Cycloudy
12 Um Fio Reparado
As aulas haviam terminado naquele dia, e eu estava treinando basquete sozinho na quadra da escola. Bom, pelo menos eu achava que estava sozinho. Havia progredido muito nesse esporte, me dedicava tanto quanto aos treinos de luta que hora ou outra praticava com meu irmão quando tínhamos tempo. Já havia se passado quase um ano desde meu “acidente”, meu aniversário de dezesseis anos estava próximo aliás. Tirei a camiseta regata branca do uniforme de educação física e a deixei no banco, e continuei com minhas enterradas impressionantes, como agora tinha altura e musculatura, estava mais fácil dar grandes saltos. Mas meus sentidos me fizeram mirar ao redor. Peter estava ali, sentado ao banco que eu atirara minha camiseta há alguns segundos atrás. Fingi não ligar, até minha bola de basquete escapar e ir parar próximo a ele, que apanhara a mesma rapidamente, correndo em minha direção como quem quer jogar também. Peter não havia mudado tanto quanto eu, jura Cody?! Ele estava um pouco mais alto do que antes, mas eu o havia passado há muito, talvez fosse um dos mais altos da escola, desculpe repetir tanto sobre minha altura, é que eu realmente fiquei impressionado com tamanha mudança! Pra quem era um nanico sem esperanças de crescer nem mais dez centímetros se quer! Enfim, voltando. Eu meio que parei para olhar a atuação de Peter.
- O que foi? Não posso jogar com você? Vai se achar só porque está maior do que todos nós?
- Eu não falei absolutamente nada.
- Ah qual é, Cody?! Todos nós sabemos que você entrou em coma porque se encheu de hormônios e anabolizantes! – Nessa hora eu quase cuspi com a gargalhada que soltei, aliás essa já era a segunda teoria da galera.
- Ah, é isso que vocês acham que aconteceu comigo? – Eu disse, tomando a bola dele.
- Obviamente! Quem cresce tanto assim em um ano? Você praticamente é outra pessoa! – Contra fatos, não há argumentos. Ele não estava errado nas duas últimas sentenças. O que eu poderia dizer?
- Hum, você está certo em algumas coisas, mas não me enchi de anabolizantes, nem nada. Só estou tomando vitaminas pra melhorar minha saúde. Entrei em coma porque estava muito doente e anêmico. Eu nunca tive uma boa vida em casa, se você quer saber. Depois do que aconteceu, tive um padrinho que me ajudou. Eu não te devo explicações, mas acho de bom tom esclarecer as coisas. – A bola estava em minhas mãos e ele a tomou de mim, correndo pra que eu a tomasse de volta. Coisa que eu não estava a fim.
- Não vai jogar? – Revirei os olhos nas órbitas, eu não tinha muita escolha. Ele era rápido, meu corpo grande me deixara mais lento, apesar de eu estar num peso ótimo para minha estatura. Em algum momento eu tomei a bola dele, e algo deu errado, o fazendo cair sobre mim, me derrubando também. Ok, aquilo foi beeeeem estranho! Ele estava com as pernas encavaladas nas laterais do meu corpo, respirava rapidamente. Ao invés de se levantar, ele continuou ali, me encarando, até esticar uma das mãos e tocar meu peito.
- O que você está fazendo? – Indaguei. Ele pareceu não me ouvir, baixou os olhos enquanto mirava as próprias mãos que desceram para meu sexo. Fiquei tão surpreso no quanto o cara era atacante, que mal tive uma reação. – Ei! Ahh.. – Tá, não era pra eu ter gemido, mas o desgraçado me apertou de uma forma um tanto quanto ousada demais! Agarrei sua mão com força, a puxando de mim. – Você está louco, ou o que?!
- Você gostou...
- Ora, você praticamente me assediou aqui! – Eu fiz menção de me levantar, e ele pulou em mim, prensando seus lábios contra os meus. Ele não era feio, na verdade era bem bonito, corpo esbelto, pele morena, cabelos castanhos curtos com franja solta, olhos verdes, tinha um olhar atraente, mas não passava de um idiota. O problema disso tudo é que eu nunca havia me esquecido de que ele pretendera me violar, e o fato me fazia ter certa repulsa. Eu o empurrei, e não pensei muito quando fechei o punho e o acertei, fazendo-o voar de cima de mim. – Não te dei permissão pra me tocar! Você acha que eu ficaria com um babaca enrustido que nem você? Cara, assume que você gosta de homens e vai ser feliz! Pensa que esqueci o que você queria fazer comigo um ano atrás?! Acontece que agora eu sei me defender! – Ele viera pra cima, o nariz sangrando, e com um chute de lateral, eu o derrubei. Não queria feri-lo muito, só afastá-lo.
- O QUE VOCÊ SABE SOBRE MIM?! – E o cara surtou.
- Sei que você fere as pessoas porque não se aceita! Eu até gostava de você, mas é difícil quando se é humilhado e xingado por nada. – Ele parara próximo, os olhos estatelados me encarando. – O que foi?
- Você... gostava de mim? – Ah, ele achou que era daquela forma.
- Você implicava comigo por nada. Eu nunca entendi você. Até fazer aquilo comigo. Eu nunca vou esquecer isso, se quer saber. – E então ele chorou. Oi?
- Eu sempre fui... apaixonado por você. Desde a primeira série. Mas sempre achei que era errado. E te punia por sentir o que sentia.
- Tá, e eu tive que pagar o pato?
- Me... Desculpe... – Ele havia tapado o rosto com as duas mãos, que tremiam que nem vara verde. Affs, o que eu poderia fazer agora? Abraçá-lo nem pensar! – Eu soube que você havia saído com a Sabrina, que tinham transado e tudo mais, e isso me deixou muito mal. – Peraí, quem contou minhas intimidades pra escola toda?!
- Ei! Quem te falou isso?
- As amigas dela falaram isso por um tempo. É mentira? – Uau, Sabrina! Que belas amigas você tem!
- Não, não é mentira. – Ele baixara a face. – Mas não importa. É a minha vida.
- Eu sei.. eu perdi minha chance de ser um cara legal e te fazer se apaixonar por mim. – Nisso ele tinha razão, eu sempre fui sensível e romântico, mas isso meio que se perdeu no caminho.
- Você está certo. – Eu disse, suspirando. “O que não tinha remédio, remediado estava”. Me aproximei, colocando uma de minhas mãos em seu ombro. – Mas você pode mudar agora enquanto é jovem. Você vai encontrar alguém legal pra você. “Toda panela tem uma tampa”, lembre-se disso. – Eu estava o rei dos ditados nesse dia. Ele sorrira.
- Obrigado. Você me perdoa? – Eu baixei a face, fazer o quê?
- Tudo bem, Peter. – Ele me puxara pra um abraço forte. – Ah, qual é? Vai pra enfermaria consertar esse nariz! – Ele rira, se afastando.
- Te vejo depois! – Dissera, enquanto corria pra fora da quadra. Eu o observei partir. O sol também estava entrando, e o degrade de rosa e azul era magnífico. Aspirei o ar, fechando os olhos fortemente. Mais um fio havia se desenrolado em minha vida, de uma forma meio louca, inesperada e abrupta, mas havia.

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