Cycloudy
3 Estranho Aluno
Notas iniciais
Peter me olhara o começo da aula toda. Ele havia sentado do outro lado da sala. Fiquei me perguntando, o que aquele maldito estaria pensando. Eu sabia que não era coisa boa. Tentei me manter acordado durantes as aulas dos três primeiros tempos. Apesar de ter sido uma tarefa árdua, eu me mantive forte. E quando o recreio... – eu falo recreio e não intervalo, e sem zoeiras! — ... pois bem, e quando recreio chegou, tive que fazer uma força lascada para sair da sala. Ninguém podia permanecer em sala nos recreios. Minha escola era cheia de gente mal intencionada, que não podia ver uma mochila dando sopa que, bum! Uma mágica acontecia e seus lápis, estojos, e sabe Deus o que mais você carrega, sumia. Pois é, minha escola podia ser chamada de Hogwarts, só tinha feiticeiros excelentes estudando ali!
Saí de lá arrastado, indo até o pátio próximo às árvores. Lá havia alguns bancos e poucas pessoas. Quanto menos gente, melhor! Sentei encostando as costas na parede. Fechei os olhos por um segundo, desejando um pouco de silêncio, me voltando pra dentro de mim mesmo, a fim de parecer um monge budista meditando, não que eu não estivesse realmente meditando. A calma e paz foram por apenas poucos minutos.
- Tá com soninho, Cody? – Peter.
- Se eu estiver, o problema é meu. – Disse, enquanto abria lentamente os olhos. Cinco garotos, contando com Peter, me rodeavam. – O que você quer? – Perguntei, com claro desinteresse.
- Acabar com você. – Eu o mirei, piscando os olhos rapidamente, tentando assimilar o que ele dissera. Antes que eu pudesse continuar pensando, um dos garotos me puxou pelo braço.
- E se você gritar, baitolinha, nós vamos explodir o carro do seu irmão, que está em frente a universidade dele, na rua dos Alpistes, número 1204. Eu sou bom em bombas, sabe...? – Eu engoli em seco. Aquilo só podia ser uma ameaça infundada, foi que eu pensei, ou melhor, desejei acreditar. Com uma pesquisa rápida talvez ele descobrisse algo tão trivial como a universidade do meu irmão, mas eu nunca iria arriscar ou brincar com uma coisa dessas. Simplesmente me levantei. – Muito bem. – Nós seis fomos para uma área vazia da escola, onde geralmente os trombadinhas que estudavam lá de noite, iam para fumar escondido. Eu sei disso porque o Chad fazia essas coisas quando estudava lá.
- Muito bem, vamos acabar com esse rostinho delicado e esse corpo bonitinho. – Peter falou, enquanto me olhava com aqueles olhos ferinos. Eu sabia que aquele podia ser o meu fim... Mas eu passaria por aquilo com honra e não iria baixar a cabeça, jamais.
- Vão em frente. Eu não tenho medo de nenhum de vocês. – Falei, sem transparecer que de fato eu estava me cagando de medo. Peter riu.
- Você, sempre com nariz empinado. – Ele fez um sinal de cabeça, e então dois dos garotos me seguraram, é claro que eu tentei correr, mas os cinco me cercaram muito bem. Tão bem, que consegui me desvencilhar, me abaixei e passei por baixo de uma das pernas dos garotos grandalhões. Viram? Ser pequeno tem suas vantagens... – Seu desgraçado! VOCÊ NÃO VAI FUGIR! – Eu corri, corri em busca das pessoas que pareciam ter evaporado. É claro! O sinal já havia batido. Quando olhei pra trás, Peter estava quase me alcançado, mas quando voltei minhas vistas para frente, não deu tempo de desviar. Trompei de tudo em alguém, no mínimo bem alto, porque acabei colidindo com seu peito. Caí de bunda no chão. – Eu disse que você não ia fugir! – Peter falou, agora havia parado. Eu estava meio zonzo no chão com a batida. Quando vi uma mão grande e pálida se estender à minha frente. Eu mirei meu salvador. Ele era.. tipo, ele era...
- Você está bem? – Sua voz macia e altamente sedutora, pareceu me conduzir por um segundo a outro mundo, à outra realidade.
- Eu... Estou bem. – Respondi, mirando seus olhos acinzentados e seus cabelos curtos amarelos claríssimos e ondulados. O rosto de queixo pequeno e nariz fino. Olhos levemente oblíquos nas extremidades, lhe davam um ar de... Céus! Eu até perdi a linha de pensamento...
- Vem aqui seu idiota! – Peter avançou em minha direção, foi quando agarrei a mão daquele estranho, que me puxou rapidamente para si.
- Deixem ele em paz. – Ele disse, sua voz calma outrora, se tornara firme e autoritária, como se não pertencesse à mesma pessoa de alguns segundos atrás. Os garotos pararam, inclusive Peter, parecendo só agora terem o enxergado. – Vão embora! – Reforçara.
- Nós não... – Peter tentara balbuciar, mas o estranho tomou a frente, se aproximando do meu carrasco.
- Se eu ver vocês fazendo algo desse tipo outra vez, não pensarei duas vezes em manda-los para Solrrynsa! – Os garotos se entreolharam, mas não se atreveram a rir, embora eu pudesse notar a clara confusão nos rostos deles.
- Eh... “Sol” o que?
- Saiam daqui! AGORA! – Eles correram, sem dizer uma única palavra. Então o estranho que murmurava palavras esquisitas, se virara para mim. Ai meu Deus, era só o que faltava! Escapei de um bando de tarados, e fui cair nas mãos de um lunático! Era só comigo que coisas assim aconteciam? – Desculpe, eu não queria assustá-lo. – Disse, me olhando profundamente, o que me deixou sem graça. Ele devia ter no mínimo um e noventa de altura.
- Não... Eu não estou assustado, imagina! – Falei, mentira absoluta.
- Ah... Que bom! Como está se sentindo, Cody? Desculpe ter demorado, eu vi que eles te cercaram, mas vocês sumiram e eu tive que ver onde haviam ido parar. – Falara, trazia no rosto uma expressão de alívio e gentileza. Eu o mirei, erguendo uma sobrancelha.
- Mas eu... Não conheço você. – E é claro, não fui nem um pouco curto e grosso.
- Ah! Me desculpe por minha falta de tato. Sou Jess, do terceiro ano. – Eu fiquei em silêncio, tentando me lembrar de tê-lo visto alguma vez nos anos em que estudei aqui. Nada me ocorrera.
- Você estuda aqui desde quando? – Perguntei.
- A cerca de cinco anos. – Definitivamente não!
- Isso não é possível! Eu já teria te visto algum dia, afinal você é do tipo que se destaca muito, mas esta é a primeira vez que te vejo!
- Ah isso é bem possível, eu não costumo me misturar muito. – Disse, sorrindo docemente, e com uma paciência de Jó!
- Não, você só pode estar mentindo. – Disse eu, resignado. – Me fale a verdade, você é um aluno transferido, não é? De que escola veio e porque está mentindo? – Ele continuava com seu sorriso doce.
- Eu já disse, estudo aqui há cinco anos.
- Jess! Você não vai entrar? O professor já está perguntando por você! – Um rapaz, que eu já vira antes, viera lhe chamar, e é claro, minha cara caiu no chão. Eles se conheciam, e pareciam se conhecer há bastante tempo pela troca de olhares. O rapaz se escorara em seu ombro, lhe puxando... Quanta intimidade!
- Eu já vou, estava explicando ao Cody que estudo aqui há mais tempo do que ele pensa. – Eu mirei o rapaz, que me olhara de cima a baixo, fixamente.
- Está duvidando dele? – Perguntou.
- Não é isso! – Mentira, era isso sim. — ... Mas é só que nunca o tinha visto antes. – Eu disse, e ganhei uma gargalhada do mesmo em resposta.
- Você dever ter um péssimo senso de observação, até porque Jess se destaca muito bem!
- E é exatamente por isso!
- É bom procurar um oculista... Como é mesmo seu nome?
- É Cody. – Respondera Jess.
- Ah sim! É bom ir ao oftalmologista, Coby. Está precisando de óculos! – Disse ele, rindo da minha cara, e puxando Jess com ele, enquanto se afastavam.
- É Cody, seu imbecil...
Perguntei para as garotas da sala sobre o Jess, e a resposta foi unânime “Não acredito! Você nunca havia notado aquele rapaz lindo?”. Por Deus! Todos diziam conhece-lo! Como eu nunca o havia visto antes? Segundo elas, por sua personalidade antissocial, o mesmo quase não desgrudava de livros e não se misturava muito, mas mesmo assim! Eu já o teria visto! Poxa eu estudo nessa joça desde... O maternal? É, acho que é isso. — Pra vocês verem como minha mãe sempre me amou muito: “...quanto mais longe dessa peste afeminada, melhor!” Pois é, ela costumava dizer isso quando eu estava no jardim de infância. Mas a pergunta é: como esse cara antissocial que não se mistura, poderia falar comigo com tanta intimidade, e de quebra, saber meu nome? Ele disse que estava me cuidando no recreio! — Isso no mínimo é muito estranho.
O fim da aula foi tranquilo, embora Peter não estivesse mais em sala. Deve ser por isso que foi tranquilo...! Mas quando o sino tocou e eu finalmente pude sair para ir embora, eis a surpresa:
- Vou te acompanhar até sua casa. – A voz macia e calma de Jess, soara ao pé de meu ouvido, nem preciso dizer que tomei um baita susto, né?
- Pra quê?
- Oras, como “pra quê”? Aqueles garotos podem estar te seguindo ou algo assim... Não seja bobo, Cody, eles não queriam só bater em você. – Disse ele, e meus pelinhos se arrepiaram.
- E eles queriam o que mais? – Ele me olhou de esguelha.
- Quer mesmo que eu fale? Acredito que você seja esperto o suficiente para deduzir sozinho. – Eu engoli em seco. Mas que merda era aquela que ele estava dizendo? Eu me calei. Por pouco tempo, até sairmos da vista do colégio e entrarmos na rua de cima. – Até quando vai me seguir?
- Até você chegar em casa.
- E como posso saber que você também não tenha más intenções comigo?
- Tenho cara de quem quer te estuprar? – Ele parou, olhando pra mim seriamente. Não, ele não tinha cara de quem faria algo assim, mas não dizem que quem vê cara não vê coração? Eu o encarei de volta e sinceramente, seu olhar me trazia tanta paz, que era claro que eu não desconfiava dele, o que poderia ser uma idiotice da minha parte. Não confie em rostinhos bonitos, Cody – minha mente me instruindo.
- Você me deixa confuso. – Respondi, retomando a caminhada. Mais duas quadras e eu já estaria em casa.
Ele me deixou na porta de casa, e se foi antes que eu pudesse dizer tchau ou obrigado. Desta vez eu cheguei no horário, e como sempre, as ordens pro escravo aqui, começaram.
- Cody!!! Vá pro quarto ajudar seu irmão. – Ok, eu estava com raiva aquele dia, tinha sido perseguido por um bando de babacas e podia ter sido estuprado pra tentar salvar a pele do meu irmão – tudo bem que fugi, mas isso não vem ao caso agora – me resignei, mirando-a.
- Eu estou exausto! Posso ao menos tomar um banho? – Ela me olhou de esguelha.
- Vá rápido! – Eu corri antes que ela mudasse de ideia.
Meu irmão estava com uma penca de trabalhos, e eu tive que ajudá-lo, ou fazê-los mesmo, praticamente sozinho. Eu estava cansado de ninguém perguntar como eu estava, se estava me sentindo bem, ou como fui na escola. – Cody? Eu estou falando COM VOCÊ! – Gritara minha mãe. Eu não me importei, passei pelas escadas e fui para meu quarto. E o caos se instalara naquele exato momento. Senti as mãos fortes da minha mãe, me agarrarem pelo braço, me empurrando a parede. – Você está SURDO? – Perguntara histérica.
- Não, mãe. Só estou CANSADO de ser capacho nessa casa! POXA! Vocês não me dão um segundo de paz! EU ESTOU CAN-SA-DO! – E eu senti minha cara arder. Ela me dera um tapa tão forte, que eu nem se quer previ que ela o faria, erro meu.
- Você é um ingrato! Eu devia ter abortado você! – Cara, aquilo foi forte pra mim.
- É... Devia mesmo. – Disse, me desvencilhando dela e saindo dali. É sério, eu saí literalmente, pela porta da frente, só levando meus documentos no bolso. Fui me tocar do que havia feito na quinta quadra da rua, quando um carro buzinou alto pra mim, mais uma vez eu havia atravessado sem olhar, até porque eu não estava vendo muito, de tanto que chorava. Caí em si, e me lembrei que eu não tinha pra onde ir. Não tinha amigos, e nem uma pessoa da qual eu podia contar. Eu estava sozinho, aliás, acho que sempre fui.
O vento frio batera, levantando meus cabelos, o que eu faria? Me perguntei, sentando no meio fio da rua. Não queria e acho que nem podia voltar pra casa. Eu tinha meu orgulho, se eu havia saído, não podia retornar com a maior cara lavada, até porque eu não estava mais a fim de levar coices naquela casa. Me encostei numa árvore. Devo ter adormecido, meu cansaço não havia cessado. Só voltei a si, com solavancos pesados de passadas fortes. Abri os olhos e vi a cidade no horizonte, as luzinhas da noite se estendo há quilômetros dali, devia estar bem longe de casa... Senti um cheiro doce e notei que estava sendo carregado nas costas de alguém. Meus olhos ardiam, e antes de tentar falar algo, acabei adormecendo novamente.
Mãos frias tocavam meu pulso esquerdo, mas um calor anormal circundava todo meu corpo. Abri os olhos lentamente, notando que eu não conseguia me mexer. Estava num local branco, sobre algo como uma cama, eu acho... Não conseguia mover a cabeça, ao menos naqueles segundos. Respirei fundo reuni forças, pensando “Desta vez eu vou ver onde estou!” Afinal eu já havia passado aquilo antes...
- Jess? – Ele segurava meu pulso com uma das mãos, a outra permanecia estendida sobre meu peito. Uma luz branda e dourada saía dela, se espalhando por todo meu corpo. E no momento em que eu disse seu nome, a luz cessou.
- Como você... Como conseguiu se mover?
- Espera aí! Sou eu quem faz as perguntas aqui! O que está acontecendo? O que foi isso que você acabou de fazer, e... onde eu estou? – Eu disse, e sem luz, pude me sentar na “cama”. Aquilo parecia um tábua de tão dura!
- Está na minha casa.
- E porque eu estou aqui?
- Porque eu te trouxe aqui.
- Tá, tá mas...? – Cara, eu estava tão confuso que nem sabia onde começar a perguntar, ou o que perguntar. Jess respirou fundo, sentando na cama ao meu lado.
- Isso que eu fiz foi pra tentar amenizar suas dores e... curar você.
- Me curar de que?
- Você está muito doente, Cody.
- Ahh, sério? – Perguntei sarcástico. – Eu estou me sentindo cansado há semanas! E de repente você aparece na minha escola! Eu tenho tido sonhos estranhos o tempo todo, e tudo que tenho feito é perder a memória e lapsos de tempo que nem se quer sei como ocorrem, e você me diz que estou doente? Você tem alguma coisa haver com isso, não tem?
- De certo modo... – Dissera ele, baixando o olhar.
- Quem é você? – Ele erguera os olhos, mirando os meus profundamente. Céus ele era muito bonito...!
- Alguém que está tentando cuidar de você. Olha, você... Você é diferente, Cody. E está doente porque não tem vivido muito bem...
- Eu não preciso que você me diga isso, eu sei!
- Ok... Você está com um quadro grave de anemia, está com falta de sono, tenso e estressado. Seu corpo está ruim porque responde a sua falta de alimentação decente e qualidade de vida.
- Se você soubesse a metade do que passo, também estaria na situação que eu estou. Não há “qualidade” de vida pra mim. Eu me visto mal, quase nem tenho roupas para frio, minha comida é contada e eu trabalho pra caramba, além de tudo eu... – Sério, eu estava a beira das lágrimas.
- Eu sei, eu sei... xiii – Ele se aproximou, me puxando para si. Não sei se foi a carência, cá entre nós eu nem sei o que é carinho, mas acabei me agarrando a ele, e chorei, molhando sua camisa azul clara. – Eu sei o que está passando, eu só... Queria que se lembrasse de mim, mas sei que isso não é possível agora... – Eu me afastei, mirando-o.
- Me lembrar de você? Mas você não me disse, quem é...
- Eu sou alguém que te conhece há muito tempo... Há mais tempo do que você imagina e eu... Eu fui contra você vir para cá, eu fui contra tudo isso, mas... Você era o único que poderia resolver certas coisas, então você veio e...
- Eu não estou entendendo nada do que você está dizendo!
- Eu sei que não está... Eu não posso falar tudo, eu... não posso por enquanto. – Ele me olhou com olhos de pesar. Parecia querer dizer mais, mas era claro que não podia, seja lá o que for que estivesse escondendo, ou omitindo. – Eu só quero que você entenda que eu estou aqui para ajudar você. Sou seu amigo, aliás... Sou muito mais do que isso, mas por hora, eu não me importo que não se lembre... É normal e eu compreendo. Eles sabiam que seria difícil pra mim, e é. Falar com você tendo em mente que não se lembra de mim... Ahh me desculpe! Eu não podia estar misturando as coisas, só estou te deixando confuso. Ver você chorar desse jeito, passando por tudo isso, eu... – Ele respirava fundo, e parecia ansioso.
- Calma, Jess. Eu estou bem, não estou confuso. – Eu disse. Ele levantou os olhos, me olhando. Parecia ter encontrado algo que procurava, pois sorriu lindamente pra mim, completamente aliviado.
- Você está aí... Ainda está aí. – Disse, me abraçando pela cintura. Por um segundo, eu me senti em casa, finalmente, em casa.

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