Cygnus - Fallen
2 Os Gêmeos nada gêmeos & Laços
Notas iniciais
Eu e Scorpius éramos simplesmente opostos. Tudo em nós. Desde a aparência até o que realmente éramos.
Scorpius é muito parecido com o meu pai. A mesma cor do cabelo, o mesmo rosto fino e pontudo. Meu pai costumava chamá-lo de ‘sua miniatura’. A única coisa que ele tinha de nossa mãe eram os olhos muito azuis. Azuis celestes. E os lábios avermelhados e carnudos.
Já eu, era completamente o contrário. Tinha os cabelos negros de minha mãe. Os olhos cinzas do meu pai. Os lábios finos do meu avô Lúcio.
Scorpius aprendeu a andar e a falar primeiro. Ele era mais forte que eu. Sempre me batia quando éramos bebês. Ele era mais estressado e chorão. Muito chorão.
Já eu era tão quieto que minha mãe achou que eu tinha nascido doente.
A primeira lembrança que eu tenho é do dia do nascimento da minha irmã. Lembro de escutar os gritos da minha mãe. Lembro de ver as pessoas olharem para o quarto com expectativa, mesmo que não entendesse o porquê. Lembro claramente dos gritos de agonia de minha mãe e achá-los simplesmente incômodos.
Scorpius ficara chorando, olhando para a porta, pensando que algo horrível estava acontecendo.
Lembro que Virgo foi apresentada primeiro a ele. Scorpius ficou com ciúmes e tudo o que queria era ficar no colo do meu pai, no lugar do embrulho pequeno e loiro que tinha vindo ao mundo.
Mas quando meu pai me mostrou Virgo, eu não dei a mínima. O que eu deveria pensar? Parecia uma boneca e eu não gostava de bonecas.
Pode parecer algo bobo, mas essa é uma lembrança forte pra mim.
Eu não liguei pros gritos da minha mãe, ou pro choro do meu irmão. Eu não senti ciúmes do meu pai e nem interesse por Virgo.
Eu não senti nada...
Hoje eu vejo como isso é assustador. Eu só tinha dois anos. Dois míseros anos.
Depois disso, lembro de brincar com meu tio Remo, que é apenas um dia mais velho que eu, com Scorpius, Albus e James.
James era o filho mais velho do meu padrinho e Albus era como eu. O filho do meio. Mas não se engane. Isso não fez que fôssemos mais próximos. Eles eram todos amigos de Scorpius. Eu nem gostava e deles.
Remo e James eram bagunceiros demais, barulhentos demais – e eu cresci com Scorpius, falo com propriedade. Já Albus parecia um completo tapado com crise de identidade. Ele queria ser corajoso e impulsivo como o irmão mais velho, mas ele não o era. Ele era medroso, astuto e calculista, mesmo que não quisesse. Enquanto James era extremamente extrovertido e convencido – dá pra entender o porquê do meu irmão venerar ele – Albus parecia ter vergonha até da própria sombra. Scorpius meio que adotou ele e os dois viraram melhores amigos.
Eu obviamente sobrei naquele grupo. Preferi não ficar com eles do que ficar e estragar as brincadeiras bobas deles. Normalmente eu ficava próximo aos meus pais, observando as conversas, prestando atenção em tudo. Eu gostava de brincar sozinho, de explorar as coisas, de descobrir, estudar.
Como Scorpius era mais forte que eu, mais rápido e atlético, eu precisava me defender dele e dos amigos de alguma maneira. Quando muito jovem, eu odiava Scorpius. O modo como ele amava as coisas com uma intensidade arrebatadora. Ele era completamente apaixonado pelos pavões dos nossos pais.
Eu os achava bastante bonitos, mas ficava impressionado com o quanto os filhotes eram feios. Era apenas uma criança... Digamos... Inocente. Queria saber como um bicho tão feio se transformaria em um animal majestoso. Pensava que haveria algo dentro dele. Propus isso a Scorpius, mas ele não estava interessado. Achava os filhotinhos bonitinhos.
Então eu fiquei com raiva do jeito bobo dele. De como falava engraçadinho com os filhotes e como os pegava no colo e fazia carinho neles. Era ridículo. Por isso peguei o filhote que ele tinha no colo e quebrei o pescoço dele. Eu queria saber como aquele pavão ficaria belo. Por tanto peguei um pedaço de vidro, e cortei o pavão enquanto meu irmão chorava e me chamava de monstro. Sabia que ele chamaria meus pais. Não liguei. Só queria desvendar aquele mistério.
E fiquei tão zangado... Tão decepcionado, quando não encontrei nada de diferente dentro dele. Algo que explicasse como ele se transformaria. Quando seu pai chegou com aquele garotinho chorão que insistiam ser seu irmão, nem liguei. Meu pai também não brigou comigo. Apenas me encarou provavelmente assustado. Eu tinha matado o pássaro e o aberto para mexer em suas tripas. E eu tinha uns oito ano. Sem um pingo de remorso.
Eu era cruel. Sem sombra de dúvidas. Eu gostava da biblioteca do meu pai. Ia lá às escondidas, durante a noite, e pegava os livros dele. Alguns eram tão antigos... medievais. Gostava dos de magia negra. Eram interessantes, mas eu sabia que minha mãe não gostava deles. Mais de uma vez ela quis se livrar da biblioteca, mas meu pai nunca deixou. Estavam na família há tanto tempo...
Se ele soubesse onde eu ia parar, será que ele teria se livrado dos livros? Acho que não... Meu pai é bem apegado ao legado dele. Ao nosso nome. Não o culpo. Eu também sou, mesmo que não seja tanto...
Scorpius aprendeu a andar e a falar antes de mim, mas eu aprendi a ler muito antes. Quando Scorpius aprendeu a ler, eu já tinha lido mais livros do que ele leria em toda a sua vida. Passava o dia lendo e quando íamos visitar os amigos dos nossos pais, eu sempre levava um dos livros para me distrair. Detestava brincar com Remo, James, Albus, Rose e Scorpius.
Laços
Virgo, Hugo e Lily nunca podiam brincar com Scorpius e os outros. Meu irmão e seus amigos achavam que eles eram novos demais. Então o trio ficava me pentelhando. E eu só queria ler meus livros.
Eu já falei de Virgo para vocês. Agora deixe-me apresentar os outros dois. Meus primeiros... “amigos”.
Hugo era um garoto muito simples, honesto e direto. Ele era sempre tão sincero que às vezes era inconveniente. Mas ele não fazia por mal, mas a mãe dele estava sempre puxando a orelha dele. Me lembro que ele perguntou o por quê de a avó ser tão gorda, quando as minhas avós eram magras e bonitas. Acreditem. Não era por maldade... Hugo era simplesmente assim.
Ele tinha o cabelo acaju, mais pro tom do castanho. Mas quando o sol batia de jeito, ele ficava muito ruivo. Tinha sardas por todo o rosto e era ainda mais tímido que Albus. Mas ele tinha uma risada divertida, devo admitir. Sempre buscando a aprovação da irmã mais velha. Ficava olhando o tempo todo pra o outro grupinho, como se contasse os minutos para ser declarado velho o suficiente para andar com eles. Por isso eu e Hugo nunca fomos realmente próximos. E quando ele finalmente entrou em Hogwarts, finalmente se uniu ao grupo de James e Rose, e por que não, o de Scorpius. Ele ser da Sonserina foi um reles detalhe.
Agora Lily... Ah, Lily. O único motivo por eu estar aqui, é ela. Caso contrário eu certamente não teria me deixado prender. Eu teria poder para acabar com qualquer tolo que ousasse me enfrentar. Eu tive essa oportunidade, mas tudo o que eu conseguia pensar foi naquela noite, no escritório secreto de Slytherin... Mas estou divagando. Falta muito para chegar nisso ainda.
Quando éramos crianças... Antes de Hogwarts criar um espírito de rivalidade em Virgo, ela e Lily eram melhores amigas. É até estranho pensar nisso, já que elas eram tão diferentes. Virgo tinha aversão à sujeira. Só andava com roupas de classe – como se nosso pai fosse deixá-la andar de qualquer jeito – os cabelos estavam sempre perfeitamente penteados e presos.
Lily usava roupas trouxas, não penteava os cabelos acaju, e gostava de ficar descalça e brincar no chão. Virgo era arrogante e exibida – ela era minha irmã, afinal de contas... Lily era doce e meiga. Virgo sempre via o pior das pessoas – menos em mim, é claro. Ela sempre sabia o quão baixo alguém poderia ser, por isso não costumava confiar muito nas pessoas. Lily era o contrário. Ela sempre sabia o quão boas as pessoas poderiam ser e as valorizava por isso.
Mas veja bem. Lily não era uma garotinha tolinha. Ela sabia usar sua carinha de anjo para levar as pessoas na lábia tão bem quanto Virgo. E quando era afrontada, céus, como ela duelava. Chegava a ser assustador, como uma menininha tão doce e sorridente conseguia se transformar numa feiticeira extremamente competente.
Virgo tinha uma carinha de anjo, mas todos sabiam que não se podia brincar com ela. Ela era uma Malfoy... Mas Lily sempre foi subestimada, inclusive por mim.
Oh, voltei a divagar novamente, não foi? Lamento... Mas quando o assunto é Lily Potter... Eu começo a pensar demais nos detalhes que a compõem. É simplesmente complicado.
Voltando à história. Antes de Hogwarts, Lily, Virgo e Hugo estavam sempre comigo. E eu detestava isso. Queria ficar sozinho e estudar, aprender. Eles me puxavam pra baixo. Desaceleravam meu rendimento. Mas sempre tive muita paciência com ele. Scorp sempre arrumava confusão com James, Albus, Ted, Remo ou Rose. Eu nunca dei trabalho com as crianças. Eu aturava tudo muito quieto, com meu famoso e irreverente olhar de indiferença.
Virgo reclamava com frequência que eu só sabia ler. Então passei a levar livros de histórias. Era melhor entretê-las, do que aguentar seus choros. Tinha trago, naquela vez, a história de Merlin – a versão pra crianças. Elas não estavam prontas para a versão adulta da história de Merlin – e comecei a ler para elas.
Mas os olhares cheio de admiração da minha irmã e da minha... Digo. De Lily, o olhar de admiração de Lily... Me fez pensar que talvez elas pegassem o gosto pela leitura, se tivessem o incentivo certo. Então comecei a representar e elas adoraram.
Depois disso, sempre brincávamos de representar. Eu, Lily, Virgo e depois Hugo. Normalmente eu era um vilão, Hugo um herói, Lily era a mocinha e Virgo minha general. Era até divertido, devo dizer. Eu na inocência da minha infância, sendo aquilo o que me tornaria um dia. Cruel simplesmente por poder ser. Não havia nada de complexo em meus personagens. Eu era mal. Eu sequestrava Lily, Hugo precisava enfrentar Virgo e depois a mim e tudo acabava bem. Para ele, ao menos.
Não há nada de complexo em mim, eu acho. As pessoas falam que eu sou um cara complicado. Discordo. Sou um cara simples com necessidades simples. E eu sou mal. Há algo em mim antigo e primitivo, eu sei. Eu sinto. Muito anterior ao cajado de Slytherin. E eu sabia disso desde aquelas brincadeiras, onde eu adorava assustar Lily Potter. Sei que muitas vezes ela pensou que eu fosse machucá-la de verdade. E Hugo também. Quando eu me empolgava demais... Virgo dizia que a única coisa mais assustadora que meu olhar gélido, era meu sorriso.
Eu acredito piamente nela.
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