Cycloudy

2 Sonhos Extraordinários


Notas iniciais
Mais um capítulo! Espero que gostem!


Assim como todos, eu sonho, e infelizmente me lembro claramente de muitos deles. Digo infelizmente porque nem todos eu gostaria de me lembrar. Como no dia em que sonhei que minha mãe se transformava em um dragão feroz, — não que ela já não fosse um... — ou da vez em que seis Chad’s me traziam trabalhos de faculdade pra eu fazer. Sim, aqueles foram pesadelos terríveis! Mas ultimamente, melhor dizendo, há dois anos, venho tendo sonhos estranhos e muito reais! Sempre vejo luzes invadindo meu quarto, e muitos seres de outro mundo conversando comigo, isso mesmo, quando digo seres de “outro mundo” – quero dizer extraterrestres. Eu sei que muitos não acreditam, o que na minha humilde opinião, é uma falta tremenda de bom senso. Pensem comigo: em um universo tão vasto quanto o nosso, achar que somos os únicos habitantes daqui, não seria muita pretensão do ser humano? Bom, se ainda não te convenci com esse singelo argumento, se você passasse pelo o que eu passei, tenho certeza de que acreditaria. Mas enfim, voltando ao que interessa, na maioria desses sonhos, eles sempre me diziam algo como “você faz parte”... A pergunta que não quer calar: faço parte do que, meu Deus?! Só se for dos esquecidos, ou dos extremamente explorados. E bem, já contei esses sonhos há muitas pessoas, na infundada esperança de que alguma alma amiga me ajudasse, me dissesse o que estava acontecendo comigo, e o máximo que eu escutei, foram essas seguintes “sábias” palavras: você está ficando louco, Cody. Pois é, isso me ajudou tanto, que eu quase me joguei da escada. Louco eu já sei que sou, porque pra aguentar a minha família, só sendo louco pra não explodir. Mas então, eu jamais gostei desses assuntos que envolvem et’s, invasão alienígena, fantasmas, filmes e jogos de terror. E mais um motivo pro meu irmão me chamar de bicha e de mulherzinha. Como se os gays e as mulheres fossem covardes ou coisa do tipo... Conheço gays e mulheres muito mais corajosos do que qualquer um que se diga “macho”. E até hoje eu me pergunto o que é ser “macho” pras pessoas? Talvez aqueles caras bombados que batem na namorada, e que se acham valentões? Bom, se for isso, pra mim esses sim é que são os verdadeiros covardes. Homem de verdade tem que ser cavalheiro, gentil e ter um bom coração. Isso é o que penso. Tá parecendo até que sou romântico, né? A verdade é que eu não sei, eu nunca tive uma namorada pra saber. E mais uma vez eu saí do assunto, que é o foco principal desse capítulo... Ah sim! Eu esqueci de mencionar, quando eu tinha três anos e brincava no jardim, Chad correu pra mamãe, dizendo que tinha um objeto circular pequeno, próximo de mim. Eu não me lembro disso, e quer saber? Eu prefiro não lembrar mesmo. Ele costumava contar essa história, até papai dizer que o mandaria pro manicômio se ele continuasse com essa “loucura”. Tô falando que minha família é um caso perdido?

Acordei bem cedo naquela manha, mais cedo do que eu esperava. Olhei minha cara amassada no espelho. Meus cabelos negros, estavam mais bagunçados e embaraçados do que o normal. Meus cabelos são bem finos e extremamente lisos. Eu costumo cortá-los não muito curtos, porque eles arrepiam e eu fico com cara de quem acabou de levar um tremendo choque, mas ultimamente estavam passando meus ombros! É, preciso cortá-los! Sei que estão curiosos, ou não, pra saber como sou fisicamente, eu fico quando começo a ler uma história, mas enfim... Eu tenho quinze anos, um e sessenta e um de altura, e sim, o “um” ali é muito importante quando se é baixinho como eu! Minha pele é bem branca, e meus cabelos, como disse anteriormente, são bem escuros. Meus olhos são cinzentos. É uma cor rara, e não é bonita. Eu não gosto. Não que eu tenha alguma coisa contra a cor cinza. Mas ninguém está satisfeito com o que tem. Se eu fosse dizer como eu gostaria de ser fisicamente, levaria o dia inteiro descrevendo. Bem, meu corpo é magricela e eu sou muito, muito delicado. Minhas mãos, meus pés, o formato do meu rosto, meus cílios naturalmente grandes, e até o meu jeito de me comportar, — entendam, não é porque eu quero, isso é de mim, é como eu sou. Eu bem que gostaria de ser mais masculino, mas eu não consigo. Não sei porque me mandaram esse “presentinho” no meio das pernas, eu tenho mais cara de menina do que de um garoto. Mas eu não sou transexual, só andrógino mesmo. Mas se fosse pra escolher, eu preferia ser uma garota, pelo menos meus pais e minha família não encheriam tanto meu saco e eu nem ia sofrer tanto bullying, já que o ser humano tem o costume de agredir quem é diferente, quem sabe se eu fosse “igual” aos outros, poderia viver mais em paz. Ou não. Tenho certeza de que ser mulher também não deve ser nada fácil.

- Cody, seu imprestável! Vem tomar logo seu café! – Mamãe era sempre assim, um doce de pessoa.

- Eu acordei mais cedo! Não precisa me xingar!

- Você tem que ser mais ágil! Preciso que limpe a cozinha, tenho que trabalhar e seu pai já saiu. – Ela fazia café preto todas as manhãs, me obrigava a tomar ao menos uma xícara, dizia que isso me ajudaria a manter o bom raciocínio. Vocês devem ter pensado “Ao menos ela se preocupa com ele...” Mas enganam-se, ela só faz isso, para que eu continue ajudando Chad em seus trabalhos da faculdade, não que eu não o tenha ajudado a vida inteira, pois desde que aprendi a calcular, que não parei mais. Afinal meu irmão é tão interessado em aprender, que jamais se dedicou ou prestou atenção nas vezes em que eu tentei ensiná-lo alguma coisa. Sim minha gente, a vida aqui em casa é um cocô. – E vê se limpa tudo direitinho! Quando eu voltar quero essa casa brilhando! Passe pano na sala e recolha os lixos quando voltar da escola.

- Vai voltar mais tarde hoje?

- Sim, tenho que entregar alguns relatórios dos alunos. – Sra. Jaquelyn, minha mãe. Coordenadora em uma escola infantil, uma mulher dura, tipo aquelas em que a personalidade mais parece ser regida pelo regime militar. Mas é claro, menos para o Chad, só o Chad! Porque meu pai é praticamente esculachado por ela em casa, e eu... Bom, eu nem preciso dizer, né? Seus cabelos eram longos e castanho escuros, mas encaracolados, como os do Chad e o meu pai. Nem me pergunte da onde veio meu cabelo liso e preto, porque ninguém da minha família, nem meus avós tem os cabelos iguais aos meus, e os olhos cinza, piorou, então... Ah! E todos são morenos claros! E não pálidos como eu. Sim, eu já me perguntei se sou adotado. E inclusive já perguntei à minha mãe também, e como ela é sempre muito gentil, me respondeu tranquilamente: “É claro que você não é adotado! Eu jamais te adotaria!”. É, eu sei como isso é triste.

- Ok, e a que horas o pai volta? – Ela me olhou de esguelha, com ar de desconfiança, como se eu estivesse pretendendo aprontar algo estando sozinho em casa.

- Ele vai voltar tarde também. Precisou viajar pra uma cidadezinha vizinha. Seu irmão volta às seis. – E eu pude ver um sorriso escondido ali, como se ela tivesse tido o prazer em dizer que Chad iria arruinar os planos de ficar sozinho aqui, “planos” aliás, que nem existem.

- Certo...

- Porque está perguntando?

- Só queria saber do papai. — Respondi. Ela continuou me olhando.

- Ok. – Disse. Meu pai, Sr. Joel, trabalha em uma empresa de energia elétrica na minha cidade. Ele e minha mãe se dão bem. “Bem”, quando ela não está testando a força dos punhos em suas costas, ou a qualidade do rolo de macarrão em seu traseiro. Ele é um homem um pouco acima do peso, mas é um cara legal, o meu velho. Apesar de também me xingar de bicha de vez em quando, ele é o que mais se preocupa comigo. Sempre quando viaja, me traz um bombom ou dois. Mesmo com a sua falta de jeito em lidar comigo, as vezes ele me olha como se eu fosse um extraterrestre. Já pensei se ele já se perguntou se sou mesmo filho dele. Ninguém nessa casa tem orgulho de como eu sou. Apesar de sempre tirar a nota mais alta da escola, nunca fui bom em esportes, sempre me caguei de medo de bolas! E talvez por isso ele prefira o Chad, do qual sempre pode ver jogar futebol, vôlei e basquete nas competições do colégio, e depois de crescido, ambos iam ao estádio ver os times jogar, sem contar que sempre estão juntos vendo as competições pela tv. Acho que no fundo eu tenho inveja do meu irmão. Não sei se pode levar o nome de “inveja”, mas sempre quis ter a mesma atenção que meus pais dedicam a ele. Mas eu me contento com um ou dois bombons que ele me traz, ao menos se lembra de mim, e isso me deixa feliz.


Uma da tarde, e eu já estava na escola, exausto! Havia limpado toda a casa, organizado o quarto de meus pais e tirado as folhas do quintal. E de quebra, ainda fiz o almoço. Eu queria mesmo era dormir agora!

- Cody! – Senti alguém me balançar pelos ombros, era um de meus colegas imbecis.

- O QUE É?! – Peter era o que sentava atrás de mim, e vivia me passando cantadas indiretas. Eu acho que no fundo, podia perceber que ele gostava de mim, mas era machista demais pra admitir.

- A professora está olhando torto pra você! Para de dormir! – Ele disse, enquanto a professora de biologia nos olhava, a sala toda em silêncio para ver. Eu odiava quando aquilo acontecia.

- Será que vocês dois podem parar de namorar? – Falou ela.

- A senhora só pode estar brincando, não é? – Peter não havia gostado da brincadeira.

- É claro que ela está brincando – Eu disse, olhando-o. – Eu jamais namoraria alguém como você. – E é claro que isso bastou pra que todos da sala começassem a fazer piadinhas com Peter, e do grande fora indireto que eu lhe dei. Ele fechou a cara, me olhando feio. Depois voltamos nossa atenção para a aula, que só pode voltar ao normal, depois de um grande berro da professora. E quando aquela aula finalmente acabou, eu voltei a adormecer.

Era uma luz azulada. Paredes impecavelmente brancas, pareciam atordoar quem as olhasse. Eu me sentia tonto, completamente entorpecido. Queria me mexer, mas pareceu a mim impossível. Até que notei algo esquentar em meus braços. E uma sensação de tranquilidade me invadira. Duas mãos completamente sem cor, me tocavam suavemente. Era um ser de energia muito forte, mas não pude ver seu rosto, é claro, eu nem conseguia me mexer! Pude ver que ele colocara em meu pulso esquerdo, uma pulseirinha fina e vermelha de tecido. Então uma voz ao longe começou a me chamar, e eu não queria acordar, pois ali onde quer que eu estivesse, me sentia descansado, meu corpo não pesava e eu sabia que aquela pessoa que me tocava, gostava de mim...

- Cody! – Abri meus olhos, mirando a cara grande de Peter. Seus olhos escuros me observavam atentamente.

- Perdi alguma coisa? – Perguntei, lamentando ter acordado.

- Imagina... Só a aula toda! – Ele disse. A sala já estava vazia. Mirei meu relógio de pulso. Eram quase cinco. O sino já havia batido.

- Ah não acredito! – Disse, me levantando às pressas, mas meu corpo realmente estava mais mole do que eu podia ter notado.

- Cody! – Ele me segurou, fazendo-me sentar novamente. – Que droga é esta? Você esta bem? – Ele estava perto demais.

- É claro que eu estou! Mas se você tivesse que limpar uma casa enorme todos os dias, obviamente seu corpo não iria aguentar! – E isso era uma mentira. Meu corpo já estava acostumado, eu estava cansado havia alguns dias.

- Porque você me trata assim? – Ele falou, se aproximando.

- Porque você é um idiota que vive tirando sarro em mim! Seu imbecil! – Chegara mais perto, segurando o encosto da minha cadeira, me prendendo entre seu corpo e o espaldar. – Será que dá pra sair de perto de mim? Seu tarado! – Ele riu. E eu podia sentir sua respiração. Não! Meu primeiro beijo não seria com aquele idiota! Tentei empurrá-lo com as mãos em seu peito, ele me olhava como se eu fosse um fracote, tudo bem que eu era mesmo, mas isso não vem ao caso. – Sai, Peter! – Ele nada dissera. Tá ele era bonito, mas sua beleza não valia nada em vista do seu jeito torto de ser e me tratar.

- Eu já te disse que te acho gostoso? – Ah não! Aquilo era demais! Eu reuni forças, o empurrando de uma só vez, sabe Deus como, eu quase o derrubei.

- Mais respeito comigo, seu idiota! – Ele escorara na mesa da frente.

- Respeito? Quem você acha que é? Você é um garoto afeminado, não uma menina! Respeito é o mínimo que você poderia ter! – Eu cheguei bem próximo à ele, lhe sentando a mão na cara, com todas as forças que eu poderia ter. Ele fechou os olhos, mas nada dissera.

- É por isso que eu te odeio! Não é só porque não sou uma garota, que não mereço respeito! Seu filho da mãe! – E depois disso eu corri da sala. E não pude segurar as lágrimas. Aquilo doía, ouvir palavras tão baixas e ofensivas. Minhas mãos tremiam e meus olhos transbordavam de tantas lágrimas. Eu cheguei na avenida principal tão rápido, que não vi quando um carro acelerou em minha direção. Eu só pude escutar a buzina, antes de sentir duas mãos me segurarem tão fortemente e me puxarem pra fora pista. Eu havia atravessado a rua sem olhar. Meu coração batia à mil.

- Ei, moleque! Vê se olha por onde anda! – Gritou o motorista enquanto dirigia, se afastando dali. Eu olhei pro lado, na esperança de ver meu salvador, mas a única coisa que vi, foi um poste que piscava a luz perigosamente. Não havia ninguém ali. Senti um arrepio percorrer toda a extensão da minha espinha. Fui embora o mais depressa possível.

Eu só podia estar mesmo ficando louco. Se eu já estava tremendo antes, a coisa só piorara nos minutos seguintes. Eu precisava me acalmar. Minha sorte é que estava sozinho em casa, e ninguém iria me encher a paciência! Sentei ao pé da escada, com um copo de água em minhas mãos. Tirei o casaco, esfregando meus olhos que ardiam devido ao choro. Até que um brilho avermelhado, me chamou a atenção. Uma fita de cetim, estava bem presa ao meu pulso esquerdo. Imediatamente me lembrei do meu sonho.


Lembrei-me mais tarde, de que teria que catar o lixo antes que minha família voltasse. Eram nove da noite, e nem minha mãe, meu pai ou Chad, haviam retornado. Eu ainda estava sozinho, e uma leve sensação de liberdade, tomava conta de mim. Sério mesmo, eu não via a hora de completar dezoito anos, me alistar no exército, de preferência bem longe da minha cidade, e do outro lado do país! Viver sozinho, afastado da minha família. Minha vida era uma droga, e eu queria me libertar dela o quanto antes.

A rua estava silenciosa, só os grilos e alguns sapos, emitiam som. Que paz maravilhosa. Coloquei os sacos na lixeira, e um clarão surgiu bem à minha frente. Foi então que, por mais que eu me esforce, não consigo me lembrar. Acordei com Chad me chamando e me chacoalhando. Eu estava na cozinha, caído próximo ao corredor. Ele havia chegado de uma bebedeira com os amigos, quando me viu no chão. Eram dez e meia da noite.

- Porque você não me levou ao meu quarto?

- Você não é nenhuma dama pra ser carregado no colo! – Disse ele, enquanto eu reunia forças pra me levantar do chão. É claro que meu irmão, preocupado que só ele, nem havia me perguntado se eu estava bem. Logo voltou pro seu quarto. Eu me sentei, escorando-me na parede atrás de mim. Não sentia minhas pernas direito, meu corpo estava mole. Não me lembro de ter voltado pra dentro de casa, e nem de como eu havia parado ali. Minha última visão foi um clarão tão forte, que doeu minhas vistas. O que estava acontecendo comigo?