Céu de Lítio

22 Capítulo 22


Passou-se muito tempo, ou talvez nem tanto assim. Ambos estvam mergulhados em um profundo silêncio, Frank apenas reafirmara que amava Gerard, após a declaração do mais novo. O silêncio contribuia para perturbar mais ainda a mente de Gerard, sentia-se ensandecido, prestes a enlouquecer. Aquele mar negro de depressão no qual nadava contra corrente havia exaurido suas forças, queria entregar-se, porém lembrava-se do têneu fio de esperança, da presença de Frank, e isso renovava suas forças, por mais que tentasse desistir.

-Frank... Fala alguma coisa.

-O que?

-Não sei, qualquer coisa, só pra eu ouvir sua voz, eu quero lembrar-me de você pra sempre.

-Mas eu estou aqui, já não é uma ótima lembrança?

-Sim... Física. Agora fala sobre você, quem você é, de onde veio...

-Quem eu sou... Só um simples estudante, Gee. Eu sou independente, fugi de casa, trabalho no hospital uma vez por semana, nas folgas do meu trabalho assalariado, em uma lanchonete. Não pode imaginar pessoa mais comum, Gerard.

-Por que fugiu de casa?

-Já estava na hora, né? Eu morava com meu irmão gêmeo...

-Também tem um irmão gêmeo?

-Muitos de minha família tem... Mas meu irmão é igualzinho a mim, eu ficava doido quando falavamos as mesmas coisas ao mesmo tempo, era de matar.

-Sua mãe vestia vocês igual?

-Sim... Quando éramos menores. Meu irmão sumiu na vida, nem sei onde foi parar.

-Há quanto tempo?

-Uns três meses. Brigamos por uns motivos bobos e ele foi embora do nosso apartamento. Mas e você?

-Que que tem eu?

-Deve ter vivido de um modo bem diferente.

-Por que acredita nisso?

-É rico... Não que isso queira dizer que você é diferente, longe disso, somos todos humanos, todos iguais.

-Eu não tive uma vida interessante... Pra falar a verdade, saí poucas vezes de casa... Eu tinha hora pra tudo, até pra ir no banheiro.

-Pra ir no banheiro? Que loco, véio.

-Verdade. — Gerard sorriu. — Mudava um pouco,nas raras vezes em que fui na casa de minha avó materna, Elena. Ela me deixava fazer tudo o que quisesse e me ensinava de tudo.

-Que legal... Você ainda visita ela?

-Não... Ela morreu, faz um tempinho... — Gerard suspirou. — Foi um motivo de discórdia, pra minha família... Foram meus avós que começaram a empresa que papai cuida, no ramo do azeite (poderoso chefão), e o testamento dela dizia que eu poderia ficar com a herança, quando me casasse... Muitos disseram várias coisas, o Mikey sempre alegou que eu era gay e nunca ia me casar por que não saía de casa e por aí vai, eu só sei que ainda está tudo no banco, até o suposto dia em que eu me casar... A verdade é que eu não pensava em me casar, aliás, eu ainda me achava uma criança.

-Aos dezessete? Gee, vai me dizer que nunca beijou ninguém?

-Eu beijei você, isso não conta?

Frank bufou e não respondeu.

-Mas meu pensamento mudou, Fran... Me sinto mais amadurecido, agora...

-Mais amadurecido?

-Se sairmos daqui, você casa comigo?

-Casar?!

-Por que?

-Sei lá, Gee, não é muito cedo pra isso?

-Não sabemos nem se vamos sair daqui...

-Certo... Eu caso, se sairmos.

Notas finais
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