Céu de Lítio
21 Capítulo 21
Gerard só acordou na manhã seguinte. Seu maxilar estava inchado e dolorido, latejava fracamente, porém, essa pequena pulsação tomou conta de sua mente. Talvez por que não quisesse abrir os olhos. Era tudo o que menos desejava, naquele instante. Sabia que não havia voltado para o mesmo lugar, sabia que estava preso por grossas correntes que machucavam seus pulsos, sabia do cheiro de árvores, sol, animais, água, mas não sabia o que sua vida seria, de agora em diante. Expandiu sua mente, ainda sem abrir os olhos. A primeira coisa que percebeu foi a mente de Frank.
Ele está tão quietinho, tão... Imóvel... Gee... Amor... Por que você não acorda? O que houve?
Como uma injeção, aqueles pensamentos percoreram seu sangue, corando as faces. Viver já era uma situação desoladora, contudo, se Frank existisse, talvez viver não fosse tão ruim assim. Valia a pena existir junto de quem amava. Abrir os olhos seria doloroso, sabia disso, mesmo assim, o fez.
Frank encontrava-se agrilhoado, de pé, na parede contrária da cela. O local era escuro, nem uma réstia ínfima de sol. Os olhos demoraram para se acostumar com a escuridão, não importou-lhe muito, o que queria ver era Frank, ele era pálido, então foi fácil distinguir sua face preocupada naquele mar de bréu sombrio. O resto não notou, em primeira instância. E o que queria ouvir... Logo foi satisfeito.
-Gee... Eu te amo... Você tá bem? Dói alguma coisa?
-Estarei bem, junto de você, sempre... — suspirou.
-Agora deixe de ser romântico, está bem?
-Sim... Estou vivo. Onde estamos?
-Você dormiu por dois dias...
-Frank...? Eu te conheço, onde estamos?
-Amazônia, no Brasil.
-Como?!
-Foi o que me disseram, pelo menos.
-Quem te disse?
-Billie Joe Armstrong... Diz que vamos passar uns dias aqui, treinando para a operação Pérsia II, Gee...
-Fran... Eu tenho medo... Não é mais por mim... É por você, me promete que vai se cuidar, Fran, não quero viver em um mundo onde você não exista, é meu único vínculo terreno, sinto-me uma marionete cujos fios foram cortados, restando apenas um... Segure-me, Frank, senão irei partir... Penso no suicídio, penso em...
-Gerard! Cala essa boca!
Gerard observou-o, os olhos esgazeados e a boca aberta.
-Eu vou ser seu fio, Gee... Pra sempre, eu vou te proteger, por que te amo, e você não me deve nada, tudo o que tem de fazer é preocupar-se com si mesmo, de mim eu mesmo cuido, e de você também... É frágil, têneu... É meu e vou defendê-lo, não importa o que me custe!
-Não precisa...
-Não, quieto, eu falei... Nós vamos sair dessa, deve haver um meio de fugir...
-Frank... Eu desisto, é muito difícil.
-Mas não é impossível... E mais, nós somos mutantes, esqueceu? Podemos sim, podemos tudo, juntos.
Suspirou e olhou ao redor. Agora distinguia algumas coisas, poucas. Via as paredes de pedra, deveria ser um edifício antigo. Não... Queria enfiar as unhas nos glóbulos oculares para nunca mais ver nada, mas lembrou-se de Frank. Ele sim queria ver, sempre era muito pouco. Tinha de dizer, antes que algo acontecesse:
-Eu te amo...
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