uma baqueta entre os dedos.

–Vamos tocar algo barulhento, estou com humor perfeito para isso hoje. – Ela respondeu. – Natural Born Killer?

–Tanto faz. – Rob deu de ombros e começaram a tocar.


Tocaram por quase duas horas, praticamente sem parar. Quando resolveram terminar, todos tinham dor na ponta dos dedos e Esqueleto estava com os braços exaustos. Guardaram seus instrumentos, desligaram tudo e Alícia julgou que era uma excelente hora para ir para casa. Duda não estava muito satisfeita e ela não queria piorar as coisas. Despediu-se dos garotos, Rob e Fred ainda ficariam por lá. Provavelmente iriam ficar por mais horas jogando videogame. Ela gostava, mas não tanto quanto eles, portanto foi embora.

Já começava a entardecer. As luzes da cidade se acendiam o movimento de volta do trabalho começava a ficar mais forte. Andou calmamente para casa, não tinha pressa para chegar lá, de qualquer forma. Pegou o ônibus de sempre e sentou-se no fundo, na janela, pondo os fones de ouvido e parando de prestar atenção no mundo. O ônibus estava um pouco mais cheio, sobravam poucos lugares. Um homem sentou ao seu lado, mas ela não deu a menor atenção. Se o Papa sentasse ao lado dela, nem sequer notaria.

Chegou ao seu destino e desceu, nem percebendo que o homem descera junto. Andou normalmente, com a mesma falta de pressa de antes. Olhou para a vitrine de uma padaria e analisou, procurando por algo gostoso. Acabou constatando que havia opções demais e levantou a cabeça, só então vendo-o. Era um homem não muito alto, de corpo forte. Usava um par de tênis velhos, uma calça jeans azul desbotada pelo uso e um casaco de moletom preto, com um capuz cobrindo o rosto, deixando a mostra apenas um pequeno tufo de cabelo castanho claro. Não conseguia ver seu rosto direito. Sua aparência não levantaria suspeita nenhuma se ele não estivesse parado, com o misterioso rosto virado na sua direção.

Só o que faltava era um assaltante atrás dela.

Fingiu que não viu e seguiu no seu caminho, tentando manter-se à vista de todos. Sorte ser uma hora movimentada, apesar de saber que isso não ajudava muito. Se ele quisesse assaltá-la, faria isso quando quisesse e ninguém faria nada. Era sempre assim. Procurava o reflexo dele em todo vidro ou superfície metálica, infelizmente sempre o achando lá. Pensou em correr, mas ele parecia ter capacidade física o suficiente para facilmente alcançá-la. Procurou algum conhecimento de defesa pessoal, mas não encontrou nada. Deveria ter feito Karatê quando Rob sugeriu uns anos antes.

Entrou em sua rua, achando que estaria segura se chegasse logo ao prédio. Quando o alcançou, sentiu seu sangue congelar. O porteiro havia saído e fechado a portaria. Apalpou os bolsos, na esperança de encontrar a chave, mesmo tendo quase certeza de que não a havia levado. Realmente não estava lá. Sentiu um pavor terrível quando o homem veio em sua direção e não teve outra reação, a não ser correr. Ouviu os passos dele atrás dos dela.


–Espera! – A voz masculina gritou, mas ela não ouviu.


Sentiu uma injeção de adrenalina nas veias, o que a fez correr mais ainda. Seu corpo não estava habituado ao exercício físico, mas ela não pararia. Em algum momento um policial tinha que aparecer. Ou não.

Os passos dele se aproximavam. Ela passava por algumas pessoas que não faziam nada além de olhar meio torto. Não para ele, mas para ela. Qual era o problema deles?

Entrou em uma rua que nem sequer sabia onde era, totalmente deserta. Ia tentar aumentar a velocidade quando sentiu braços fortes a segurarem pela cintura e a apertarem, tão repentinamente que quase os jogou no chão. Ela se debateu, mas ele nem pareceu se abalar.


–Você pode fazer o favor de parar de se bater toda? Ninguém vai te machucar, neurótica. – Ele disse, mas não era a mesma voz de antes, era uma voz mais jovem. Ela tentou olhar para ele, mas ele estava atrás dela a segurando, era impossível.

–Solta. Agora. – Ela disse, a respiração pesada pelo esforço.

–Se você parar de palhaçada eu solto. – Ele falou novamente, impaciente.

–Solta! – Ela gritou, voltando a se debater.

–Você que sabe. – Ele a soltou e só então ela percebeu que estava levantada no ar. Quase caiu no chão, equilibrando-se por pouco. Já ia voltar a correr, mas ele a segurou pelo braço, não de forma que fosse machucá-la, mas forte o suficiente para não conseguir se soltar. – Ei, ei, se for para fugir eu te seguro de novo.


Ela olhou para ele, enraivecida. Devia ter a mesma idade dela, não muito mais do que isso. Era alto e parecia freqüentar academias freqüentemente, apesar de não ser do tipo “bombadão”. O rosto era anguloso e coberto por uma barba por fazer. Sua pele era ligeiramente bronzeada e seus cabelos um pouco bagunçados e castanhos, mas lembravam um pouco um ruivo escuro, não dava para ter certeza com a pouca luz. Seus olhos eram cor de mel, mas um mel claro, quase amarelo. Ele parecia estranhamente familiar, era como se já o tivesse visto muitas vezes antes.


–Eu não tenho grana, cara, se manda.

–Não estou te assaltando. – Ele falou, revirando os olhos. – Estou só te segurando para que possa haver uma comunicação.

–Comunicação? Você andou fumando o que?


Nessa hora, o homem do casaco preto entrou na rua, tranqüilamente. Alícia congelou, invadida novamente pelo medo.


–Obrigada por segurá-la, Guilherme. – Ele disse, com um sotaque diferente, porém bem disfarçado.

–Foi mais difícil do que pensa. – O garoto, que aparentemente se chamava Guilherme, respondeu, sem soltá-la.

–Já falei que estou sem dinheiro! – Ela falou novamente, como se isso pudesse defendê-la.

–Ah, sim, ela acha que estamos assaltando. – Guilherme falou, bufando.


O homem se aproximou, parando ao lado dos dois jovens e retirou o capuz. Não era tão velho como ela havia imaginado, deveria estar com quase quarenta anos. Tinha cabelos castanhos claros, que, no lado direito, eram cortados por uma cicatriz em forma de linha. Tinha barba um pouco grande, mas não parecia ser por estilo e sim por desleixo. Seus olhos eram muito negros, duros e frios.


–Não vamos te fazer nenhum mal. Estamos aqui para falar de você. – Sua voz era firme e calma.

–De mim? – Ela perguntou, confusa. – Ih, olha só, se vocês forem de alguma igreja bizarra, não estou com vontade de conhecer Jesus não, valeu?


Guilherme começou a rir, mas parou quando o homem o olhou duramente. Parou mais ou menos, dava para perceber que se controlava. O homem a olhou novamente, com calma, e começou a falar.


–Não somos de nenhuma igreja, seita, ou nada do tipo. E nem somos bandidos. Eu vim aqui para te ajudar, Alícia.

–Como sabe meu nome? – Ela perguntou, arredia.

–Eu sei mais de você do que pode imaginar. Agora, vamos sair daqui, vamos a um lugar público se preferir.

–Eu não vou a lugar nenhum com você. – A voz de Alícia ficou agressiva novamente.

–Se quiser ela vai sim, por bem ou mal. – Sugeriu Guilherme, dando de ombros.

–Deixa que eu resolvo. – O homem falou, cortando-o. – Algumas coisas estranhas devem estar acontecendo com você. Eu tenho as respostas.

–Não tem nada acontecendo comigo, tio. Posso ir agora? – Percebeu que Guilherme ainda a segurava e puxou, ele a deixou ir. Ela sabia que, pela força que havia mostrado antes, havia a soltado por escolha própria.


Ela se virou e começou a ir embora, acreditando que havia acabado de conversar com dois loucos fugidos do hospício mais próximo. Ouviu-os cochichando rapidamente e já ia apertando o passo quando o homem voltou a falar.


–Algo deve ter acontecido com você! Ficado mais forte!

–Ou mais rápida. – Guilherme comentou, a voz ficando mais longe.

–Ou talvez tenha conseguido ir de um lugar a outro em segundos, sem perceber.

–Ou... ou... ou tenha ouvido vozes! – Guilherme gritou em um último esforço, quando ela já chegava na saída do lugar.


Ela congelou no lugar no mesmo segundo. Sentiu um frio na barriga, como ele poderia, possivelmente, saber que aquilo havia acontecido? Virou para trás, para olhá-los com puro estranhamento e muita desconfiança no rosto. Ela queria esquecer completamente que aquilo havia acontecido.


–Como sabem disso?

–Eu acertei? – Guilherme perguntou, confuso, e virou-se para o outro homem. – Eu não sei nem porque eu disse isso. – O outro apenas o ignorou, olhava fixamente para Alícia.

–Eu não sei o que acontece com você, mas eu sei o porque. Se quiser aceitar um café agora, tudo bem.


Ela se aproximou novamente, vencida pela curiosidade. Eles iriam a um lugar público, não deveriam fazer nada. Se tivessem que fazer, já teriam feito. Chegou a eles, e o homem esticou a mão.


–Jonathan Lopez. – Ele se apresentou, mas ela passou direto sem dar atenção, irritada.

–Espero que isso seja produtivo. – Ela disse quando começaram a segui-la.


Foram pelo caminho contrário ao que ela iria traçar antes de resolver ir com eles, o que significava que passaria pela frente de seu prédio novamente. Tentou ser mais rápida quando passou por lá, se Duda aparecesse teria problemas. Os outros dois a seguiram em silêncio, sem esboçar nenhuma segunda intenção.

Alícia os levou até uma lanchonete não muito distante, neutra e que alguns jovens costumavam freqüentar. Sentaram-se em uma mesa no canto do ambiente, um lugar meio que escondido. Ela sentou-se sozinha contra a parede, onde teria visão de toda a lanchonete, e eles sentaram-se lado a lado do outro lado.


–Então, podem começar. – Ela disse, recostando-se na cadeira e cruzando os braços. Eles trocaram um rápido olhar.

–Bem, Alícia, é uma história um pouco complicada, você vai achar que estamos loucos. – Ela já achava, mas preferiu não comentar nada quanto a isso. Jonathan continuou a falar. – Há cerca de vinte anos um cientista criou um projeto chamado Projeto Evolução. Inicialmente, o projeto propunha criar espécies melhores de animais, mais resistentes, com uma expectativa de vida maior. Só que, conforme ele ia conseguindo fazer isso, resolveu tomar outro rumo. Ele era diretor de uma clínica de Inseminação Artificial e fez suas experiências lá, com os clientes. Com isso, algumas crianças nasceram geneticamente modificadas. Quando crescem, essas crianças adquirem habilidades únicas e especiais.

–Um momentinho... – Ela o cortou, descruzando os braços. – Antes de morrerem, meus pais me contaram que eu havia nascido por fertilização em clínica. Você não está dizendo que...

–Sim, Alícia, você é uma dessas crianças. – Jonathan disse, sério, jogando a notícia.


Ela o encarou por um tempo, parada, sem esboçar nenhum tipo de reação. Eles começaram a ficar nervosos do outro lado, ela não fazia nada. Então ela começou a rir, gargalhar, a ponto de ficar torta na cadeira. Guilherme e Jonathan trocaram um olhar confuso e esperaram que ela se recompusesse, ou qualquer coisa parecida. Ela continuou a rir por mais um tempo, até se sentar normal de novo e se controlar, secando as lágrimas dos olhos.


–Cara, é sério, escreve um livro com isso. A história é muito boa, realmente, muito criativa. – Ela disse, com um sorriso torto no rosto. – Talvez tenha valido a pena perder tempo com isso só pela diversão.

–Isso é verdade, garota burra dos infernos. – Ouviu a voz de Guilherme dizer e nem se deu ao trabalho de ficar irritada.

–Burro é quem acredita nisso. – Ela retrucou para ele, achando incrível a cara de pau deles.

–Eu não disse nada. – Ele falou, arregalando os olhos.

–Eu ouvi você, idiota.

–O que eu falei então?

–“Isso é verdade, garota burra dos infernos.” – Ela respondeu com um sorriso vitorioso no rosto. Guilherme pareceu ficar pálido com a informação e seu rosto ficou pasmo.

–Você lê mentes? – Ele perguntou, mas para si mesmo do que para ela.

–Claro que leio, faço tudo isso enquanto vou no espaço voando no meu cavalo alado. – Ela falou, revirando os olhos.

–Isso já aconteceu antes? – Jonathan perguntou, agora obviamente animado.

–Não, e nem aconteceu agora. Ele falou e vocês estão fingindo que não aconteceu nada para me impressionar.

–Ele não falou nada, eu não ouvi. – Jonathan disse, sério novamente.

–Ótimo, vamos testar de novo. Ele pensa em alguma coisa de novo e eu vejo se ouço. Qualquer coisa para vocês me deixarem em paz.

–Por mim tudo bem. – Guilherme respondeu, se ajeitando.


Os dois se encararam por um tempo, ela apenas esperando o tempo passar. Alguns instantes se passaram e total silêncio, ela já ia debochar quando ouviu.


Droga, me ouve e começa a acreditar na gente. – Sua voz disse, mas sua boca não moveu um músculo sequer.


Se ela não tivesse ficado atenta a cada movimento do rapaz, não teria acreditado. A voz dele veio clara, perfeita. Ela sentiu-se paralisar na cadeira, pasma. Seria possível que tudo aquilo fosse verdade? Não, não poderia. Ela se recusava a acreditar nessa possibilidade. Por que, entre tantas pessoas naquela cidade, aquela loucura seria para ela? Ela só queria poder ser normal de vez em quando.


–Tudo bem, isso foi estranho. – Ela disse, conseguindo voltar ao seu estado normal.

–Agora você acredita? – Jonathan perguntou, sua voz mostrava uma esperança renovada.


Alícia bufou e começou a balançar as pernas, nervosamente, enquanto encarava os dois. Decidiu que não havia explicação lógica no universo que desse a ela um argumento contra os dois. Enquanto tudo que Jonathan havia falado entrava na sua cabeça, com certa resistência, ela decidiu que eles não deveriam estar mentindo completamente. E odiou isso.


–Tudo bem, digamos que vocês estejam falando a verdade. Onde vocês dois entram nisso?

–Eu também sou assim, Alícia. – Guilherme falou. – Também não acreditei no início, mas comigo foi bem mais óbvio.

–Você faz o que?


Ele sorriu tortamente e adquiriu uma expressão travessa que dizia que ele faria algo completamente errado. Levantou-se da cadeira e virou-a, fazendo com que as costas ficassem para a frente, e se sentou, cobrindo com o corpo o encosto, impedindo que o resto das pessoas vissem. Então segurou o ferro do encosto, que Alícia sabia ser de ferro, e, com dois dedos, amassou, como se amassasse papel. Ninguém percebeu e Alícia o olhou, sem expressar nada.


–Ok, você é fortinho, já entendi. – Ela disse, tentando parecer indiferente mesmo tendo ficado impressionada. – E você? – Perguntou a Jonathan.

–Eu descobri a pesquisa e estou procurando as crianças antes que o médico que fez isso as encontre. Ele tem um objetivo, ele quer tomar o controle com vocês. Como se fossem o exército dele, entende?

–E então você nos encontra e o que acontece? Ele para de nos procurar?

–Não, mas vocês não serão enganados por ele. Nem irão causar problemas.

–Ele já conseguiu chegar até alguém?

–Até a maioria. – Jonathan pareceu um pouco mais velho ao falar isso. – Não consegui descobrir todos a tempo.

–E existem dois que ele criou. – Guilherme falou, uma expressão de raiva surgindo, mesmo que de leve. – Os gêmeos Miranda. Já nos causaram muitos problemas. Vêem o velho como a um pai, é ridículo.

–Mas eles não são os únicos que confiam nele. Por isso que você tem que tomar cuidado. Se você nos aceitar, ficaremos por perto. Você pode ir conhecer os outros.

–Tem mais dois além de mim, eles são legais. – Guilherme falou, agora animado. – Bem, o Victor é, a Renata dá para o gasto e...

–Guilherme... – Jonathan o cortou, e o garoto se calou no mesmo momento. Então tornou a falar com Alícia. – Vá para casa, pense um pouco. Aqui está o celular do Guilherme, ligue para ele se decidir alguma coisa. – Ele esticou um papel com um número anotado, que ela anotou e colocou no bolso.

–Eu vou pensar nisso. – Ela disse, deixando um dinheiro em cima da mesa e saindo.


Antes que pudesse fazer isso, Guilherme a pegou pelo braço, a impedindo. Ela o olhou confusa, isso era extremamente irritante.


–Não conte a ninguém sobre isso. Não é seguro. – Ele disse, sério, e a soltou.

–Eu não vou contar. – Ela respondeu, saindo mais rápido ainda.


Fez o caminho de volta quase que voando, queria chegar logo na segurança de seu quarto. Sentiu-se aliviada por ter deixado a guitarra com Rob. Ter feito aquilo tudo com ela nas mãos não ia ter um bom resultado. Subiu as escadas e tentou entrar em casa com o mesmo silêncio que saiu, apenas para encontrar uma Duda irada esperando na sala.


–Onde você estava? – Perguntou, virando-se para ela.

–Com os garotos.

–Liguei para um deles e disseram que você já tinha saído. E isso foi há muito tempo.

–Estava andando por aí, distraindo a cabeça. – Ela disse, começando a andar para o quarto.

–Espera, ainda não terminei!

–Tchau, Duda. – Alícia respondeu, indo direto ao quarto e se trancando lá dentro, jogando-se na cama e deixando que sua mente entendesse tudo que havia acontecido.